em memória de Maria Graciosa Cunha de Almeida
Novembro de 1995
Ela entrou na sala. Lançou-se ao
sofá. À menina no sofá. À menina de cabelos desgrenhados no sofá. À menina
doente no sofá. Lançou-se a ela. Com as mãos, meio enrugadas e manchadas do
sol, agarrando-lhe os pés. Gelados.
- Estás com os pés frios, pinguinzito – disse à menina. E, absorta
nos bonecos animados, febril, sentindo o vómito pendente na garganta, ela
limitou-se a anuir, numa indicação muda de que a tinha ouvido.
A senhora contornou o sofá e
sentou-se na outra ponta. Tinha o avental posto, criando um aspeto doméstico
sobre a saia simples e a camisola, ambas de cores neutras e desinteressantes.
Os óculos que emolduravam o rosto eram igualmente simples, de linha clássica.
Sobressaía o xaile, quase um cachecol largo e comprido, de xadrez aberto
castanho e bege, com bolsos estrategicamente colocados, um de cada lado, para
que ficassem ambos para a frente quando o usassem. Pegou no bolso do xaile e
pousou-o sobre o colo. De lá, tirou dois lenços usados, que enfiou no bolso da
frente do avental. Pegou nos pés da menina, meteu-os dentro do bolso quentinho
do xaile e pousou as mãos sobre eles.
- Pronto, és um borralhinho. Daqui a pouco estarão
quentes.
A menina via televisão, mas olhar
a televisão não era apenas traço de quem se alheava do mundo. A menina não
sabia alhear-se do mundo. Viria a descobrir mais tarde que o espetro que
integrava – o do autismo – não lhe dava acesso ao segredo da felicidade, esse
de não pensar. Então, pousava os olhos na televisão para não deixar escapar o
queixume: estou maldisposta, dói-me a
cabeça, tenho frio. Se olhasse para a avó, tinha a certeza, ia chorar. E a
avó comovia-se com as suas lágrimas. E depois chorava também. E, de seguida,
choraria de a ver chorar. E o avô não gostava de choraminguices.
A menina que via televisão era eu.
Dezembro de 2006
A senhora chorava. Agora não havia
quem reclamasse do choro. Transportava no rosto a mesma mágoa que, meses antes,
lho marcara, quando, pela manhã, aparecemos à porta de sua casa para lhe darmos
a notícia que não demos, porque ela soube, na alma, antes que a disséssemos.
Agora, a senhora chorava.
Baixinho. No dia do Sol. No dia do seu aniversário de casamento. No dia de
Natal. Celebrado de hábito e, naquele ano, despido de celebrações.
Havia amargura no ar, um silêncio
cortado por ocasionais piadas sem sentido, que tentavam emendar o que não tinha
emenda. A mais velha das raparigas jovens, transportando no ventre o futuro do
nosso sangue. A senhora da casa, ocupando-se para não se perder em angústias.
Os homens, mantendo a distância segura do cenário matriarcal e triste. E eu,
brincando com as meninas. A lourinha e a morena. Para que não notassem o choro
sozinho e mudo da senhora, que ajeitava o xaile sobre os ombros e pegava no
lenço, ocasionalmente, para limpar os olhos e o nariz.
As crianças são astutas. E a
criança loura lá notaria, apesar das maluquices e brincadeiras.
- Estás a chorar? – perguntou. E a
senhora sorriu por entre as lágrimas, num novo envolver do xaile, para abrir
espaço para lhe dar colo.
- Os olhos às vezes choram-me, nem
sei porquê.
Sabia. Sabíamos todos. Mas, para a
pequena de seis anos feitos há pouco, a resposta bastou. Saltando do colo
breve, voltou para o meu lado e quis brincar a outra coisa, gerando com a prima
uma nova discussão sobre o que fazer a seguir.
Avancei pela carpete até aos
joelhos da minha avó. Pousei neles a cabeça. Tirou as mãos de sob o xaile.
Afagou-me os cabelos, desgrenhados como sempre.
As suas mãos estavam quentes.
Junho de 2019
- É muito peso para ti – disse a
senhora.
Tinha-a deixado na orla da praia. Espera por mim um bocadinho. Disse-lhe,
enquanto voltava para trás, pela estrada de areia prensada, à procura de um
lugar de estacionamento para o carro.
Voltei, carregando o
chapéu-de-sol, a cadeira de praia, duas toalhas, o saco com a merenda, os
protetores solares e tudo o que de mais me tivesse lembrado. Alcancei-a e ela
sorria. Era como se não me visse há muito tempo, tal era o sorriso que esboçava
com os olhos pequeninos e escuros, atrás das lentes grossas dos óculos
amarelados. Sorri-lhe de volta, sentindo-me o centro do mundo e, depois, mudei
o peso todo para um braço e estendi-lhe o outro, que ela agarrou, repetindo:
- É muito peso para ti.
Mentia. Não pesa assim tanto. Duas toneladas e meia, nos passos morosos e
lentos dela. E, naquele momento, tenho quase a certeza. Esqueci-me de qualquer
coisa. Mas há o calor. Não o do sol, que pouco aquece com este típico vento do
Oeste. O dos braços que carrego nos meus e que me parecem, sobre a areia, ser a
forma mais sólida, mais concreta que toma o amor. O peso era leve, porque era
dela, por ela, e eu não me esquecia disto. Nem mesmo ali....
Sentámo-nos. Ela olhava a praia, o
mar, as arribas. Olhos de criança perdida com a novidade do mundo velho. E diz-me:
já não pensei que visse isto. Pouso a
cabeça, de caracóis meio molhados e pintalgados de sal sobre o seu colo. Ali,
do xaile, naquele dia, havia só calor. O colo morno, o carinho dos dedos,
novamente permeando os fios desgrenhados do meu cabelo. Amor incondicional.
Outubro de 2020
Com o rosto até desfigurado da
dor, pousa-me o xaile nas mãos.
Pousa-me o xaile nas mãos como
quem reza.
Pousa-me o xaile nas mãos e, com
ele, um pedaço da mãe que adormeceu e já não precisa de xaile.
Trago-o e guardo-o na caixa das
memórias. As memórias não cabem na caixa. Escorrem. Alagam. Ficam em mim.
Outubro de 2022
Era um recanto bom para chorar. O
ombro dela. Havia duas coisas sobre os ombros dela: a força para carregar o peso
do mundo e o xaile. A primeira suportava-me a dor. A segunda bebia-me as
lágrimas. O mundo era duro, cruel. Ela era doce, terna.
Erguendo olhos embaciados desses
ombros cobertos de xaile, era possível ver-lhe os caminhos tortuosos da vida no
rosto. Estradinhas de ruga delineada. Mas nunca havia palavra de guerrilha na
sua voz-trincheira. Vais ver que tudo
fica bem. Parecia possível.
De pezinhos enfiados no bolso do
xaile dela, eu era uma criança feliz, até no Inverno. Até no Inferno.
1 de Novembro de 2022
Hoje, quis vir com o calor dela.
Está frio. Está sempre frio quando ela não está. Mas o xaile sobre os meus
ombros abraça-me. E, mesmo sendo muito difícil dizer Amor (sabem os Deuses que me agarro às palavras com os dentes e não
as largo, e até que me recusei a dizer “amo-te”, até hoje, a mais do que uma
pessoa), o xaile grita-o. Tem tanto amor preso às fibras do tecido, que poderia
ter sido feito de sentimentos, se eles fossem lã.
Hoje, vesti o meu vestido preto,
como sempre soube que faria. Puxei levemente a caixa onde guardei as memórias,
que descobriram a fórmula mágica de ficar ali e em mim. Sempre. Ao mesmo tempo.
Peguei no xaile.
Disse-lhe. Ao xaile. Sei que não tenho ombros tão bonitos como os
dela. Nem um coração tão bom. Nem um sorriso que cura. Nem uma vida inteira
dedicada aos outros. Nem perfil para sofrer. Mas amo-a. E queria tanto que ela
estivesse comigo hoje. Dá-me a honra de te usar...
Aqui, a ler este conto, eu sou eu
e o Amor. Esse com letra capital. É dele que venho vestida, carregando-o sobre
os ombros. Talvez, olhando, vejam uma rapariga de preto com um xaile ao xadrez.
Olhando-vos, eu entendo que o vejam. Também acredito que as fotografias o
mostrem. Uma rapariga de preto com um xaile ao xadrez, no dia em que dá um
filho ao mundo, com todas as dores e todas as alegrias que isso comporta. Mas,
acreditem. Não sou eu, de preto, e um xaile: sou eu e os braços da minha avó em
meu redor, num abraço que me sussurra ao ouvido. Diz palavras quentes. Vai correr tudo bem e, se não correr, tenho
orgulho em ti.
Tenho o coração no bolso do xaile.
Talvez por isso, agora está quente.
* Texto criado e lido no lançamento do meu novo livro "[A(MOR]TE)"
Para adquirir o livro enviem o vosso pedido para marinaferraz.oficial@gmail.com
Marina Ferraz
Fiquem atentos ao meu
Instagram para saberem todas as novidades em primeira mão!