terça-feira, 8 de novembro de 2022

Gomas e solidão

 


Fotografia de Alexas_Fotos


Ideologicamente eu gosto. Muito. De gomas e solidão. Mas é só mesmo ideologicamente...

 

 

Na realidade, sempre gostei muito de chocolate. De rebuçados. De bolos. De bolachas. De caramelos. Mas nunca achei verdadeira piada às gomas. Mesmo em criança, se pedia gomas, o entusiasmo da cor e da forma, engraçadas e atrativas, esbatia assim que, colocando uma na boca, me era desfeito o apelo.

 

É um pouco o que acontece quando as pessoas vão e eu fico. Quando a festa acaba. Quando sobra o silêncio a ecoar nas paredes. Quando as memórias entram, sem serem convidadas, e me contam histórias que já ouvi mil vezes. Obrigada, mas ainda me lembro. Digo-lhes. Elas não querem saber.

 

Ouve-se o temporizador do forno no silêncio. Mas, dele, não vão sair os biscoitos que a minha avó fazia. Ouve-se o tiquetaque de um relógio. Mas já não é o meu avô a dar corda ao velho relógio da sala, que herdei, mas ficou assim: parado. Como os corações deles.

 

Sou apaixonada pelas cores e sabores da minha própria companhia. E pela respiração pesada da gata, que principalmente nos meses mais frios dedica o seu tempo às árduas atividades de comer e dormir. Mas, quando as pessoas saem e a gata fica comigo e a minha solidão. Quando levo aos lábios esse entusiasmo de me ter em pleno, com essas cores e formas engraçadas e atrativas, descubro que a solidão – e até a solitude – quebram muito do seu apelo.

 

Eu até gosto do sabor... mas a textura...

 

Parece borracha. Parece borrão. Parece borrada. O tempo todo condensado nessas gomas de solidão, feitas com os restos dos restos dos restos, com tendões e ossos e cartilagens. Com aparas, restos de pele e de couro. E a transbordar conservantes. E com corantes que tentam pintar um quadro, maquilhando a imagem do vazio de forma exagerada.

 

Ideologicamente eu gosto. Muito. De gomas e solidão. E, entendam... até gosto do sabor... mas há a textura e o saber como elas se fazem e constroem... há o que fica além das tonalidades falsas e dos sabores artificiais.

 

Penso que me cansa justamente o artificial. E que é por isso que, às vezes, me compro um saco de solidão, mesmo sabendo que me desiludo com ela. Talvez eu prefira chocolate. Rebuçados. Bolos. Bolachas. Caramelos. Gente. Talvez eu prefira fruta. Legumes. Sementes de linhaça e de riso.

 

Eu até gosto do sabor das gomas e da solidão. Mas a textura é rija demais para os meus dentes e a minha alma dócil. Penso que me cansa o artificial.

 

Por isso, se puderes, passa no mercado. Traz-me fruta a sério e um pouco de real companhia.


  Marina Ferraz




Fiquem atentos ao meu Instagram para saberem todas as novidades em primeira mão!






Se quiserem adquirir o meu novo livro "[A(MOR]TE)"

enviem o vosso pedido para marinaferraz.oficial@gmail.com



quarta-feira, 2 de novembro de 2022

Conto | O Xaile




 em memória de Maria Graciosa Cunha de Almeida


Novembro de 1995

Ela entrou na sala. Lançou-se ao sofá. À menina no sofá. À menina de cabelos desgrenhados no sofá. À menina doente no sofá. Lançou-se a ela. Com as mãos, meio enrugadas e manchadas do sol, agarrando-lhe os pés. Gelados.

- Estás com os pés frios, pinguinzito – disse à menina. E, absorta nos bonecos animados, febril, sentindo o vómito pendente na garganta, ela limitou-se a anuir, numa indicação muda de que a tinha ouvido.

A senhora contornou o sofá e sentou-se na outra ponta. Tinha o avental posto, criando um aspeto doméstico sobre a saia simples e a camisola, ambas de cores neutras e desinteressantes. Os óculos que emolduravam o rosto eram igualmente simples, de linha clássica. Sobressaía o xaile, quase um cachecol largo e comprido, de xadrez aberto castanho e bege, com bolsos estrategicamente colocados, um de cada lado, para que ficassem ambos para a frente quando o usassem. Pegou no bolso do xaile e pousou-o sobre o colo. De lá, tirou dois lenços usados, que enfiou no bolso da frente do avental. Pegou nos pés da menina, meteu-os dentro do bolso quentinho do xaile e pousou as mãos sobre eles.

- Pronto, és um borralhinho. Daqui a pouco estarão quentes.

A menina via televisão, mas olhar a televisão não era apenas traço de quem se alheava do mundo. A menina não sabia alhear-se do mundo. Viria a descobrir mais tarde que o espetro que integrava – o do autismo – não lhe dava acesso ao segredo da felicidade, esse de não pensar. Então, pousava os olhos na televisão para não deixar escapar o queixume: estou maldisposta, dói-me a cabeça, tenho frio. Se olhasse para a avó, tinha a certeza, ia chorar. E a avó comovia-se com as suas lágrimas. E depois chorava também. E, de seguida, choraria de a ver chorar. E o avô não gostava de choraminguices.

A menina que via televisão era eu.

 

Dezembro de 2006

A senhora chorava. Agora não havia quem reclamasse do choro. Transportava no rosto a mesma mágoa que, meses antes, lho marcara, quando, pela manhã, aparecemos à porta de sua casa para lhe darmos a notícia que não demos, porque ela soube, na alma, antes que a disséssemos.

Agora, a senhora chorava. Baixinho. No dia do Sol. No dia do seu aniversário de casamento. No dia de Natal. Celebrado de hábito e, naquele ano, despido de celebrações.

Havia amargura no ar, um silêncio cortado por ocasionais piadas sem sentido, que tentavam emendar o que não tinha emenda. A mais velha das raparigas jovens, transportando no ventre o futuro do nosso sangue. A senhora da casa, ocupando-se para não se perder em angústias. Os homens, mantendo a distância segura do cenário matriarcal e triste. E eu, brincando com as meninas. A lourinha e a morena. Para que não notassem o choro sozinho e mudo da senhora, que ajeitava o xaile sobre os ombros e pegava no lenço, ocasionalmente, para limpar os olhos e o nariz.

As crianças são astutas. E a criança loura lá notaria, apesar das maluquices e brincadeiras.

- Estás a chorar? – perguntou. E a senhora sorriu por entre as lágrimas, num novo envolver do xaile, para abrir espaço para lhe dar colo.

- Os olhos às vezes choram-me, nem sei porquê.

Sabia. Sabíamos todos. Mas, para a pequena de seis anos feitos há pouco, a resposta bastou. Saltando do colo breve, voltou para o meu lado e quis brincar a outra coisa, gerando com a prima uma nova discussão sobre o que fazer a seguir.

Avancei pela carpete até aos joelhos da minha avó. Pousei neles a cabeça. Tirou as mãos de sob o xaile. Afagou-me os cabelos, desgrenhados como sempre.

As suas mãos estavam quentes.

 

Junho de 2019

- É muito peso para ti – disse a senhora.

Tinha-a deixado na orla da praia. Espera por mim um bocadinho. Disse-lhe, enquanto voltava para trás, pela estrada de areia prensada, à procura de um lugar de estacionamento para o carro.

Voltei, carregando o chapéu-de-sol, a cadeira de praia, duas toalhas, o saco com a merenda, os protetores solares e tudo o que de mais me tivesse lembrado. Alcancei-a e ela sorria. Era como se não me visse há muito tempo, tal era o sorriso que esboçava com os olhos pequeninos e escuros, atrás das lentes grossas dos óculos amarelados. Sorri-lhe de volta, sentindo-me o centro do mundo e, depois, mudei o peso todo para um braço e estendi-lhe o outro, que ela agarrou, repetindo:

- É muito peso para ti.

Mentia. Não pesa assim tanto. Duas toneladas e meia, nos passos morosos e lentos dela. E, naquele momento, tenho quase a certeza. Esqueci-me de qualquer coisa. Mas há o calor. Não o do sol, que pouco aquece com este típico vento do Oeste. O dos braços que carrego nos meus e que me parecem, sobre a areia, ser a forma mais sólida, mais concreta que toma o amor. O peso era leve, porque era dela, por ela, e eu não me esquecia disto. Nem mesmo ali....

Sentámo-nos. Ela olhava a praia, o mar, as arribas. Olhos de criança perdida com a novidade do mundo velho. E diz-me: já não pensei que visse isto. Pouso a cabeça, de caracóis meio molhados e pintalgados de sal sobre o seu colo. Ali, do xaile, naquele dia, havia só calor. O colo morno, o carinho dos dedos, novamente permeando os fios desgrenhados do meu cabelo. Amor incondicional.

 

Outubro de 2020

Com o rosto até desfigurado da dor, pousa-me o xaile nas mãos.

Pousa-me o xaile nas mãos como quem reza.

Pousa-me o xaile nas mãos e, com ele, um pedaço da mãe que adormeceu e já não precisa de xaile.

Trago-o e guardo-o na caixa das memórias. As memórias não cabem na caixa. Escorrem. Alagam. Ficam em mim.

 

Outubro de 2022

Era um recanto bom para chorar. O ombro dela. Havia duas coisas sobre os ombros dela: a força para carregar o peso do mundo e o xaile. A primeira suportava-me a dor. A segunda bebia-me as lágrimas. O mundo era duro, cruel. Ela era doce, terna.

Erguendo olhos embaciados desses ombros cobertos de xaile, era possível ver-lhe os caminhos tortuosos da vida no rosto. Estradinhas de ruga delineada. Mas nunca havia palavra de guerrilha na sua voz-trincheira. Vais ver que tudo fica bem. Parecia possível.

De pezinhos enfiados no bolso do xaile dela, eu era uma criança feliz, até no Inverno. Até no Inferno.

 

1 de Novembro de 2022

Hoje, quis vir com o calor dela. Está frio. Está sempre frio quando ela não está. Mas o xaile sobre os meus ombros abraça-me. E, mesmo sendo muito difícil dizer Amor (sabem os Deuses que me agarro às palavras com os dentes e não as largo, e até que me recusei a dizer “amo-te”, até hoje, a mais do que uma pessoa), o xaile grita-o. Tem tanto amor preso às fibras do tecido, que poderia ter sido feito de sentimentos, se eles fossem lã.

Hoje, vesti o meu vestido preto, como sempre soube que faria. Puxei levemente a caixa onde guardei as memórias, que descobriram a fórmula mágica de ficar ali e em mim. Sempre. Ao mesmo tempo. Peguei no xaile.

Disse-lhe. Ao xaile. Sei que não tenho ombros tão bonitos como os dela. Nem um coração tão bom. Nem um sorriso que cura. Nem uma vida inteira dedicada aos outros. Nem perfil para sofrer. Mas amo-a. E queria tanto que ela estivesse comigo hoje. Dá-me a honra de te usar...

 

Aqui, a ler este conto, eu sou eu e o Amor. Esse com letra capital. É dele que venho vestida, carregando-o sobre os ombros. Talvez, olhando, vejam uma rapariga de preto com um xaile ao xadrez. Olhando-vos, eu entendo que o vejam. Também acredito que as fotografias o mostrem. Uma rapariga de preto com um xaile ao xadrez, no dia em que dá um filho ao mundo, com todas as dores e todas as alegrias que isso comporta. Mas, acreditem. Não sou eu, de preto, e um xaile: sou eu e os braços da minha avó em meu redor, num abraço que me sussurra ao ouvido. Diz palavras quentes. Vai correr tudo bem e, se não correr, tenho orgulho em ti.

 

Tenho o coração no bolso do xaile. Talvez por isso, agora está quente.



* Texto criado e lido no lançamento do meu novo livro "[A(MOR]TE)"

Para adquirir o livro enviem o vosso pedido para marinaferraz.oficial@gmail.com


  Marina Ferraz




Fiquem atentos ao meu Instagram para saberem todas as novidades em primeira mão!


terça-feira, 25 de outubro de 2022

O fado da vida

 


O fado da vida diz. O tempo não pára. Mas eu ainda estou no ponteiro parado. O som entre acordes de guitarra Por mais que se diga e se cante e se insista. Eu ainda estou nesse segundo. Nesse. Em que o tempo parou.

 

 

Olho para os meus próprios dedos. Eles parecem mais sábios. Talvez mais velhos. Noto neles, ainda, os calos criados pelas canetas e sinto-lhes as pontas rugosas, da insistência abrupta contra as teclas insistentes do teclado. Conheço de cor as cicatrizes feitas com as facas da cozinha. Conheço de cor os traços meio tortos do mindinho, que deforma precocemente – coisas que a genética explica. Mas eles parecem mais sábios agora. Como se o facto de quererem dar-se a outros lhes ensinasse uma coisa ou duas sobre a vida, sobre o mundo, sobre o tempo...

 

Penso nisto, olhando-os. Segurando o copo de rosé entre eles. Ou talvez olhe para o copo e imagine só que olhe os olhos, pensando-o. Não sei bem o que penso. A mente salta, de pensamento em pensamento, a cada frase que é dita. Sinto o líquido inebriado na língua, já não sei se vinho, saliva ou sonho líquido. Os olhos dançam com as estrelas do dia morno e inventam outras histórias que, ali, são só ficção. O coração é o pior de todos! Maestro desta orquestra, esquece a compostura e a dá toques de batuta tão fortes contra a pele, que desconfio que dê para vê-lo através do linho fino da camisa.

 

Tento explicar-lhe que música clássica não é punk-rock alternativo. Mas, digam-me vocês: já alguém conseguiu disciplinar o coração?

 

Desconfio que a vida se faz quando o tempo pára. E o fado da vida é esse. Três horas – horas – depois. Três – segundos – passaram. Aparentemente. Não há explicações lógicas ou racionais. Caem por terra as melhores leis da física. A alquimia e a religião acasalam, emparelhando a Pedra Filosofal e o Graal: ambos naquele copo de rosé.

 

Ninguém envelhece. Ninguém morre. Ninguém nota que os ponteiros andam. Naquele segundo, tenho a certeza: não envelhecerei um dia se continuar naquela cadeira, com os dedos em redor do copo de rosé. Nunca mais ficarei doente. Nunca mais me sentirei triste. Nunca mais terei de olhar os dedos para os achar velhos. Nunca mais terei outro trabalho além de domadora de corações rebeldes. (E serei eternamente uma nódoa nessa tarefa...)

 

 

E o fado toca. A vida. Dizendo. Isso. O tempo não pára. Mas eu ainda estou no ponteiro parado. Por mais que se diga e se cante e se insista. Eu ainda estou nesse segundo. Nesse. Em que o tempo parou.

 

Porque a cidade era feita de carros que aceleravam. E as redes eram feitas de pessoas que corriam. E os relógios tinham pressa, algures. O fado da vida, entoado em muitas corridas enlouquecidas, daqui para ali, dali para aqui, de todo o lado para lugar nenhum e de lugar nenhum para todo o lado.

 

Na mesa havia dois copos de rosé, refletindo sorrisos.

 

Só o coração insistia em correr.

 

Os dedos queriam dar-se a outros, sabendo coisas que nem eu sabia.

 

Naquele momento, nem nascimentos nem mortes, nem agruras, nem cansaços, nem revolta, nem guerra, nem mundo fora daquela mesa. Nem espaço fora daquele copo, agora quase vazio, de rosé. Nem pensamento lógico que se enuncie.

 

Apenas sorrisos.

 

O coração a querer correr.

 

O fado da vida que ninguém canta...

 

E os dedos sábios que, agora, entendiam que os ponteiros param quando o coração corre.

 

Quando o copo terminou, prometeram que escreveriam, um dia, um poema sobre isto. Escreveram - um livro - inteiro. Havia tempo...

  

  Marina Ferraz




Fiquem atentos ao meu Instagram para saberem todas as novidades em primeira mão!

 

terça-feira, 18 de outubro de 2022

Pensa de novo

 


Avó, queria dizer-te, hoje, que ouvi um pássaro. Julguei ouvi-lo. Lembrei-me de ti.

 

 

Pensas que sabes reconhecer a voz de um pássaro. Até sorris. Só de a ouvir. A voz desse pássaro, que chega da janela e entoa a liberdade. Segues o seu canto. Olhas pelo vidro. E é uma retroescavadora.

 

O chiar mecânico da destruição das árvores arranca-te um bocado da alma com um eucalipto. E os pássaros são silenciados com asas de fuga. Mas não cantam. Quando a poeira assentar, só lhes sobra o céu. E, a mim, sobra o cimento e a memória da destruição, quando a retroescavadora for.

 

Pensas que sabes. Pensa de novo. As máquinas imitam os pássaros. Esses que matam.

 

 

Desculpa avó. Nunca te menti. Afinal não era um pássaro. Vê bem. A casa que comprei, rodeada de verde, vira uma floresta de betão como as outras... devagarinho. E logo aqui, onde tinha tanto gosto em mostrar-te as árvores que nunca viste. Agora não as poderias ver, mesmo que aqui estivesses.

 

 

Pensas que sabes quão triste o mundo fica quando se perde quem se ama. Até dizes, para os botões do casaco, pior não fica. Pensas que sabes. Pensa de novo.

 

Os olhares ocos e vazios da desumanidade e da destruição também passam à porta de tua casa. A pouco e pouco, compreendes que não é a retroescavadora e o eucalipto caído, mas o sentido de ausência que há dentro de quem a conduz e derruba a árvore sem questionar. Não sou eu que mando, dizem. Infelizmente, também não sou eu.

 

Arranco do peito as angústias e tento não sentir o ódio inato pela devastação. Mas a retroescavadora baixa o balde dentado e arrasta as árvores moribundas para um canto, como se não importassem. E a alma dói-me, assistindo na primeira fila ao que o mundo se tornou, enquanto eu tentava tornar-me melhor.

 

 

Avó. Quero tanto ser como tu, que às vezes sou. Mas nunca tinha percebido que estar triste é arte de quem quer ser digno desse rótulo que nos dão a todos, sem questionar: humano. Pensei que sabia a fórmula da felicidade e que ela era mais fácil de aplicar aos dias com um coração puro. Não é! É tão difícil...

 

 

A noite cai e a máquina dorme. A terra respira fundo. O homem foi. Os pássaros pensam que podem voltar, mas não podem. A poeira assenta. A chuva cai. O eucalipto permanece no chão.

 

 

Aproxima-se, com a noite, o dia fatídico onde foste o eucalipto arrancado dos meus dias. E eu, pássaro errante, perdi o colo que me era ninho. Pensamos que a ferida sara, que cicatriza e não dói tanto. Pensamos que há outras árvores e outros colos. Pensamos que podemos recomeçar, um passo de cada vez. Gostava de poder dizer-te que tinhas razão. Sei que pensavas que ficaria bem sem ti. Mas, avó, pensa de novo!


  Marina Ferraz




Fiquem atentos ao meu Instagram para saberem todas as novidades em primeira mão!


terça-feira, 11 de outubro de 2022

Sorrir não mata

 


 Fotografia de Analua Zoé



Sorrir não mata. Foi isso que ela disse. Mas eu não concordo.

 

 

Sorrir. O dicionário diz que é “rir sem gargalhada, fazendo apenas um pequeno movimento com os lábios”[i]. Estudos indicam que é bom para a saúde. Move 12 músculos da face, 84 no caso de também estarmos a conversar. Somos todos muito dados ao multitasking atualmente. Ou pelo menos as mulheres são, segundo os estudos.

 

Mas sorriso não é riso. Embora possa sê-lo. Sorriso não é exercício físico. Embora possa sê-lo. Sorriso é outra coisa. Sorriso é muitas coisas. E, uma delas, é máscara.

 

 

Era o pior dia da minha vida. Sorri. Sorri porque um amigo me cumprimentou na rua e foi preciso que sorrisse. Porque tive uma reunião de trabalho e imperava a simpatia. Porque a criança estava com medo de dar aquele primeiro passo para a sala de aula e, mesmo de coração partido, a adulta era eu. No velório de alguém que eu amava, porque outros precisavam de conforto. Ao espelho, para mentir a mim mesma.

 

Como eu, outros sorriram. Alguns, até ao esgotamento. Até à depressão. Até ser tarde demais. Até ao suicídio. E alguém disse: mas vi-o ontem e estava bem! Parecia tão animado. Estava, não estava? Até sorriu!

 

Sorriu. Mas as ruas de hoje perpetuam a premissa do “um homem não chora”, despindo-a de género. Um homem não chora. Uma mulher não chora. Uma criança não chora. Ninguém chora! E, se chorar, é fraco. É uma falta de consideração chorar. Incomoda os outros...

 

E não é só nas ruas. As redes sociais são o novo museu do sorriso. Até as aplicações de “embelezamento” das fotos oferecem a hipótese de colar um sorriso falso em cima de qualquer rosto mais sisudo. Longe vai o tempo de sorrir para uma mensagem especial que alegrou o dia. Hoje – e sim, vou inventar a estatística que se segue – 9 em cada 10 pessoas que sorri para o telemóvel está a tirar uma selfie.

 

E, então, estou a ter um dia de cão. O trabalho agarrou-se aos dedos como um carrapato, ainda tenho imensa coisa para fazer e a minha casa precisa desesperadamente de ser limpa. Faz este mês anos que morreu o meu avô. Também faz este mês anos que morreu a minha avó. E a tecla “M” do meu computador está a falhar constantemente, obrigando-me a escrever duas vezes quase todas as palavras deste texto (alguma vez deram conta de quantas palavras da língua portuguesa têm um M?)

 

Confesso. Estou um pouco mais sisuda. E, em tom de brincadeira, lá vem: Sorrir não mata.

 

Sorrir não mata.

 

Foi isso que ela disse. Mas eu não concordo. E acho mesmo que se devia parar de fazer do sorriso uma norma social. Devíamos normalizar o “não estou bem”. Devíamos normalizar o choro. Devíamos normalizar a merda dos dias maus. Para não haver o mas vi-o ontem e estava bem! Parecia tão animado.

 

Não me apetece sorrir agora. Estou a ser honesta comigo e com o mundo. Talvez amanhã, se me apetecer, sorria. Agora não.

 

O problema não é que “sorrir não mata”... mas que a honestidade crua incomoda!

 

Mas já diziam os pinguins do Madagáscar: é sorrir e acenar!


 Marina Ferraz




[i] "sorrir", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa , 2008-2021, https://dicionario.priberam.org/sorrir





Fiquem atentos ao meu Instagram para saberem todas as novidades em primeira mão!


terça-feira, 4 de outubro de 2022

Alfafar

 (ou O Sumo das Uvas Colhidas)




De repente, o sumo. Antes de ser vinho. Antes de ser trova.

 

Alfafar.

Trabalho e recompensa. O copo cheio desse sumo doce. O teu sorriso aberto, acentuando as rugas vividas dos teus olhos. As palavras breves, entre esforço e esforço. O cigarro. Qual seria?! O milésimo cigarro do dia... A loja. Por debaixo da casa. Oficina e adega e garagem. Um tudo para tudo, onde preguei tantos pregos desavisados na madeira seca. Só porque sim.

 

Alfafar.

O cheiro da terra, do mosto e do suor. A rua que subia até ao desconhecido e descia para a igreja. A alegria. O colchão de palha, que picava a pele e cheirava sempre a humidade. As vinhas. Ordem e Braçal. O portão rubro, quase sempre arrombado. Mais do tempo que das gentes. A nogueira. Velha anciã do sítio. Nos olhos inocentes de menina, nascida contigo. Mas com tantos mais sóis.

 

Alfafar.

Os degraus de pedra para a casa. As teias de aranha. O cheiro a lavado quando o Padre vinha, na Páscoa, trazendo Cristo e gula. As suculentas nos vasos. Neve?! Ou será esta uma memória falsa, criada de ouvido? Mas... sim... houve neve. Uma vez. Não me lembro do frio, mas dos farrapos brancos, pequeninos, caindo. E de nós... pequeninos... no alpendre de pedra velha onde as andorinhas tinham abandonado os ninhos. Neve. Mas calor em nós.

 

Provavelmente, sorveste os cigarros como eu sorvi as memórias e as palavras. Não sabia, naquele tempo, que a resposta certa para aquele sumo das uvas colhidas era “amo-te”. Dizia só “obrigada”. Tinham-me ensinado. Assim. Só a agradecer. Como se bastasse...

 

Mas aprendi a amar avô. Não te preocupes! E também aprendi a não amar. Não ando por aí a deitar palavras ao vento. Não... espera! Não aprendi! Mais importante: soube! Soube que o amor me é inato e não se aprende. Soube que o “amo-te” às vezes é o copo de sumo. Soube que o “amo-te” às vezes é o “obrigada” menino, levando-o aos lábios.

 

Não sei se – homem das vinhas e dos cigarros – aprendeste o jeito galante com as árvores, os pássaros, as personagens dos teus livros ou o tempo.

 

Sei que dizias amor de muitas formas. Com copos de água noturnos, gelados no murinho, jogos de dominó, cafés amargos de açúcar no fundo, maçãs descascadas à navalhada e sumos de uva. E com o café da manhã, de torradas feitas no fogão. Pés no colo, enrolados em mantas, nos filmes de Domingo à tarde. No lanche de Chocapic com torradas a verter manteiga. No aquecedor da casa-de-banho ligado antes do meu duche. E o “faz lá a vontade à menina” nos jeitos ocasionalmente descontes da minha mãe.

 

Alfafar.

Trarias a tua terra na voz. Com ela me marcarias os sentidos, traço a traço.

 

Tenho-te de volta no cheiro de todos os cigarros. Em todos os gelados. Em todas as torradas. Em cada chocolate quente. Em cada copo de água antes de dormir. E, por te ter de volta tantas vezes, nunca te perdi.

 

Lembrar que não estás é trajeto. Voltar àquela loja – também oficina e adega e garagem – pregar mais um prego desavisado na madeira seca como se fosse o caixão onde deitarei a mágoa e a saudade (e o corpo) algum dia.

 

Mas, de repente. O sumo. Antes de ser vinho. Antes de ser trova. Nos lábios. Na língua. Na garganta. Errando caminho e descendo ao coração, que o bombeia para o corpo inteiro.

 

Voltas. Outra vez.

 

O corpo regado fica. Para trás. Mas eu vou. Passo a placa de indicação onde se lê Alfafar. Subo os degraus de pedra. Entro na cozinha escura e ampla. A avó está ao pé do fogão e tu vens da marquise de vidros embaçados e trabalhados, com passos lentos. Mesmo ao lado do despertador velho – agora mudo - mas com má fama, plantas o copo.

 

Trabalho e recompensa:

- Também ajudaste nas vindimas, este é para ti! – dizes.

E a resposta-menina vem:

- Obrigada.

 

Uma conversa simples. Aparentemente. Mas inteligível apenas para nós. Nunca para quem não sabe que se traduz.

 

Volto lá. Pousas o copo de sumo de uva sobre a bancada.

- Este é para ti, porque te amo! – dizes.

E a resposta-breve vem:

- Também te amo, avô.

 

1 de outubro de 2022

Marina Ferraz





Fiquem atentos ao meu Instagram para saberem todas as novidades em primeira mão!

terça-feira, 27 de setembro de 2022

A Adega

 


Este texto não é patrocinado. Podia ser, mas não é. Porque não precisa de o ser para que eu insista que quero fazê-lo. Porque tenho mil motivos para o fazer e mais um, que surge sempre inesperado, quando julgo que já terminei a lista.

 

Enquanto o escrevo, bebo um copo de vinho tinto. Não é um copo de vinho qualquer. É deles! Um vinho feito com amor e uvas também. Um vinho chamado Lili, que é a cadelinha da Adega e ao qual, definitivamente, sendo preciso ou não, ninguém põe trela. Deixamos o vinho verter, livre, pela garganta. É intensamente suave. Uma espécie de amigo-de-todas-as-horas, que gostamos que convidar para jantar e para depois do jantar e enquanto fazemos o jantar... aquele que gostamos de apresentar aos outros amigos, porque se dá bem com toda a gente.

 

Beber os vinhos da Adega é provar um sabor de família. Os vinhos contam a história da Sofia e da Ana, ilustradoras exímias de rótulos e portadoras do sonho que é também dos pais. Os vinhos contam a história da Catarina e do David e sabem à sua coragem incomum, trazendo a força das decisões que vão além dos limites da caixa. Os vinhos contam a história da simpática Lili, que cumprimenta toda a gente com uma simpatia canina e um abanar de cauda. Mas os vinhos deles também contam a história do meu avô e da minha avó. Dos meus irmãos. Dos meus pais. Das vindimas e das festas na aldeia. Dos pedidos meninos às estrelas que, em Alfafar, se viam melhor. E conta a história das vindimas que viveu a Fernanda e das que viveu o Raul. E conta a história do Júlio e do Carlos e do Zé e da Vanessa. E conta a história de todos os nomes que mergulharam  nos copos e sorriram.

 

A Adega, como eu, é menina da cidade. Na verdade é a única Adega lusa que o é. Da cidade. E, além da história das gentes, os vinhos contam também essa história. De Alenquer à Tapada da Ajuda, com sabor de Tejo e Colina, eles trazem Lisboa lá dentro. Engarrafada, como o ar de Fátima, mas de uma forma mais plena e honesta. E a experiência é, não me entendam mal, quase religiosa, porque há muito mais do que madeiras e travos de fruto vermelho nos sabores. Há plenitude, entendimento, vontade, trabalho e doses infindáveis de sentidos e sentimentos. É assim que, numa velha oficina, se iniciou a artesã arte do engarrafamento de poesia líquida.

 

Dou mais um gole no meu Lili. E mais uma vez descubro-lhe a tenacidade envolvente da viagem em que me leva. Sou menina. Sou mulher. Sou cidade. Um tanino – talvez lento – que abriu melhor aqui e que quer brindar a vida, porque a ama.

 

A sala das barricas é a minha favorita. Adoro a forma como os sapinhos do logótipo tentam trepar pela madeira, como se consagrassem a poção que têm dentro. Adoro o cheiro agridoce da madeira e do vinho. A sensação fresca de algo que aguarda, no casulo, pelo momento certo para sair. Lembra-me a vida. Lembra-me Saramago e o seu conselho: Não tenhas pressa, mas não percas tempo. Nenhum tempo se perde. Tempo não é coisa que se perca quando – humanos – já temos tão pouco!

 

Eu, por exemplo, hoje usei o meu para isto. Para escrever este texto sobre a Adega, que não é uma adega mas A Adega, porque encontro nela referência, não só para os vinhos, mas para a vida e o mundo.

 

A Adega é o local onde sabemos que vamos encontrar um abraço de simpatia e um copo cheio nos dias mais árduos. A Adega é o espaço que nos ensina o valor da família, do sonho, do trabalho, do cuidado com os outros. E é por isso que este texto não precisa de ser patrocinado... e não o é! Porque há pessoas e locais que merecem a referência. Porque há sentimentos que têm sabores e cheiros e experiências sensoriais agarradas. Porque esta adega, a Adega, é assim...

 

E... vá... embora este texto não seja patrocinado, eu cedo aos pedidos mudos de quem conhece o espaço e já me viu nele... Aqui fica um movimento circular de mão sobre a nuca. Momento Publicitário.

 

Mas deixo também um segredo...

 

A parte importante não é a publicidade... é o momento!

 

Pensem nisto. Ou melhor, não pensem! Visitem a Adega Belém... e vão entender!


Marina Ferraz





Fiquem atentos ao meu Instagram para saberem todas as novidades em primeira mão!

terça-feira, 20 de setembro de 2022

Três vezes Góia

 


Fotografia de Rui Barroso


Góia, góia, góia...

 

Um sopro. Um sopro que é um murmúrio. Um murmúrio que é uma exultação. Uma exultação que vem de dentro. Dentro-dentro. Do espaço onde a alma principia, quando o corpo não basta. Um hábito... talvez.             Também...       mas não só. Um dialeto que não existe. Pessoal. Intrínseco. Intransmissível. Raro. Tão raro!... Cada vez mais raro. Mas nem sempre o foi...

 

O berço. Três chupetas na mão. O embalo calmo dos meus avós. O aconchegar das mantas sobre o corpo. O entalar das mantas, para que não me destape. Não se quer a menina ao frio. Chupeta número um, na luta contra o sono. Número dois, e fecha os olhos. Número três. O conforto. Mas o conforto supremo. Góia, góia, góia...

 

Para a minha família Góia era o meu dialeto para chupeta. Como Didia era Marisa e Didio era Ramiro. Sim... eu tinha um vocabulário muito vasto num idioma só meu! Mas, como em qualquer dialeto, quando não o sabemos, as interpretações podem frequentemente equivocar-se. Então, durante muito tempo sorri quando, de bebé ao colo, ouvia a minha irmã perguntar se alguém sabia da Góia. Porque góia não é... nunca foi... uma chucha.

 

Deito-me nos teus braços. Agarras-me suavemente. Luz muito ténue a vir do corredor. Canto da noite, entrando com o ar sorvido. O calor que te emana. O toque da pele, com travo a rosa e erva-lima. O arrastado do sabor da poesia, ainda a picar na língua, depois de um beijo de boa-noite. A almofada, que é macia e dócil. O colchão, que é aconchegante e convidativo. As memórias do hoje que termina, e foi tão bom. Os planos para amanhã, sem pressa do amanhã. E os muitos ontens que se vão somando. O cansaço do dia, a derreter. A mão, que tenta decorar a textura de outra pele, gravando-a nas impressões digitais. E a Morte, que sempre visita, para me aconchegar as mantas e dizer “hoje ainda não”. E o sopro. Um sopro que é um murmúrio. Um murmúrio que é uma exultação. Uma exultação que vem de dentro. Dentro-dentro. Do espaço onde a alma principia, quando o corpo não basta.

 

Góia, góia, góia...

 

Góia é um lugar. E não o é. É um sentimento, uma sensação, um espaço sem existência física. É aquele – muito raro – momento no qual a sensação de plenitude, de conforto, de bem-estar e de contentamento é tão intenso, que podíamos morrer ali e não queremos morrer de todo. É um espaço que vem sempre na hora do ocaso das gentes, quando se começa a mudar do plano da vida para o do sono. Mas que vem antes de dormir, quando a consciência, amortecida, ainda persevera.

 

Góia, góia, góia...

 

Era comum encontrar essa calma, essa candura, essa perfeição... No tempo em que dormia com três chupetas e estava cheia de mãe e de avós e de Didios e Didias a velar-me o sono contente. Mas góia não é... nunca foi... uma chucha.

 

 

Deito-me num abraço. A noite canta. O meu corpo liberta-se da tensão. E só cabe alegria no peito. Tanta, que expande e me preenche cada um dos órgãos vitais. Uma felicidade inexplicável... e nenhuma vontade de explicar esse lugar – o meu país das maravilhas – onde aceito sem entender essa coisa da plenitude.

 

Há um silêncio inerente no canto que a noite entoa.

 

E vem. À medida que o sono me ganha. Com tudo antes. Sem nada depois. Um sopro. Um sopro que é um murmúrio. Um murmúrio que é uma exultação.

 

Góia, góia, góia...


Marina Ferraz





Fiquem atentos ao meu Instagram para saberem todas as novidades em primeira mão! 

terça-feira, 13 de setembro de 2022

A direção do vento

 


Escrevi o prefácio da minha história em grãos de poeira. Com letra muito miudinha, como dizia o meu avô. Agarrei-o. Amei-o. Abri a mão. E disse. Voa. Voou.

 

Nunca ninguém o leu. Nem mesmo eu, que o escrevi. Ainda bem!

 

 

 

O vento passou por mim, numa segunda-feira de manhã. Assobiou-me ao ouvido. Pobre tonto. Aposto que não sabia que o piropo era, agora, proibido. Ou talvez soubesse. Mas assobiou à mesma. E, nesse assobio, falou como gente e disse. Escreve-me uma história de amor.

 

Tentei explicar ao vento que o amor já tinha sido gasto em muitas histórias. E mais... que quase nenhuma delas tinha amor por dentro, já que a palavra amor se esvaziara, com os anos, até ficar só a casca. Tão vazia. Tão oca. Tão desalentada... que não valia as árvores mortas para criar o papel desses livros...

 

Ele insistiu. Escreve-me uma história de amor.

 

Convidei-o a vir até à minha casa, num dia de luto. E ele lá nos encontrou. Dando o olhar leve uns aos outros. Abraçando-nos. Dizendo: enquanto um de nós viver, somos todos imortais. Dizendo: estou aqui. Mas sem dizer. Porque era desnecessário falar de amor. É sempre desnecessário falar de amor, quando ele existe.

 

Esta é a minha família. Contei-lhe. E ele entendia que eu sabia o que o amor era. Mas ainda insistiu. Escreve-me uma história de amor.

 

Pedi que me seguisse até lá. Ao homem – hoje pai – que sorria, onde eu não vejo. Ao músico – mergulhado em enredos e notas que vibravam nas cordas – onde eu não ouço. Convidei-o a sentir a alegria no meu peito ao contemplar o futuro do qual eu nunca fiz parte. Este é o caminho que eu não bloqueei. Expliquei-lhe. E ele entendia que eu sabia o que amor era. Por isso insistiu. Escreve-me uma história de amor.

 

Sentei-me, muito quietinha, nas ruas da solidão. E o vento passava. E o vento dizia. Escreve-me uma história de amor. Mas eu estava contente com só-estar. E feliz por ser essa pessoa que ama, apesar de, além de, para sempre...

 

E então, o vento soprou do mar. Trouxe-me as gotas da maré de uma lua que crescia no céu. Assobiou-me ao ouvido. E, com um riso de menino perdido, mudou a narrativa. Escreve-te uma história de amor.

 

 

Escrevi o prefácio da minha história em grãos de poeira. Com letra muito miudinha, como dizia o meu avô. Porque tinha medo que alguém o lesse e o achasse mundano. Esse prefácio? Agarrei-o. Amei-o. E, como sempre se faz onde há amor, abri a mão. E disse. Voa.

 

Talvez nunca ninguém o leia. Ou talvez toda a gente o leia. Ou talvez não interesse realmente saber se alguém lê.

 

Mas isto confesso. Uma história de amor cabe inteira no prefácio.

 

E o resto... para quem perguntar... depende apenas da direção do vento.


Marina Ferraz





Fiquem atentos ao meu Instagram para saberem todas as novidades em primeira mão!

 

terça-feira, 6 de setembro de 2022

Caos de blocos em nós


Não explode. Não rebenta. Solidifica. Com o tempo vem ao topo. Com o tempo erode. E tudo é caos. Mais valia, penso, que tivesse explodido, rebentado, incendiado. Mas não! Solidificou. Dentro. Veio à flor da pele dessa terra que somos. E, ali, erode. Criando formas rígidas e arredondadas. Quem olha, não faz ideia...

 

Ninguém sabe o que vem de dentro e como chega à pele. O modo como os gestos, as palavras, as ações do mundo se imprimem, criando tensões e medos e agruras. A violência não é inata. A rigidez também não. Criam-se na profundidade do planeta que somos. Debaixo das muitas camadas que nos compõe e que nos cobrem o centro líquido e quente, que é alma e mente e emoções que ninguém explica.

 

O magma é o sangue nas veias. E, por vezes, quando a vida magoa por ação alheia, a erupção acontece. Vem, explosiva. Escorre e queima. Devia ser sempre assim! Devia ser sempre esse cuspir de piroclastos na forma de palavras. Devia ser sempre esse jorrar de ideias que diz: isso magoou-me e não é justo. Mas não é. Calamos. E, quando calamos, lançando o gelo para dentro, tentando agir friamente, racionalmente, o magma do não-dito solidifica ali mesmo. No coração. Na garganta. Vira tumor.

 

Orgulhamo-nos do domínio do eu. Do que não fizemos. Tão racionais! Tão controlados! Palminhas para nós! E vivemos eternamente com a consequência...

 

Não foi dito. Nenhuma discussão encheu a sala de gritos. Muitos parabéns! Nenhuma violência tomou forma. Palminhas para nós! Pacatez e silêncio. O engolir do ressentimento. O engolir da mágoa. E agora?!? Solidificámos com frieza o magma da palavra. Dentro. Evitámos a erupção. Engolindo. E ficámos com o sólido do tumor na garganta. Que não explode. Que não rebenta. Mas que ascende e cria marcas em nós, pintando-nos a pele, seja a do corpo ou a da alma. Vícios. Hábitos. Tensões. Blocos arredondados de matéria que devia ter sido palavra. E não foi.

 

Um dia, quando vier ao topo, vão chamar-lhe caos. À medida que a vida lhe lima as arestas e que a mágoa rola, levando tudo à frente. Vão chamar-lhe caos. Quando formarem uma paisagem de rocha impossível de escalar. Vão chamar-lhe caos.

 

Mais valia, penso, que tivesse explodido, rebentado, incendiado. Mas não. Calamos. E para quê?! É um caos de blocos em nós.

 

Sei que sou difícil. Essa é a parte fácil. Saber que sou difícil. Ver o cenário granítico de montanha em mim. Entender essa rocha – o meu próprio Monte do Silêncio – e saber que sou caos. Mas porquê? Enfim... calei. Calei tanto que, hoje, não calo. Vão chamar-me muitas coisas. E há caos... eu sei!

 

Há muitas rochas dispersas para escalar em mim. A maioria vai desistir antes de chegar ao topo, de onde se vê até ao infinito das florestas da fantasia que me povoam a mente. Sei que não sou fácil. Certamente não sou para todos. Também não faço questão de ser. É preciso alguém muito especial para ver que, além da pedra, existe uma história... uma história bem antiga... que começou num sítio muito, muito profundo...


  Marina Ferraz





Fiquem atentos ao meu Instagram para saberem todas as novidades em primeira mão!