quarta-feira, 27 de abril de 2016

Amar um monstro


Não digas a ninguém que me amas. As pessoas não vão entender, como também eu não entendo. Não digas a ninguém que me amas.

Trago nas mãos. Nas mesmas mãos que demos e onde dedos se enlaçaram. Trago nelas o vazio. E o sabor salgado dos teus lábios, guardo-o nos recantos poeirentos dos meus, enxutos de paixão e de fé. A palavra amor ainda ecoa. Sórdida. Inesperada. Acidental. Falaste-me de amor.  Porquê? Não devias ter-me dito. Não devias ter dito a ninguém.

Tínhamos a aceitação. Tu fingias não ver o monstro sob a minha pele. Eu fingia que podia sentir de forma casual a partilha dos momentos. E era na aceitação que bebíamos a esperança de que amanhã pudéssemos ainda encontrar-nos pelas ruas e selar beijos escondidos da multidão. Traíste-me. Falaste de amor. E acabou. Porque não havia amor. Havia apenas ilusão e mentira. E um monstro, que era eu. E uma pessoa, que eras tu. Ninguém pode amar um monstro.

Amor. As tuas palavras despidas. Despidas até ao tutano da alma. Despojadas de tudo o que a palavra amor deve ter. E as minhas palavras. Iguais. Reais. Assustadoras. Não. Quem me dera que nunca tivéssemos falado de amor. Quem me dera que tivéssemos tido a força de saber que as regras fundamentais do mundo não podem ser quebradas, nem mesmo por nós.

Palavras. São só palavras. Mas as palavras são sempre algo mais. Não digas a ninguém que me amas. Dá às gentes o silêncio que, em vez de ti, hoje me beija. Não digas. Não digas a ninguém essas palavras. Não digas a ninguém que me amas.

No lugar de mim, está a dor. No lugar de ti, a ausência. No lugar de nós, o riso desvairado da multidão.  Não lhes digas. Não lhes digas que me amas. Que me amaste. Não fales de amor.

Desassossega-me o olhar furtivo lançado ao vidro fosco da parede da minha memória. Qual espelho, reflete-se nele a minha mágoa. Reflete-se nele a história. E é como se não existíssemos. Como se fossemos esse amor que anunciaste, de forma fortuita e vazia. Há somente pedras quebradas no chão da minha esperança. E a certeza de que nunca poderia ter acreditado num amor assim.

Não digas a ninguém que me amas. Faz do coração bandeira e do amor segredo. Não digas a ninguém que me amas. É melhor assim.

Amor. Palavra solta. Vazia. Usada para dar  ao sonho gasto a ilusão do que não é. Por que razão falarias de amor? O meu rosto desfigurado das lágrimas não despertaria sentidos em nenhum universo de compaixão. E, se sou indigna do amor de alguém, que razão louca poderia, alguma vez, fazer-me merecer o teu? Logo o teu, que és único no universo e, simultaneamente, o universo inteiro. Não mereço o teu amor. Não mo dediques. Mas, principalmente, se o sentires, não fales dele. Deixa-o amornecer num qualquer canto silencioso de ti.

Não digas a ninguém que me amas. Nem mesmo a mim. Nunca mais. Não o digas! Afinal... por que razão dirias? Não sou digna de amor. Não! Não digas a ninguém que me amas. O meu sorriso não é motivo que te valha a mentira. Guarda-a para ti. Incapaz de a esquecer, eu vou abraçá-la com carinho. Até dormir. Até morrer. Mas não digas a ninguém que me amas. Ninguém pode amar um monstro.

Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet

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terça-feira, 19 de abril de 2016

Retoques


A mulher entrou. E era lindíssima. Mas o mundo não a via.

Com uma voz temerosa, apresentou a decisão: "Quero abandonar o que é único e selvagem em mim... preciso de uma vida mais fácil".

Sorriram. Sorrisos de plástico. Todos iguais. Anuindo. Como os cachorrinhos de plástico nas bagageiras dos carros. Entusiasticamente. Disseram-lhe: "Apenas alguns retoques e será perfeita". Por um preço. Ela queria pagar o preço. A invisibilidade pesava-lhe nas costas como um tormento de muitas eras.

Retoques.

Começaram pelas roupas. Despiram-na. Mas não a despiram apenas de roupa. Tiraram-lhe a gordura das ancas, da barriga, das nádegas, das coxas. Sugaram-na por tubos e tubinhos. Encheram-lhe os lábios e os peitos. Atenuaram os traços das rugas junto aos olhos, junto aos lábios.
Esticaram-lhe a pele. Corrigiram-lhe a miopia. Partiram-lhe os óculos e deitaram-nos fora. Mas olhos negros como os dela ficavam pesados numa mulher. Puseram-lhe lentes. De cor. Azuis.

Retoques.

Levaram-na para uma sala. Pintaram-lhe o cabelo. Esticaram-lhe o cabelo. Amaciaram-lhe o cabelo. Hidrataram-lhe o cabelo. Desfrisaram-lhe o cabelo. Fizeram-lhe madeixas no cabelo. Estipularam o lugar onde devia surgir uma ocasional onda no cabelo. Domaram-lhe o cabelo.
Aproximaram os lasers. Livraram-se dos pelos. Que chatice, uma mulher ter pelos onde devia ter apenas pele. Não há espaço para pelos na perfeição. Fizeram-lhe o buço. E as axilas. E as pernas. E as virilhas. E as zonas intimas.

Retoques.

Pintaram-lhe a pele esticada. Com pré-bases e bases e pós bases e pós para depois das pós-bases. Pós soltos. Pós compactos. Pós do tom da pele. Pós bronzeadores. Blushes. E puseram-lhe pestanas falsas. Arrancaram metade das sobrancelhas. Pintaram as sobrancelhas. Pintaram as falhas por entre as sobrancelhas. Maquilharam-lhe os olhos, agora azuis: sombras sobrepostas, esfumadas, esbatidas, aperfeiçoadas. Eyeliner. Máscara de Pestanas.
E nos lábios. Batom. Vermelho carmim, feito dentro da linha perfeita - também vermelha - sobreposto com uma camada de brilho voluptuoso.

Retoques

Vestiram-na com roupa justa, adequada ao novo corpo, ao novo look, ao novo penteado, à nova maquilhagem.

"Já sou perfeita?", perguntou, olhando para si. E a resposta foi rápida: "Apenas mais um retoque e será".

Retoques.

Tiraram-lhe o cérebro. Silenciaram-lhe a voz. Programaram-na para anuir. Tornaram-na portadora do "sim" perpétuo, fosse qual fosse a pergunta. E, de olhos presos no infinito do espelho, ela soube que tinha conseguido.

O autómato saiu. Agora, era perfeito. O mundo aplaudiu.

Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet

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quarta-feira, 13 de abril de 2016

Espelho meu


Se não fosses tão bonita, encontrarias no caminho das flores os espinhos e, nas ruas da fidelidade, os contornos da dor pejados de crueza.
Se não fosses tão bonita: Em vez de sorrisos, pedras. Em vez de palavras, silêncios. E tropeços. E rasteiras. Pedaços reiterados de injustiça nos jardins da serenidade.
Se não fosses tão bonita. Mancharia a pele branca o negro da mácula e trarias sob o olhar a insónia tatuada das noites choradas.
Se não fosses tão bonita: solidão de fel na promessa de alguém. A pessoa que diz que vem e não chega. Aquela que chega e te rasga a fé. Aquela que vai e te rasga a alma. Pedaços de lâmina entre as pulsações, cortando o peito por dentro. Palavras de desagrado, mentidas, oleadas nas mãos secas da desumanidade.
Se não fosses tão bonita, olharias o horizonte para descobrir a parede de betão e concreto. Cada passo seria a luta de uma eternidade. Um avanço duro, esgotado de forças, esgotado de ti. E o sangue nas mãos que embatem contra o destino que se não move. Fumo em vez de nuvens. Penhascos em vez de céu.
Espelho meu, espelho meu. Se não fosses tão bonita. Nas tuas palavras de atrito. No teu pensamento interrogativo. Na tua forma de ver o mundo. Se não fosses tão bonita. Na brusquidão da tua sinceridade. No erguer do sobrolho da tua inquietude. Na profundeza da tua mente irrequieta. Nas tuas perguntas dispersas, que descentram os limites e incomodam as pessoas. Se não fosses tão bonita...
Amei-te a alma. Lá, no jardim dos espinhos. Por entre as pedras, e os silêncios, e os penhascos. Espelho meu, espelho meu. Um medo que atordoa. Um pensamento que mói. E plantei flores no jardim da mágoa, construí muralhas com as pedras do caminho, cantei canções nos silêncios ancorados do mundo. Dos penhascos fiz asas. Dos espinhos fiz armas. Não sabia que serias tão bonita.
Espelho meu, espelho meu. Pela beleza do teu rosto que te suaviza a rudeza das palavras. Pela leveza do teu corpo que emerge as noções do teu questionamento. Pela forma ténue dos movimentos que agradam mesmo aos pobres de espírito. Sou eternamente grata aos Deuses.
O mundo que embateu contra mim, embala-te. As pessoas que me pisaram, elevam-te. O mundo que me destruiu, coroa-te. Mas ainda és espelho de mim. Não te perdeste no embalo do mundo nem te iludiste com a realeza das vénias.
Se não fosses tão bonita... o mundo seria diferente se não fosses tão bonita. Mas tu não. Tu serias igual. E ainda terias as asas, e a música, e a muralha. Ainda terias um jardim de flores plantadas. E ainda me terias ao lado, empunhando as armas de espinhos. Chegarias ao horizonte. Nem que te levasse ao colo.
Espelho meu, espelho meu: se não fosses tão bonita, ainda serias o meu mundo.

Marina Ferraz


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quarta-feira, 6 de abril de 2016

A feira dos enganos


"Vendo verdades por 5 cêntimos. Preço por palavra." Era o que dizia o letreiro. Mesmo à frente da banca vazia. Mesmo à frente da rapariga de olhar realista e duro. De braços cruzados. Semblante firme, desencantado com a vida. Tinha ar de pessoa que conhecia o mundo. E, à sua frente, o letreiro. Um letreiro onde se lia: "vendo verdades por 5 cêntimos. Preço por palavra.".

Mas ninguém se aproximava dela. Embora fosse bonita. Se lhe dissessem que o era, provavelmente diria apenas que a beleza era um conceito inexistente, feito e formatado para integrar padrões irrealistas e fazer as pessoas gastar fortunas à procura do ideal  da perfeição. Ninguém lhe dizia que era bonita. Ninguém se aproximava dela ou da banca onde permanecia, vendendo verdades.

Quando começara a vender verdades, tinha vendido uma ou duas. Tinha vendido a alguns depressivos, presos em relacionamentos abusivos ou sem amor, a noção de que tinham duas pernas e desculpas demais. Tinha vendido a alguns famosos a ideia de que, no prazo de dez anos, ninguém saberia quem eram. Tinha vendido a algumas beatas a ideia de que não importava quantas promessas faziam e cumpriam, nem quantos Domingos passavam a murmurar orações na igreja, se a seguir tricotavam e vestiam nos becos das ruas alguns dos traços mais desprezíveis da humanidade.

Fizera poucas vendas. Todas repletas de qualidade. Mas poucas. E pouco importava a qualidade do produto que vendia. Ninguém gostava dele. A verdade estava para as palavras como os brócolos estavam para os legumes. Não importava quão bons fossem, a grande maioria das pessoas seria sempre, de alguma forma, intolerante a eles.

Ela continuava lá. De braços cruzados. Na feira. À espera do cliente que não vinha. E ela sabia que não vinha. Nem dizia a si própria outra coisa. Sabia que ia levantar-se da cama. Abrir a banca. Esperar pela hora do fecho. Sem uma venda. Nem uma sequer. Levantava-se apenas para colocar o letreiro e o retirar. O letreiro onde se lia: "vendo verdades por 5 cêntimos. Preço por palavra.".

A feira tinha a abertura e o fecho. A banca estava vazia. A feira enchia e esvaziava. A banca estava vazia. E, na banca vazia, ela estava cheia de verdades para dizer. Mas ninguém queria ouvi-las.

Ao seu lado, outra banca. A fila alongando-se por metros e metros. As pessoas expectantes. Mesmo ao pé da banca vazia, que ignoravam. Alinhavam-se, em filas mais ou menos coordenadas. Com risinhos e conversas fúteis. Aguardando pela vez. Ao lado da banca vazia da rapariga das verdades, estava a  mais popular da feira. Sempre cheia. Da abertura ao fecho. Também tinha um letreiro. O letreiro dizia "Vendo mentiras bonitas a  10 cêntimos por palavra.".

Marina Ferraz



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quarta-feira, 30 de março de 2016

Ainda te lembras?


Ainda te lembras? O dia em que o viste pela primeira vez. Aquele rosto de herói de telenovela, o semblante de artista de cinema. A forma como, ridiculamente, não conseguiste descolar os olhos dele. A maneira como ele te sorriu, devolvendo-te um olhar cheio de sonhos.
Ainda te lembras? Falaste dele à tua mãe, à tua irmã, às tuas amigas. E riste da ideia de que o destino te pudesse levar ao encontro dos braços dele. Mas ele levou. Não foi? Deste por ti a passear pelas ruas, perdida em conversas que te pareciam mundos. E desejaste, em silêncio, que ele te desse a mão. Não acreditavas que fosse acontecer. Mas aconteceu. Não foi?
Ainda te lembras? A passagem lenta, permeada de segundos que eram horas, da mão dada à partilha do beijo. Ali, mesmo em frente ao rio. Com as árvores de testemunhas e as nuvens apressadas para não choverem sobre o nascer do vosso amor.
Ai! Como o amavas, nesse tempo em que ele te era improvável e o improvável te acontecia. Amava-lo tanto que acordavas a sorrir. Cantavas pela casa. Espetavas beijos repenicados nas bochechas dos teus pais. Rodopiavas. Dançavas. Parecias tola. Sim! Parecias! Mas não eras... eras apenas alguém que estava a encontrar, nas dobras da folha da vida, os primeiros contornos do amor. E nascia, nesse valezinho da tua história, um pássaro que era o sonho. Deixaste-o voar pelo céu da tua esperança.  E ele voou mais alto do que podias sonhar.
Ainda te lembras? O dia em que ele te apareceu à porta, engolindo em seco, para te dar um ramo de rosas e conhecer os teus pais. A maneira como se sentou à mesa, por entre a paixão e o desconforto e anunciou que tinha, por ti, apenas sentimentos caros e boas intenções. A maneira como o teu pai lhe apertou a mão antes dele sair, resmungando entre dentes que nunca ninguém seria bom o suficiente para ti. A forma como, olhando os teus olhos, meios chorosos, acrescentou: "mas parece bom rapaz". E a resposta que lhe deste: "é, papá, é o melhor homem do mundo".
Ainda te lembras? O melhor homem do mundo levou-te ao topo da montanha, ajoelhou-se, estendeu-te o anel e implorou, mais do que pediu, para que fosses dele. Justificou: "não quero viver mais um dia sem ti. Quero morrer ao teu lado. Não há ninguém como tu!". E tu, que não acreditavas que fosses especial, aceitaste-lhe as palavras e o anel. Subiste com ele ao altar. Fizeste votos de amor perante a tua família, os teus amigos e o teu Deus. E desceste na alegria de trazeres outro nome e a promessa de outra vida.
Ainda te lembras? À medida que os anos passaram, ele deu-te o calor das manhãs de sol com um beijo e a dádiva de dois filhos. Esteve ao teu lado no nascimento dos dois, limpando-te o suor da testa e, desgrenhada e pálida, olhou para ti e disse-te que eras linda.
Não creio que te lembres. Ouço-te dizer que não queres voltar para casa. Que te cansa a presença dele. Que precisas de tirar férias do teu casamento. Mas olha bem: sentado no sofá, ainda que tenha todos os defeitos do mundo, está alguém que te deu os melhores momentos da tua vida, alguém que te quis, alguém que te apoiou... Ainda é o mesmo homem do rosto de herói de telenovela e semblante de estrela de cinema. Ainda é o mesmo homem que descreveste como "o melhor homem do mundo".
Talvez, na ilusão do tempo, te cansem os pormenores desengraçados do convívio diário. Talvez eles pareçam maiores do que os elogios que lhe teceste. Talvez te sintas traída pela forma como a paixão virou rotina. Mas lembra-te. Lembra-te dele. Lembra-te da forma como o teu coração batia na presença dele. Acima de tudo, imagina uma vida onde ele não esteja. E valoriza tudo o que terias perdido sem o amor.
Ainda te lembras? Os votos. "Vou amar-te para sempre." Faz isso! Ama o amor. Ama-o.  Ele ainda está aí.


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet

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terça-feira, 22 de março de 2016

Devias saber



Não é porque te deixei entrar novamente na minha vida que te dei o direito de vasculhares cada recanto de mim à procura do pedaço de poeira acumulado sob o qual o teu nome foi há muito tempo escondido. Já não te amo. Devias saber isso. Devias sabê-lo como quem sabe, no toque do despertador, que o sono vai perder a luta contra a necessidade de te ergueres para começar o dia. E devias sabê-lo porque foste tu que mataste o amor. Depois de o torturares até ao limite das suas capacidades. Depois de retirares dele todo o proveito que te foi possível. Foste tu  que o agarraste pela mão, que lhe cortaste o pulso, que o deixaste a sangrar na calçada dos teus anseios.

Deixo-te entrar novamente da minha vida. Mas não te deixo entrar para lembrares as paredes do tempo das ruínas. Deixo que entres para que vejas tudo o que foi limpo, arrumado, construído e recriado das cinzas. Deixo que entres para que compreendas que pertenço apenas a mim mesma e que, neste amor por mim, já criei de raiz muitas histórias e muitos quadros feitos a suor e sangue, onde não foste coautor e sobre os quais não tens qualquer direito.

Não é porque te deixo, agora, entrar novamente na minha vida, que quero que estendas o convite para a noção de que te quero no meu quarto, na minha cama, dentro de mim. Quero que percebas que o teu lugar já não é no meu centro mas tão só no lugar onde ficam aqueles que perderam já a chance de permanecer na linha da frente da descoberta de mim. Ou ficas nas bancadas, ou vais. Tanto faz! Mas não penses que podes cerrar caminho para chegar ao meu coração. Ergui, em seu redor, muralhas de descontentamento. Feitas para vedar - não o amor - mas a tua influência.

Deixo-te entrar novamente na minha vida. Mas não deixo que te deslumbres com os seus ouros e cristais a ponto de julgares que és também ouro fino ou cristal luzente. Não te minto: em tempos foste. No tempo em que as paredes eram negras. E as janelas estavam fechadas. E os meus pés estavam presos à falsa noção do que o amor nunca foi. Deixo-te entrar para que saibas que cresci e que o espaço do meu eu cresceu comigo. Deixo-te entrar para que entendas que o perdão que te estendo não é tecido nas linhas da amnésia. Sei, de cor, onde fica cada cicatriz... e sei como foi difícil fazer cicatriz da ferida que teimava em não sarar.

Não é porque te deixo, agora, entrar novamente na minha vida que quero que minimizes o tom do silêncio que veio entre o amor e o regresso da palavra. Aquele tempo no qual nada ouviste de mim... não... não estava a tentar esquecer-te! Estava a tentar sarar as feridas da tua presença. Esquecer-te não foi intenção. Foi consequência. Mas só então as feridas sararam. Só então os muros se ergueram. Só então fiz das sobras de mim consciência do tanto que eu podia ser. Claro: Foi pena. Cada ferida aberta. Cada queda no caminho. Foi pena. Mas da pena fiz asa e, com ela, voei.

Hoje sou mais. Tanto. Tanto mais do que deixaste. Tanto que sei que posso deixar-te, sem medos, entrar novamente na minha vida. Porque já não o és. Já não és a minha vida. És apenas uma pessoa que amei e me feriu. Porque sou maior do que era quando me julgava tua, tenho um espaço para ti. Mas ele é só do teu tamanho. Não tem o tamanho dos teus desejos, da tua loucura ou do teu ego. Nele, cabes apenas tu. E o que fazes desse espaço que te dou, é contigo. Podes valorizá-lo, apreciá-lo, ignorá-lo ou destruí-lo. Faças o que fizeres, preciso que saibas. Não podes destruir o resto... Não é porque te deixo, agora, entrar novamente na minha vida que fecho a porta à tua saída. Se quiseres ir, vai. Honestamente, não me importa que vás. Não me importa como vais. O que me importa é como eu fico. E, desta vez, fico de pé.

Marina Ferraz


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terça-feira, 15 de março de 2016

Os homens que (não) gostam de mulheres



Quando me falaram dele, disseram simplesmente: "ele não gosta de mulheres". Intercalaram com um risinho suave e todos os tons da falta de aceitação.

Ele entrou. Entrou a sorrir. Cumprimentou-as com educação e dois beijos repenicados no rosto. Gabou-lhes a beleza com a simplicidade de um "estão tão bonitas, esta noite.". Olhou para mim. Apresentou-se. Recebeu-me num abraço como se me conhecesse há séculos e, com ternura na voz, afirmou que gostava da minha maquilhagem. Tinha uma voz afeminada e que ficava estridente por entre o entusiasmo dos momentos.

Quis saber como ia a nossa vida. Dos nossos amores e desamores. Do nosso trabalho. Da nossa família. Nunca nos interrompeu. Ouviu. Deixou, em tom de conselho, algumas palavras de apoio. E, quando nos despedimos, esperou que todas estivéssemos na segurança do carro antes de partir.

Sobre as mulheres. Não as desejava! Não queria namorar com elas. Ria da ideia de um relacionamento com uma. Fazia um trejeito de angústia perante a ideia. E ria do trejeito como se ele não fizesse sentido.

Ele fez-me pensar. Fez-me pensar nos homens que gostam de mulheres. Naqueles que - tantas vezes - brincam com os sentimentos delas. Naqueles que ignoram as suas necessidades e pensamentos. Naqueles que abusam delas. Naqueles que as remetem para a dimensão das limpezas e da cozinha. Naqueles que as objectificam, usam e sexualizam. Naqueles que as agridem física e psicologicamente. Naqueles que as magoam e se gabam disso aos amigos como se de um feito se tratasse.

Destes, também conheci alguns. Apresentaram-mos como se fossem homens "com H grande", homens "a sério", bons partidos. Homens viris e de masculinidade inegável. Chamaram-lhes, implicitamente "homens que gostam de mulheres".
Mas quem gosta, respeita. Quem gosta, esforça-se. Quem gosta, repara. Quem gosta, ouve.

Aprendi a chamar as coisas pelo nome. Quando o apresento a alguém, se calha em conversa e porque sei que ele não se importa, digo que ele é homossexual. Nem ele nem eu temos medo das palavras. Mas, porque é verdade, digo-o assim: "este é o meu amigo - é gay - e, provavelmente, é um dos homens que mais gosta de mulheres!".

Marina Ferraz


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terça-feira, 8 de março de 2016

Noite ausente



A cama vazia. Vazia de ti, que não estás. Vazia de mim, que nela me deito. A solidão da cama vazia. A solidão do eu vazio. E o espaço deserto onde, de outra forma, noutro dia, talvez estivesse o teu corpo para preencher os nossos vazios.
Lágrimas nos olhos. Raiva, medo, dor. E os ouvidos atentos à cidade. O coração acelerado sempre que um carro pára ou hesita junto à nossa porta. Ainda é a nossa porta? Ou será agora só a minha? E se for, por entre o vazio, apenas uma porta, sem possessivo que a torne a entrada para um lar? Lágrimas nos olhos. Orações para que sejas tu. Orações para que não sejas. Não sei o que dizer. Não sei se quero ouvir-te. Sei que não quero este vazio de estrelas e lua nova.
A aflição. Vazia. Não saber onde estás. Não saber se estás bem. Não saber se ainda guardo o direito de querer saber. E a cama. Vazia. Eu. Vazia. O espaço deserto. A noite ausente que permeia todos os meus medos e os preenche nas razões descontroladas da falta de vontade. A memória que vai. Que vem. Assola. Atormenta. Não me deixa dormir. Não me deixa mexer. Perco-me de mim no vazio da cama . Os lençóis pesam como pedras. Amarram-me como cordas feitas de aço. Apertam-me o peito contra o colchão e sinto que a respiração me falha. "Antes falhasse o coração", penso para mim. E, por entre o choro compulsivo, sei que não são palavras ocas. A cama vazia. Eu, vazia. As palavra não. As palavras cheias de sentidos e vontades e significado. "Antes falhasse o coração.".
Percebo que o mundo me assusta. Mas a morte não. Percebo que as pessoas me assustam. Mas a morte não. E sinto que poderia despedir-me da vida e das pessoas, sem vislumbrar, sequer, o mais pequeno indício de medo. E lembro-me de ti. Como da morte. Talvez te tenha amado por isso mesmo. Porque não me assustava a ideia de te amar, embora me assustasse a ideia do amor.
Raiva. Medo. Superstição tonta e desajustada que me impede de fechar os olhos e dizer "até amanhã" à dor. E os carros que passam e param lá fora, sem que se abra a porta fechada, batida, iluminada pela luz das estrelas que não querem saber de nós. "Antes falhasse o coração", repito para mim, enquanto sinto, no peito, doer a respiração doentia. E imagino que ele falha e tu regressas. Penso na justiça do mundo que te faria sofrer mais do que eu. E percebo que, embora não tenha medo de morrer, tenho medo da morte. Dos efeitos da morte. Da justiça sempre injusta deste mundo que não faz mais do que intercalar a dor e o sofrimento de um peito para o outro, sem nunca a deixar desvanecer.
"Volta", penso para mim. Vazia. "Volta a entrar pela porta e diz que é a nossa porta. Volta a deitar-te na cama e diz que é a nossa cama. Volta a dizer que me amas e que é o nosso amor." A noite ausente vai passando. A cama vazia. Vazia de ti, que não estás. Vazia de mim, que nela me deito. Vazia de tudo. E desenrolam-se pensamentos pouco nítidos na prisão dos lençóis que não sabem que, independentemente do que façam, eu não me deixarei dormir enquanto não te ouvir chegar.
A aflição. Vazia. É por entre a aflição vazia que a porta se abre. É por entre o seu vazio que ela se fecha atrás de ti. Tens muitas coisas para dizer. E eu ouço. Mas não digo nada. Afasto os lençóis. Liberto-me da sua prisão. Encosto-me a ti. O teu cheiro. O teu calor. E ouço-te falar das falhas do eu. Das falhas do nós. Falhámos em cada passo. Prevês que vamos falhar de novo e de novo, até não haver outra coisa que não a falha. "Antes falhasse o coração", penso para mim. Mas não o digo. Perdoas-me. Perdoo-te. A esperança que escasseia é melhor do que o vazio.
A cama completa. Quente de ti, que chegaste. Feliz de mim, que me deito no teu aconchego. E o espaço perfeito onde o teu corpo permanece e preenche os nossos vazios. Outra vez. Até voltarmos a falhar. E a oração, breve e cheia de sentidos: "antes falhe o coração".

Marina Ferraz


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terça-feira, 1 de março de 2016

Requerimento



Venho, por este meio, pedir autorização para ser eu própria.

Declaro que li os termos regulamentados pela sociedade e que conheço, de cor, as alíneas formatadas que definem os padrões desejáveis para uma correcta inserção e integração na amálgama semi-homogénea das gentes que permeiam as ruas. Não assino nem subscrevo. Mas declaro que li e compreendo a normativa, juntamente com todas as suas variantes, interpretações e lacunas. A lacuna é, claro, a palavra vaga (e, acredito eu, vazia) liberdade. É uma liberdade relativa e integrada nos termos. Tão integrada nos termos que exclui facilmente raças, ideologias, religiões, tons de pele, estilos de corpo, estilos de roupa, tipos de beleza, opções sexuais e outros. Apodero-me, aqui, da lacuna e reclamo o meu direito à liberdade de pedir, ainda que sabendo as consequências inerentes ao requerido, para que me permitam viver a vida sendo simplesmente quem sou.

Na ausência de argumentos que se enquadrem nas regras estipuladas, tentarei simplesmente explanar as razões que me fazem desejar, numa primeira instância, e solicitar, numa segunda, a emancipação social.
Primeiramente, acontece que, tendo passado grande parte da minha vida tentando responder de forma equilibrada e respeitadora às regras, compreendi que, independentemente do esforço empenhado na tarefa, esta não parece surtir resultados. Apesar das muitas estratégias desenvolvidas e postas em prática, nunca, em nenhum dos meios que frequentei, obtive das pessoas um olhar que não remetesse para a diferença óbvia entre o que elas eram e o que eu parecia ser. Partindo do estimulo inevitável - eu a ser eu - chegava a resposta, naqueles olhares, com variantes estabelecidas entre o nojo, o ódio, a incompreensão, a comiseração e a semi-aceitação. Os olhares resultavam em atitudes. As atitudes despoletavam a distância. O meu lugar foi construído, portanto, a muitas mãos, todas elas selando, pedra a pedra, a muralha que cercou o meu espaço seguro, no qual, pelas referidas razões, não existe vivalma além de mim.

Em segundo lugar, como percebi ao longo da minha permanência no isolamento voluntário exercido, as normas estipuladas e sob as quais quase todas as pessoas assinam tendem a criar, nos indivíduos, uma visão redutora e complacente, cheia de opiniões-cliché e vazia de espírito crítico. Por exemplo: toda a gente sabe que existe um universo sem fim mas todos vivem como se não houvesse mundo além deles próprios. A maioria das pessoas tem uma religião, a mesma maioria não sabe explicar a própria crença. As pessoas têm necessidades desnecessárias e desprezo por necessidades básicas. Como estas, outras. Na minha solitária prisão anti-social descobri que, na maioria dos temas, tenho mais perguntas do que respostas. As perguntas incomodam as outras pessoas. Roubam-lhes a paz. A liberdade, talvez. As perguntas fazem de mim criminosa nos termos regulamentados.

Por fim, a arte. A arte que me fez monstro. A arte que me fez bicho. A arte que confirmou, aos olhos etéreos da sociedade, que a loucura flamejante dos meus olhos tinha razão de ser. Reclamo o direito de qualquer artista viver a sua liberdade, longe das normas contratuais aplicáveis aos restantes indivíduos de uma sociedade. Reclamo-o porque, no estatuto inferior que ocupam; na camada decadente para a qual são varridos, são os artistas que se erguem para mostrar o que as pessoas não sabem, o que não vêem, o que não ouvem. São eles que carregam a história, navegando em mares de preconceito, levando de porto em porto a ilusão de um mundo melhor.

Não são argumentos que se enquadrem nas normas estipuladas pelo regulamento que molda a sociedade e a torna coesa, habitável, estável e, supostamente, perfeita. Mas são os únicos argumentos possíveis no centro da liberdade idealizada que, infelizmente, não saiu do papel.

Declaro que li e compreendo os termos e as condições inerentes à vida no centro deste mundinho no qual não sei se quero estar. Não assino. Não antes de me roubaram a vontade. E a sanidade. E a alma. E a vida. Em nome da liberdade.

Venho, por este meio, pedir autorização para ser eu própria. Mas declaro que o serei... com ou sem autorização.


Marina Ferraz

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terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Verbo


Fiz da minha vida um alinhavo de palavras. Do meu quotidiano, um nome comum, onde os colectivos se ocultaram, na sombra de cidades e de pessoas cujo nome próprio se esbateu ou se fincou, em mil memórias e mil esquecimentos. Fiz da minha vida um alinhavo de palavras que se estende em frases e em textos e em romances.
No mundo gramatical da minha vida, não és virgula nem ponto final. Não te coloco nas frases dos meus dias como se pudesses pontuá-las. Não faço de ti "ous", nem "ses", nem "porques". Não te deixo servir de conjunção, unindo pontos sem emenda. Não faço de ti adjectivo para avaliar os contratempos e a felicidade, para descrever isto ou aquilo. Não és determinante nem pronome. Não há nada de definido ou indefinido em ti. Quando se trata de ti, não há possessivos, nem demonstrativos, nem numerais. Então, na gramática de mim, não poderias ser nada disto. E, não podendo ser nada disto, no mundo gramatical da minha vida, tens conjugações e tempos. És o verbo das frases insensatas da minha vida.
Consigo conjugar-te com facilidade. Vens no presente do indicativo dos verbos "sentir", "adorar", "querer". Vens no futuro do verbo "fixar", "continuar", "seguir", "permanecer". E deixas no pretérito perfeito os verbos "sofrer", "chorar"; os verbos "desistir" e "perder", os verbos que me acompanhavam num presente de desilusões que não existem contigo. És o condicional do verbo "ser" porque sempre me perguntei como seria encontrar alguém que me conjugasse no pretérito imperfeito para me dizer "era por ti que esperava".
És o verbo do mundo gramatical sobre o qual construo a vida. Às vezes és o "ser", o "estar"... pareces, permaneces, continuas. Pedes-me os advérbios de modo, desconstróis-me a ideologia de que  seja necessário pensar em complementos circunstanciais. Mas, circunstancialmente, arrancas-me os sentidos, vais buscar tempos compostos ou conjugas-te nos modos do conjuntivo.
No mundo gramatical da minha vida, não és virgula nem ponto final. Não és conjunção, nem adjectivo. Não és determinante nem pronome. Não o és porque não és o que se soma aos sentidos na busca de um sentido maior, melhor. Não és o que completa a frase. Não és o que a aumenta. És tão somente a base sobre a qual ela se constrói. A acção, o intento, a eternidade.
No mundo gramatical da minha vida és o que pode ser conjugado e vivido. Não poderias ser outra coisa. Porque estás em cada parte de mim. Porque me dás sentido. E, da mesma forma que não haveria vida sem ti, também não há frases sem verbo.

Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet


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