terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Dois segundos


Fechei os olhos por dois segundos. Foram só dois segundos, não foram? Fechei os olhos por dois segundos e a vida passou.
Quando abri os olhos, não estavas aqui. O telefone tocava insistentemente. Do outro lado, ninguém. Ficava o toque intermitente da desistência. A mesa tem seis lugares mas sento-me só. Sozinha com os fantasmas que, há dois segundos atrás, eram aqueles que juravam "para sempre".
Nesta mesa, recordo, fomos seis. E depois fechei os olhos por dois segundos. Fiquei só. Fora, só dois segundos, não foram?
Retorna-me o olhar, no espelho baço, um rosto velho e enrugado, emoldurado pelo branco dos fios gastos do cabelo. Seguram-me, algures, três senhoras o mais frágil entre eles. Mas não cortam ainda. Querem que veja, que saiba quão errado foi fechar os olhos por dois segundos.
Nas prateleiras há memórias emolduradas de uma vida que perdi. Fechei os olhos por dois segundos e perdi-a. Como? Nem eu sei...
Onde foste, amor? A tua roupa desapareceu das gavetas e o pó acumulou-se nelas, em seu lugar. Não há vestígio de ti, senão esse das molduras velhas com as quais implicavas tanto. Ainda bem que não te ouvi! Como poderia saber que foste real se não me ornamentasse o corredor esse teu rosto de anjo taciturno?
Fechei os olhos por dois segundos. O pêndulo do velho relógio está parado. Mas ouço ainda o seu tiquetaque na memória. Compassava-me o pensamento e era fácil pensar. O relógio parou e pensar magoa, cansa. Porquê? De novo, insistentemente, toca o velho telefone, sem que vivalma reaja ao "olá" seco e arrastado que sai de onde antes estava a minha voz. Foram só dois segundos. Fechei os olhos por dois segundos e perdi a voz.
Na mesa vazia, na cama vazia, na casa vazia, sinto a mente cheia de quem fechou os olhos por dois segundos e perdeu uma eternidade. E a velha do espelho, chorando, parece que ri de mim.
Cansei-me de deambular por entre a poeira e as memórias emolduradas. Cansa-me porque magoa. Aquela rapariga, que era eu, nunca a fui. Por entre o sorriso, não fui feliz. Mas não fui feliz porquê, se tinha tudo, incluindo a mesa cheia, a cama ocupada, a vida plena? Por entre o brilho, não fui jovem. Fui sempre anciã de anseios e idosa de sonhos. Mas pergunto à velha enrugada do espelho: porquê?
Fechei os olhos por dois segundos. Fechei-os porque o cansaço adensou, nos tempos em que nem cansaço deveria haver. É ridículo gastar tempo de mesa cheia. Sento-me hoje só, com fantasmas e memórias. O telefone toca. O relógio já não dá as badaladas. Nenhum tiquetaque. É assustador o grito constante do silêncio que fica quando o telefone emudece.
Fechei os olhos por dois segundos. Foram só dois segundos, não foram? Fechei os olhos por dois segundos e a vida passou. Deixou-me as rugas no rosto, as memórias emolduradas e uma mesa de seis lugares, onde me sento só, desejando o dia em que nela já não se sente ninguém.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

A festa do Sol


Antes do Natal, havia o Sol. O Sol que brilhava no céu do Inverno, fazia promessa em Dezembro: dias mais quentes virão. E vinham. Para todos. Antes do Natal, havia o Sol.
Com o tempo, o Natal mudou. Mudou de centro, mudou de ideias, mudou de religião. Em tempos, era feito em honra de um menino. O menino cresceu. Vestiu encarnado. Usa barbas brancas. Em tempos, era um tempo de entrega e partilha. Entrega e partilha de emoções, de momentos, de histórias. Com o tempo, passou a ser um tempo de dar e receber. E mudou o que se dá e recebe. Hoje, vem dentro de caixas com lacinhos. Em tempos, honrava o Sol. A vida. Depois a vida de um Deus. Depois o Deus do dinheiro, que se acorrenta ao senhor de barbas brancas. Mas antes, antes do Natal, antes dos presentes, antes do consumismo, antes dos sentidos se darem e venderem e embrulharem com papel colorido e fitinhas luzentes, havia o Sol.
Vem com o Inverno, o Natal. Esse que dizem que é um tempo de alegria. Nas ruas, eu vejo pessoas apressadas, iluminações coloridas, montras recheadas e mendigos a pedir esmola. Vejo pessoas a comprar doces, a comprar brinquedos, a comprar livros e joias e consolas caras. E vejo meninos a tirar comida do lixo. E, enquanto uns vibram na alegria do Natal, junto a lareiras acesas, entre risos e gargalhadas, outros deitam-se nas caixas que sobraram sob o seu tecto de estrelas. E, pelas ruas, o som do silêncio, entrecortado pelo eco inexistente da partilha que só se dá àqueles que, de alguma forma, têm Natais todos os dias.
Lá fora, neve ou chova, há quem não tenha mesas cheias, famílias felizes, agasalhos. Seja Natal ou não, há quem se afogue nos prantos de uma vida onde a regalia ficou vedada, vendo passar as elites da má sorte, que se queixam por quase tudo o que não é problema.
É Inverno. E, no Inverno, pesa mais a visão enregelante daqueles que não têm nada. Mas o Natal mudou. Não é o tempo da partilha. É o tempo da cegueira. Já não se faz no centro das ruas. Faz-se no centro comercial. Faz-se no fechar de olhos voluntário que se estende um pouco por todos nós. Porque ver magoa. E ninguém quer sofrer.
No Natal fala-se de magia. E eu também a vejo. É que, antes de haver Natal, havia o Sol. E o Sol não se dá mais a ninguém. Nasce para todos. Antes do Natal, havia o Sol. No meu cantinho quente e privilegiado, é o seu nascimento que eu celebro. E não tem nada a ver com religião, com moralismo, com lições de vida. Não tem sequer a ver com textos bonitos e poéticos. É só que, antes do Natal, havia o Sol. E, enquanto que o Natal não é para todos, o Sol ainda é. 

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Demasiado



Ela punha demasiada manteiga no pão. Demasiado chocolate no leite. Demasiado açúcar no café. E, depois, esquecia-se de temperar a vida. Ficava quieta. Calada. A olhar para o infinito. Sem tristeza nem alegria. Somente com o vazio ponderado da abstracção.

Ela punha demasiada espuma na água do banho. Demasiado incenso nas salas comuns. Demasiados pontos finais nos textos escritos à pressa. E, depois, esquecia-se do aroma do mundo. Fechava-se nela. Longe. Sem viver.

Ela punha demasiada atenção na roupa passada. Demasiadas notas na agenda. Demasiado intento na lavoura dos dias. Demasiadas regras no momento que passava. Mas, depois, não punha demasiado de nada nas suas vivências. No salto abrupto e ininterrupto, cheio de normas e exageros, a vida era confinada à infinidade desunida do nada.

Passando na rua, ela deixava no ar um sentido de urgência, misturado no azedume de nem se notar a sua passagem. Um tudo ou nada de perfeição imperfeita, sem nome, cheio de nomes. Cheio de penas e de planos para amanhã. E sentava-se, sempre na mesma mesa, pedia sempre o mesmo, olhava para mim sempre com um vazio atolado de coisas. E falava, em silêncios cortantes, atropelando palavras na ânsia de chegar ao fim das frases, ao fim da conversa, ao fim da vida.

Um dia disse-lhe. Disse-lhe que punha demasiada manteiga no pão e demasiado açúcar no café. Insisti que pontuava demasiado os textos e que, talvez por deformação, pontuava também a vida em demasia, em pontos finais que situava, de forma atabalhoada, em frente a tudo o que a podia fazer feliz. Apontei-lhe o dedo, disse que se importava demais com a roupa engelhada, com as tarefas do dia, do mês, do ano. Ela punha demasiadas dúvidas nas minhas palavras, demasiados conflitos nas nossas conversas, demasiadas barreiras entre nós. Fazia-o como quem não sabe que pode entender que existe um mundo fora dos obstáculos muralhados com os quais protegeu o corpo indefeso.

Então eu disse-lhe. Disse-lhe que não era ela contra mim. Nem eu contra ela. Expliquei-lhe que, algures, havia um nós contra tudo. E, longe de entender, ela pôs demasiados medos sobre a mesa na qual se sentava sempre com o mesmo pedido e o mesmo olhar vazio de mente cheia. Podia ter desistido. Mas, talvez porque a ame demasiado, escolhi ensinar-lhe a arte da vida. E, por entre as coisas mais simples do dia, tento fazê-la feliz.

Ela ainda põe demasiada manteiga no pão. Demasiado chocolate no leite. Demasiado açúcar no café. Ainda se preocupa com as tarefas. Ainda usa a agenda e demasiados pontos finais nos textos. Mas está a aprender. E, de vez em quando, esquece-se da agenda em casa. De vez em quando, não se importa se o trabalho atrasa. De vez em quando, deixa tudo apenas para estar sentada ao meu lado, a ver-me jogar. Começa a deixar de temperar a vida com os mesmos sabores de sempre. Quer estar aqui. Quer viver. Sorri. Não demasiado. Na medida certa. E para sempre.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014



só.
uma palavra que já é um poema
porque ninguém o ouve

e um banco de jardim que é sepultura,
onde me recosto na morte
sem ninguém se importar.

a solidão tem muitas formas.
hoje, é uma pomba que abre as asas
e recusa um grão de milho.

ontem, era a casa cheia
de sossegos insuportáveis
e sombras no cair do sol.

só.
uma palavra que já é um poema.
não rima mas ecoa, e é feita de silêncio.

Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Dos outros



Dos outros, eu nunca esperei outra coisa. Se me davam a mágoa, era a mágoa que aceitava no peito. Dela, colhia o fruto amargo do sofrimento. E abriam-se feridas na pele da alma. Cansada mas consciente. Dorida mas terna. Não os culpava. Se me davam a mágoa, era a mágoa que eu aceitava, sem outro gesto que não o de um sorriso leve e um agradecimento mudo.
Chamaram-me muitas coisas. Diziam-me sofredora, estúpida, complacente. Tratavam-me como se, da aceitação, viesse a prova que me tornava cúmplice de um crime contra a humanidade. Mas não. É só que, do outros, eu nunca esperei outra coisa. E estava farta da solidão.
Dos outros, eu nunca esperei outra coisa. Se me enchiam de mentiras os ouvidos, eram as mentiras que aceitava na pele. Delas, fazia poemas sem rima. Textos sem pontuação. Romances sem prólogo, sem epilogo, sem capítulos. Neles, procurava perder a noção da verdade, para dar espaço às linhas em branco onde coubessem essas ficções desprezíveis, cheias de lacunas justificadas com outras mentiras e outras lacunas impossíveis de colmatar. Agradecia as mentiras. E tomaram por teimosia, por cegueira, por loucura, essa tonalidade branca e cheia de gratidão. Mas não. Simplesmente, dos outros, eu nunca esperei outra coisa. E estava farta de ver no espelho o meu reflexo sozinho.
Dos outros, eu nunca esperei outra coisa. Se me davam a ausência, era da ausência que fazia companhia nas noites frias e era com ela que falava sobre a vida. De mãos dadas com ela, percorri todas as ruas do desassossego e algumas avenidas de saudade. Não tomei atalhos. Deixei que me arrastasse pelos caminhos mais longos, falando sobre as mentiras e a mágoa. Respondia-lhe com fé. Com esperança. E até a ausência falava da loucura nos meus olhos. Expliquei-lhe. Expliquei-lhe que, dos outros, eu nunca esperei outra coisa. Que era melhor a companhia inusitada da ausência do que a solidão de não haver quem connosco pudesse partilhar os caminhos.
Dos outros, eu nunca esperei outra coisa. Como se nada pudesse ser esperado daqueles que dão, de si, apenas o negrume que trazem dentro. Como se nada pudesse pedir-se a quem vem ao mundo apenas para levar o mundo nas mãos, roubando até a luz dos olhos dos outros para iluminar as vielas onde as almas se fazem noite.
Foi fácil não esperar nada dos outros. Porque eles tinham marcado, nos rostos que sorriam, as lágrimas de quem nunca chorou. Esse traço de mágoa por sentir, que se acumula nas mãos e é infligido àqueles que com eles se cruzam no caminho tortuoso da vida.
É muito simples distinguir, nas ruas, aqueles de quem se pode esperar algo. É a menina que sorri ao mendigo que pede esmola, em vez de se afastar. É o rapaz que ajuda a senhora de idade a atravessar a estrada, em vez de troçar da sua condição. É o homem que corre atrás da senhora carregada para lhe devolver a carteira, que deixou cair, em vez de a guardar para si. São as pessoas que olham em redor, por entre a corrida desenfreada dos dias. Mas são tão raras, essas pessoas, que desaparecem com facilidade no centro das cidades repletas daqueles dos quais não se pode esperar nada.
E é por isso que, dos outros, eu nunca esperei outra coisa. Nunca esperei deles mais do que as mágoas, as mentiras e o abandono. E não me desiludi quando foi isso que delas recebi, porque compreendi que não tinham mais nada para dar.
Mas de ti? De ti, esperei o mundo inteiro. Esperei um copo de sol, todas as manhãs. Um abraço de ternura, todas as noites. Um dia de sorrisos. Verdades sem camuflagem nem lacunas. De ti, esperei a companhia de mãos que não se largassem nas ruas do infinito e nas avenidas da paixão. E não foi nada fácil esperar isto de ti quando, de todos os outros, esperava somente as mágoas, as mentiras e o abandono.
Tinhas um brilho nos olhos. Querias que o mundo fosse um lugar melhor. E disseste-me que devia ter esperado mais... não dos outros, mas da vida.
Disse-te. Disse-te que era melhor esse pedaço de nada do que a solidão. E tu prometeste-me. Prometeste que não ficaria só. Nas tuas palavras, nasceu a expectativa. De ti, esperei o mundo.
Deste-mo. Ele vinha num copo cheio de sol. Bebemos dele. Ficámos embriagados dessa luz. Amanheceu em nós. De ti, eu não espero outra coisa. Somente a felicidade. E a felicidade é saber que, de ti, posso, sem medos, esperar o mundo.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet


terça-feira, 25 de novembro de 2014

Podia falar



Podia falar-te da dor. Conheço-a bem. Andámos na mesma escola e partilhámos a vida durante muito tempo. Sei que ela não é compreendida por todos, embora, cedo ou tarde, todos acabem por se dar com ela e a acolham no peito, por mais ou menos tempo.
Sim. Podia falar sobre a dor! Todos a conhecem. Mas eu entendo-a. Entendo-lhe a alma amargurada e a necessidade de se fazer presente, de se fazer notar, de aparecer e de tentar permanecer nos recantos e permeios de todas as partes da vida. Conheço-a bem. Por isso, podia falar sobre ela.
Mas eu não quero falar-te sobre a dor. Acredito que a compreendesses, como eu. Que entendesses e até aceitasses que, em alguns passos, ela foi chão em vez de abismo. Talvez acabasses por lhe agradecer, admitindo, como tantos antes de ti, que ela te ensinou mais do que alguma vez poderia roubar-te. Mas eu não quero ser a pessoa que se senta e te explica que conhece a dor, que a trata pelo nome. Não quero ser a pessoa que te convence que existe uma razão, seja qual for, que valide o sofrimento. Haveria mil razões. Mas para quê? Sofrer já dói o bastante sem o peso da justificação.
Não! Não vou falar-te da dor, embora pudesse fazê-lo. Seria simples. Conheço-a bem. Mas, no cultivo constante deste amor por ti, compreendo que não é a dor que quero trazer para o centro das nossas conversas.
Eu quero amar a sorrir. Quero amar a sorrir porque estou farta de amar a chorar. Passou o tempo das lágrimas. Elas saíram de moda e eu já não quero usá-las. Cansei-me de abraços desertos à almofada molhada. Cansei-me de dizer boa noite à solidão entrecortando a palavra com o gemido cansado do choro. Eu já amei a chorar, nos tempos em que conheci a dor. E chega! Agora quero amar a sorrir. Não quero falar-te da dor.
Durante muito tempo, esperei. Julguei que esperar podia trazer-me de volta o que nunca tive. Julguei que, se chorasse o suficiente, os Deuses entenderiam a necessidade que guardava de ver esse retorno acontecer. Os Deuses viram. Viram, mas sabiam da vida e do mundo coisas que eu não podia aprender de outra forma que não esperando. E, sem fazerem nada, ensinaram-me bem a lição. Não quero falar-te da dor. Não importa quão bem a conheça. Não quero falar sobre ela.
Podia falar-te da dor. Essa que toda a gente sente. Uns de propósito. Outros sem querer. Outros, ainda, por não saberem querer outra coisa ou que existe outra coisa para se desejar. Mas estamos aqui. Tu e eu. E já não é tempo de amar com lágrimas nos olhos. Por isso, mesmo podendo falar-te da dor, não vou fazê-lo. Não vou fazê-lo porque hoje sei... A vida não tem um prémio para quem sofrer mais. Ser triste é apenas ser triste. Ser feliz é outra coisa. E a recompensa é essa mesmo. Ser feliz.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Ameno



O tempo, lá fora, quer-se ameno. O amor não. O amor não é para ser ameno.

O amor quer-se quente, desenfreado e louco. O amor quer-se nos intervalos entre a paixão, o medo, o encanto, a luxúria. O amor quer-se nos recantos ensurdecedores de um coração desaforado. O amor é para ser devasso, às vezes, para ser intempestuoso, quando calha. Para nos aquecer as almas no centro do corpo e o corpo no centro da cama, no centro do mundo, no centro da vida. O tempo, lá fora, quer-se ameno. O amor não.

O amor quer-se em beijos sem pudor e nas mãos dadas pela rua. O amor quer-se em folias desiguais e na seriedade infantil das horas. De vez em quando, quer-se que aqueça ao ponto do impossível, que ruborize o rosto e envergonhe. De vez em quando, quer-se frio, duro, ponderado. O amor é um tudo e nada instável. Um quente e frio em constante permuta. E é assim que deve ser. O tempo. Esse deve ser ameno. O amor não.

O amor quer-se por entre a multidão ou na falsa solidão do deserto. Quer-se à mesa, no sofá, na cama. Quer-se no chão e nas paredes. Quer-se no corpo vestido e na alma nua; quer-se na alma coberta e no corpo exposto. O amor quer-se, no temporal das paixões e no calor  das amarguras. O amor quer-se quando começa a ventania, para dar conforto e quando a serenidade pede pelo afago. O tempo, lá fora, quer-se ameno. O amor não.

O amor é para ser louco. O amor é para rebolar na areia da praia, para correr por entre as árvores da floresta, para cair nas colinas do tempo. O amor é para arrancar o riso, arrancar o choro, arrancar o que fica de permeio entre uma coisa e a outra. É mesmo assim: extremista e ponderado, instável e volúvel. O amor é para ser explosivo, para ser inteiro, para ser inconstantemente constante nas nossas vidas. É para ser quente, para ser frio, para ser cálido ou glacial, para ser soalheiro ou chuvoso. Às vezes umas coisas, outras vezes outras. Às vezes tudo ao mesmo tempo. Tanto faz. Mas ameno? O tempo lá fora, sim, deve ser ameno. O amor não!

O amor não nasce para ser insosso, intermédio, cómodo. O amor nasce invernoso nos Verões. E desafia, puxa os limites, acrescenta pontos, lima arestas, constrói mundos melhores com pessoas melhores. O amor estimula, afronta, busca o que fica atrás dos sentidos, constrói sentidos novos, luta contra os códigos e as convenções e até com as luas e as marés, se for preciso. O amor pode dar conforto, claro. Mas não pode, não deve, ser conformista, acomodar-se, amenizar-se. O tempo lá fora, quer-se ameno. O amor não.

O amor é feito de amizade e de paixão e de desejo. O amor é feito de companheirismo, de ardor, de afeição. E é feito de luta constante: por um, pelo outro, por ambos... por um lugar melhor, por ser melhor, por ter melhor. E, tão cheio de tudo, o amor é chama e arde e consome. É terra e céu. E às vezes, no amor, chove e faz frio. Às vezes faz sol e aquece até ao limiar da impossibilidade. O tempo, lá fora, quer-se ameno. O amor não. Um amor ameno seria amor a menos. E amor a menos não é amor. Por isso, embora o tempo se queira ameno, o amor não. Nunca o amor...

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Amor cativo



Eu não sou o céu. Admirei-me, por isso, quando escolheste sentar-te a meu lado, em vez de voar. Perguntei-me se terias visto as minhas asas e ignorado as raízes que, feito correntes, me prendiam ao solo. Depois reparei que olhavas para elas, que sabias que eu não podia fugir da realidade para te dar um pouco desse céu que eu não sou.
Enquanto te sentavas, cada dia mais perto do meu coração, questionei-me se terias enlouquecido. E, cada vez que te aproximavas, confirmavas as suspeitas que eu guardava no peito. Mantinhas as asas fechadas e olhavas-me como se no meu rosto visses milhares de sóis, espelhados em pontinhos luminosos e incandescentes de luz. Tentei dizer-te eu não era o céu. Talvez fosse noite. Talvez fosse trevas. Mas não era céu. Não havia estrelas, nem galáxias, nem sonhos distantes em mim. Eu era prisioneira da terra onde criara raízes.
Cada vez mais perto, notaste-me por fim as asas. As asas negras e fechadas. As asas imperfeitas e  mirradas que já não sabiam abrir-se. Chorei, de te ver tocares-lhes com as pontas dos dedos. Perguntaste se me estavas a magoar. E, deixando as lágrimas cair no rosto triste, disse que não. Expliquei que não podia voar. Repeti que não era o céu. Que nunca poderia ser, para ti, essa imensidão de luas e luares.
Levantaste-te. Pensei que ias embora. Entendi que não me espantaria que fosses. Aceitei que o adeus era tudo o que podia morar nesse movimento leve, lento, subtil. E, sabendo o quanto magoam as raízes, aprendi a deixar que fosses, por mais que a saudade viesse ocupar o lugar que deixavas a meu lado. Não disse palavra que te indicasse que deverias ficar. Ainda assim, depois de te levantares, não partiste. Envolveste-me o corpo nos braços e disseste que me amavas.
Uma palavra de amor. Simples. Calma. Sem artifícios desnecessários. Sem avisos forçados. Senti quebrar as raízes que me prendiam ao solo e o negrume que me tornava escrava da noite. Abri as asas. Descobri que o seu negro se iluminava no calor do sol. Podia ser livre. Por fim. Mas também te amava. Então, acorrentei o meu coração ao teu. Vi-te abrir as asas também. E voámos juntos por aí.
Eu não sou o céu. Tu não és o céu. Mas sentaste-te a meu lado. E enquanto estivermos juntos não há céu que não possa ser nosso.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Esperar


Eu não posso esperar que o mundo gire ao contrário nem que as estrelas cadentes se transformem na realização dos meus desejos insensatos. Não posso desejar que o tempo pare, que ele volte atrás e me devolva o que de mim se perdeu pelo caminho. Não posso esperar que mudes: que mudes de ideias, que abras o coração, que me recebas na imensidão de um abraço. Não posso esperar que o meu coração pare de vez ou que aprenda a bater apenas quando te sentir por perto. Mas, ainda assim, posso esperar por ti a vida inteira.
Posso esperar. É isso mesmo. Não me entendas mal.  Posso esperar, mesmo sabendo que não voltas. Mesmo sabendo que vives sem sequer saber que eu espero. Posso esperar. A espera depende só de mim.
Voltes ou não. Acredita em mim. Posso esperar. Posso parar, na insensatez, arrebatada pela loucura. Posso erguer-me, permanecer de pé, ganhar raízes no chão poeirento desta memória de ti que vivo sozinha. Posso esperar. E,  mesmo que não o saibas, posso orar em silêncio para que fiques bem, quando a vida te destroçar. Posso desejar, num cruzar de dedos, que os nossos caminhos se cruzem, ainda que o façam apenas ocasionalmente, num "olá" de corrida, dito a medo.
Eu não posso esperar que o tempo volte atrás. Não posso esperar que ele me devolva o que perdemos nem que me espere, mais à frente, um futuro mais brando do que o presente. Não posso desejar que o mar retorne à nascente e tudo recomece, aos poucos, para eu poder acertar aonde errei. Não posso esperar que me estendam as promessas que foram quebradas nem que as reparem com poções e feitiços de encantar. Mas posso esperar por ti a vida inteira.
Posso esperar. Hão de dizer que é errado. Esperar, para alguns, pouco é além de uma escolha consciente da morte. Mas, como eu posso esperar, não importa o que digam. Não irão abalar-me, não irão mover-me. Hei-de esperar por ti a vida inteira, ainda que a vida não acabe no amanhecer tardio de um dia onde não estás.
Entende. Eu não posso esperar nada do Mundo. Não posso esperar nada da vida. Não posso esperar nada do passado ou do presente ou do futuro. Tudo o que eu posso fazer é esperar por ti. Esperar a vida inteira por mais um pedaço de céu. Esperar a vida inteira para poder sorrir outra vez.
Que vida doce será essa que viverei, esperando por ti. Pois esperar por ti é esperar pelo amor, viver de amor, ser amor. Eu não posso esperar nada da vida mas posso esperar por ti a vida inteira. E a vida terá o teu nome, nos (re)cantos intocáveis do meu pensamento, onde o amor se ergue mais forte do que o tempo que passa sem estares aqui.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Reflexo



No meu reflexo, eu ainda parecia eu. Então, demorei a perceber o que estava errado. Demorei a compreender porque é que, olhando, me parecia que a pessoa que me devolvia o olhar não era eu.
O meu reflexo tinha as mesmas feições. Talvez um pouco mais esguias. Talvez cobertas por uma camada mais espessa de maquilhagem. Talvez sobrepostas num corpo que trajava outras roupas. Mas o meu reflexo, aquele que me devolvia o olhar cheio de sonhos, ainda tinha o meu olhar, ainda vinha com os mesmos traços do rosto.
No meu reflexo, eu ainda parecia eu. Mas, ao mesmo tempo, parecia que eu me faltava, naquela imagem reflectida com a qual eu me assemelhava tanto. Movi-me com desconforto. O meu reflexo imitou-me. Suspirei. O meu reflexo suspirou comigo.
Quem és tu? - perguntei à pessoa do espelho que, deliberadamente, como apenas eu sei fazer, repetiu a pergunta e não me respondeu. A ausência de resposta, impregnada de teimosia e enfado, foi, em si, a resposta que eu procurava quando perguntei "quem és tu". E cruzei os braços sobre o peito, erguendo o sobrolho, enquanto a imagem reflectida insistia em ridicularizar cada movimento, imitando-o.
No meu reflexo, eu ainda parecia eu. E, depois, compreendi o que estava errado. Como se a imagem que mostrava aquele rosto que, sem sombra de dúvidas me pertencia, fosse subitamente, não uma réplica de mim mas a verdade sobre tudo o que sou. E senti a vontade de me fundir na imagem do espelho, de desaparecer nela e de, juntas, nos anularmos mutuamente até eu não ser ninguém. Não precisei. Não precisei de adentrar os limites vítreos do espelho. Senti-me um reflexo de mim. Compreendi.
Não sou ninguém. - anunciei. Um pensamento que soou na minha voz. Uma voz que o espelho já não tinha e que eu me sentia perder cada vez mais. Não sou ninguém e não tenho voz. Emudeci nesse pensamento, pelo medo de que, se tentasse dizê-lo, ele soasse a nada e não houvesse som. Estou a desaparecer. E o pensamento, pelo medo de ser ouvido, soou baixinho, dentro de mim. Estou a desaparecer. Repetiu, num eco constante que me assustou e fez endurecer a expressão que o espelho reflectia.
Aproximei-me do espelho. Aproximei-me tanto que a minha respiração o embaciou e a imagem desfocada de mim se perdeu, no enevoado de um suspiro. Não quero morrer. Tentei dizê-lo mas a voz faltou-me. Ou talvez me faltasse apenas o desejo da voz. Ou tão somente a vontade de desejar o que quer que fosse. Entrei num mundo de silêncio. E de desassossego. E de apatia. E o espelho ia reflectindo o rosto, sempre igual, naquele reflexo de alma.
Quem és tu? - gritei, em desespero. Queria soltar as palavras. Estava farta de as prender. A imagem do espelho não moveu os lábios na minha pergunta. Em vez disso, retraiu-se e ficou com os olhos tristes e vidrados por lágrimas. Continuei a gritar, louca e loucura, por entre mundos de desassossego. Estava farta da apatia, do silêncio, da calma daquele reflexo de mim que eu já não queria ser. Quem és tu?
A imagem do espelho limpou o rosto. Encolheu os ombros. Eu sou o que tu escolheres fazer de mim.
Acordei. Acordei desse sonho. No meu reflexo, eu ainda parecia eu. Mesmo com o cabelo desgrenhado e o rosto marcado pela almofada e todos os traços desalinhados da manhã. Era uma escolha minha. Quis parecer feliz. Então sorri. E o meu reflexo sorriu comigo. 

Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet