terça-feira, 22 de setembro de 2015

Luo-te



Não te amo.

Desculpa.

Sou-te luar. Não posso dizer que te luo. Posso? A lua não tem formas verbais. Conjugações. Mas é isso. Sou-te luar. Luo-te.

Luar é muito mais do que amar. O amor é redutor. Fizeram dele palavra de uso. E definiram-no, como se pudessem definir o cosmos, em palavrinhas tão pequenas que delas mal se retira um significado que valha a leitura.

Passa por coisa de brilho. Coisa de luz. O amor. A lua não. Sendo brilho e luz, a lua lembra que anoitece. Lembra que há fases. Que há escuridão nos meandros do tempo que avança. E lembra que o negrume aparece, alastra, se torna tão permanente que é como se não existisse salvação. Tudo, para depois lembrar que a salvação existe, que a luz retorna, que o brilho não se perdeu.

Somos assim. Tu e eu. Com as nossas fases boas. Com as nossas fases más. Com as nossas metástases de sonho, irradiadas pelo corpo e pela alma. Pelo coração pulsante. Pela garganta arranhada dos gritos e dos desassossegos. Temos dias bons. Temos dias maus. Às vezes, és o meu cavaleiro, protector e indestrutível contra as adversidades do mundo. Mas, em alguns dias, és menino, e eu visto a armadura e avanço rumo aos medos, pelos dois. Somos escada. Degraus da mesma escada. Subindo pelos mesmos objetivos. E, todas as vezes que me deparo com as sombras irradiadas pela dor penetrante de um adeus, sei (mais do que admito saber), não quero descobrir um mundo sem ti.

Somos o reflexo dos passados que vivemos e nunca superámos. Bichos isolados, temerosos, sempre à espera que nos seja infligido o sofrimento. Não deixamos ninguém passar da soleira da porta. Só deixámos uma vez. Passei a porta. Passaste a muralha. Passei a carapaça. Passaste a máscara. Entrámos na vida um do outro. No espaço um do outro. No lugar um do outro. No corpo um do outro. Na pele um do outro. E sabem os Deuses que entrámos, por vezes, à força de nos batermos contra pessoas, problemas, circunstâncias e fantasmas.

Obsessivamente, recuso-me a imaginar-me sem ti. E sinto, de ti, uma recusa igual. Passa o tempo. Passa a vida. E lá vêm os nossos quartos minguantes. A nossa escuridão. Procuro não dizer que também te quero o caos. Mas quero. Quero-te o sorriso. A mão. O calor. Mas também quero o nervosismo irado que embate nas paredes e me ataca, me desconsola, me atormenta.

Dirão - têm razão - não é amor! Não te amo. Luo-te. Em todas as tuas fases. Sinto-me sempre perder o olhar e a noção em ti. Sinto-me sempre contemplar a tua beleza, feita de metamorfoses. Luo-te. E, porque vejo nos teus olhos o reflexo dos meus, sei. Luo-te e sou-te luar.

Que se amem as figuras de livro que preenchem os romances e não vivem.
Que se amem as personagens de cinema, sempre tão banais e lineares.
E que continuem a fazer do amor um verbo conjugável em tempos que não fazem sentido.

A lua não tem presente. Nem futuro. Não é luz. Nem escuridão. Conjuga-se num tempo chamado eternidade e apenas nele se transforma sem mudar.

Desculpa se eu não te amo.

Mas o que temos não é amor.

É luar.


Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Danças na floresta


O vento. Pagão. Incontrolável. Soprando por entre as árvores. Minhas irmãs. E o canto inaudível da Lua. Cheia. Olhando para nós e para as nossas danças na floresta.

Pergunto quem sou. Sem palavras. Movimento. Suor. Coração descompassado. Pergunto quem sou. Ao ar. À brisa que me acolhe os passos e os eleva do chão. E digo-lhe. Ao Ar, às sílfides, ao vento: Às vezes sou como tu. Às vezes, queria ser mais como tu. Ter a tua calma. O teu equilíbrio. Ele fala. Responde. Não são palavras que qualquer um possa ouvir. Mas eu ouço. "És como eu.", proclama. E eu sei que sim. Que é verdade. Danço. Ao redor da fogueira. Pergunto quem sou.

O rio. Pagão. Seguindo cursos marcados. Concretos. Por entre as margens. Sobre as rochas. Debaixo do mesmo céu. E a chuva. Caindo em intervalos. Abençoando-nos e às nossas danças na floresta.

Pergunto quem sou. Sem palavras. Espaço. Amor. Coreografia. Pergunto quem sou. À Água. Ao rio, às sereias, ao mar. E digo-lhe: Queria ter a tua pureza e o teu rumo. Por vezes, gostava de saber onde vou. Ela fala. Responde. Muitos não ouviriam o seu canto. Mas eu ouço. "Tens em ti a pureza, tens em ti o rumo". E eu sei que sim. Que é verdade. Danço. Ao redor da fogueira. Pergunto quem sou.

A fogueira. Pagã. Quente. Vida. Morte. Intervalo. Chama. Cinza. Gémea, dançando connosco esta valsa sem compasso, nem tempo, nem passos pensados. Iluminando os nossos passos e as nossas danças na floresta.

Pergunto quem sou. Sem palavras. Corpo. Paixão. Dar e receber. Sentir. Pergunto quem sou. Ao Fogo. Aos dragões. Às labaredas. E digo-lhe: Queria ter a tua força. A tua intensidade. Por vezes, gostava de ser dona de mim. Ele fala. Responde. A sua voz seria incompreensível para muitos. Mas eu ouço. "A chama mais forte brilha dentro e não se vê. Mas está.", acredita. E eu sei que sim. Que é verdade. Danço. Ao redor da fogueira. Pergunto quem sou.

O chão. Pagão. Firme. Rochoso. Feito de grãos compactos. Sob os pés. Sob a Lua. Sob a fogueira. Recebe-nos os passos. Dá-nos o solo sobre o qual traçamos as linhas de sonho. Permanece. Fica por nós e pelas nossas danças na floresta.

Pergunto quem sou. Sem palavras. Gesto. Silhueta. Sombra de mim e sobre do que antes fui. Pergunto quem sou. À Terra. Aos elfos. Aos grãos de areia. E digo-lhe: Às vezes sou como tu. Mas queria a tua estabilidade. A força de ser pisada sem ceder. Ela fala. Ninguém a ouve. Eu escuto. "Não há força que não tenhas nem firmeza que te falte. És como eu". E eu sei que sim. Que é verdade. Danço. Ao redor da fogueira. Pergunto quem sou.

Quem sou? Sou o Ar. Sou o Fogo. Sou a Água. Sou a Terra. Anciã de espírito. Donzela de idade. Pagã como elas. Livre como elas. Dançando, descalça, ao redor da fogueira. Quem sou? Não sei. Não me conheço. Vou-me descobrindo, aos poucos, nestas danças na floresta.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Com a saudade



Um aperto no peito no despontar do dia. E uma mágoa que nasce no abrir dos olhos.
Hoje acordei com a saudade. Uma saudade sóbria e sem sentido. Acordei com saudade do caos, da dor. Acordei com saudade das palavras duras, despidas, atiradas ao ar como punhais. Acordei com saudade das lágrimas e do som dos silêncios a permear a quietude dos gritos.
Hoje acordei com a saudade.
Dei por mim à procura, pela casa, de algo que pudesse trazer de volta o caótico de ti. Procurei nas gavetas e nas prateleiras. Folheei os livros, esperando que caísse, de dentro deles, um pedaço concreto que me fizesse sentir mais perto de ti. Nas gavetas, somente roupa. Nas prateleiras, somente pó. Nos livros, uma sabedoria ancestral que nada tem de tua.
Procurei na despensa, debaixo da cama, dentro dos baús. Procurei neles palavras por dizer, fragmentos de um nós rasgado, queimado, reduzido a poeira.
Hoje acordei com a saudade.
Uma saudade louca. Uma saudade consciente. Saudade do sofrimento, da amargura, da mentira que nos destruiu e de todas as outras.
Procurei pela casa. Procurei nas rachas das paredes, debaixo do colchão, dentro da caixa do correio e da máquina de lavar. Procurei por instantes perdidos. Aqueles que planeámos e esquecemos como se fossem um "para sempre" qualquer.
Procurei nos frascos, sob os tapetes, na gaveta dos medicamentos. Procurei pela mais pequena nuance de demência. Pela sobra. Pela poeira de estrelas de nós.
E, sem encontrar mais do que vazios, enterrei a cabeça na almofada para encontrar o teu cheiro. O teu perfume tem o doce da mentira. O amadeirado da traição. Um travo a desgosto. Mas ainda é o teu cheiro. E acordei com a saudade.
Tento encontrar algo de bom nesse passado que nos pertenceu. Talvez ainda acredite. Talvez porque não queira ser a louca que sente falta de sofrer. Tento apanhar memórias, como quem apanha borboletas. Mas a felicidade é poeira. Passa por entre os espaços da rede, deixando apenas o concreto de tudo o que não deve deixar saudades.
Mas, subitamente, a dor não parece dor. A mágoa não parece mágoa. A mentira não parece mentira. Tudo parece nada. Tudo se oculta na saudade. E a saudade insiste: insiste que te quer. Insiste que a dor e a mágoa moram na cama vazia onde acordo. Insiste que o sofrimento é a única mentira e que a digo a mim mesma quando penso estar melhor sem ti.
Tento mergulhar na banheira. Suster a respiração. Lembrar como me sentia quando me sufocavas. Lembrar como era não poder falar, nem respirar, nem ser eu...
A saudade insiste. Pergunta para quem vou falar agora, de qualquer forma. Pergunta se vale a pena respirar sem ti. Pergunta quem sou, agora que não estás.
Enlouqueço. Acordei com a saudade. Saudade do caos plantado na minha alma pela caridade das tuas mãos.
E vou perguntando se é loucura ou masoquismo esta vontade de encontrar até o pior de nós por entre a mobília da casa.
Acordava contigo. Para sofrer. Para sentir o peso do mundo nos ombros. Para sentir a alma fragmentada. Para ver o coração estilhaçar, esmagado sob o teu peso.
Hoje acordei com a saudade... saudade de acordar contigo. Saudade de acordar com o caos que trazias para a nossa casa e a nossa vida.
Acordei para a loucura. E não há nada teu entre as páginas dos livros.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 1 de setembro de 2015

É



É na promessa quebrada,
na curva da estrada
que fere o olhar.
É na alma macerada
de quem não diz nada
mas fica a chorar.

No momento sem aviso,
nesse improviso
de ir e não voltar.
É no segundo conciso
em que o paraíso
decide mudar.

É no estender de uma mão,
no toque sem chão
que teima em quebrar.
É no eterno senão
e tantos virão
para o confirmar.

É no adeus, na demora,
no que fica agora:
saudade a queimar.
É no que fica de fora,
que reza e implora
sem ninguém escutar.

É no que fica em final,
triste e desigual,
sem ninguém notar.
Na chegada triunfal
de um amor de sal
que morreu no mar.

É onde vive esta gente
de rosto dormente,
sem pão pra trincar.
É no olhar indolente,
pobreza inocente
que 'inda tenta dar.

Eis onde mora o meu povo,
sem nada de novo
para se agarrar,
preso ao passado
onde 'inda é narrado
um sonho d' encantar.

Eis onde fica o lugar
que insiste em ficar
preso ao que nem sente.
Aqui, quem tenta ficar,
sabe que o luar
é tecto de gente.

É na esmola caída
que se compra a vida
de quem quer morrer.
Beco sem saída
onde, entristecida,
eu vivo a escrever.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Dói



Dói. Como uma ferida aberta no centro da alma. Carcomida pelo tempo que tenta atingir a memória. Dói. Mãos dadas, perdidas, de dedos desenlaçados, arrancados, esgotados na demora dos pensamentos. Primaveras e Verões. Outonos e Invernos. Dói. A vida segue, o mundo avança, tudo muda. Nós não. Ficamos. O mesmo lugar. A mesma memória. A mesma mágoa. Dói. É ferida que alastra. Permanece. E o tempo passa. O tempo mói. O tempo não cura.
Foi ontem. Ou há mil anos. Beijo de fogo nos lábios. Risos prontos. Mãos fechadas noutras mãos. O toque por entre a noite. O desejo. A partilha incandescente dos corpos suados. O aroma a café, semeado na preguiça das manhãs de sol. Dói. A memória do sorriso dói. A felicidade dói. Tudo fere quando já foi e não retorna. A saudade. Medo. Medo de ter apenas saudade, onde antes se tinha o mundo inteiro. Dói. Como uma ferida aberta no coração pulsante.
A tua sobriedade. A tua sobriedade inebriada e louca, bebida de copos vazios. O som seco das promessas feitas nos brindes desajustados. O silêncio dos corpos dados. O grito da vontade carpida de viver. Dói. Perplexidade. Abandono. O ontem que se somou ao passado plural das minhas mil vidas. Dói. A ferida vai corroendo o tecido saudável do eu. Eu sou. Eu fui. Eu era. Quem? Dói. O desvanecer das ilusões. Da realidade. Do sentido. Dói. O tempo. Diz. Repete. Intitula. Enlouquece. O tempo passa. Tic-tac. Dói.
Linhas. Linhas traçadas sobre a mesa. Sobre a cama. Linhas no céu. Linhas nas mãos. Linhas. Linhas passando o fino espaço da agulha, tentando remendar o que não tem arranjo. Eternidade. Falha. A falha da linha. O toque ritmado do outro lado. Do adeus à ausência. Desistência pura. Dói. O teu toque que me falta, misturado no toque intermitente e compassado que insiste sem resposta. Dói. Linha desenhada. Palavra. Texto. Poema. Dói.
Inacabado. Este. Esse. O outro. Todos eles. Inacabado como nós. Assino. Data. Hora. Descrição. Não sei quem sou. Qual é o dia. Que números apontam os ponteiros. Dói. Dóis-me. O tempo passa. O tempo mói. O tempo não cura.
Dói. Chávena de café vazia. Ao sol. Sem o abraço da mão. Sem beijo tecido. Só com memória. Memória de café. Memória de sol. Memória. Saudade. Dói. Quero beber um copo de morte. Perder a tua sobriedade. A memória louca do que o tempo não pode curar. Leva. Leva-me. Basta. O tempo. Pergunta. Resposta. O tempo.
O tempo não é um poema. A dor é. E dói. Poema. Ilusão. Saudade. Olhos abertos. Semicerrados. Fechados. O suspiro. Último. Fumaça de anteontens. Despedida. Dói. Doeu. Doía. Agora já não...

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 18 de agosto de 2015

A morte anunciada do amor



Escreveram nos jornais. Eu não sabia. O amor vai morrer.

Era o que dizia, em letras graúdas, na capa de todos os jornais. Abri um ao acaso. Logo à noite, dizia. Logo à noite o amor vai morrer. Organizou os seus afazeres. Assinou os documentos. Logo à noite. Logo à noite o amor vai morrer.

Senti-me defraudada na expectativa de encontrar o amor amanhã.

A morte do amor virou manchete. Comenta-se por aí, à boca cheia. Ouço a notícia na voz de idosos que largam a mão da vida e na voz de crianças que sonham com contos de fadas. Ouço-a na voz de quem jura ter amado mil vezes e de quem acredita que o amor só acontece uma vez.

Houve quem marcasse uma vigília e, aleatoriamente, veem-se mantas negras nas janelas e lamparinas acesas à espera do cair da noite.

O conformismo apoderou-se da humanidade. O amor vai morrer. Dizem-no, como se falassem do tempo que faz lá fora. Do dia que avança. Da última novidade das revistas cor-de-rosa. O amor vai morrer. Organizou o seus afazeres. Assinou os documentos. Decidiu que não queria viver mais consigo próprio. Não explicou porquê. Há quem diga que é porque anda sempre de mãos dadas com o sofrimento. Há quem diga que tem mazelas impressas na alma, doenças de foro emocional e físico, crónicas e sem alívio possível. Mas ainda é o amor. Como pode o amor morrer? Como se mata um imortal?

Sinto-me defraudada na expectativa de encontrar o amor amanhã.

Onde quer que vá. Não há rua onde não se sinta o aroma pútrido da novidade. O amor vai morrer. Vê-se nos semáforos desligados e nas ruas despidas de carros e onde tão pouca gente caminha. O amor vai morrer. Fizeram cartazes de despedida. Eles gritam nas estruturas de metal. Adeus, amado amor. O cinismo do mundo. O amor não foi amado. Foi odiado, espezinhado, mal falado, mal tratado, usurpado e arrastado por aí como um trapo. Durante milénios, foi assim que trataram o amor do qual se despedem com tanta leviandade.

Todas as ruas têm o toque da morte do amor. Mas mais a tua. E caminho por ela, apenas para interiorizar o que já sei. O amor vai morrer. Logo à noite. Logo à noite o amor vai morrer. Organizou os seus afazeres. Assinou os documentos. Vai morrer.

Da tua janela pende um trapo negro. Dizes adeus ao amor. Talvez ao que me deste e que eu não quis devolver, na ânsia de chegar primeiro ao que era concreto e somente meu. Sinto as lágrimas penduradas nos recantos do olhar que se vidra. Sinto a saudade carregada no peito que acelera. Não vou encontrar o amor amanhã.

Escreveram nos jornais. Eu não sabia. Logo à noite, o amor vai morrer.

Devia ter-te amado ontem.


Marina Ferraz
* Imagem retirada da Internet 

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Podes ser



Podes ser espelho. Reflexo. Cópia. Podes ser o que já há. Frase feita. Cliché. É, talvez, mais simples ser assim. Imagino que verei, no teu rosto, menos lágrimas do que aquelas que limpei a mim mesma. Podes ser. Compreendo. Podes ser como todos eles. Como todas elas. Como todos esses. Gente. Plural singularizado. Podes ser. Dói menos.

Essas pessoas estão menos sós. Vão à frente. Vivem as suas vidas. Morrem as suas mortes. Ninguém se importa de sobremaneira. E não faz mal. Talvez estejam mais certas, essas gentes que se imitam e se regem pelas regras insatisfatórias que os tempos ditaram, sem outra razão que não a de não haver razões. Podes ser assim. Os Deuses sabem que, se pudesse, eu também teria sido. Mas nunca soube encaixar no espaço destinado. Nunca soube integrar a norma. Erro meu. Erro que veio, como marca de nascença, impresso na pele. Visível. Notório. Não sou igual aos outros. Nasci com um defeito de fabrico. Sempre fui uma peça fora do conjunto perfeitamente oleado da sociedade. E não é algo que se possa combater. O cheiro nauseabundo da diferença repele os que amam a marcha imperial das igualdades. Das desigualdades, diria eu. Mas quem sou eu para dizer? Sou só a peça que nunca encaixou em lugar nenhum.

Faço dos teus desejos a minha motivação. Desejo-te sorte. Sorte nessa demanda por seres espelho. Reflexo. Cópia. Frase feita. Cliché. Gente. Sim. Gente. Talvez te tratem como gente. Talvez te convidem a entrar nos jardins onde todos os canteiros têm as flores da mesma cor e todos os arbustos crescem à mesma altura. Talvez te cedam o espaço necessário para poderes, também tu, plantar a tua flor e regar o teu arbusto. E talvez seja verdadeiramente melhor essa versão comprimida e modelada de sanidade. Melhor do que a loucura que me faz caminhar no meio do mato, entre flores silvestres e flores do campo e flores venenosas. Melhor do que a loucura que me faz falar com as árvores que, numa loucura só sua, crescem cada uma à sua altura e se atropelam na busca do sol. Melhor do que com a loucura que me faz afastar, passo a passo, dos olhares reprovadores das pessoas que, por serem sãs, não compreendem. Sim. Fica com a sanidade. Talvez um dia, tal como os outros, olhes para mim de lado e não compreendas. Espero que sim. Que encaixes. Eu nunca encaixei.

Podes ser espelho. Reflexo. Cópia. Frase feita. Cliché. Eu não pude. Mas tu podes. Não te noto, nos jeitos, o desequilíbrio que denunciou os meus defeitos. Acho que vão abrir-te as portas das salas, ceder-te o horário meticuloso dos dias, a ementa semanal, sempre preparada com minúcia. Quando eu tentei entrar, deram-me a porta fechada. Mas não vai ser assim para ti. Eu transpirava a diferença. Uma diferença que era, apesar de tudo, subtil. Maneiras de olhar, de estar, de acreditar. Mas fazia deles "a gente" e de mim "a outra". A diferença enojava-os. Fiquei do lado de fora, a vê-los, através do vidro baço e impermeável, dividida entre o "eu" que não podia ser como eles e o desejo incoerente de ser, tal como tu queres: Espelho. Reflexo. Cópia. Cliché.

Tu podes ser. Eu nunca pude. Porque eu sou espelho das águas que correm, sem barragens. Reflexo das florestas que crescem, sem barreiras. Cópia dos pássaros que voam, sem grilhetas. Cliché das minhas próprias frases feitas. Não sou, talvez, gente. Esse plural singularizado. Mas sou pessoa. E, do lado de fora do vidro, aprendi a olhar para dentro. Dentro de mim nada é organizado. Não há canteiros com flores nem arbustos com tamanho definido. Não há esquemas, nem agendas, nem ementas. Não sou um peão. Não irei, certamente, à frente de ninguém. Mas, no meu caminho, viverei mil vidas. Morrerei mil mortes.

Podes ser espelho. Reflexo. Cópia. Podes ser o que já há. Frase feita. Cliché. É, talvez, mais simples ser assim. Eu não pude. Hoje não quero. Há florestas além dos jardins. Mundos além das salas. E, felizmente, outros loucos como eu.

Marina Ferraz
* Imagem retirada da Internet

terça-feira, 4 de agosto de 2015

O Mundo é cego. O amor não. O amor vê tudo.



O Mundo é cego. O amor não. O amor vê tudo.

A manhã nasceu cinzenta. Era o primeiro dia de Verão. O céu não parecia sabê-lo. Os solstícios, por vezes, são mesmo assim. Parecem importar mais às pessoas. Naquele dia, não importava ao próprio Sol, que se escondera sob um manto impenetrável de nuvens e smog. Mas importava-me a mim, por impulso ou teimosia. A manhã estava cinzenta. As ruas, igualmente cinzentas, mantinham a sua usual tonalidade suja. Mas insisti. Insisti que era Verão. E, no Verão, querem-se vestidos leves e floridos, frescos, esvoaçantes. Foi o que usei na manhã daquele naquele primeiro dia de Verão, cinzento e frio.
São coisas pequenas. Detalhes. Tão despidos de importância que facilmente se esquecem. Mas recordarei para sempre o que usei naquele primeiro dia de Verão. Tal como lembrarei a mesa de café onde me sentei. As ruas que percorri, de seguida. Os passos que ouvi atrás de mim. A respiração ofegante que me fez acelerar o passo. O toque leve no ombro junto à passadeira. As palavras...
"Desculpa... não quero assustar-te." - O olhar, azul num rosto lívido. - "É só que pensei para mim..." - A hesitação. - "Se morresse amanhã, hoje o Verão terias sido tu." O sorriso. O começo. O primeiro dia de Verão. Cinzento. O primeiro amor. Tão cheio das cores do arco-íris.

O Mundo é cego. O amor não. O amor vê tudo.

No primeiro dia, o amor viu o meu vestido. O meu vestido florido e leve, fresco, que em tanto se afastava do Verão, que nascera cinzento. Acho que o Verão não sabia as nuances do meu amor. Se as soubesse, o Sol teria feito mais do que esconder-se sob as nuvens. Ter-lhes-ia dito que chorassem. Imagino que, por entre murmúrios, teria dito assim: "acaba de nascer um amor condenado à saudade...".  E as nuvens teriam chorado. E o Verão teria começado sob o som constante da chuva. Mas eu acho que, tal como eu, no primeiro dia, o Verão não sabia. O Sol não sabia. O único a saber era o portador daqueles olhos azuis. O dono daquela mão que me tocara o ombro. O senhor daquela voz que me conquistara com as mais belas palavras.
De pequenina, o meu pai tinha feito destas palavras lição: "só dois tipos de homem têm a coragem de dizer o que pensam, sem temor: aqueles que não têm sanidade mental e aqueles que, por alguma razão, já nada têm a perder". O meu pai, que era um homem velho e sem estudos - e do qual não me recordo de outra forma que não sendo velho, com o cabelo ralo e grisalho e um cigarro entre os dedos - era também o homem mais sábio que conheci. Era um homem com medos, claro. Medo das guerras nas quais combatera sem se fazer herói, medo de ter sobrevivido com memórias que não conseguia apagar, medo de morrer sem deixar memória de si. E era um homem com medo justamente porque a sua mente era sã e ainda tinha muito a perder.
Esse amor que conheci junto às linhas brancas da passadeira era detentor de uma coragem como eu nunca tinha visto. É preciso coragem para dizer a alguém "Se morresse amanhã, hoje o Verão terias sido tu.". Até àquele dia, eu só tinha amado um homem cobarde - o meu pai - nesse dia, aprendi a amar a coragem. Mas, talvez porque o meu pai conhecesse da vida mais do que se aprende por entre as letras e os números, as suas lições rasgavam a pedra que lhe cobria o túmulo e vinham a meu encontro, lembrando-me: só existiam dois tipos de homens com coragem. E assim era. A coragem dele era uma coragem feita na cobardia. E, se era loucura, posto que todo o amor é louco, não era ela que o fazia falar. Não tinha nada a perder. E eu, no meu vestido de Verão, num dia cinzento, não o sabia ainda.

O Mundo é cego. O amor não. O amor vê tudo.

Encheu-me o corpo de mimos. A casa de flores. A vida de amores maiores do que o tempo. Afagou-me a alma e o coração. E levou-me, nos braços, ao encontro de lugares onde eu nunca tinha estado e de lugares que aprendi a ver de forma diferente, porque nunca os tinha visitado com ele. Lembro que me beijou, pela primeira vez, em frente ao mar. E disse-me "Se morresse amanhã, hoje terias sido a minha vida inteira".
 Por muito tempo, falou do passado. Do presente. Evitou falar do futuro, deixando-me dúvidas e reticências sobre a validade do amor que cultivávamos. Mas matava-me sempre as dúvidas confessando, "Se morresse amanhã, poderia dizer que, pelo menos, amei".
Construímos juntos essa realidade feita de tudos e nadas. Dia após dia. Semana após semana. Até àquele dia, o dia do encontro. Mesa posta. Com os melhores pratos. Os melhores copos. Os melhores talheres. Velas. Perfume. Roupa passada a ferro. E a campainha que não tocava. O telemóvel que não tocava. A ausência de som que arrancasse dos meus ouvidos o desconforto do batimento cardíaco, pulsante e arrítmico. Não soube dele. Por dias. E foram lágrimas. Foram desassossegos. O meu homem de coragem pareceu-me, por fim, o maior cobarde de todos. E disse, para mim mesma, "o amor é cego".

Mas não. O Mundo é cego. O amor não. O amor vê tudo.

Bateu-me à porta de casa a meio da noite, uma semana mais tarde. Numa mão segurava dois balões com forma de coração. Na outra, um ramo de rosas rubras, grandes e aromáticas. Depositou-me nas mãos os presentes e nos lábios um beijo. No peito, depositou o medo. "Tenho uma coisa para te contar".
Contou. Desejei, muitas vezes, que não o tivesse feito. Mas fez. Contou-me a verdade sobre o homem que me tinha tocado no ombro, atraído pela leveza fresca do meu vestido de Verão. "Estou a morrer.". Não disse que estava doente. Disse-o assim. De forma directa e crua, como se tivesse medo que eu não entendesse as implicações das suas palavras. Talvez estivesse cansado de eufemismos. Talvez estivesse simplesmente cansado.
Foi nesse dia que soube que a coragem dele nascia onde, geralmente, as pessoas depositavam o maior dos medos. A morte, a mesma que assustou exércitos e os afugentou, levava aquele homem nos braços, rumo ao amanhã, se houvesse amanhã.
Agarrei-o junto ao peito. Agarrá-lo significou beber a coragem. Saber que amaria alguém que estava condenada a perder. E mais uma vez, pensei: "o amor é cego".

Mas não. O Mundo é cego. O amor não. O amor vê tudo.

Levou-me, certo dia, até um bairro degradado da cidade. "Quero mostrar-te uma coisa", disse. Segui-o. Por entre as ruas sujas e gentes que se debruçavam sobre os caixotes do lixo, regozijando-se quando encontravam um pedaço de pão. Por entre mendigos que mantinham a mão aberta, fechando os olhos, como se não esperassem que alguém pudesse prestar-lhes realmente auxílio. Por entre casas degradadas, com as portas abertas e as janelas partidas. Entrou numa dessas casas, arrastando-me pela mão. Tirou dos bolsos um maço de notas e depositou-o na mão de uma senhora idosa, beijando-lhe a mão de seguida. A senhora agarrou a mão dele contra o peito. Agradeceu-lhe, com lágrimas nos olhos. Fitou-me. Por largos momentos, não fez mais do que procurar nos recantos dos meus olhos algo que eu não sabia o que era. Depois, sorriu levemente. O sorriso enfatizou-lhe as rugas. "É um bom homem, não arranjas melhor... não, não... devias casar com ele."
Saímos. E, na saída, ele deixou uma moeda na mão de um mendigo. Não me disse nada, até estarmos longe. "Aquela mulher, que nada tem, alimenta quem pode. Não nega um prato de sopa a ninguém. Aquele mendigo, abandonou-o ali a família antes de se mudar para o estrangeiro. Não veem, o raio dos políticos. As campanhas passam ao largo destes bairros por medo que se pegue...". Parei, puxei-o para mim. Beijei-o. E, depois, dei razão à senhora velha. "Casa comigo", pedi-lhe. E ele sorriu, olhando para mim como se eu fosse a pessoa mais bonita do mundo e sem ver que a melhor pessoa era, na verdade, ele mesmo. "O amor é cego", tornei a pensar.

Mas não. O Mundo é cego. O amor não. O amor vê tudo.

Casámos. Foi uma cerimónia simples, no cartório. Eu, ele e uma testemunha. Não precisávamos da aprovação de nenhuma pessoa. Não precisávamos da aprovação de nenhum Deus. Fosse por quanto tempo fosse, deixámos o voto: "Serei teu até ao último suspiro e além dele, se houver memória", disse ele. Eu disse o mesmo. Mas sabia. Seria dele muito depois da morte o tomar nos braços. Talvez para sempre.
Dos dias, fizemos uma batalha contra o que se vê nos cantos das ruas. Aprendi a ver. A ver o que não se vê mesmo quando está em frente aos nossos olhos. A pobreza. A fome. O frio. A falta da dignidade que prometem que é para todos. Aprendi que os direitos iguais são um pregão tradicional que não se adequa à realidade das ruas. Para quem vive sem nada, os direitos não passam de um conto de fadas escrito pelos ricos. Ele não tinha muito dinheiro. Mas dizia com frequência: "O que tenho, para o túmulo não levo.". Dava. Sem fazer contas ao amanhã, porque sabia que a incerteza do amanhã começava hoje para muitos. E eu, ao lado dele, aprendi a riqueza que é não ter nada quando se dá aos outros o melhor de nós.

O Mundo é cego. O amor não. O amor vê tudo.

Foi no Inverno que aconteceu. E nem me lembro bem como. É uma nuvem dispersa de memórias sob o som odioso da sirene da ambulância e o cheiro do desinfectante do hospital. Lágrimas nos olhos. Uma mancha de sentidos e sentimentos e mágoas.
"Tens medo da morte?" perguntei-lhe. Deitado, na luz azulada do quarto, com o bip constante dos monitores, ele abanou levemente a cabeça. "Tinha medo, antes de ti."
"Eu tenho medo", confessei. "Medo de nunca mais ser feliz"
Olhou-me. O olhar mais cheio do mundo.
"É como o dia em que nos conhecemos, disse, estava frio mas tiveste fé no Verão e aconteceu este amor... eu sei que vai ser triste mas, se tiveres fé na felicidade, algo de bom virá."
Virá, talvez, mas ainda não veio. Tenho a saudade e a mágoa. Uma mágoa sem nome nem data de validade. E dói.
A igreja encheu-se de gente que não o conhece. Gente que o conheceu, em tempos, mas não o conhece agora.  Dizem sobre ele coisas vulgares, clichés, lugares comuns. Coisas que se dizem sobre homens cobardes. Mas ele, porque nada tinha a perder, era feito de coragem.
Andando pela rua, vejo traços da sua bondade em cada esquina. E tento dar de mim, como ele dava. Porque é essa a única forma que tenho de o amar. Ver. Ver o mundo como ele é. Sem eufemismos. E tentar fazer melhor.
É este homem que recordo. É este homem que amo. Talvez o digam... mas não é porque estou cega de amor que o vejo assim. Vejo-o assim porque ele abriu os meus olhos.

O Mundo é cego. O amor não. O amor vê tudo.

Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet


Nota:  Este texto foi, também, a minha participação no 5º Concurso Literário da Editora Papel de Arroz, "Quando o amor é cego", tendo alcançado o terceiro lugar.
Deixo, mais uma vez, uma nota de agradecimento aos responsáveis da editora, por continuarem a desafiar e incentivar os seus autores. Aproveito, ainda, para dar os meus parabéns a todos os participantes do concurso. 

terça-feira, 28 de julho de 2015

Homenagem póstuma



Ela era assim: uma força bruta da natureza, enfiada pelo destino num corpo esguio e frágil. Ninguém a entendia e ela não entendia ninguém. Mas quando falava sobre a vida... ah... quando falava sobre a vida parecia que não havia nada que não entendesse. As pessoas podiam beber da sua sabedoria ancestral, que vinha sabe-se lá de onde, permear a idade que ela não tinha.

O seu sorriso abria-se por poucas coisas, embora toda a gente a conhecesse a sorrir. É que os sorrisos, na sua maioria, eram mentiras ensaiadas ao espelho. Viveu a maior parte da vida triste. E, quem o sabia, habituou-se, por força da necessidade, a fingir que não o notava.

Se aqui estivesse diria: deixa as palavras bonitas para o meu elogio fúnebre. Não acreditava em louvores. Passou a vida a achar que não valia o tecto sob o qual se deitava nem as pedras sobre as quais caminhava. Mas reivindicava para si mesma o direito ao sonho. Esse, achava que merecia. Foi por ele que viveu. Foi nele que morreu. O sonho que se estendia pelas ramificações da arte, do amor, da família. O sonho que lhe marcou, sob os olhos, o negro das noites que passou acordada, fosse a escrever ou a chorar.

Ela foi uma boa pessoa. Uma boa amiga. Crente inabalável num panteísmo velho e que ela não julgava gasto. Reduzia a religião aos princípios da bondade. Reduzia as normas sociais aos princípios da liberdade. Reduzia tudo ao mínimo denominador comum. Não queria ser igual aos outros mas também não queria destacar-se. Cumpria o necessário para ser diferente... mas não demais. Parecia um elefante numa loja de cristais, tentando desesperadamente não causar dano. E, por entre a falta de jeito para se enquadrar e o desastre completo que causava ao passar brevemente, feito furacão, nas vidas dos outros, ela deixava uma aura de imperfeição que obrigava a sorrir. Era isso que a tornava perfeita.

Se aqui estivesse e me ouvisse falar, ela diria que as minhas palavras eram um exagero. Que nunca foi perfeita. Que não queria ser perfeita. Mas eu posso dizê-lo. Ela já não ouve. E, por alguma razão, sei que não se importa de não ouvir.

Era, de entre todas as coisas, a mais peculiar: ela não tinha medo da morte. Foi a única pessoa que conheci que não tinha medo da morte. Sempre me pareceu que tinha mais medo da vida. E das pessoas. E até de si mesma. Da morte não. Imaginei, ao longo de muitos anos, que ela tinha feito um qualquer pacto de irmandade com a velha ceifeira ao longo das muitas vidas que a sua alma velha certamente experienciou. Imaginei que se tinham tornado amigas. Que ansiavam por se ver. Da morte, falava com paixão e encantamento. Chamava-lhe irmã. Dizia que iria com ela, em qualquer momento, num piscar de olhos.

Cumpriu a promessa. Foi. Mas não tem a ver com a ida. Não tem a ver com o que foi levado, roubado, usurpado. Tem a ver com o que ficou. Para trás não deixou a tristeza, a estranheza, a desolação. Deixou antes o que havia de mais belo em si. Sabedoria. Poemas. Textos. Coisas das quais nem mesmo ela conhecia o valor.

No mundo, deixou um pedaço de si.

Em mim, deixou a saudade.

Voou com os pássaros. E imagino que agora, finalmente, está feliz.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 21 de julho de 2015

A esmola



Abriu a mão. Entendeu-a. O olhar, quase vazio. O rosto sujo. As roupas sujas. A calçada suja. As rugas vincadas do rosto, sob a barba áspera. A cruz, lá no alto. A condenação doentia que o prendia ao chão. As pessoas passavam. Abriu a mão. Estendeu-a. Mas ninguém o viu.

Raramente alguém o via. Fazia parte da paisagem. Tal como as estátuas. Por vezes ouvia o som metálico de uma moeda a cair na caixinha das esmolas. "Para os pobres", dizia a gravação a negro. E ele abria a mão. Estendia-a. Olhar cheio de preces. Rosto magoado. Roupa gasta. A calçada fria. As rugas, cada vez mais vincadas. A cruz, lá no alto. A idade que o atava ao solo.

Era temente a Deus. Não aquele Deus. Qualquer um, na verdade. Acreditar na divindade era, agora, apenas a força do hábito. Acreditar era apenas uma forma de justificar o injustificável. De aguentar as torturas do mundo e das pessoas que entravam na igreja, ignorando a sua mão estendida e avançando para a redenção, para o céu, deixando para trás a rua e o seu inferno, feito de fome e frio. Conhecia de cor as missas que se diziam dentro do espaço da igreja onde sempre o impediam de entrar. Às vezes mimava uma ou outra passagem, movendo os lábios dos quais, havia muito tempo, nenhum som saía. E, quando a missa terminava, estendia de novo a mão e aguardava pela corrente purificada de almas que deixava cair moedas na caixinha das esmolas mas continuava a não o ver.

Os olhos vazios fechavam-se para não se encherem de lágrimas. E, no desespero do dia que passava, tecia orações só suas, com palavras sentidas e choradas. Desejava que chegasse depressa o Natal para ter duas noites de sopa quente e tecto, promovidas pelos canais de televisão. Desejava que não tardassem as próximas eleições para receber, no tempo das campanhas, atenção à debilidade da vida que vivia. Desejava que chegasse a morte, para que a vida parecesse um Natal em tempo de campanha política. E desejava, acima de tudo, que ninguém tivesse de fechar os olhos para pedir as coisas que ele pedia.

Abriu a mão. Estendeu-a. Ninguém o olhou. Mas a mão continuou estendida, esperando um segundo de caridade. Sobre ela, caiu, sem som ou aviso, uma gota de água. Seguiu-se outra. E outra.  O rosto sujo, sorriu. As pessoas desapareceram. A cruz permanecia no alto. Ele permanecia no chão. A tristeza adensou, mas ele sorriu. Talvez, lá no alto, uma divindade entendesse. Talvez por isso chorasse. E, agora, ele também podia. Podia chorar sem vergonha à porta da casa de Deus. Era essa a esmola do céu.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet