Tinha os olhos cor de mel e a pele de veludo levemente
branqueada pela ausência do sol. Os pés, descalços e maltratados da caminhada
rumo ao impossível, deixavam pegadas pequenas impressas na areia molhada. E as
ondas lambiam as feridas, bebiam o sangue, deixavam a mágoa.
Ela dançou, serpenteando os passos por entre as rochas
frias. Dançou sob as estrelas, de olhos perdidos num luar distante.
Quem era ela? Eis o segredo das marés. Sereia humana. Menina
perdida. Mulher despedaçada. Ninguém sabe dizer.
Mas ela caminhou. Com movimentos plácidos e ondeantes, como
se também ela fosse mar. E o oceano apaixonou-se por ela.
Amores impossíveis nascem a cada segundo. Tantas pessoas de
coração condenado vagueiam pelos tempos sem encontrar nada que lhes dê alento.
Mas não o mar. O mar é dono do tempo e senhor do seu coração. Então, o mar
tomou-a nos braços, envolveu-a e roubou-lhe o último suspiro no movimento
dançado de uma onda.
Nunca mais ninguém a viu, dançando na praia. Mas, à noite,
escutando com atenção, ouve-se o mar contar esta história. Ouve-se o riso
entrecortado em lágrimas da menina ferida pelas desilusões.
Sereia entre humanos, encontrou por fim a paz por entre as
ondas. E nunca mais os seus olhos cor de mel se focaram no luar. Nunca mais
sentiu. Nunca mais amou. E o dia nasceu. O vento apagou as pegadas e agitou as
copas de mil árvores tristes. O mar festejou no sossego violento das ondas. E
as pessoas, tão cegas e tão loucas, as pessoas nem notaram...
Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet (Evanescence)









