terça-feira, 5 de abril de 2022

O crepitar do fogo

 


 Para o meu pai


 

Eu não sei se ouviste o crepitar do fogo. Mas é inegável. Esse que acalenta e queima. Chama de vida ou condenação. Eu não sei se ouviste o crepitar do fogo, mas ele está eternamente plantado na tua alma.


 *


Menino descalço. Caracóis meio alourados, pé na terra. Senhor de muitas artes que se converteriam em talentos. Olhos verdes. Tinha a rocha e o ferro como sobrenomes. Nascera sob a regência do fogo. Carneiro de signo e homem de essência. Destinado a cuidar dos outros.

 

Se lhe perguntassem, naqueles dias, era feliz e leve. O sol africano beijando-lhe a pele nua e trigueira. A família rindo, por entre dificuldades e histórias da Metrópole longínqua. O sabor do coco no Caril e do amendoim na Moamba. As carabinas pousadas na porta, brinquedo inegado e destinado à caça...

 

Provavelmente ele não ouvia o crepitar do fogo. Mas, nesse tempo, criança selvagem, aprendendo a ser gente, ele já estava lá, dentro da sua alma contente com os dias.

 

Os desígnios das Florestas são sábios, mas o homem é imaturo e tonto. Se, dos ciclos da Mãe retira sabedoria, dos ciclos da sua espécie faz tortura. O ciclo é o mesmo. Tudo vive. Tudo morre. Um dia, ainda jovem, entrou-lhe o ciclo da morte pela porta da casa cuja porta nunca se fechava. Ficou sem pai. Lançando sobre os irmãos e a pobre mãe o olhar abnegado, verde como a copa dos embondeiros, e alicerçando a vida nos ombros, largos como o tronco dos embondeiros, tomou a obrigação por sua. Cuidar. Cuidar como o fogo cuida das gentes, protegendo-as e alimentando-as.

 

Provavelmente ele não ouvia o crepitar do fogo. Mas, nesse tempo, jovem adulto, aprendendo a ser pai-sem-ser, ele já estava lá, dentro da sua alma lutadora.

 

Pegou nas armas e lutou na guerra. Disparando armas de fogo. Gente contra gente. Nunca acertou em ninguém. Diz. Foi sempre a arma do colega, do amigo, do outro soldado. Cumpriu o papel. Esse. De defender o indefensável. Depois, no mês do seu nascimento, alguém colocava um cravo rubro numa espingarda... e as verdes colinas viravam sete colinas... e a condição de homem virava condição de cidadão de segunda. O fogo disparado pelo cravo foi, talvez, a bala mais cruel. Tinha as roupas do corpo e não era, já, a criança despida. Nem criança. Nem despida. Mas era só o que restava de tudo o que um dia tivera, pé no chão e riso à mesa cheia...

 

Provavelmente ele não ouvia o crepitar do fogo. Mas, nesse tempo, retornado, aprendendo a aceitar as circunstâncias, ele já estava lá, dentro da sua alma descontente.

 

Apaixonou-se. Apaixonou-se por uma mulher que era toda Floresta. Selvagem. Precisou de a segurar num banco, cativa sob a chuva copiosa, para a convencer a marcar uma data para o casamento. Jovial, cavalheiro e charmoso, foi com ela que construiu uma família, sem se deixar assustar pelo sogro, que lhe mostrara a arma da caça antes do “bom dia” ou pelo olhar da sogra, ave atenta a todos os seus movimentos, estendendo a asa sobre a menina, filha única e de temperamento rebelde.

 

Provavelmente ele não ouvia o crepitar do fogo. Mas, nesse tempo, adulto em princípio de vida, aprendendo a pessoa que nascera para ser, ele estava lá, dentro da sua alma feliz.

 

Nasceriam três filhos desse amor. Por entre viagens, que o levavam de volta à terra alegre de seu nascimento, onde já não pertencia, trazendo-o de volta à terra da seriedade de um povo triste, onde não sentia pertencer. Pertenceu, então, aos seus. E quis dar-lhes tudo o que não teve, com o mesmo fogo que o levara a fazer tudo o resto. Tempestades e bonança. Idas e regressos. Palavras e silêncios. Todos condensados em momentos breves, de cavalitas à mais pequena, conversas sérias com os mais velhos...

 

Provavelmente ele não ouvia o crepitar do fogo. Mas, nesse tempo, envelhecendo, sendo sem se questionar e questionando tudo o resto, ele estava lá, dentro da sua alma madura.

 

*


Eu não sei se ouviste o crepitar do fogo. Mas é inegável. Esse que acalenta e queima. Chama de vida ou condenação. Eu não sei se ouviste o crepitar do fogo, mas ele está eternamente plantado na tua alma.

 

Toma a forma de força, ainda que ganhe beleza nos momentos de fragilidade. E tem um toque de calor que vem naquele abraço, meio corrido, sempre que chego e saio.

 

Trago no sangue a tua África – fogo que ouço crepitar em ti – e a tua história, que é contada pelos estalidos dessa lenha que arde e arde e arde... e te faz inteiro no mundo.

 

Aprendo, contigo, a ser como o embondeiro, embora os meus olhos não tenham o verde das copas. Os meus ombros terão, por certo, a largura dos troncos...

 

Disparo as armas. Não as de fogo, mas outras. Luta permanente pelos meus dias, que tentam verter-me o sangue – que é também teu – de tantas formas inusitadas e mordentes. Venço sempre. Porque perder não é opção...

 

Eu não sei se ouviste o crepitar do fogo. Eu ouço. Porque o teu fogo crepita ao ritmo do meu. Tens rocha e ferro no apelido. Eu tenho a dádiva e o ferro, esse que vem de ti e é teu. Somos forjados a fogo nas histórias dos outros. Esta, que é tua, também é minha.

 

Avanço descalça pelo chão. Honro a Natureza, que é Mãe. Conto-lhe que o meu pai és tu. Ela diz que talvez não ouças o crepitar do fogo. Esse que mora na tua alma. Sossego-a e digo que não importa... eu ouço!


 Marina Ferraz





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terça-feira, 29 de março de 2022

Péssima influência

 

Fotografia de Raul Pinto


Eu sou uma péssima influência. A sério. Sou mesmo. Tanto que se tiverem filhos, sobrinhos, irmãos mais novos ou afilhados, eu recomendo vivamente que não os deixem conviver comigo. Eu sou uma péssima influência.

 

 

Para começar, defini a totalidade do que eu queria ser profissionalmente com 6 anos e nunca mudei de ideias. Presa à arte da escrita, desenvolvi o traço casmurro de teimosia e obstinação, que sobreviveu a muitos conselhos e tentativas alheias para que orientasse as velas do barco para o que convencionalmente se chama “um trabalho normal”. Não o fiz. Mesmo quando, com o primeiro ano de doutoramento terminado e uma média invejável, podia ter rumado para esse futuro de luz, insisti na deixa antiga. Essa de querer ser feliz. Ou miserável. Desde que fosse a escrever.

 

No processo de lutar para conquistar a vida que eu queria – e não a que queriam para mim – habituei-me a usar o dicionário sem reservas. Das palavras pedantes, conheço quase todas. Sei os termos mais eloquentes. Mas, no fundo do meu âmago, acho execrável falar apenas com esses termos hialinos, sectários, que tão pouco definem a minha idiossincrasia, pelo que considero inócuo o recurso aos impropérios... Sim, digo palavrões! Não tenho medo de palavras, perdoem-me! Além de achar que uma asneira no momento certo pode ser adequada, também acredito que mandar alguns filhos da puta para o caralho que os foda está entre os maiores prazeres da vida.

 

Lá está: sou uma péssima influência.

 

Soma-se, ao já referido, o facto de estar muito consciente de que só tenho uma vida. Isto manifesta-se de vária formas. A primeira, com alguma ausência de restrições no que respeita aos prazeres mundanos. A segunda, com a aniquilação dos medos, em prol das experiências novas e emocionantes. A terceira com o modo como me esquivo de criar opiniões sobre coisas que não me afetam diretamente, evitando que a minha existência colida com a dos outros. Todas elas causam estranheza aos comuns mortais. Eu sei. As pessoas gostam da moderação, das fobias e de meter o bedelho em coisas que não lhes dizem respeito. É quase tão difícil para elas ter uma vida que não colida com a vida dos outros como para alguns condutores fazer a IC19 sem terem um acidente na curva do Palácio de Queluz...

 

Há ainda aquele defeito desequilibrado, conveniente de recordar, principalmente no trato com as pessoas das quais mais gosto. Falo, obviamente, do facto de me esquecer frequentemente da palavra “não”. A ponto de perder horas de sono para garantir que todo o meu trabalho está feito e que, mesmo assim, não estou a falhar com os outros. Gerador de olheiras profundas e de uma constante sensação de cansaço, este traço não é, certamente, exemplo que se dê. Comprova, assim, mais uma vez, a má influência que eu sou.

 

Eu sou uma péssima influência. A sério. Sou mesmo. Tanto que se tiverem filhos, sobrinhos, irmãos mais novos ou afilhados, eu recomendo vivamente que não os deixem conviver comigo. Eu sou uma péssima influência.

 

Só que acontece que, das crianças em cuja formação estive presente, nenhuma se tornou um adulto tão disfuncional como eu. Sabem o que querem e lutam. Têm bons projetos de futuro. Sabem todas as asneiras do dicionário, mas também sabem usá-las sabiamente e apenas nas alturas corretas. Sabem estar em qualquer lugar e percebem que devem agir de acordo com a situação, mantendo a postura nas festas mais elitistas e comendo o frango de churrasco à mão nas festas de aldeia em agosto. São idealistas, trabalhadoras e resilientes. Responsáveis e preocupadas com os outros. São, no fundo, boas pessoas...

 

Olham para mim. Riem-se. Dizem que sou uma péssima influência. Porque sei ser. Mas também sei baixar a guarda e ensinar-lhes que podem ser elas mesmas num mundo que nos nega isso todos os dias. Explicar-lhes que o “normal” não existe. E que, se existe, é muito chato!

 

Lá está: sou uma péssima influência.

 

Sou-o porque me recuso a ser outra coisa que não eu. E sei quem sou. E não quero ser outra coisa.

 

Partilho-me. Com quem quiser estar. Só porque sim... naquela minha máxima de “ser e deixar ser”.

 

Eu sou uma péssima influência.

Por isso. Por ser. Por deixar ser...

 

Se tiverem filhos, sobrinhos, irmãos mais novos ou afilhados, eu recomendo vivamente que não os deixem conviver comigo. Existe o risco de que eles venham a ter uma personalidade... ou reforcem a que já têm... Existe o risco de que eles criem um pensamento próprio. Existe o risco de que desagradem às massas cujo projeto de vida é só passar pela vida.

 

A sério. Eu sou uma péssima influência. Principalmente porque termino a frase no “sou”. E realmente não faço questão de influenciar ninguém...



 Marina Ferraz





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terça-feira, 22 de março de 2022

Salvar a poesia

 


Há uma espécie de senso comum. Sem muito senso. Totalmente errado, na realidade. Daquelas falsas verdades consensuais. Daquelas falácias que duram e perduram e se perpetuam. Ano após ano. Século após século. Dizem que vamos salvar a poesia. Nós. Os poetas.

 

Nós sabemos a verdade. Não vamos.

 

 

Vestimos versos como quem veste a pele pela manhã. Ocasionalmente depois de ligarmos as televisões ou lermos os jornais. Ambos servem de ruído de fundo. E de lágrima artificial. Mas não precisamos da artificialidade das lágrimas mediáticas. Choramos outras. São sangue que sai dos olhos. Muito transparente. Que rola pelo rosto. Que se enche de todo o negro da raiva. Que toma os contornos delineados da dor. Quando cai sobre a folha, já é palavra.

 

Uma lágrima segue a lágrima seguinte. Cada uma delas, pingando palavras nas folhas, que podem ser teclas, que podem ser ecrãs táteis. Não interessa! O poema não é feito, mas chorado. E vive. Tem uma existência fundamental e própria. Uma essência. Uma identidade. Já não nos pertence.

 

Por vezes, fala-nos do mundo. Da vida. Dos sentidos. Dos sentimentos. Cada palavra é folha na copa da árvore. Árvore na floresta. Prédio na cidade. Gota de água no oceano. Vale de pouco. Como o grito. Mas é parte de um todo maior que poderia ser, talvez, a salvação do mundo.

 

O lugar dos poemas é a gaveta. As gavetas são tumba. E dizem por aí. Não nas televisões e nos jornais, posto que nenhuma importância lhes é dada.... Mas dizem por aí. Que a poesia anda moribunda. Que morreu. Que é o parente mais pobre da literatura, sendo que a própria literatura é já o parente pobre das artes, e que as artes são o parente pobre do investimento de um país que prefere ver rolar... bolas em campos e lágrimas nos rostos, contando que se chore baixinho, para não interromper o relato.

 

De todas as vezes que falam da poesia – morrendo já na gaveta-caixão – dizem que talvez nós – os poetas – possamos salvá-la.

 

Nós sabemos a verdade. Não podemos.

 

Estamos arrumados na mesma gaveta. Condenados ao mesmo mal. A morrer devagarinho no sufoco dessa realidade triste que é um mundo cego.

 

Dentro da gaveta, eu própria confesso. Resta-me esperar. A morte. Questionando se me afogarei nas lágrimas. Ou se cederei ao sufoco de multidões de autómatos. Ou se cairei numa luta desigual por um lugar de utopia, dilacerada no corte das folhas escritas que me querem tirar das mãos, para arquivar com as outras.

 

Não vou salvar a poesia. Queria muito. Mas não vou.

 

O século XXI precisa de heróis e o meu país habituou-se mal, por ter um poeta como herói nacional. Nos palcos, ainda vou tentando. Como outros, na mesma condição. Lutar. Por um mundo melhor. Por um mundo mais justo. Por um espaço para nós, como pensadores, filósofos, políticos e poetas...

 

O grito começa. O grito acaba. E ninguém ouve.

 

Estamos arrumados na mesma gaveta da poesia. Pária da pátria. Que um poeta não serve para nada. É o que dizem. Exceto para fingir que tem utilidade.

 

Mas, depois, o dia internacional da poesia. O dizer o bonito. O fazer o bonito. O celebrar, por um dia, do que se esquece nos demais. E – atentai, atentai! - dizem que vamos salvar a poesia. Nós. Os poetas.

 

 

 Desculpem-nos! Não somos heróis. Perdoem! Por mais que nos palcos se ouça a musicalidade da defesa pelo que é certo. Por mais que choremos palavras. Por mais que gritemos. Não vamos salvar o mundo. Não vamos salvar a poesia. Estamos simplesmente à espera, palavra a palavra, que a poesia nos salve a nós…

 

E nós falhamos.

E ela falha.

 

No fim, morremos todos.

 

Resta saber se afogados nas lágrimas... sufocados por multidões de autómatos... ou ainda lutando por um lugar de utopia... onde talvez, só talvez, pudéssemos salvá-la. À poesia.


 Marina Ferraz





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terça-feira, 15 de março de 2022

O atuador da embraiagem

 


O atuador de embraiagem é só uma pequena peça dos automóveis. Para todos os efeitos, uma daquelas que a maioria das pessoas não conhece e com as quais ninguém se importa... até falhar. Fica para lá, a ser o que é. Componente fundamental para o funcionamento do carro... invisível.

 

 

A mudança largou o seu modo “A” e o Natal começou mais cedo. A piscar, no painel, o “N”, indicativo de ponto morto, juntava-se ao “ECO” e à luz de bateria, deixando-me saber que era hora de encostar. São 12 anos de carta e 7 de Mini-Carros. Já lhes conheço os truques. E, antes que a já astronómica conta da oficina passe para uma conta impossível de saldar sem recurso à prostituição ou ao tráfico de drogas pesadas, a berma da estrada faz-se escolha viável.

 

Dou por mim a pensar que nunca gostei muito de mudanças. Comprova-o, logo no primeiro instante, a escolha dos carros automáticos que sempre tive. Aqueles que imitam as variantes infantis. Nos quais só temos de premir um pedal para andar e outro para parar. Nos quais não precisamos de tirar as mãos do volante. Nos quais a manete das velocidades tem um papel mais estético do que prático.

 

Nunca gostei muito de mudanças. Mas elas são fundamentais.

 

O ritmo da vida, como o dos automóveis, não é estável. O tempo só é igual para os relógios e os calendários. Para as pessoas, o tempo varia. Sempre. Cada dia tem o seu ritmo. Os anos passam mais depressa ou mais devagar, consoante o estado de espírito, a quantidade de trabalho e as dinâmicas do corpo e da alma. Vamos com o tempo que o tempo tem. Acelerando e desacelerando conforme nos dita o dia e o corpo. Conforme nos dita a mente. E paramos até, no tempo. Andamos para trás. Devagarinho. Às vezes. Só para provar mais um pouco da doçura da memória que nos causa saudade.

 

Recusamos a necessidade, mas ela existe. De largar. De buscar outros equilíbrios além do café matinal e da chamada das seis. Além do som do aspirador matutino e da maçã trincada na Ordem.

 

Nunca gostei muito de mudanças. Mas elas são fundamentais.

 

São fundamentais mas não impedem o óbvio: avariamos de saudade muitas vezes! Tantas que, mesmo que as mudanças funcionem, insistimos em não as querer. Sentimos os solavancos, os pedidos do corpo pelo futuro... mas não as queremos... a alma está lá, agarradinha à memória, sendo sua promotora e sua escrava. Onde é feliz.

 

O atuador de embraiagem é só uma pequena peça dos automóveis. Sem ele, a mudança não funciona. Mas é só uma pequena peça, invisível. Tenho quase a certeza de que ninguém saberá o que ela é até que avarie...

 

Mas eu. Logo eu. Parada na beira da estrada. A 200 metros da portagem. Morrendo na praia. Escrutinando na cabeça todas as memórias das outras vezes que fiz o mesmo, perdendo tão perto do destino, confrontei-me com isto. Com a necessidade da mudança impossível e de todos os sinais de alerta quando ela não vem.

 

 

Nunca gostei de mudanças. E sei que o meu atuador mental da embraiagem do eu nunca funcionou muito bem. Fico frequentemente parada na beira da estrada da vida, sem saber o que fazer. Antes houvesse um número de assistência em viagem. Mas não há. Antes houvesse um reboque. Mas não há. E a única solução é agarrar nas pernas e aceitar. A mudança. Porque, sem ela, não há caminho.

 

Nunca gostei muito de mudanças. Continuo a não gostar muito de mudanças. Mas elas são fundamentais.

 

 

E, aqui entre nós... quando o atuador falha... descobrimos que não haver mudanças pode sair muito caro.


Marina Ferraz




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terça-feira, 8 de março de 2022

Pás

 

Fotografia de Pexels

Uma criança sabe isto. Um trabalhador da construção civil sabe isto. Um ambientalista sabe isto. Um cozinheiro sabe isto. Um varredor de rua sabe isto. Um limpa-chaminés sabe isto. Mas os políticos – apesar de toda a alegada literacia – aparentemente não sabem...

 

 

É um dia de praia, como outro qualquer, e a criança quer brincar. Vamos construir um castelo de areia. Dizem. Inconscientes de que o seu mundo é um castelo de areia prestes a ruir. E pegam nas pás. Intuitivamente. Para encher os baldes e construir algo.

 

Nas ruas palmilhadas, ao longo do dia, outras pás vertem a areia dos montes para a betoneira, que gira e a transforma, para que possam construir-se também as casas sólidas e seguras, à prova de quase tudo... menos de bombas.

 

O vento sopra, e as pás da eólica giram, transformando ar em energia e alimentando centrais, de forma limpa e segura, em prol do ambiente, que provavelmente será nuclearmente destruído com uma ordem.

 

Algures, o chefe junta na batedeira os primeiros ingredientes da massa fresca, batida pelas pás em espiral, com rapidez e mestria, preso às noções de um sonho de paladar, sem pensar na fome que vem do exílio, dos conflitos, da escassez.

 

Varrem-se para as pás as folhas do Outono, persistentemente. Mãos segurando pás com compassiva intenção de oferecer aos outros passos mais seguros pelas ruas, que afinal oferece riscos maiores do que o da queda inadvertida.

 

E as chaminés escovam-se, a fuligem caindo, varrida para pás. Resolve-se o problema da fumaça adentrando o espaço. Um problema que não existirá quando a parede destruída tombar, arejando a casa...

 

Instrumento esquecido, mas de amplo uso, as pás servem para resolver quase tudo, para construir quase tudo. São recurso inegável de muitos processos que trazem algo ao mundo, às pessoas, à vida...

 

 

Uma criança sabe isto. Um trabalhador da construção civil sabe isto. Um ambientalista sabe isto. Um cozinheiro sabe isto. Um varredor de rua sabe isto. Um limpa-chaminés sabe isto. A resposta para muitos problemas da vida podem ser respondidos com p(ás)az.

 

Mas os políticos, talvez por só limparem o cotão do próprio umbigo e por nunca terem construído nada, ou por só conhecerem o senso com “c”... continuam – apesar da alegada literacia - a escolher a guerra.


 Marina Ferraz




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terça-feira, 1 de março de 2022

Não me apetece

 


Nota prévia: Num dos meus cadernos, a primeira – e uma das únicas entradas – de fevereiro era “não me apetece escrever”. Não apetecia. Não sei se apetece... Mas não sei fazer outra coisa...

 

 

Não me apetece escrever. Desculpem. Estou cansada. Cansada de repetir o mesmo. Cansada de bater na mesma tecla, até a desafinar, sem que ninguém ouça. Já me sangram as mãos. Ninguém vê. Já me tolhe a alma. Ninguém sabe. Está tudo bem. Quando não se ouve, nem se vê, nem se sabe. Quando não se lê. Quando não se pensa.

 

Invejo quem não pensa! A carnificina dos meus pensamentos seria digna de um qualquer filme de terror de Hollywood... Mas agora o horror só passa nos telejornais, não é? Carne e sangue. Bomba e medo. Doença e morte. Narrativa pobre, podre, indolente, vendida a preço de saldo. Vende-se qualquer coisa, contando que alguém pague. As mentiras são a peça-chave do leilão dos media. O “socialmente aceite” e o futebol são o ópio. Anda toda a gente a cheirar o pó branco da apatia. Anda toda a gente a injetar nas veias a aceitação social, seja sob a forma de confinamentos sem sentido ou de manifestações amplamente povoadas, onde a empatia – se existe - é peça de teatro.

 

Não me apetece escrever. Não me apetece dizer outra vez que o problema recai sempre sobre a mesma lógica – tão simples, tão ignorada – de que é preciso ser e deixar ser. Vivemos no tempo da invasão. Não é nada novo. Invadimos o espaço do outro. O corpo do outro. A vontade do outro. O país do outro. A vida do outro. Que dificuldade é esta de encontrarmos conforto e tranquilidade nas fronteiras do nosso eu?!

 

Mas eu sei. A maioria das pessoas não sabe estar nas suas fronteiras. A maioria das pessoas não sabe estar sozinha. Não sabe amar-se. Não sabe onde começa e acaba. A maioria das pessoas precisa que lhes digam quem são. E, adivinhem?! Ninguém sabe quem elas são, para que possa dizer-lhes. Então, elas acabam por tornar-se esse reflexo pobre do que se convencionou por certo. Por seguir esse regime pobre do que se convencionou por certo. E temos gente tão grande... a ser tão pouco.

 

São mortos e feridos e refugiados. São histórias que se repetem estupidamente porque o problema não está no fruto que é a guerra, mas na sua raiz, que é o egoísmo. E aduba-se o egoísmo com o prazer momentâneo, a vontade estúpida de ter mais coisas, a vontade estúpida de ganhar mais dinheiro, de gastar mais dinheiro, de roubar o dinheiro. É tudo feito no tilintar dos trocos no bolso, não é? Mas as grandes economias são como as rainhas: fica mal que carreguem moedas. Então, fazem o lucro com a única moeda que ainda a gera: a escravatura consensual de homens e mulheres que buscam o sonho, um sonho que já não é americano, mas global. Globalmente vazio.

 

As pessoas não querem ser. Como não querem ler. E, porque não são, precisam de outros espaços, além do seu. Porque é no quintal do vizinho que a relva está mais verdinha e que crescem as folhas de Cannabis com maior índice de THC. O que não se sente, finge-se que se sente. Haja opióides, é o que se quer, a ver se a alma (se) anima.

 

Não me apetece escrever. A sério, não me apetece escrever. Desculpem! Estou cansada. Quero recolher-me ao espaço do eu. Estar só. Implorar para que me deixem ser e deixar ser os outros. Não me apetece escrever. Mas as palavras são invasoras. São o exército inimigo. Ditadoras e tiranas. O sentido de identidade é um filho da puta a comandar as tropas! E eu importo-me com o mundo. E eu quero ser do mundo. Muito mais do que quero que o mundo seja meu...

 

Então, os dedos continuam a sangrar-me nas teclas do computador e este texto nasce. Se é literariamente bonito? Espero que não! Estou cansada de ouvir dizer que esta mágoa acutilante é bonita. Que se foda a beleza! Estou aqui. A gritar um texto. A chorar um texto. A sufocar num texto. Não me apetece escrever. Apetece-me sair de mim. Deste eu que sou. E que pensa. E que escreve. Mesmo quando não quer. Mesmo quando não apetece.

 

Será que posso ser como os outros? Não pensar? Não sentir? Ir do berço ao caixão suavemente... Ser e deixar ser pode ser-me lema de vida desde que me lembro de mim... Mas, raios... Parece tão mais simples ser os outros...


 Marina Ferraz





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terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Domingo: uma carta de desamor

 


Fotografia de Karolina Grabowska


Odeio os domingos. Não porque sou particularmente fã da segunda-feira, mas porque acho os domingos mais desonestos. Noto, na claridade das suas manhãs, o capricho acentuado de saber que é o filho favorito da semana. E torna-se arrogante. Nasceu com o cu virado para a lua. Não tem de fazer rigorosamente nada para ser amado... e é. Não por mim, entenda-se! Eu odeio o domingo.

 

 

Quando a semana começa, a esperança já foi. Sabe-se exatamente qual o espaço que vai do toque do despertador até ao retorno do corpo ao colchão. É assumidamente pesado, desde o primeiro instante.

 

O plano dos dias não deixa espaço para ilusões, exceto se considerarmos as almas que se agarram ao talão da máquina do quiosque, para confirmarem – à terça e à sexta-feira – que não ficaram milionárias. Mas as pessoas nem querem realmente ficar milionárias por nenhum motivo em particular. Não pretendem abrir ONG’s, nem patrocinar a construção de escolas e ATL’s ou distribuir comida nas zonas mais pobres da cidade, do país ou do mundo. A sua motivação é, usualmente, bastante simples: querem fingir que todos os dias são domingo. E, por isso, mesmo às terças e sextas, é o domingo que está a plantar ardis e a esvaziar as carteiras das pessoas.

 

Durante cinco dias. Conta-se. Segunda. Terça. Quarta. Quinta. Sexta. Mas só durante esses dias. Ninguém diz que o Domingo é Primeira... porque ele vem primeiro. Ninguém precisou de lho dizer. Ele sabia... Sabia e até fez questão de ser precedido de Sábado por isso mesmo: para que saibamos que ele sabe que será sempre o eterno favorito.

 

Só que, Deuses, olhemos a arrogância! O domingo faz de tudo para ser droga. Dá a si mesmo nome de programação fútil e oca com os seus “filmes de domingo à tarde”. Promove o futebol nacional. Leva as beatas à missa e dá aos preguiçosos - mesmo que ateus - a desculpa de que podem descansar porque é o dia "do Senhor". Entretanto, proíbe que se ligue para qualquer lugar pertinente – incluindo as Finanças, a Segurança Social e os serviços, exceto em caso de emergência. Faz com que gestantes de águas rebentadas levem uma injeção para atrasar o parto até horário mais conveniente, a menos que seja de todo impossível evitar que aquele ser ignóbil que decidiu nascer no final da semana escorregue por entre as pernas da mãe para o mundo. E garante-se que nascerá a chorar! Provavelmente por ser domingo.

 

Eu odeio os domingos. Entendo totalmente porque é que chamaram dias úteis aos outros dias da semana. O domingo é inútil. Tão inútil que precisa de outro dia inútil a precedê-lo, para abrir alas à sua inutilidade. Não serve para nada, senão para acentuar a preguiça e o ócio. Não serve para nada senão para nos iludir com a ideia do dia bom (que não é) e nos desiludir, a seguir. Não serve para nada senão para nos lembrar de que o dia que se segue é um voltar à rotina, esperando o domingo seguinte, pela crença desajustada de que “o próximo é que é!”.

 

Odeio os domingos. Não porque sou particularmente fã da segunda-feira, mas porque acho os domingos mais desonestos. Não tenho medo da honestidade. Por isso escrevo esta carta de desamor. Dizendo que o odeio. O domingo. E escrevo isto numa terça-feira. Porque se o escrevesse ao domingo, os correios estariam fechados...


 Marina Ferraz





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terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

Duas cadeiras no alpendre


 

Há duas cadeiras no alpendre. Ninguém se senta nelas. Não há memória de que alguma vez alguém se tenha sentado nelas.

 

 

Há o espelho do caos. Lá dentro. Destroços. Destruição. Aqui e ali, indício de tempo que passou. Como se o caos não fosse caos, mas passado. E futuro. Porque não há quem tenha espaço para se mover entre os cacos sem os pisar.

 

Duas ou três almas bateram à porta. Entraram e saíram. Sem nunca se sentar nas cadeiras do alpendre. Encantadas, provavelmente, pelas cadeiras do alpendre: promessa de descanso e contemplação do belo. Promessa de sol e sossego. Entraram e saíram. Mais depressa. Mais devagar. Aproveitando uma refeição ou outra. Um leito ou outro. Entraram e saíram.

 

Alguns tentaram. Verdadeiramente. Ficar. Organizar esse caos da casa destruída. Como se imaginassem o chão limpo e os fragmentos varridos. Como se quisessem fazer da sala atolada um salão digno de festas palacianas. Como se quisessem vidros translúcidos para ver a paisagem em redor. Tão bonita.

 

Se esta casa fosse minha...

 

Havia sempre as palavras. Conjuradas, como quem invoca os Deuses.

 

Se esta casa fosse minha...

 

Mas a casa não era de ninguém senão sua. E o caos era parte. Tal como a sala e os quartos. E os vidros sujos. E os cacos velhos.

 

A casa sabia que a cerâmica partida no corredor era uma história com vinte anos. E que as serpentinas acumuladas no canto eram o beijo inesperado no final de um concerto qualquer. E que a fotografia caída, empoeirada, era uma lágrima que pendia, como o candeeiro onde se tinha apagado a esperança, e cuja lâmpada fundida permaneceria assim até ao nascer da aurora. A casa amava a racha no vidro da porta, contra a qual o amor tinha embatido. A casa adorava o sopro do vento por entre a janela estilhaçada pela pedra do amante proibido, que entrara à socapa, subindo a trepadeira seca. A casa queria que o relógio parado continuasse a indicar a mesma hora.

 

Alguns tentaram. Verdadeiramente. Ficar. Organizar esse caos da casa destruída. Mas a destruição era o que fazia daquela casa um lar. E, por isso, apenas os passos fantasmagóricos de uma memória perpétua se faziam dançar, sobre a poeira, por entre a ruína.

Há duas cadeiras no alpendre. São os meus olhos. Ninguém se senta nelas. Não há memória de que alguma vez alguém se tenha sentado nelas. Ninguém se sentou nelas. Quando a noite cai, às vezes eu sento-me. Em ambas. Sou todos os meus eus, ali sentada. Oculta pelo manto negro. Vulto incorpóreo, guardando todos os meus cacos tristes.

 

Existe a lenda de que alguém me viu.

 

Um mito.

 

 

Há duas cadeiras no alpendre. E, acreditem: Ninguém – jamais – se sentou nelas.


 Marina Ferraz





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terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

Latência dos momentos

 


 

A bala atinge o peito. E o tempo estremece. Oscila nos microssegundos que ela leva a atravessar o ar, até explodir na carne. Entre o metal da arma e a polpa dos tecidos, há apenas momento. Latente.

 

 

 

As manhãs nascem sempre devagar. O sol tem preguiça de nascer. A luminosidade não quer abrir os olhos ao mundo. Nem eu quereria, se fosse luz... ver o mundo cansa.

 

Foi nisto que eu pensei, quando a bala embateu no peito. Ignorando os momentos latentes que separaram o dedo no gatilho e o encontro inusitado contra o oco de mim. E foi isto que me acompanhou na queda até ao solo, onde me desfiz, peça de mármore branco, sem outro destino que não o de cumprir os desígnios da vida.

 

De cada vez que alguém cai no chão, soprando um último sopro, cumpre-se o destino evidente que se sagrou na fecundação. Também esse momento latente, de óvulo invadido, gerando uma promessa de morte lá à frente.

 

Podia ter pensado em muitas coisas. Mas pensei na preguiça do sol e da luz. E na forma como eles dançam, ao longo do dia, uma espécie da milonga muito lenta, arrastando as pernas até ser hora de molhar os pés no mar.

 

Pensar em luz, levou-me até ti. Pensar em ti, levou-me a sorrir. E sorrir fez-me pensar no quanto amava a bala que, finalmente, me tirava o vazio do peito, valorizando-o com o aço amolgado, de listras-universo definindo impressões digitais do disparo.

 

Cabem muitas coisas num momento só, mas a nossa realidade é curta. A lente está focada no interior das amarras. Somos amplamente cegos e reduzimos o mundo todo ao corpo. Quando ele cai. Só quando ele cai nos apercebemos de todos os grãos de poeira no ar, de como ondeiam e dançam. Do som do vento. Das vozes distantes. Do pequeno sismo provocado pelos passos que correm, cada vez mais distantes. E as sirenes, cada vez mais perto. E o arrastar de um papel velho.

 

O momento latente que separa a vida da morte é o espaço que define as cordas do universo e o amplifica em nós. E o sol nasce tão devagar. E a luz está tão cansada.

 

Fechar os olhos é ver traços ambíguos da paisagem abandonada. Há um rio que se faz poça. Afogo-me nele. Entranho nele todas as peças distantes da alma. Até me sentir menos vazia. Por um momento. Só um. Latente.

 

 

 

A bala atinge o peito. Entre o metal da arma e a polpa dos tecidos, há apenas momento. O corpo encontra o chão e esvai-se em sangue. Momento. O sol renasce. A luz acorda. Devagar. Bate-me no rosto. Transforma a imagem do sonho no sonho da imagem. E abro os olhos. Trago nas mãos a miragem do futuro. E o momento latente em que penso em ti, disparando a arma que me mata. Por ter acordar. Como o sol e a luz. Desse sonho bom que é não ser.


 Marina Ferraz





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terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

Rebeldes

 

Fotografia de Skitterphoto

 

Tiveram o desplante de ser. Rebeldes. Nesse que é o maior ato de rebeldia perante um mundo que claramente esqueceu.

 

 

Quando o sol nasceu, eles ainda estavam deitados. Corpos meio suados, meio despidos, com as pontas dos pés tocando-se, ao de leve, debaixo das cobertas. Acordaram aos poucos, com o sol, para descobrir que a tirania tinha ganho as eleições e que a terceira força política era, agora, um antro de fascismo. Sabiam que não era uma notícia “de hoje”. Era uma construção de muitos anos, ancorada na iliteracia, no ciclo sucessivo e repetitivo que colocava sempre a mesma elite déspota no poder.

 

A política era importante para eles... mas não era tudo. E, por não ser tudo, não foram as notícias a primeira partilha da manhã, mas os corpos – esses que, já meio despidos, acabaram por se libertar do resto das roupas, e que já meio suados acabaram por fazer um pequeno Verão no meio das cobertas húmidas.

 

Disseram bom dia. Depois. Só depois. Ambos cientes de que, se olhassem as manchetes, não teriam “bom dia” para dar. Uma espécie de azia no peito, por detrás dos sentidos, colou-lhes os pés ao chão para o dia que começava. Para o trabalho que chamava. Para as tarefas que urgiam.

 

Partilharam, ao longo do dia, algumas notícias e artigos de opinião, não só entre si, mas com os amigos comuns. Por detrás da partilha, a memória desmascarada de muitas manifestações que faziam da bandeira nacional capa de um herói qualquer que a Marvel renegou. Por detrás da partilha, a memória da luta que tinha resultado em quase-nada. E teria sido nada, se não se tivessem, pela manhã, com os corpos suados e as pontas dos pés tocando-se, até não serem só as pontas dos pés a tocar-se.

 

Assistiram. Sentados em frente aos computadores e atrás de textos e tarefas bem distintas, ao adensar da mágoa causada pela insistência na distância, no medo, na narrativa fatal da curva achatada que – insistiam – só achatava curvas de sorrisos que mereciam pintar o rosto.

 

Tendo o desplante de ser. Rebeldes. Nesse que é o maior ato de rebeldia perante um mundo que claramente esqueceu, eles renegaram a distância e combinaram encontro. Na mesma cama, no mesmo suor, na mesma ideologia esquecida e repetidamente deixada, espalhada pelo chão da casa, com as roupas.

 

 

 

Tiveram o desplante de ser. Felizes. Nesse que é o maior ato de rebeldia perante um mundo que claramente esqueceu a importância das manhãs nuas ao sol nascente e dos abraços e da luta pela liberdade.

Ser feliz nunca foi mais raro.

 

Partilhar(-se) nunca foi mais raro.

 

Viver nunca foi mais raro.

 

 

E mais de dois milhões e duzentas mil pessoas querem que assim continue.

E mais de um milhão e quatrocentas mil pessoas não querem mudar de facto.

E quase quatrocentas mil pessoas querem que a felicidade, a partilha e a vida voltem ao tempo dos campos sem cravo, onde nem vida, nem partilha, nem felicidade têm lugar.

 

 

 

 

Tiveram o desplante de ser. Rebeldes. Nesse que é o maior ato de rebeldia perante um mundo que claramente esqueceu.

 

Por isso, abraçaram-se na noite. Dispostos a lutar até ao último suspiro por esse direito. O de ser. De partilhar. De viver. Ainda hoje. E outra vez amanhã. Quando o sol acordar para iluminar a tirania que se instalou.


 Marina Ferraz





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