terça-feira, 26 de julho de 2022

Futuros possíveis

 

Fotografia de Hélio Silver

Parto daqui e não sei para onde. Quero a arte de não pensar, mas aprendi pouco com Caeiro. Então, vou como Violante de Cysneiros. Sem ir, como se não existisse. A cantar poetas que permanecem. E a amar, valha o que valer...

 

 

Daqui. Mil sonhos na algibeira. Sobre livros que quero escrever e letras de músicas que ainda não viraram canção. Sobre estas palpitações loucas no meu peito de todas as vezes que penso em ti. Acordo e não estás. Escrevo um poema sobre a saudade e desejo que sejas feliz. Vejo passar as estações e os anos, sempre a lutar pelo mesmo. Sopro as velas do meu 36º aniversário. Digo, como Florbela, “se passar do dia dos meus anos, morrerei velha”. Tenho um alegado edema pulmonar cuja autópsia ninguém confirma. E morro.

 

 

Daqui. Engravido de um livro sobre a Morte e resolvo pari-lo num pinhal à beira das estradas principais da literatura. De repente, ele ganha vida e chora. E alguém o ouve. E o vento dos sucessos sopra-lhe as folhas, deixando-as eternamente abertas na página onde se lê “fim”. Sorris-me. E eu sorrio-te. E vamos juntos, caminhando pela berma, segurando esse filho só meu. Envelhecemos sem que o livro envelheça. Sempre à sombra desse one-hit-moment que perdurou até ao esquecimento. E há uma lareira, numa casa junto à mata. Tenho as mãos enrugadas e o coração cheio. Ela vem, suave. Abraças-me. E eu morro.

 

 

Daqui. Tenho o maior desgosto da minha vida e não quero escrever nem mais uma linha. Queimo todos os poemas que alguma vez fiz e a minha casa com ela. Tomo uns antidepressivos quaisquer e adormeço por entre fumo e poesia. Morro.

 

Daqui. Vivo a maior história de amor de todos os tempos. Sempre que me debruço sobre os teus olhos e o teu sorriso, nasce-me a ideia de um poema. Só escrevo alguns e não publico nem metade... Apego-me à vida todas as manhãs, quando te olho. Deixo-me apaixonar diariamente pelos cheiros e os toques e as sensações. Falo pouco sobre isto, embora escreva longamente sobre o milagre dos dias. De caneta na mão e contigo na sala ao lado, repouso a cabeça no braço. Adormeço em paz. Não acordo mais. Morro.

 

Daqui. Os anos vão subtis e leves. Os meus sobrinhos convidam-me para jantar algumas vezes por mês. O trabalho paga-me as contas. Tenho tempo para tirar algumas folgas. Vivo sozinha com a gata, mas temos entre nós muitas histórias de amor antigas para contar. E elas não me deixam triste, porque sei que tudo foi pelo melhor. Vou envelhecendo aos poucos. Um dia vou dormir. Deixo coisas para um amanhã que nunca chega. E morro.

 

 

Daqui. Dou-te um beijo de corrida ao sair da cama. Estou atrasada para uma reunião. Engulo o café de um trago, agarro o computador, a carteira e saio, soltando uma palavra de amor por cima do ombro. Estou a atravessar a estrada e ele vem, não sei de onde. O computador cai a alguns metros de mim. Penso em ti e em como gostava de ter ficado na cama. A ambulância chega. Tarde. E eu morro.

 

 

Parto daqui e não sei para onde. Quero a arte de não pensar, mas aprendi pouco com Caeiro. Então, vou como Violante de Cysneiros. Sem ir, como se não existisse. A cantar poetas que permanecem. E a amar, valha o que valer...

 

Parto daqui e não sei para onde. Todos os futuros são possíveis. Mesmo outros, que não estes. E não importa, sequer, qual se concretiza numa realidade corpórea. O espesso da realidade é, usualmente, feito da matéria dos sonhos que decidimos abraçar.

 

 

Parto daqui e não sei para onde. Em alguns passos leves pelas ruas de casinhas ordenadas, de cheiro a mar, penso como é bom estar feliz agora, neste lugar onde todos os futuros são possíveis e incertos.

 

Gostava que o desconforto não te fosse maior do que a felicidade, para contemplares comigo a rua do agora. E quero dizer novamente que não importa o que vem depois. Tenho-me inteira para dar neste segundo que passa. E também não sei. Como tu não sabes. Como ninguém sabe... o que vem depois.

 

Mas depois do depois. Depois do depois eu sei. Morro. Sei que morro.

 

Depois do depois pode ser daqui a um segundo...

 

E estou viva agora.

 

Por favor, deixa-me olhar para ti, abraçar-te... e sorrir.


 Marina Ferraz





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terça-feira, 19 de julho de 2022

O movimento mais difícil

 

Fotografia de Ana Formigo | Modelo: Ana Leonor Jesus



Sei que os bailarinos vão dizer que é o Demi-plié. E os ginastas vão dizer que é Salto Mortal de Produnova. Os aficcionados pelo Crossfit falarão do Handstand Walk. E os da calistenia do Manna. Mas eu posso assegurar. Há um movimento mais difícil. Um movimento que é um milhão de vezes mais difícil.

 

 

 

Quando ela nasceu, tinha uma tonalidade arrocheada na pele perfeita. E era tão pequenina e frágil que uma parte de mim tinha medo de que, se lhe tocasse, ela partisse. Mas foi magnético e impossível de evitar. O toque. Que virou colo. Que virou biberões dados ao som do coração com buraquinhos. Escrevi-lhe a minha primeira canção. Eu acredito em fadas. E derreti, com ela nos braços. Perguntei-lhe, em quadra tradicional, muito antes que ela soubesse a primeira palavra, uma pergunta que, tantos anos depois, continua sem resposta:

 

  Guardo só uma pergunta,

  neste mundo agreste e louco:

  Como se pode amar tanto

  quem se conhece há tão pouco?

 

A resposta nunca foi necessária. Nunca vai ser. É aquela eterna pergunta de retórica. Que acompanhou a minha alma, à medida que o bebé de colo aprendia a gatinhar, a andar, a fazer travessuras, a dançar, a falar, a viver...

 

Quando ela começou a crescer, a tonalidade da tez era clarinha e luzente. Adornada com olhos azuis, que se iam transfigurando em verdes, tomando uma tonalidade indefinida que faz lembrar dois pequenos planetas no centro da face perfeita. Emoldurada pelos caracóis loucos – que viriam a ser puxados, esticados, pintados de azul ou de outros tons de fantasia.

 

Perdi a conta ao número de dias em que a levei para a sala de aula, para que não esperasse tanto tempo pela educadora. E perdi a conta ao número de vezes em que corri, no segundo toque, porque era difícil deixá-la na pré, ainda que fosse o mesmo edifício, um piso acima. Olhar para ela sempre me fez ter aquele compassozinho de espera no coração. Pequenas mortes felizes e cheias de orgulho. Cheias de vida.

 

Então, um dia, ela pegou na mochila. Cheia de sonhos sobre o futuro, embora se lesse claramente, no livro do colégio, que a única coisa que queria ser quando fosse grande era pequenina. Pegou nos livros. Pegou nos cadernos. Pegou na sua mente povoada pela magia da Disney e as histórias da Floribela e da Barbie. Pegou em si, com as duas pernas, sem precisar dos meus braços. Foi ser uma aluna incrível. Foi ser uma bailarina que se destaca num grupo de dezenas. Foi ser uma adolescente apaixonada pelo mundo. Foi transformar-se numa mulher inexplicavelmente boa. Foi ser uma estudante distinta e um ser humano como existem muito poucos... E começou naquele dia, quando, pegando na mochila pesada sem ajuda, caminhando nos seus próprios passos, ela me obrigou a fazer o movimento mais difícil de todos.

 

 

 

Sei que os bailarinos vão dizer que é o Demi-plié. E os ginastas vão dizer que é Salto Mortal de Produnova. Os aficionados pelo Crossfit falarão do Handstand Walk. E os da calistenia do Manna. Mas eu posso assegurar. Há um movimento mais difícil. Um movimento que é um milhão de vezes mais difícil: abrir mão e deixar ir.

 

É difícil. Tão complicado que é como se os músculos e ossos do corpo doessem e os ossos e músculos da alma também. Exige uma flexibilidade que não temos e uma vontade que não existe. Mas, como todas as coisas difíceis, dá frutos...

 

 

Ela é uma parte de mim a ser melhor do que eu. E ainda tenho a sensação da bebé que carreguei em braços. Ainda a vejo na mulher que sorri e chora e se dá aos outros. Lembro-me sempre de que, com ela, tive de fazer o movimento mais difícil de todos. De aceitar que não sou mais do que uma pequena peça de um percurso que ela soube fazer com passos indiscutivelmente certos.

 

Olho o céu e sei que não estive só nesse movimento difícil, que acabou por torná-la tão perfeita quanto sempre soubemos que ela era. E, quando a pergunta ressoa, a resposta é evidente. Faria o mesmo outra vez, rasgando músculos e partindo ossos do corpo e da alma, porque – deuses – que orgulho é ter feito parte desta história. Que orgulho é ter estado lá no dia em que ela pegou na mochila, abriu as asas, e se tornou tudo aquilo que é.

 

 

O movimento mais difícil é abrir mão...

 

... contrariada, abri... ainda bem!

 

 

(mas – se precisares - terás sempre colo onde voltar!)


 Marina Ferraz





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terça-feira, 12 de julho de 2022

Alergia

 


É um problema crónico. Sou profundamente intolerante. Mas pior ainda... sou alérgica... E apesar de muitas tentativas – todas vãs – não consigo amenizar nem os sintomas, nem os efeitos...

 


Tens de…

 

Todo um prurido na camada cutânea se inicia. E, de repente, é como se coçasse até a ideia do respirar. O tempo torna-se insuportável. A temperatura começa a subir. A cabeça pesa. O corpo morde.

 

Tens de…

 

Abro a torneira de água fria e passo por ela os braços. Sinto que abrem pústulas no lugar dos poros. Sinto que elas alastram aos poucos. O dano entranha e espalha-se.

 

Tens de…

 

Quero chamar alguém. Nem importa quem. Estou em desespero. Tragam alguma coisa. Arranjem alguma mezinha. Façam algum curandeirismo ancestral. Qualquer coisa. Quero dizer isto. Mas não consigo. Porque, de repente, a garganta fechou.

 

Tens de…

 

O desespero da garganta fechada vira grito interior. Arde-me cada um dos alvéolos. Quero respirar e não consigo. Não é apneia. É sufoco. Como se o mundo me estrangulasse com os seus dedinhos disfuncionais de ideias preconcebidas.

 

Tens de…

 

Rebolo pelo chão da minha mente. Quero puxar o ar. Não há ar. E a pele deteriora-se, soltando sangue e desesperos em poças salgadas de lágrimas que ardem na carne viva.

 

Tens de…

 

Uma alergia não diagnosticada. Um choque. Não sei se anafilático ou não. Mas intenso. E acontece todo dentro, sem que ninguém veja nada além da perplexidade da expressão.

 

Tens de…

 

É um problema crónico. Sou profundamente intolerante... mas pior ainda. Sou alérgica... e apesar de muitas tentativas – todas vãs – não consigo amenizar nem os sintomas, nem os efeitos...

 

Procuro o anti-histamínico. Por entre a crise demoro alguns segundos a encontrá-lo… mas anda sempre comigo, nesta mala - o cérebro - onde fiz questão de guardar uma farmácia funcional contra as agressões de uma sociedade de conceitos fechados e ridículos.

 

Quando o encontro, tomo-o. De imediato. Palavra e intenção largada numa irrupção de momento.

 

Tens de…

 

Tens de…?!

 

Nem me interessa o fim da frase!

 

Não!

Eu não tenho de fazer absolutamente nada que eu não queira!


 Marina Ferraz





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terça-feira, 5 de julho de 2022

Retórica em oito partes

 


É uma pergunta de retórica. É sempre uma pergunta de retórica. Não penses muito nisso. Está tudo bem. Não tenho nem quero respostas. Para quê? A vida... entende... a vida planta sempre dois pontos de interrogação na terra adubada para plantar afirmações. Não é necessário que exista uma resposta. Às vezes, é só preciso perguntar. Ouve. Simplesmente ouve. O clamor das interrogações despidas de expetativa. É só uma pergunta de retórica...

 


I. BAILADO

O teu sorriso quando me dizes. Voltei para a dança. Esses olhos azuis-verdes-cinza-mundo todos cheios de brilho. Terem passado mais de vinte anos e nem um dia. A loucura do coração no peito, retumbante. Que bom!

E olhas-me, cheia de mundo nos olhos e de futuro nos pés. Cada palavra um bailado dessa eternidade que trago dentro. Amo-te mais do que tudo e tento dizer-to, pendurando a noção do amor nos fios louros dos teus cabelos.

E quero dizer-te que foi o teu menisco que se lesionou, mas são os meus joelhos que são fracos. Caio sempre na primeira pergunta que te fiz... como se pode amar tanto quem se conhece há tão pouco?

 

II. HERANÇA

Dizes que saio a ti. Mas não creio. Porque só o dizes quando venço uma batalha qualquer ou sou centro da atenção do mundo...

Saí da minha mãe... acho que é a ela que saio. Poesia não é leitura nem memória entoada nas viagens de longo curso dentro de um Daewoo. Poesia é presença incondicional, orgulho ocasional, sem razão evidente.

Pergunto muitas vezes. Onde estavas quando caí? Onde estavas quando precisei de amor imaterial e incondicional?


III. LUA CRESCENTE

A areia sob as sapatilhas de guerra e a lua no alto. O coração descompassado no peito. Falar do mundano para não dizer – porque realmente não importava dizê-lo – que afinal o coração não é de pedra.

Largar todas as certezas criadas. Libertar todos os conceitos pré-feitos. Ser. Na mais pura acessão desse ser que é ser-se. Até o próprio conceito do ser ir além do pequeno-eu determinado e redutor.

Uma mão no rosto. O fechar dos olhos. A explosão de todos os sentidos e de todos os sentimentos inauditos. Magia. A resposta antes da pergunta e depois dela e dentro dela... sem resposta. Como é que isto aconteceu?

 

IV. A MANEIRA ERRADA (DE FAZER A COISA CERTA)

O punhal cravado e o enaltecimento do eu. Um suspiro triste. Vai criança. Solto e encolho os ombros, sem te culpar. Estás magoada. Permanentemente ferida. Culpando tudo e todos. (Con)vivo bem com essas culpas arremessadas no mutismo corrosivo. Não dói.

Um passo certo para dignificar a alma... no chão de todas as raivas discretas. O retrair da mágoa na expansão do ego. E um toque de acidez em cada movimento.

Olhar e não te reconhecer mais. Silenciar-te de forma mais ampla, para não te ver desaparecer de ti. Nem sequer ter vontade de falar. Mas soltar um breve: onde está aquela pessoa da qual gostei tanto?

 

V. VIOLETA

Entre a morte e a quase-morte e a sobrevivência em tons de verde. Até que, um dia, a flor. Duas flores. Três. Esse matizado de cores. Amor em forma de Primavera.

O pousar dos lábios no veludo das folhas e um pensamento lá para onde moram os que eternamente sobrevivem em nós.

Estavas à minha espera para florirmos juntas, não estavas?

 

VI. QUINZE MINUTOS

A floresta ao nosso lado. O mar ali à frente. O tempo que permeia a descida até ao Paraíso – quem diria que o Céu é para baixo? – e essa vontade de conduzir para o pôr-do-sol.

Quinze minutos de silêncio. Um silêncio povoado de gaivotas e ondas. O sopro do vento nos ouvidos e na pele. O calor de um sol descendente e da pele areada. A paz de uma eternidade muito lenta, no espetáculo diário que o mundo oferece aos homens cegos. E derreter o corpo nessa areia. Ser fluído com a perfeição do final da tarde, esquecendo por momentos o som das músicas desajustadas e das conversas banais.

Só o toque da pele e a música da Natureza. Quinze minutos perfeitos. Porque é que as pessoas não sabem ser como o espaço onde estão?

 

VII. O LIVRO

Não. Uma palavra que pode ser dita com palavreados de boca cheia e muitos vazios de alma. Desculpas que podem somar-se até formarem um edifício de Jenga, que desmorona.

O desejar de sorte. Vazio. Porque todos sabemos que a sorte não tem nada a ver com o assunto. Aceitar o não e a bênção vazia. Aceitá-los. Simplesmente. Calando na garganta a pergunta: Como é possível fazer o caminho se todos nos vedam a estrada?

 

VIII. OLHOS NOS OLHOS

Depois das luzes da cidade adormecida, a luz nos olhos. E depois do negro da vida, a felicidade.

O que é isto?

Olhos nos olhos. Sorrio silêncios. Eu também não sei.

 



O clamor das interrogações despidas de expetativa. Essas que não visam nem o controlo nem a vigilância. Limpas. Livres. É só uma pergunta de retórica. Um suspiro pontuado... entendes?

 

Shhh... não respondas... não é preciso que haja resposta. Está tudo bem!


 Marina Ferraz





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terça-feira, 28 de junho de 2022

Arco-íris nas frestas

 




Abri os olhos. Dormias. E eu abri os olhos... Havia um arco-íris na janela. Pintado de pôr-do-sol. Rasgando as frestas.

 

 

O cansaço que adensou era fruto de noites acordadas. E da vida. Pesava um bocadinho sobre os ombros e descansámos a cabeça na almofada. Calor nascendo da pele. E suavidade. O som de uma música feita de silêncios que dizem poesia no fim da tarde. Só um bocadinho. Ao som das trovas mudas. Só um bocadinho.

 

Os olhos fecharam. Levemente. Habituados à insónia. E lembro-me de pensar que não queria dormir porque tinha medo. Logo eu. Eterna aventureira de todas as coisas descuidadas. Tinha medo. De acordar. E ser tudo um sonho bom... apenas.

 

O sono venceu a batalha contra o medo. Tudo – sempre – me vence a batalha contra o medo. Eu não sei viver senão lutando. Todos os dias. Contra tudo o que me assusta, me amornece e me limita... e, do sono ao sonho, foi um salto muito breve. E ela veio. E ela disse: olha o arco-íris.

 

Os olhos, meio enrugados, sorrindo no vislumbre lento da noite a cair. E eu agarrei-a levemente. Com saudade. Olhei. Sabia que era um sonho e ela também. Mas aceitou-me o toque leve e a inalação do cheiro das violetas do seu perfume-pele. Olha o arco-íris. Repetiu. E eu contei-lhe: dizem, sabes? Que quem encontrar o fim do arco, encontrará um pote de ouro. E ela repetiu. Olha o arco-íris.

 

Acordei desse sono. Breve. Tão breve. Abri os olhos. Dormias. E eu abri os olhos... Havia um arco-íris na janela. Pintado de pôr-do-sol. Rasgando as frestas. Tonalidades que vinham do vermelho, do laranja, do azul, para o verde-mar... passando por todos os toques de luz que permeiam as cores. Sorri. Havia o recorte do teu corpo e uma explosão de pigmentos a invadir o quarto. Senti-me novamente menina. Sorvendo a novidade da vida, com suavidade... cor a cor...

 

E os tons mais quentes aqueceram-me por dentro. E o calor de mim amoleceu-me a alma. E os olhos fecharam. Muito devagarinho. Levando ainda, consigo, o pôr-do-sol que rasgava a janela. Adormeci novamente. E lembro-me de pensar. Eu vi, avó, eu vi o arco-íris. Mas foi um pensamento breve, na vigília alquebrada, na fímbria entre a consciência e o delíquio. E deixei-me ir. Adormeci. Um sono pesado na leveza dos pensamentos, despido dos medos ancestrais e de perguntas sem sentido. Um sono despido de sonhos.

 

O tempo do sol não é o dos ponteiros. O tempo da vida não é o do sol. Senti-me voltar a mim, primeiro. E a alma a voltar ao corpo depois. De onde vens? Perguntei-lhe. Mas ela, que vinha daquele pôr-do-sol-arco-íris, não sabe como falar antes do café. Então, ficámos de olhos fechados, bebendo do som da respiração e do silêncio da música do fim da tarde.

 

Quando, por fim, abri os olhos, ainda dormias. Mas abri os olhos... O arco-íris na janela, pintado de pôr-do-sol, tinha dado lugar à tonalidade-noite. Uma noite jovem, ainda com resquícios de dia. Mas noite. E foi ela que me envolveu, acalmando-me os medos. O laranja apagado na frestinha inferior, deixa o espaço acinzentado no destaque de todas as outras, com as luzes breves da rua.

 

Acordas e olhas para mim. Um gesto breve e simples e de afago, que me envolve. O teu calor na pele fresca.

 

O sono tinha passado. Provavelmente posto no mesmo mar que levou o sol. E, nesse abraço, olhei pelas frestas. Um último rasgo de arco-íris na janela. Uma última linha alaranjada. E pensei. É aqui. Avó. É aqui. Encontrei o pote de ouro... 


 Marina Ferraz





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terça-feira, 21 de junho de 2022

Deitada no chão

 

 


 Tenho dado por mim. Deitada no chão. A inspirar. A expirar. A sentir(-me).

 

 No último mês já me deitei no chão da minha casa e de casas que não a minha. Já me deitei em praias. Sobre a terra da mata. Na relva. Em teatros e até na sala de um velho casino.

 

Em tempos, deitei-me no chão, tentando perceber as sensações de um corpo sem sensações. Achei que, deitada no chão, ficava mais perto da morte. Porque é isso que as pessoas fazem. Não é? Morrem e são esquecidas num chão qualquer...

 

Mas os poetas – percebo agora – não são gente que se deite e morra. São sementes. E há muita vida semeada no chão onde me deito. Uma espécie de tranquilidade que brota do peito no sentir do solo. Como se toda a história do “eu” se enraizasse. Como se dela crescessem os brotos verdes do amanhã. E, aos poucos, estendessem os braços ao sol. E, aos poucos, fossem árvore da vida. E dessem flor. E dessem fruto. E eu sorvesse, desse fruto, o sumo da inspiração que me rega de sensações.

 

Em tempos, deitei-me no chão, tentando perceber as sensações de um corpo sem sensações. Hoje, deito-me nele para sentir. Em tempos, deitei-me no chão para simular a morte. Hoje, deito-me nele para viver a vida.

 

O chão é o mesmo. Mas eu não sou.

 

Mudei. É preciso aceitar que o corpo de ontem não é o corpo de hoje. Que as escolhas de hoje não serão as mesmas de amanhã. Que a diferença entre o querer e o não querer, o estar e o não estar... é um segundo. Deitada no chão, fecho os olhos. Porque tetos e estrelas povoam também a alma. E preciso de me olhar dentro, para crescer. De aceitar que mudar é processo. De entender que aprender dói... mas vale a pena.

 

Tenho dado por mim. Deitada no chão. A inspirar. A expirar. A sentir(-me). Viva. Com vontade de o estar. Viva. Derretendo os músculos no solo, até ser solo. Sentindo a acalmia da vida, misturada com o compasso retumbante do coração.

 

Dou por mim deitada no chão. Sei coisas que não sabia. Sobre magia, maioritariamente. Mas não só. E perguntam-me quando soube. Mas eu não sei quando soube. Deito-me no chão. Só por um minuto. Digo a mim mesma. Só por um minuto. A alma vagueia e retorna ao corpo. Quero estar viva. Mas os ponteiros enlouqueceram.

 

O tempo que passa para o mundo parou para mim. Largo o teto. Largo as estrelas. Perco-me de quem fui. Sou e estou feliz.

 

Em tempos, deitei-me no chão, tentando perceber como será estar-se morto. Hoje, deito-me nele para me estender no térreo de todos os meus sonhos novos.

 

E talvez eu tenha sabido aí. Por isso mesmo. Porque senti claramente as asas. E o céu no horizonte. E a liberdade de ser. E, sendo, me fez falta o chão.

 

 

Em tempos, deitei-me no chão, tentando perceber as sensações de um corpo sem sensações. Penso que ainda gostaria de saber. As sensações de um corpo sem sensações. Mas sinto. Profunda e inegavelmente. Não encontrarei esta resposta no soalho.

 

Descobrir essas coisas da morte leva tempo. E o meu tem parado muitas vezes... para me deixar viver em pleno, deitada no chão.



 Marina Ferraz





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terça-feira, 14 de junho de 2022

Dos 16 aos 83

 



Sinto-as. Dentro de mim. Nem sempre sabem muito bem o que fazem. Mas não há problema. Porque sabem muito bem quem são... e isso basta.

 

 

Eu não nasci como nascem os outros. Novos e frescos. Bebendo da vida a novidade do mundo. Sou velha desde que me lembro. Tudo sempre me pareceu evidente e gasto. Sempre tive perguntas para colocar sobre as definições fechadas e os conceitos sem espaço.

 

É verdade. Isso não me impediu de me surpreender com as folhas das árvores e a música que cria vento. Nem de me deixar inebriar pela forma das rochas junto ao mar. Nem de me perder pelos recantos mornos da poesia. Mas não me surpreendi, inebriei e perdi porque o mundo fosse novo. Foi justamente porque ele era velho. Sábio. Repleto de maravilhas. De magia. E eu, una com ela, me quis tornar quem eu era.

 

Percebi depressa que, dentro do peito, trazia uma velha. Uma velha tão velha que não tinha idade. Mas nunca quis deixar de lhe celebrar a vida. E imagino-a com o seu rosto vincado de rugas e vivências, pelos seus 83 anos.

 

A velha em mim é sábia. Anciã. Serva da Natureza e Mãe do Mundo. Sabe coisas que me repete, em ensinamento, cantando em surdina, como se me embalasse pelos dias. É meiga e cuida de mim. Tenta cuidar dos outros, usando para isso as minhas mãos. Demora-se, por vezes, nas frestas da pele, regando-a de carícias, tentando sarar as mágoas do mundo. A velha sabe. Melhor do que ninguém. Toda a gente tem uma história triste. Toda a gente é a história triste de alguém. A velha não julga, porque julgar demora tempo e ocupa espaço de alma. Simplesmente, tenta acarinhar da melhor forma que sabe – com os séculos e milénios que cabem nos 83 anos que lhe imagino – essa verdade da vida, tão evidente e tão frequentemente olvidada – estamos todos a tentar ser felizes.

 

Mas, ainda que essa velha permaneça em mim, por vezes calma e abnegada, por vezes rezingona e rabugenta, o facto é que não está só. Percebi depressa que, dentro do peito, trazia uma adolescente. Do pior tipo. Daquelas que têm 16 anos e não querem crescer. Que se entusiasmam com a paixão. Com a amizade. Com o amor. Com as possibilidades... Que querem viver como se a vida coubesse toda num dia só. Que dão pulinhos de alegria quando recebem uma mensagem boa. Que se esquecem que vão morrer um dia. Que acham que vão morrer sempre que a vida tem uma contrariedade. Que acreditam ter entendido tudo e que vão frequentemente contra uma parede de cimento porque não querem desacelerar nas curvas do caminho.

 

A adolescente é insensata e impulsiva. Amedronta-se facilmente com as voltas inesperadas do mundo. Da vida. Mas quer vivê-las. Vive-as. Com uma intensidade louca. Tem muito para dar. Ainda não sabe bem a extensão do que tem para dar. Mas sabe que tem... e insiste que quer. Quer porque quer. Um dia, quando for a velha, entenderá porque quis...

 

Vou dos 16 aos 83 anos muito depressa. Oscilo facilmente entre a sensatez e a imprudência. E fico, por vezes, a vê-las discutir em mim, seguindo-lhes o discurso como quem assiste a uma partida de ténis de mesa.

 

Não faças isso! – Só se vive uma vez – É uma irresponsabilidade. – Quero ser livre-livre. – Vá, descansa um pouco. O mundo ainda estará lá amanhã – Se estiver! – Estará...

 

Deuses. Ouço-as. E amo-as tanto que até me arrancam um sorriso só de as pensar, nessas discussões por tudo e nada.

 

Abraço-me com os dois braços porque quero dar-lhes esse amor. Dizer: obrigada por me ensinares a encarar o mundo de frente. Dizer: obrigada por não me deixares levar a vida tão a sério. Dizer: enquanto aí estiverem, eu nunca irei estar só.

 

Mas, de repente, tenho 32. E caminho para os 33. E tenho uma adolescente de 16 anos aos pulinhos dentro de mim. E tenho uma velha rezingona de 83 anos, com críticas na ponta da língua.

 

No fim, peço-lhes levemente com licença. Mergulho novamente no ventre da minha mãe. Durmo um bocadinho ali, para descansar dessa verdade que é não ter nascido como nascem os outros. Novos e frescos.

 

Sinto-as. Dentro de mim. Nem sempre sabem muito bem o que fazem. Mas não há problema. Porque sabem muito bem quem são... e isso basta.

 

Mas há muito tempo para ir dos 16 aos 83. E o hoje é feliz-feliz. Então, por vezes, tenho a idade do meu bilhete de identidade. Olho em redor. Deuses! A vida é um lugar maravilhoso para se estar.

 

 Marina Ferraz





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terça-feira, 7 de junho de 2022

A Matemática do Tempo

 

Fotografia de Bru-nO

Não gosto muito de Matemática. Nunca gostei de Matemática. Mas gosto ainda menos da Matemática do Tempo. O exercício dos regimes ditatoriais sobre os ponteiros do relógio irrita-me. Esse, que garante que em cada hora cabem sempre exatamente sessenta minutos. E que em cada minuto cabem sempre sessenta segundos. E que em cada dia cabem sempre vinte e quatro horas. Desculpem. Acho que sou negacionista... mas o tempo não tem métrica certa. Como a poesia contemporânea... ou pelo menos a minha...

 

 

Desconexão. Um luxo moderno. Raro. Desligar o telemóvel. Ou não olhar para ele. Não querer saber das redes sociais. Parar com aquele toque irrealista entre stories, que passa por elas em contínuo e sem ver metade. Esquecer o relógio. E o trabalho.

 

Uma corrida muito lenta, de passadas-caracol, pela dinâmica da vida. Inalar o ar pelo nariz. Exalar pela boca. Deixar que se solte da garganta o grito que acumula aos poucos. Esquecer que existe grito, por esquecer que existe mundo. Ter, da memória, somente a memória. Desligada do peso que já teve e que já não tem e que não pode voltar a ter... porque o hoje não tem – ou é o que dizem – tempo para trazer o ontem dentro de si.

 

E conexão. Um luxo moderno. Raro. Que pode dar-se quando o telemóvel está desligado. Ou não olhamos para ele. Quando não queremos saber das redes sociais nem temos espasmos no polegar, que passa stories em contínuo, sem ver metade. Quando esquecemos o relógio. E o trabalho.

 

Um estar que é só estar. Trocas de pensamentos gratuitos. Despreocupados e sem pressa. Uma respiração lenta, entrecortada de histórias e risos que não se passam à frente com um toque. Memórias na ponta da língua, que se esbatem no tema seguinte e vêm leves. E planos. Para outro dia. Para outra altura. Para o futuro. Esse futuro igualmente leve... porque o hoje não tem – ou  é o que dizem – tempo para trazer o amanhã dentro de si.

 

Tempo. O luxo do tempo. Quando as horas passam num segundo e não damos por elas. Quando a alma encontra o espaço exato para se encaixar com o agora, para estar no agora... mesmo se o passado e o futuro ondeiam nas conversas, preenchendo-as levemente... suavemente.

 

É tão incrivelmente raro, que parece estranho. Parar. Esquecer a corrida contra o tempo, que – dizem os puristas dessa Matemática do Tempo  só tem vinte e quatro horas por dia.

 

Não gosto muito de Matemática. Nunca gostei de Matemática. Mas gosto ainda menos da Matemática do Tempo. Porque, às vezes... só às vezes... o tempo não é linear. E as horas parecem segundos... e, quando damos por nós, é outro dia... e temos quase a certeza de que o dia anterior ainda não era para ter terminado... que teve horas a menos.

 

Não gosto da Matemática do Tempo. Não porque me perca nela, como me perco a contar os trocos. Nem porque me sinta confusa, como quando é preciso dividir por dois dígitos. Nem porque me esqueça dela, como da tabuada que a minha avó tanto tentou fixar entre os meus neurónios... que claramente eram de Letras e Humanísticas. Não gosto da Matemática do Tempo porque nos diz que cada dia tem só vinte e quatro horas e que só cabem sessenta segundos num minuto e sessenta minutos numa hora.

 

O tempo não é linear. Ainda me lembro de que nas aulas de Matemática, os noventa minutos demoravam três horas a passar. E, naqueles momentos em que nos podemos dar a esse luxo, ainda consigo esquecer-me das horas... e reparar que passaram horas e horas, quando julguei que tinham sido apenas alguns minutos...

 

 

Se o século XV foi o século das conquistas e o século XX o da revolução digital, o século XXI é o século da falta de tempo. É a história mais comum dos nossos dias: não ter tempo para nada... e ver tudo como uma perda de tempo. Porque cada dia tem só vinte e quatro horas e só cabem sessenta segundos num minuto e sessenta minutos numa hora... e nunca é suficiente.

 

Não gosto da Matemática do Tempo. Na verdade, não gosto de Matemática. Do tempo devo gostar... porque nunca quero perdê-lo...

 

Mas sabem que mais? Ter horas inteiras que nos parecem minutos é o verdadeiro luxo da modernidade. E, com isso, aprendi uma Lei do Tempo que a Matemática não pode ensinar: o único momento em que não perdemos tempo é quando nos perdemos no tempo...


 Marina Ferraz





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terça-feira, 31 de maio de 2022

A beleza da palavra «foda-se»

 e a sublime liberdade que é usá-la no momento certo




 Tenho para mim que uma das palavras mais bonitas da língua portuguesa é, em simultâneo, uma que mais usamos e renegamos.

 

Facilmente veremos uma mãe a dar uma palmadinha na mão do filho que o diz, diretamente antes de a usar para reclamar da vida numa situação mundana. Um contrassenso! E um contrassenso escusado, se quiserem a minha opinião. Versátil. De uso comum. Simples e eficaz em situações diversas, a palavra não devia ser assim menosprezada, censurada, penalizada… Haja quem entenda! Nunca lhe é dado o devido valor!

 

Falo do foda-se, sim! Interjeição. Trejeito. Exclamação. Expressão de indignação. Clamor. Enunciação. Admiração. Desabafo. Surpresa. Confissão. Desagrado. Desejo. Vontade. Insulto. Enfim... pontuação.

 

Deve ser uma das palavras mais versáteis da língua portuguesa, uma das mais úteis e uma que guarda para si um toque de requinte quando e se usada da forma correta e no momento ideal.

 

Soltar um foda-se ao vento quando o trânsito não anda no único dia em que tínhamos de chegar a horas, quando salgamos a comida no dia em que recebemos visitas ou quando as nossas calças de ganga favoritas já não apertam. Ou fazê-lo na cara quando alguém amplamente idiota que insiste em nos dar sermões sobre coisas que não lhe dizem respeito. Ou quando é o último dia para a entrega do IRS e a página das Autoridade Tributária nos dá a rodinha incessante, avisando que está a processar (sendo que não está a processar porra nenhuma). É humano, catártico, digno de honras. Se o Marcelo soubesse, já teria, provavelmente, condecorado a palavra, para que o destaque merecido lhe fosse dado entre a nata da nata portuguesa.

 

Há uma certa beleza em usar a palavra foda-se. Mesmo quando é só porque batemos com o mindinho do pé no canto do móvel. E uma necessidade maior de o usar quando vemos documentários como o Para Sama, tomando contacto com Alepo e descobrindo que o mundo sai das fronteiras dos nossos umbigos. Ou quando os partidos fascistas começam a ganhar destaque na maioria dos países, com os seus ditadores acéfalos a dizer merda em horário nobre...

 

E, deuses!, é muito preciso que se diga foda-se a uma ou outra pessoa que nos trava os caminhos para o bem-estar... e se essa pessoa formos nós, é preciso que o digamos mentalmente, deixando a vida seguir o seu curso e ser o que for.

 

 

Todos os foda-se servem um propósito e é por isso que esta é uma palavra tão bonita e que defendo com tanto afinco.

 

Mas há aquele foda-se. Aquele que sai no momento exato. Com a capacidade de mudar vidas para sempre. De libertar almas. De promover a libertação.  E isto já nem tem só a ver com a palavra mas com a sublime liberdade que nasce de a usarmos no momento certo. É melhor do que um medicamento. Melhor do que uma vacina. Salva vidas. Essa arte de dizer foda-se quando dizer foda-se é a única coisa sã a fazer.

 

Sem dúvida, é hora de deixar de dar palmadinhas na mão das crianças que repetem, sem pensar nem perceber, uma palavra que tanto serve os adultos. É uma palavra de beleza indiscutível e com uma plasticidade que poucas oferecem. Seria a Miss Universo do dicionário, caso o concurso existisse. E ganharia, certamente, dizendo que quer promover a paz mundial. Não por estereótipo. Por ser verdade...

 

 

E sim, eu sei que algumas almas mais afetadas e conservadoras vão achar que este texto era escusado. A opinião é livre. Pensem o que quiserem. Foda-se.


 Marina Ferraz





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terça-feira, 24 de maio de 2022

Sala sem subterfúgio

 


Fotografia de Rui Barroso

Foda-se!

 

Seria capaz de me sentar contigo. Sem televisão. Sem música. Sem telemóvel. Só tu e eu. Sem livros. Sem paisagens bonitas... sem janelas, sequer! Sem pessoas na mesa ao lado, a comentar a atualidade da vida e do mundo. Só tu e eu. Numa sala sem subterfúgio.

 

Olharia dentro dos teus olhos. Longamente. E deixaria que olhasses dentro dos meus. Dos olhos. Da alma. Dos espelhos da alma, que invertem e mancham as perfeições todas do imaginário. Olharíamos só. Demoradamente. Para sempre. Nunca me cansei dos teus olhos. Nunca me cansaria dos teus olhos. Nunca me cansei das tuas conversas e nunca cansaria... E muito menos do teu riso. Esse, que acentua as ruguinhas breves que te emolduram os olhos. Aí, nessas portadas de céu e infinito do teu olhar...

 

Penso. Numa sala sem subterfúgio. E soa perfeito. Se fores tu e eu. Só tu e eu.

 

 

 

As pessoas sabem pouco sobre o amor. Desde que o amor passou a englobar todas as palavras. As pessoas sabem pouco sobre o amor.

 

É natural! Quando o amor se faz com swipe right. Os jeitinhos sentimentais são extrapolados. O sentido de posse determina os sentimentos. A presença é pimenta nos sentidos, que se esquecem – sem sabor – na distância. É natural que saibam pouco... que não saibam nada sobre o amor! Quando o amor se faz... – que expressão tão estúpida “fazer amor”! Se o amor se fizesse, também se desfazia. E depois?! Não era amor... não é amor...

 

Perdoem-me. Não acredito no amor da maioria. Nem na maioria dos humanos que fala de amor. Nem que exista algo de humano na maioria das pessoas que conspurca a palavra. Sinto bafio agarrado ao amor de muitos. E ignorância. E sinto-os – entendam – pelo abuso do “ter”, do “querer”, do “eterno”, do “estar”, da “fidelidade”. Como se amar tivesse algo de posse, de egoísmo, de comparência ou de castidade-patriarcalmente-instituída...

 

O amor em que eu acredito é aquele no qual as pessoas podem sentar-se. Sem mais nada. Numa sala sem subterfúgio. Olhar nos olhos do outro, sem estranheza. Não sentir falta de mais nada. Não precisar de pousar olhos em elementos externos, nem de deixar a mente vagar por pensamentos distantes. Estar.

 

O amor em que eu acredito é aquele no qual uma pessoa pode sentar-se sozinha. Sem mais nada. Numa sala sem subterfúgio. Sem que o outro esteja, se ele não quiser estar... Sentindo-lhe a falta. Mas sabendo largar, libertar. Desejar-lhe a felicidade e estar em paz.

 

 

Foda-se.

 

Seria capaz de me sentar contigo. Sem televisão. Sem música. Sem telemóvel. Sem livros. Sem paisagens bonitas... sem janelas, sequer! Só tu e eu. Numa sala sem subterfúgio. Mas, meu amor. Também sou capaz. De me sentar sozinha nela, para não atrapalhar o curso dos teus dias.

 

Ficarei. Imaginando, sem ver, o teu sorriso, que acentua as ruguinhas breves que te emolduram os olhos. E, de imaginar-te assim. A sorrir. Essa sala sem subterfúgio soa perfeita. Porque posso ser só eu. Eu nessa sala. Se tu fores feliz.


 Marina Ferraz





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