terça-feira, 9 de agosto de 2016

O problema do mundo



Veio um atentado
E toda a gente se esqueceu
Dos problemas políticos

Veio a doença
E toda a gente se esqueceu
Do atentado

Veio a guerra
E toda a gente se esqueceu
Da doença

Vieram os refugiados
E toda a gente se esqueceu
Da guerra

Vieram os problemas políticos
E toda a gente se esqueceu
Dos refugiados.

O problema do mundo
Não é o ciclo
São as pessoas que se esquecem



Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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terça-feira, 2 de agosto de 2016

Viver sem ti



Tem sido difícil viver sem ti. Quando acordo, com o beijo do sol e o calor da manhã. Quando pouso os pés na madeira limpa do soalho. Quando canto fado no chuveiro. Às vezes, sorrio. E, depois, lembro-me que não devo sorrir. E repito: tem sido difícil viver sem ti.
Tem sido difícil sair à rua. Saltar de pedra em pedra, feito criança, brincando ao jogo das cores. E palmilhar as ruas sem destino, à procura dos sonhos nos recantos entre os azulejos toscos e as rachas das paredes. Não ter hora para voltar. Não ter compromisso que me prenda. Fico a ver o mundo que passa e o rio que corre. O trânsito que flui. Às vezes sorrio. E, depois, lembro-me de que não devo sorrir. E repito: tem sido difícil viver sem ti.
Às vezes chego inesperadamente depois das sete a casa. E abro a porta sem cuidado. Chego depois das sete. Mas nunca chego atrasada. Não há horário. Nem hora certa. Nem obrigações. Entro em casa, dispo-me a caminho do quarto. Uso a minha camisola velha e os calções de desporto. Os pés nus no soalho. Ponho a rádio na estação de músicas lamechas e salto do sofá quando as baladas dão lugar a uma música dançável. Faço desfiles pelos corredores. Janto morangos com chocolate negro. Às vezes sorrio. E, depois, lembro-me de que não devo sorrir. E repito: tem sido difícil viver sem ti.
A minha mãe liga às terças e quintas. Na sua voz, a comiseração cortada e contada nas frases do costume: “não precisas de nada?”; “estás bem?”; “tens de aguentar firme!”. Aos fins-de-semana, os amigos arrastam-me para os bares. E repetem, feito oração, as premissas do costume: “tens de superar!”; “eu sei que não estás bem, mesmo que digas que sim…”; “depois de uma montanha, espera uma maior.”.
Eu olho ao espelho. À procura da dor. À procura da solidão. À procura da vergonha. Mas tudo o que vejo sou eu. Ponho a língua de fora. Sorrio. E, depois, lembro-me. Não devia sorrir. Devia chorar. Dizer que tem sido difícil viver sem ti. E talvez seja. Mas sabes? Foi mais difícil viver sem mim quando estava contigo.
Sorrio. E não tenho vergonha de sorrir. Tem sido perfeito viver sem ti.


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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terça-feira, 26 de julho de 2016

(Nunca) Para Sempre



Ela disse “para sempre”. E eu senti. O arrepio. Quase como se a vida se tivesse rido no meu ouvido. Quase como se ela tivesse aceite, ali, naquele momento, o desafio. E as palavras somaram-se. Ela acrescentou “nunca”. E eu soube. Ia acontecer.
Não foi no primeiro dia, nem no segundo. Quiseram os ventos. Quiseram as marés. Não foi no terceiro. Nem no quarto. Nem na primeira semana. Nem no primeiro mês. É a coisa mais engraçada de todas: “para sempre” é um tempo tão longo, que não será um ano a provar coisa alguma. Então, durante muito tempo, ela pensou que tinha razão. “Nunca”. E disse-o mais vezes. E mais vezes me arrepiei, no riso mudo da vida ao meu ouvido.
Calei-me. Desejei-lhe sorte. Mas não acreditei. Sou uma crente obstinada de quase tudo. Tenho mil Deuses. E acredito neles devotamente. Invisíveis e silenciosos como são. Acredito nos sins e nos nãos e nos talvez. Acredito até nas pessoas, ocasionalmente. Existem, no mundo, duas coisas em que não acredito: no “nunca” e no “para sempre”. Porque não sabemos quanto tempo é “nunca” e não sabemos quanto tempo é “para sempre”. E, seja quanto tempo for, é tempo demais para que o possamos definir numa certeza.
Um dia, ela bateu-me à porta. Chorando. E disse que o para sempre tinha acabado. Não o disse assim. Disse simplesmente “acabou”. Ninguém usa noções temporais indefinidas quando está triste. Só as definidas. Ontem. Hoje. Amanhã. Mas não se querem indefinições onde já há incertezas. Não se querem incertezas quando já tudo é incerto.
Podia ter-lhe falado do riso da vida. Mas não falei. Porque ela não o tinha ouvido por entre os seus próprios risos eufóricos, semeados entre o “nunca” e o “para sempre”. E não lhe falei do arrepio porque ela o tinha agora impresso na pele arranhada pelo fim dos amor. Feridas que haviam de se tornar cicatrizes um dia. Cicatrizes que haviam de a incomodar por muito tempo. (Para sempre? Quem sabe…).
Disse-me que não havia “para sempre”, disse-me que não havia “nunca”.
E disse-me que nunca tinha dito “nunca”.
E disse-me que nunca tinha dito “para sempre”.
Dei-lhe um abraço. “Claro que não”, retorqui. E começámos novamente um rol eternidades. Só as duas. Porque a amizade é mesmo assim e amanhã é outro dia. E ela havia de voltar a acreditar no para sempre. E eu havia de lançar à vida um olhar de escárnio quando ela se risse. E a vida havia de me perguntar se eu não achava ridículo. E eu havia de dizer-lhe que a coragem de acreditar no improvável não era nada ridícula… que o ridículo morava na inveja da vida que, sabendo-se eterna, perdia o seu tempo a negar aos outros uma eternidade humana, tão pequena quanto os anos que vão do berço à sepultura.
Gosto de imaginar que vida se ofenderia com estas palavras. (Mas quantas piores ouviu já?). Caso se ofendesse, quem sabe virasse olhos por alguns momentos. Para vida, que é imortal, alguns momentos podem ser humanas eternidades toscas. E ela diria “para sempre” e talvez a vida não visse. Talvez a vida não tivesse o ímpeto do riso. Talvez ela não aceitasse o desafio. Talvez ela pudesse ser feliz para sempre.


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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terça-feira, 19 de julho de 2016

Deixa-o entrar



Vai abrir a porta ao sol. E a janela. Deixa-o entrar. Com os seus raios, espero a alegria. Da alegria faço a flor que planto na jarra. Condenada à morte precoce pela separação das raízes. Mas deixa entrar o sol. E deixa que ele traga a felicidade. E a vida. Para beijar o rosto florido da morte que o espera dentro das paredes frias da casa. Vai. Vai abrir a porta ao sol.
Não tardes. Abre as portadas. As janelas. As cortinas. Chama-o. O sol. Convida-o a entrar na sala onde a jarra ostenta a flor que, exultando o aroma da manhã, acentua já a chegada das noites sem retorno. Não tenhas medo que ele entre. Ao entrar, cada sombra será brilho. Do brilho podes tirar a receita do amor que te leva a regar a morte, como se a consciência que te pesa lhe retardasse o desvanecer da última pétala caída. É um poema do romantismo. Meio agreste, meio tosco, cheio de floreados em torno do que perece e fica espalhado no chão, debaixo do chão, feito em cinza. Vai abrir a porta ao sol. Deixa-o entrar.
No teu jeito sem jeito e na tua postura errónea de coisas incompreendidas. Não sabes o que fazer. Mas eu sei. E digo. Vai. Vai abrir a porta ao sol. E a janela. E qualquer espaço por onde os raios amarelados do tempo possam penetrar as frestas e encandear os olhos cegos do inesperado. Não queiras ser escuridão, se é a luz que te beija a pele. Deixa entrar o sol. Na tua casa. Na tua alma. Deixa-o beijar a jarra onde a morte se faz promessa e a beleza se faz castigo. E aprecia a tonalidade carente do amanhecer que te nasce nas paredes e que as pinta, salpicando-as de sombra e sonho, como se fossem uma coisa só. Vai. Vai abrir a porta ao sol. Deixa-o entrar.
Não tenhas medo. Respira. O ar. Dentro. Fora. Além de ti. Respira. Respira e vai. Vai abrir a porta ao sol. Deixa que ele afaste o que fica entre a beleza perene e a angústia permanente do que não pode sair pela porta pela qual, agora, entra o sol. E agradece a porta aberta. Agradece a janela aberta. Agradece as mãos que te deixaram abri-las. Agradece que elas abram. Agradece a alma que te prende a ti. Agradece ao sol que entra, mesmo sem convite, para te aquecer a frieza do desassossego triste.
Vai. Vai abrir a porta ao sol. E a janela. Esquece a amargura. Esquece a raiz. Esquece a jarra. Porque o sol que entra não me aquece. A raiz foi cortada. E a flor sou eu.


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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terça-feira, 12 de julho de 2016

Desenlace



O sonho, a fé, a ilusão:
Bebeu-os de uma só vez.
De tanto cair no chão
Foi chão que um dia se fez…

Mesmo de rojo, sonhando,
Não abriu mão do querer:
Arrastou-se mas levando
O tanto que podia ser.

Ferida aberta ou cicatriz
Esse ir sem saber aonde,
Caminho que não se diz,
Questão que não se responde.

Por assim olhar, do chão,
O tanto que queria perto,
Cegou o seu coração,
Peito rasgado e aberto.

Sentiu o sono chegar
Nessa ilusão da tortura.
Sorriu sem acreditar,
Um sorriso que não dura…

Esqueceu-se de sentir
E nem sequer quer saber
Se fecha os olhos para dormir
Ou se os fecha p’ra morrer…

Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet


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quarta-feira, 6 de julho de 2016

Carta aberta do meu amor por ti



Eu sonhei – amar. Todas as meninas sonham – amar. É um sonho comum – amar. Desses que se vendem nas capas das revistas. Desses que se semeiam nas páginas térreas dos livros de cordel. Desses que se fingem atrás da câmaras de cinema. Era cliché. Mas não importava. Eu sonhei – amar.
Amei. De tão forçada a noção intemporal do amor. Procurei-o com fervura. Afundei as mãos nos recantos mais inusitados, tentando arrancar, até do fundo pantanoso da vida, algo que se parecesse vagamente com o amor. Mas disseram-me. Várias vezes. Eu sei que sonhas – amar. Todas as meninas sonham – amar. É um sonho comum – amar. Mas olha, pequena, o amor é uma palavra que agoniza na beira da morte. O dia de hoje é veneno. A nossa época é veneno. E não há cura. Disseram-me, assim, que estava condenada. À morte. Não à minha, mas à do sonho. Esse sonho que eu sonhava tanto – amar.
Encontrei. Abraços. Beijos. Alcovas. Corpos que, vestidos ou nus, sempre me disseram o mesmo. O que eu já sabia. Era um sonho sem razão – amar. E confidenciei, nos teus ouvidos, a mágoa. E tu disseste que não. Não era impossível – amar. Meu triste amigo. Fiz missão de tentar explicar-te o que eu já entendera. O amor era um espectro agonizando nas catacumbas da Terra. E cada onda do mar era um soluço. Cada gota de chuva era uma lágrima. Cada trovão era um grito. Desse amor. O que estava morto no nosso tempo.
Negaste. Disseste que intercalava a vida entre dois momentos: os da ilusão cega e os da frieza excessiva. Se te dizia que nunca mais ia amar, falavas da ilusão – assim – “não amaste ainda”. Se te dizia que não havia amor, falavas da frieza – assim – “não amaste ainda”. E quando o dizias acordavas o sonho. Porque eu sonhei – amar. Todas as meninas sonham – amar. É um sonho comum – amar.
Sem nos olharmos no rosto, fomos palavras que se somavam e dias que se perdiam. Aprendi, de ti, que também tinhas um sonho – amar. Meu triste amigo. Quem me dera ter sabido ali. Mas estava tão ocupada a enterrar as mãos no chão pantanoso da vida que não desconfiei, sequer.
Foi uma construção feita em parcelas. Como um castelo de cartas – janelas abertas e sopros inusitados – a frequência instável das quedas. Passo a passo, entre o teu sonho e o meu. Era o meu maior sonho – amar. Era o teu maior sonho – amar. É um sonho comum – amar. Mas o amor… não tinha o amor morrido?
Descobri que não quando o teu sonho encontrou o meu e lhe chamámos nosso. Redescobri-te atrás do rosto onde, tanto tempo, tinha estado apenas o meu melhor amigo. Percebi. Por fim. O amor não estava a definhar, envenenado pelo hoje. Estava a tomar forma nos laços. A dar nó nos laços. A criar entre nós a chama que não queima e a ferida que não incomoda.
Era o meu maior sonho – amar. Era o teu maior sonho – amar. Éramos o sonho um do outro.
Às vezes, a dúvida bate à porta. São as dificuldades. É a mágoa. É o desconforto. Fruto de anos de vida que nos pesam e nos confundem. Por segundos. Mas viram costas e partem. Por três anos não fizeram mais do que virar costas e partir.
És tu e eu. Não cabe nada no espaço entre o nosso abraço. Nada além do sonho. O meu maior sonho. E o teu – amar. Mas não só amar. Amarmo-nos… É um sonho que acorda e se faz real – todos os dias.  



Marina Ferraz




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terça-feira, 28 de junho de 2016

Era tudo perfeito



Era tudo perfeito. Um dia de Verão. Sem nuvens. Sem vento. Só o abraço gentil da brisa ocasional, que agitava os cabelos e as copas das árvores. Ele sorria. Ela sorria. Sorrisos feitos de serra. Sorrisos feitos de mar. Sorrisos feitos de amor. E, caminhando lado a lado, deixavam roçar, de volta em vez, as costas envergonhadas das mãos que queriam dar-se, mais e mais, no avanço da tarde.

Era tudo perfeito. Um toque de maresia no ar. Um toque de perfume no pulso. Um toque de brincadeira nos lábios que ainda não se beijavam. O som constante da inocência amigável de um amor sem compromisso, a querer comprometer-se para viver, depois, o dia a seguir e o resto da vida.
Era tudo perfeito. A pele queimada do sol, irradiando o brilho e a luz. Os olhares carentes, de relance, nas conversas mais ocasionais, cujos assuntos saltitavam e se faziam tema de canção. E ela amava-o. E ele amava-a. E o mundo, habitualmente tão cruel, estava ocupado a olhar para outro lado e não lhes perturbava o amor.

Era tudo perfeito. As mãos deram-se a medo, na proximidade do pôr-do-sol e o beijo alaranjado do fim de tarde selou-lhes o contrato escrito em olhares e promessas mudas. Abraçaram-se até que o abraço os uniu num corpo só. E pertenceram um ao outro, como ninguém pertence a ninguém. Eram finalmente livres. 

Era tudo perfeito. Tão perfeito que ninguém o sabe. Tão perfeito que ninguém o conta. Tão perfeito que nem sequer vale a pena escrevê-lo.

Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet


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terça-feira, 21 de junho de 2016

O casaco velho



Para a minha mãe

Deixámos, dobrado no armário, o teu casaco. Se o viste, não lhe pegaste para te desfazeres dele. Se lhe tivesses pegado, com tal intenção, eu não teria deixado. Está velho, gasto, cheio de borboto. Fica-te largo... tão largo que caberíamos as duas dentro dele. Tem a manga queimada na ponta e, na verdade, ambas o sabemos: já pusemos de lado peças de roupa em melhor estado.

O teu casaco não é bonito. No padrão desbotado, em tons de azul escuro, vermelho, bege e o que mais for, o teu casaco faz lembrar um filme antigo e realizado por pessoas sem olho para a moda. Refiro-me a ele como o teu casaco «"tricotiado" por um cego»... erro incluído, para sublinhar o facto de que, se tivesse sido simplesmente tricotado, não poderia ser tão malparecido.

O teu casaco parece ter sobrevivido, inválido e irreversivelmente condenado, a uma guerra qualquer. Olhando para ele, qualquer pessoa concordaria. Mas, se o dissessem, diriam com ironia. Não o diriam como eu. Porque eu sei (e tu também): aquele casaco sobreviveu a coisas piores do que a guerra. Sobreviveu a discussões, mágoas, tristezas, decisões amarguradas, conversas doloridas, notícias irreversíveis e penosas. Mas sobreviveu. Sobreviveu sempre.

O teu casaco viu-me crescer. De menina, a adolescente. De adolescente, a jovem. De jovem a adulta. Viu quando me aconselhaste. Viu quando me repreendeste. Viu quando me elogiaste. Ele sabe que acreditas mais em mim do que ninguém, embora também saiba que, por vezes, te inquietam as minhas decisões e as minhas atitudes. Ele estava lá. Envolveu-me muitas vezes, através do movimento ténue dos teus abraços. Absorveu muitas das minhas lágrimas. Deixou que nele pousasse a cabeça para me fazeres festinhas ao de leve sobre o cabelo rebelde.

O teu casaco acordou-me muitas manhãs. Sabe que não ligas a luz. Sabe porquê. O teu casaco ajudou-me a fazer trabalhos para a escola e para a universidade. Conhece a minha obra poética quase de cor, de tanto ouvir, ler, reouvir e reler textos e poemas. Por vezes, nessas penosas sessões literárias, julgou-te dona da maior paciência do mundo. Mas ele também já viu a tua paciência voar, quebrar, ser outra coisa. E, nas casas largas dos seus botões, aposto que já teve vontade de se esconder dos teus momentos de mau humor.

Não. Nunca te teria deixado dar o teu casaco-de-guerra. Tê-lo-ia resgatado. De todas as peças de roupa que acumulas no armário, não existe nenhuma que defendesse desta forma. Mas o teu casaco velho, gasto, cheio de borboto, largo e com a manga queimada na ponta... esse eu defendo!

Já te vi aperaltada: com as roupas mais bonitas, de saltos altos e até com maquilhagem. Já te vi no teu dia-a-dia: com o teu estilo clássico e casual, convidativo e elegante. Já te vi com roupa que cobicei (e até herdei). Mas a imagem que guardo de ti, quando na ausência te imagino, é a usares esse teu casaco velho. Porque essa imagem de ti, dentro do casaco feio, é a mais bonita de todas. É a imagem do conforto, da casa, do conselho amigo. É a imagem de um beijo, do sossego, do carinho. Essa imagem dá-me o aconchego de um abraço forte. Tem o teu cheiro. O teu calor.

Imagino-te na cozinha, meio contrariada, a enumerar as tarefas que ainda faltam para o dia ou a reclamares da falta que faz a ajuda que não queres nem aceitas. Imagino-te na sala, com os óculos na ponta do nariz a coser roupa, enquanto lanças à televisão olhares furtivos. Imagino-te sentada na minha cama, a ouvires os meus textos e poemas, enquanto ajeitas incessantemente as almofadas que, por mais direitas que estejam, nunca te fazem a vontade. Imagino-te a entrares no meu quarto, com um sorriso aberto, para me dares um beijo no nariz e dizeres "boa noite, até amanhã". É uma imagem verdadeiramente bonita de ti. Uma imagem que nunca fica velha, nem queimada, nem fora de moda. Uma imagem de amor incondicional, na qual, sei lá porquê, estás dentro desse casaco.

Eu sei. No seu âmago, o amor que tenho por ti não tem nada a ver com o casaco velho, largo, queimado nas mangas. Mas eu também sei que, se aquele casaco falasse, ele poderia dizer muito sobre este amor. E poderia fazê-lo justamente por isso: porque, à medida que desbotava, alargava e se estragava, ele estava lá. Esteve lá o tempo todo. Nos abraços, nos beijos, nas lágrimas, no consolo, nos serões de poesia, nas discussões intermináveis, nas decisões fundamentais. Estava lá no nosso melhor e no nosso pior. Viu, quando mais ninguém o poderia ter visto, que viesse o que viesse, independentemente de tudo, estávamos lá uma para a outra. Não éramos, nunca fomos, apenas mãe e filha. Para mim sempre foste o ombro, a amiga, o "para sempre" em que eu acreditava mesmo quando não sabia acreditar. E o casaco? O casaco não fez com nada disto fosse assim. Ele apenas viu. E, por ter visto, na sua passividade quieta, ele sabe mais sobre nós do que qualquer pessoa.

Assim, embora o casaco não esteja no centro do amor que tenho por ti; o amor que tenho por ti está cravado no padrão estranho desse casaco. E está lá por isso mesmo: Porque está velho, gasto, cheio de borboto. Porque te fica tão largo que caberíamos as duas dentro dele. Porque, na verdade cabemos as duas dentro dele e estamos as duas dentro dele, nas memórias que ele traz de nós.

Deixámos, dobrado no armário, o teu casaco. Está velho, gasto, cheio de borboto. Mas o que importa não é como ele está. Importa o que ele é. E ele é um bocadinho como o amor que nós sentimos: estará sempre lá, confortável e perfeito, para nos aquecer nos muitos Invernos da vida.


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet


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terça-feira, 14 de junho de 2016

As terras da igualdade



Vivo nas terras da igualdade. Aqui, não se olha a posses, nem a roupas, nem ao tamanho. Não se olha a nomes. Nem a distinções.
Vivo nas terras da igualdade. Dentro das suas fronteiras não há separações. No seu centro não se categorizam pessoas como se fossem objetos. Somos todos feitos da mesma matéria. Somos todos olhados da mesma maneira. Sem distinções.
Não duvidem: existem. São as terras da igualdade. Essa que se debate nos canais televisivos e que os sociólogos dizem ser impossível. Não é. Existe. Vivo lá. Nas terras da igualdade, onde não se usam separadores entre as pessoas, para as associar a este ou a outro grupo.
Vivo nas terras da igualdade. Seja rico ou pobre. Gordo ou magro. Branco, negro, mestiço. Saudável ou doente. Católico ou pagão. Nacional ou estrangeiro. Não importa. São todos iguais. Dizem mal de todos.
É verdade. Mal. Olham todos com o mesmo desprezo e de todos constroem histórias que contam, em surdina, assim que, de costas voltadas, fazem cessar o medo das represálias. E não medem a forma como dizem as palavras – essas que também são iguais, sejam verdade ou mentira. E vão por aí, sem fazer distinção. Dizem mal de todos. Na mesma medida. Frequentemente pelo mesmo motivo. Por vezes alterando, na semântica e no tom apenas algumas nuances para que não se denuncie a pequenez de espírito.
Vivo nas terras da igualdade. Ninguém escapa à rotina da palavra lançada em tom de boato. Não importa a condição nem a conduta. Espezinham-se gentes sob os pés alheios. Toda a gente é juiz. Toda a gente é vítima. Toda a gente é carrasco.
Sim. Elas existem: as terras da igualdade. São feitas desta linha de tear desgostos. E nelas se enlaçam mentiras e verdades, até que se fundem num único momento de aspereza onde todos são igualmente miseráveis.
Vivo nas terras da igualdade. Vivemos todos sob o olhar atento da censura. Morremos todos sob o olhar atento da cidade. E ganhamos todos, com a morte, uma condição de pureza que, em vida, nos foi negada.
Na minha terra é essa a excepção. Todos são maus. Todos são condenáveis. Todos merecem sofrer. Excepto o morto. O morto é a melhor pessoa do mundo.



Marina Ferraz


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terça-feira, 7 de junho de 2016

O monstro




Lembro-me concretamente das palavras que alguém disse à minha mãe: "Estás a criar um monstro."

O Monstro era eu.

Naqueles tempos, eu ainda era feliz. Não me lembro de não o ser. No canto poeirento da minha solidão, eu tinha castelos e amigos imaginários. Voava. Era uma sereia. Era uma fada. Era um universo tão cheio de coisas que não me apercebi. Não sabia que, por entre a fantasia e a ilusão, me podia estar destinada a mágoa. Não sabia que era um monstro.

Eu não sabia. Mas alguém soube. Disse-o à minha mãe. E ela, que me amava, discutiu mas não contradisse. Também sabia. Talvez soubesse porque, no fundo, éramos o mesmo tipo de monstro. Ou talvez o soubesse porque via em mim os traços que me afastavam do resto do mundo. Fosse como fosse, antes de eu saber, os outros já o diziam.

O Monstro era eu.

Nos lugares onde passei, ouvi-o. "Pareces um monstro", disseram-me alguns, em palavras que não estas. Disseram-mo enquanto troçavam da minha aparência, das minhas dificuldades, das minhas manias e dos traços que me faziam ser eu. As palavras mudavam mas a mensagem era essa. "Pareces um monstro". Atiravam-me as esperanças do amanhã para o fundo do poço. Varriam-nas para debaixo da cama. Tentei explicar mas troçaram também da explicação, por julgarem que o vazio morava nos traços das explicações. Ninguém ouve as palavras de um monstro.

Cresci. Crescer significou olhar ao espelho e ver o que me diziam que eu era. E tentei dizer a mim mesma: "Além de monstro, és pessoa. Não desistas de ti." Mas, em alguns momentos, desisti. Tentei loucamente ser como os outros. Tão loucamente que a loucura soou e se disse por aí que a minha estranheza me fazia ser um sem fim de coisas. Todas as coisas reduzidas, nos meus ouvidos, à mesma palavra de sempre. Monstro.

O Monstro era eu.

O meu coração tornou-se o meu melhor amigo. Disse ao meu coração, muitas vezes: "o amor vai resolver tudo." Acreditei profundamente nisso. Mas o amor não foi mais do que uma estrada para lugar nenhum. Apaixonei-me. Vezes sem fim. Na maioria das vezes, não houve quem retribuísse o que eu sentia. Houve apenas quem fizesse de mim criança outra vez e se risse no meu rosto.

Mas vivi o amor. Viver o amor significou cair. E imprimiu-se na minha pele. A dor. A mágoa. O abandono. A saudade. No espelho, devolvia-me o olhar alguém que não sabia sorrir. Alguém que não sabia sonhar. Alguém que não queria desistir do que sentia. Presa. Atada ao solo da realidade mais sórdida. O monstro precisava de amor.

O Monstro era eu.

Amanhece todos os dias, para toda a gente. Em alguns dias, o sol também nasceu para mim. Também me beijou. Fez-me sorrir. Descobri que há quem ame. Até os monstros.  Houve braços que me envolveram, mesmo sabendo quem eu era. Sim... algures, alguém descobriu. O monstro tem coração. Um coração que bate e sente e sofre. O monstro também é pessoa.

Toda a gente mo disse mas ninguém o sabe.

O Monstro sou eu.


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet


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