terça-feira, 27 de março de 2018

Não, não e não



Inesperada. Chega. Uma onda de tudo. Rompendo as entranhas. Rasgando por dentro a carne e a alma. Fazendo azias sucessivas pelo sistema digestivo. E pela espinha. Queimando. Até chegar ao nariz. Como um indício. De choro.
Olhos fixos no anteontem. E fios de cabelo a prenderem-me, feito âncora, à realidade. Ferrando as unhas nas mãos. Frias. Lívidas. Não, não e não. Da inércia ao pulo. Correndo. Até chegar. E olhar. Nos meus olhos. Bem dentro dos meus olhos. Em frente ao reflexo. Que ameaça sucumbir. Não, não e não.
A menina desobediente do espelho encolhe os ombros. E eu olho para ela. Franzo o sobrolho. Deixo que desfeie a testa enrugada das expressões. Repito a palavra. Não. E ela não faz muito caso de mim. Mas também não deixa que o picante desassossegado das emoções seja mais forte do que as minhas ordens.
A onda mantém-se. Em banho-maria. E eu olho para ela. E ela olha para mim. E fazemos um ar cínico e despojado de regras uma à outra. Podíamos matar-nos ali mesmo. Sem compaixão. Sem remorso. Sem que ficassem penas a ondear em nosso redor. Em vez disso, olhamos uma para a outra. E fingimos que não vamos chorar. Dizemos não.
O ardor chega ao peito. Vibra na ponta arrepiada do nariz. E quer fazer-se dor. Tolhe-nos os sentidos desalentados e descontentes. Faz com que brilhem pequenos sóis de chuva no canto dos olhos amendoados. Não, não e não.
Ela resvala. Fraca. E os olhos são água. Mas a água não verte. Eu levanto o indicador, espeto-lho mesmo em frente ao rosto. Tu nem te atrevas! E ela, que sou eu, tem medo de mim. E saber que tem medo de mim também lhe dá vontade de chorar. A tristeza é grande. E a maior é essa.
Sufoco. Não, não e não. Mas engulo as lágrimas. O nariz arde. O peito arde. Tudo arde. E tenho frio. Forço um sorriso. E ela devolve-o.
- Não o sentes, pois não?
Ela abana a cabeça.
- Eu também não.




*Imagem retirada da Internet
Fotógrafo: Paul Apal'kin


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quarta-feira, 21 de março de 2018

A cor das minhas paredes




Às vezes, o teu vazio pinta-me as paredes. E, ainda que me não chovam os olhos, é como se houvesse invernos e grades em meu redor. Prendem-me a mim mesma e fazem-me perceber bem as razões pelas quais não estás. Por um segundo, eu também quero ir. Não sinto que sou um bom lugar para edificar amanhãs.
A cor das minhas paredes é o teu cheiro. Lavado com lixívia e detergente. Esfregado com panos e unhas. Mas impregnado. Imutável. Na memória sensorial que te torna eterno nos meus segundos de desespero.
Digo que não te amo. Assim. Simples. Não te amo. Grito. Em silêncio. O grito mais desenfreado de todos. E o mais pacato. Ninguém o ouve. Queima a ferros na pele. E dói. Mas não deixa marca. Tal e qual como esse passado que se finge que já foi. E nunca passa.
Sou filha do mar e das descobertas que um povo nele fez. Tenho sal na pele e especiarias na língua. Tento fazer o meu fado. Fiel. Mas a verdade é que, na pele, eu queria as tuas mãos. Na língua, eu queria a dança dos nossos beijos. E este país fadista é hoje todo saudade e mortos a boiar nas águas negras ao largo do Cabo das Tormentas.
Amas-me?
Faço a pergunta ao vazio das paredes. E as paredes desonram o passado. Dizem-me que pare. Que seque as perguntas como sequei os olhos. Que te deixe ser feliz. Que me esqueça de perguntar. Tudo. Isso. Também isso. Se me amas. E calo-me. Obedeço. Percebo que pouco mais tenho feito além de obedecer. O mundo é todo meu dono. E eu sou escrava dessas vontades que me não são. Vergo-me às chibatadas do tempo. E dou as costas, feitas de asas. Para que me arranquem as penas. Essas que consomem o espírito.
Eu sou muitas coisas. Eu não sou ninguém. E hoje sinto.
Pouco há no chão além de pedras. E corpos que apodrecem. Invejo, de ambos, a sorte da inércia. Invejo-lhes o sono pesado. E a forma como não vêem o vazio que hoje me pinta as paredes.






*Imagem retirada da Internet


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quarta-feira, 14 de março de 2018

Leva tudo




“Conservar algo que possa recordar-te seria admitir que eu pudesse esquecer-te.” (William Shakespeare)

Não preciso de nada teu. Não quero nada teu. Leva, por favor, cada um dos teus pedaços. Deixa só os meus, ainda que me sobrem salas vazias e pó. Não quero nada. Leva tudo contigo.
Não quero olhares complacentes nem penas atiradas ao ar. Nem mesmo nuances gastas entoando o tanto que te dei. Porque a vida não é sobre as coisas que são dadas. É sobre aquelas que se roubam, apesar do muito oferecido, numa ganância sentimental que só culmina no exagero do vazio.
Se vais procurar um espaço mais cheio, onde caibas, inteiro, acho que deves ir. Mas, por favor, não me deixes os monos da tua passagem. Não me deixes nada que possa lembrar-me das noites de riso, dos corpos dançando sem som, ao ritmo de um amor eterno que, afinal, tinha prazo de validade.
Não preciso de nada teu. Não quero nada teu. Leva tudo contigo.
Já basta que se tenha agarrado às paredes a memória do que ninguém sabe. Das melhores sensações, às discussões mais abruptas. Onde tanto foi feito, onde tanto foi dito. Basta que se tenha agarrado às minhas paredes o rancor e a solidão, entre os quais vou viver, tentando construir com o tempo algo de mais firme e mais meu. Não quero as tuas mesas nem os teus filmes, nem as tuas bugigangas. Não quero o teu sofá nem as tuas toalhas. Nem as tuas chávenas, nem as tuas velas. Hei-de encontrar outra forma de alumiar as noites frias. Hei-de encontrar outra forma de as aquecer.
Leva tudo contigo. Deixa-me, por favor, prateleiras sem nada, gavetas vazias e divisões onde o eco preenche espaços desalentados. E, de resto leva tudo. Por favor. O que já tinhas. O que compraste. As coisas que te dei. Principalmente essas. Leva-as. Se não as quiseres, podes deitá-las fora. Queimá-las. Mas leva-as. E, com elas, também este inútil coração – que não é mais do que cacos, outra vez. Leva-o, porque to dei e não o quero mais. Nunca mais. Queima-o com os livros e os poemas. Queima-o com os elefantes e as garrafas. Queima-o. Outra vez.
Não preciso de nada teu. Não quero nada teu. Leva, por favor, cada um dos teus pedaços. Deixa só os meus, ainda que me sobrem salas vazias e pó. Não quero nada. Leva tudo contigo.
Já basta que o chão tenha os teus passos. E que o teu cheiro seja uma memória de manhãs de sol. Já me basta sentir-te os beijos no café e o toque no cair da água sobre o corpo despido. Já me basta recordar-te os pedidos dos dias quentes. Não quero que te fiquem as memórias rasteiras, feito hera, a proliferar nas minhas paredes, nas minhas gavetas, na minha esperança. Leva. Leva também a esperança. Leva tudo contigo.
Com o vazio, reaprenderei a lição. Perceberei novamente a sina de se ser monstro, entre humanos. Espelho eterno do que nunca se sabe. E estarei mais próxima do que me fez ser eu, antes de me roubares de mim, para me prometeres algo que, afinal, não podias dar-me. Ou que podias… e eu não deixei. Ou que deixei… mas não conseguiste. Deixa-me reaprender, dando as mãos à solidão que, antes de ti, sempre me assinou os livros de visita.
Não preciso de nada teu. Não quero nada teu. Leva, por favor, cada um dos teus pedaços. Não os deixes aqui, a fazer-me lembrar do que podia ter sido e não foi. Leva tudo contigo. Para eu me esquecer. Para eu fingir que me vou esquecer. Como se pudesse esquecer… logo eu, que sei de cor cada detalhe de ti.






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terça-feira, 6 de março de 2018

Overdose




A dualidade da vida é, talvez, um pouco mais simples do que as linhas pardas com as quais tentam pintá-la. Pisando as pedras do chão, em desenhos brancos e negros, sinto-me criança outra vez. Saltando, de desenho em desenho. “E quem pisar as brancas, morre.”.
“A miúda vai cair”.
Ainda soam as palavras. De alguém. Que, indo atrás de mim ou à minha frente, não saltava as pedras. Morria. Nas brancas. Sem arriscar os saltos. Julgando-me, talvez, infantil e idiota por insistir numa brincadeira de quilómetros. E julgando sempre que acabaria ferida, de rojo no chão, com os joelhos esfolados. Por não andar. De uma forma normal. Como os outros.
Mas andar como os outros sempre me pareceu pouco. Porque os passos que dão são sisudos e fechados em si mesmos. Não contam. Assentam-se no desejo do destino. E a meta é só lá à frente. Por vezes nem chega. Anda, também em passos “normais”, ao mesmo ritmo daqueles que acham que o caminho importa pouco.
A dualidade da vida é bastante simples: molda-se entre a falta e o excesso. E nas críticas daqueles que têm falta sobre aqueles que têm excesso. E nas críticas daqueles que têm excesso sobre aqueles que têm falta. E todos somos falta e excesso. Uns mais. Uns menos. Uns numas coisas. Outros noutras. Somos todos dualidade, embora nem todos sejamos vida.
Àqueles a quem falta o desejo de imaginar fossos no sítio das pedras brancas, falta geralmente visão sobre o que acontece no mundo e fora de si mesmos. E falta-lhes motivação para acordar. Razões para sorrir. Esperança num universo mais justo. Falta-lhes um sorriso que se dê, vadio, nas mesmas ruas onde caminham. Falta-lhes a loucura da decisão inesperada e do “é agora ou nunca”. Falta-lhes a capacidade de esquecer o risco que se prende à ação. Falta-lhes a vida que devia haver entre o berço e a sepultura.
Salto. De um desenho para o outro. Entre um desenho e o outro há pedras brancas. Mas imagino falésias que levam ao nada. E rodopio sobre as pedras escuras, dançando o jogo da ilusão. Tenho, talvez, excessos. De imaginação e sonhos e ilusões. Tardias e cândidas, fazendo de mim criança mesmo quando os anos passam. Tenho excesso da menina que fui. Excesso dos seus cabelos encaracolados e da sua timidez morta em cânticos à lua pelas ruas da cidade. Excesso de palavras presas, que criam mundos na minha cabeça, meio loucos, meio díspares, todos feitos de uma alucinação presente.
E sei que vou morrer. Tenho excesso desta certeza. E, talvez porque a tenho, em excesso, não me assusta a ideia da morte. É apenas pisar as pedras brancas do caminho. E a meta é essa.
Não tenho medo da morte, nem dos excessos. Sinto que posso viver nessa overdose de sentimentos e sonhos, de forma segura e eterna. Serei sempre princesa no meu tempo que não envelhece, de asas fechadas sobre as costas onde nascem luas e elementos feitos a tinta. Salto.
Quem pisar as brancas morre. Toda a gente morre. Mas alguns morrem de falta. Pisando as pedras brancas.
Eu não. Eu piso as pretas. Vou. Vou de excessos e rumo aos excessos. Também vou morrer. Quero morrer. A eternidade assusta-me. Mas, quando morrer, quero que seja de overdose de vida.



Marina Ferraz


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quinta-feira, 1 de março de 2018

Abertura fácil



Sobre a minha cama existe um tecto. E, em cima dele, mora alguém que lhe chama chão. Amontoados nas prateleiras mais ou menos organizadas do mundo. Falando sobre andar lado a lado, à medida que nos empilham, até estarmos todos uns em cima dos outros e promovendo dietas saudáveis para verem se ocupamos menos espaço. É assim que vamos. Porque é mais fácil. Dizem.
O chão da vizinha, que é o meu teto, não prima pela espessura concreta do isolamento. E, por isso, sei quando o bebé chora e a forma como o choro do bebé se abafa com o ligar do aspirador ou de um qualquer canal de televisão no volume máximo; atirando palavras que misturam o cansaço do dia e a irritação noturna. Iniciam-se discussões que duram até ao bater da porta. Não sou eu, és tu que és difícil. Ele acha-se fácil. E diz isso.
Fugindo dos sons, os passos caminham pelo espaço limítrofe das calhas da porta, fechando com cautela a dita, para que, batendo, não acorde o bebé que se embalou nos gritos maternos. E encontra-se o toque, mais ou menos feito de gelo, de um vento que, vindo de Norte, traz consigo Invernos, seja em que estação for. E respira-se geada amanhecida. Continuadamente empoada, pelos traços nocivos de um fumo que desaparece. Perfume de asfalto alcatroado e de borracha queimada. E um toque putrefacto proveniente dos contentores que medeiam as prateleiras de gente da cidade. E o carro que virá, pela madrugada, com o som meio soprado e contínuo que lhe é caraterístico. A vida torna-se, assim, mais fácil. Digo eu.
Não há estrelas cadentes no céu. Mas fico à espera de ver passar lixo galático e universal, formando um risco ilusório no céu para pedir desejos. Também dos desejos o dizem. Que são fáceis. E são. Na sua utópica fantasia, onde tantos passados se enterraram, os desejos têm a facilidade da não concretização agarrada aos seus tornozelos oníricos. E é fácil. Ou é o que dizem.
No sol nascente, existe o cinzento colorido a fogo que traz uma esperança renovada. Para quem dormiu. Eu não. Mas, para quem dormiu. Para quem tem a sorte de tetos mais espessos ou chãos menos permeáveis. Para esses, ele é a renovação da esperança, e tem possibilidades à espera, na hora da tigela de cereais com leite. Essa que se corta, com faca ou tesoura, no local onde permanece a indicação de abertura fácil. É o que diz. Fácil. Mas já alguém abriu um pacote de leite pela abertura fácil, sem recorrer a objetos cortantes e três graus de impaciência?
Entro. Na minha prateleira. Para comer os meus cereais saudáveis. E cumprir os desígnios. Os de ocupar menos espaço no mundo. Enfezando-me e empilhando-me junto aos outros seres enfezados e empilhados. Dizem que é difícil escrever. Eu não concordo. Acho que é difícil calar os pensamentos. Esses que nascem, aos poucos, talvez entranhados de palavras ocas e cheiros nauseabundos. Dizem que é difícil pensar. Não é. É fácil. Como a abertura pré-estabelecida de um qualquer pacote de leite.



Marina Ferraz


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quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Idalina



Ela não era o tipo de mulher que ficava para a História. Sobre ela, creio, não se escreveram contos, nem romances. Não existe, tão pouco, uma epígrafe de pedra, qual lápide sepultando os ossos idos, que relembram, hoje em silêncio, o tempo de um corpo farto de amor e vida. Ela não era o tipo de mulher que ficava para a História e nunca fez por sê-lo. Caiu em desuso o seu nome e a sua identidade perdeu-se. Chegou-me só. Numa espécie de fumo aromatizado a saudade. Sem corpo. Apenas voz. Contada, com apontamentos dúbios de veracidade, que se estendiam, ressoando, na memória… “Oh Lina, Lina… a Guarda é feia”.
Ela não era o tipo de mulher que se importava com a ideia de não ficar para a História. Mas não gostava de ouvir dizer que a terra onde cresceu era feia. E, senhora do lar, cândida e devotada à família, ela que nunca se enervava, logo via a mostarda subir-lhe ao nariz. Feia é a Covilhã! E iniciava-se uma espécie de debate, de proporções mornas, que terminava com a única noção que Idalina conhecia. A do amor.
Ela não era o tipo de mulher que ficava para a História. A sua pele pálida, quase translúcida, de uma tez modelada pelo remoinho do cabelo revolto, no lado direito da nuca e o sorriso que demarcava as rugas junto aos olhos amendoados, estavam destinadas a permanecer nas fotografias a preto e branco, onde morreria pela segunda vez, desconhecida nos olhos amargos das pessoas que não sabem quem ela é.
Ancorada num tempo em que a sola do chinelo era um instrumento educacional tão útil quanto a tinta de escrever ou o livro de leitura, ela aprendera a imprimir as normas com exímia sapiência e criara cinco filhos. Dois filhos e três filhas. Que viriam todos a honrar-lhe a memória do nome que esmorecia. Nos dizeres mais simples. Nas memórias mais firmes. Como os beijos do chinelo. De onde “só se perderam as que caíram no chão”.
A História não fala de mulheres como Idalina. Nem da forma como cuidava garantir o bem-estar dos seus e dos outros. Nem da forma como tinha braços que acolhiam António, depois de ausências e em períodos de faltas. Nem da forma como, temente a Deus, imprimia nas crias os valores da bondade e da benevolência. Dela, só falavam os filhos. Primeiro os cinco. Depois quatro. Depois três. Agora dois…
Falou-me, um deles, da Idalina. Mulher forte, que em tempo de guerra fazia milagres na cozinha, servindo pratos de quase nada, sem reclamar e com uma oração nos lábios. Mulher que, aquecendo a família ao redor de uma salamandra, tecia com meias sorrisos inteiros em rostos de meninos. Mulher que dava, sem pedir. Mulher que pedia para poder dar mais. “E se ela não está no céu, mais ninguém está”.
Idalina. É este o nome. De uma mulher que não ficou para a História mas que conquistou – ou assim se espera – um lugar no céu, pela forma como levou a vida.
Ela não era o tipo de mulher que ficava para a História. Mas é o tipo de mulher que deixa um legado. Em mim, deixou dois olhos amendoados e um remoinho no cabelo revolto, do lado direito da nuca. E esta história. Que não vai ficar para a História. Mas vai ficar aqui. Enquanto eu aqui estiver.



Marina Ferraz



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terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Armas




Algumas pessoas nascem com armas. Outras aprendem a construí-las. Há ainda aquelas que, de tão fascinadas pelos mundos da guerra, se dedicam a procurá-las, cavando com os dedos na pele alheia, em busca dos artifícios que lhes preencham os arsenais. Têm as mãos levemente ensanguentadas. E sorrisos nos rostos. Matar dá-lhes um prazer que preenche mais do que qualquer refeição e sacia mais do que qualquer bebida divina. Matar é ser-se imortal. Por alguns segundos. Antes de voltar a sede. E a fome. Pela carne e o sangue e os ossos espalhados sobre a arena da vida.

Há uma guerra aberta em cada conversa. E em cada gesto. E em cada sussurro de ponteiro de relógio. Disparam-se as armas. As que se trazem, as que se fazem, as que se procuram. E todos são culpados desse desejo, mais ou menos patente, mais ou menos abstruso, pela carnificina que se faz ao outro. Contando que todos saiam a andar. Inteiros. Com duas pernas e dois braços. Olhos rodando nas órbitas. Passos coxos apenas de insistir nos saltos. E orelhas moucas como a moda dita. Basta que saiam todos a andar. Ninguém repara. Nos bocados espalhados pelo chão, não tão diferentes dos restos de carnes na tábua do talho. Porque são bocados de alma. E a alma sangra uma seiva invisível. Algo amarga mas sem cheiro. E não deixa no ar a noção da morte que caminha. Com passos coxos e orelhas moucas.

Foram os meus passos e as minhas orelhas. Muitas vezes. E a minha alma. Mas isso ninguém sabe, porque não se vê. Das armas que usaram contra mim, sempre esperei inovadoras tramas e princípios. E não me desiludiram nunca as mãos e as bocas e os olhos que as disparavam. Lançando balas de sopro, onde desprezo, ódio, arrogância, insensatez, mentira, despeito, rancor e maldade se uniam num metal muito fino. Dilacerante. Que acertava em cheio. Dentro. Deixando-me caídos os bocados meio mastigados da carne da alma. Pelo chão. Enquanto eu ia.

Durante toda a vida, a única arma que eu alguma vez tive foi a minha escrita. E as palavras, que eram as balas. E as folhas que eram campos. E as linhas, que eram guias. E as margens, que eram regras. Mas arma? Arma, só tive uma. Essa. A escrita.

Escrevi. Cada texto era uma recolha, de joelhos no solo, apanhando os pedaços da minha alma e juntando-lhe as peças, feito quebra-cabeças. Nunca lhe prometi que voltasse a ser una. Tentei sempre que fosse bonita.

Mas quando a alma dói. Quando olha ao espelho e não se reconhece. Ela própria pega nas armas. Na arma. Na escrita. E diz. Diz o que deve. Diz o que não deve. Diz o que quer. Odeia toda a gente. Diz que odeia. Mas depois ora pela humanidade como se a amasse. E torna-se bipolar de ideias e pensamentos dispersos. Tudo é cinza. Tudo é cor. Tudo dói. E fazemos um gesto de carinho, de mão passada com leveza, palma sobre pele, nesse irregular segredo de cicatrizes invisíveis e dores indizíveis.

Aprendemos a ser fortes assim. Amando. Até o que nos derruba. Até o que nos quebra. Por vezes, mais o que nos abala e destrói. Numa loucura que só não é louca porque se diz amor.

A única arma que eu alguma vez tive foi a minha escrita. Não é uma arma que sirva propósitos maiores, salvo se alguém ler. Mas, por uma vez ou duas, venci batalhas inesperadas, onde a chance era de um contra um milhão.

Se vale a pena? Não vale! Mas cada um luta com o que tem. Eu tenho isto. Terei sempre isto. E joelhos que se dobrem para me ajoelhar. E mãos que recolham os pedaços quebrados de mim. Quando as armas dos outros forem mais fortes que as minhas. Ou quando – por amor – eu não quiser revidar.



Marina Ferraz


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quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Quem é esse monstro




Perguntaram-me. Quem é o monstro? Uma resposta imediata. O monstro sou eu. Mas quem é esse monstro que tu és? Desassossegada, uma mente que nunca dorme, mergulhou no negrume de si. Quem é? Esse monstro que eu sou?
Plural, incompreendido, senhor de um nariz que é seu. Com muito para dizer, com muito para ouvir, com muito pouca vontade de dizê-lo e ainda menos de ouvi-lo. De extremos. De obsessões. De desejos. Vibrantes e lascivos. Ou inconsequentes. De falácias. De medos. De supostas coragens desarticuladas, que anulam o medo como se não existisse. Pisado. Dorido. Cheio de cicatrizes de suposta quebra e com um sabor metálico nos lábios eternamente cerrados porque falar se faz com as pontas dos dedos.
Tudo isto e mais. Mas quem? Quem é? Quem é esse monstro que eu sou?
Atormentado, feito de sonhos e panteísta. Eternamente devotado aos Deuses. Num plural que se faz vento suspirado. Do contra. A favor. Com um lugar de fala que abomina e ao qual se amarra. Desconhecido de si. Desconhecido dos outros. Concreto como a sombra e desiludido como os manifestantes da ordem da paz. Eternamente encontrando defeitos. Nos verbos e nas formas de dizer a, à, há. Completamente contra a ordem das coisas. Com uma necessidade profunda de encontrar uma ordem para as coisas. Obsessivamente controlador da forma como o tic e o tac se sucedem. Guardião de ponteiros de relógio. Senhor e mestre de agendas que se preenchem a lápis. E de um lápis que é tinta mental e só apaga a bomba.
Tudo isto e mais. Mas quem? Quem é? Quem é esse monstro que eu sou?
Vítima. Mas atacante. Defensor. Linha da frente na apologia do eu. Criador de massacres. Rasgando a pele com as unhas. Que pinta. Ou não. Consoante a maré. E o tempo. E o número de dígitos digitais na conta. Impulsionador de memórias que são ácidas. Bebendo do veneno dessas realizações inconcretas sobre palavras que foram ditos e gestos que foram feitos. Eternamente velho entre os jovens e para sempre menina, de saia levantada e lágrimas nos olhos. Correndo. Ora para lá, ora para cá. Sem saber a qual dos passados e futuros deve chamar presente.
Tudo isto e mais. Mas quem? Quem é? Quem é esse monstro que eu sou?
Adorador de mortes. Bebendo de seivas góticas a vida inebriada a absinto e tequila. Com um aroma de madeiras e frutos silvestres na camada inferior do vinho que abre, ao seu contrário. Porta fechada, com três camadas de muralha e duas de véu. Onde a sobreposição dos concretos se faz no horizonte onírico de desconhecimentos dispersos, inversos e invertidos em si. Na tortura ancestral do que se diz moderno e sem aceitar a modernidade tecnológica que transforma betão em estrelas cadentes e pessoas em autómatos que assistem a cloaca televisiva e dela geram algo que, redundantemente, ganha título de opinião.
Tudo isto e mais. Mas quem? Quem é? Quem é esse monstro que eu sou?
Amante e amor de quem não sabe caminhos consistentes para as terras veraneantes. Incapaz de se libertar dos espectros fantasmagóricos da paixão. Queimado e apaixonado pela mesma chama que dá alento aos ossos imundos e cheios de desencanto. E louco. Louco como só é quem, detido pelas amarras brancas de um abraço a si mesmo, passa os dias a olhar para o nada, vendo tudo e um pouco mais do que tudo.
Perguntaram-me. Quem é o monstro? Uma resposta imediata. O monstro sou eu. Mas quem é esse monstro que tu és? Desassossegada, uma mente que nunca dorme, mergulhou no negrume de si. Quem é? Esse monstro que eu sou? Não sei.




Marina Ferraz




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quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

"i" - "!"



Um dia. Um dia, eu escrevi um “i”. Esse “i” foi uma porta. Essa porta levou a uma estrada. Essa estrada levou a um futuro. E o futuro tinha muito passado dentro dele. E o passado tinha muitas histórias. E as histórias eram feitas de verdade e de mentira e de imaginação. Um dia. Um dia eu escrevi um “i”. Estava vestida de preto. Por cima da saia de folhos. Por cima do corpo miúdo. Por cima do coração que batia. E pendiam-me os cachos do cabelo, em caracóis imperfeitos. Com laçarotes de fita. Ao xadrez.
O quadro era de ardósia. O olhar era de complacência. Os passos eram ofegantes preces, na direção do estrado. Os risos eram dor. E as palavras eram mudas. E eu não tinha nada. Além do giz. Além da mão. Além de mim. E do “i”. Esse que escrevi. E que estava certo.
Um dia. Um dia escrevi um “i”. O “i” foi um alfabeto inteiro. O “i” foi um dicionário inteiro. O “i” foi universalmente galardoado como senhor de todos os manuais. Havia milhões de possibilidades. Em cima do estrado. No meio do quadro. Na pintinha feita com a mão a tremer. Um dia. Um dia, eu escrevi um “i”.
Disseram-me que a vida era do direito. E eu tentei pôr o tempo parado no espaço da ilusão, que começava com “i”. Guardado para mais tarde, quando me faltassem vogais. Mas as consoantes da vida não bastam. E vêm consoante a história. Não são bem assim. Tomam sentidos diversos e pintam cenários que não são. O “i” não. O “i” era vogal. E uma vogal é só isso. Inspirei. Fui buscar inspiração a histórias. Fui invisível no processo. Tudo bem.
Eu sabia. Tinha escrito um “i”. E a vida não era vida sem esse “i” que eu tinha escrito quando, aos seis anos, decidi a minha vida toda.
Decidi que a vida não era do direito. Virei a vida ao contrário. Escrevi novamente esse “i”. Virei a folha ao contrário. O “i” passou a ser “!”, um ponto de exclamação. E passei a ser o que, insistentemente, me disseram que era impossível. Decidi que “impossível” é a única palavra com “i” que eu não quero na minha vida.


Marina Ferraz


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quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

No alto da esfera



Há uma lua no alto da esfera
E um espelho onde finjo ser gente
Refletem-se fases, feito quimera
Levam-ma a alma indigente

Há um poema na ponta do medo
Não tem estrofes nem punhais
Repetem-se versos, feito segredo:
Uma caravela atracada ao cais.

Finjo ser gente por entre a gentia
Cansam-me os temas, cansados de mim,
Gentis são os dedos que, sem simpatia,
Me arrancam da terra, me ditam o fim.

Há uma lua no alto da esfera
E um espelho que reflete o nada.
Finjo ser gente… mas quem me dera
Ser, na distância, a lua quebrada.



Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet


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