terça-feira, 8 de outubro de 2019

Pedidos finais




Eu, que não faço muito além de escrever, não queria escrever-te. Não queria, primeiro que tudo, porque é difícil e desajustado. E, no fim, porque serve de pouco ou nada. Não queria. E adiei-o. Fui adiando.

Mas, peço que me perdoes: precisei de escrever-te. Para me devolver a mim. Para que te devolvas a ti. E para que não haja um nós para devolver ao mundo.


Escrevo para pedir que me devolvas os meus sonhos.

Por um lado, é um sentimento egoísta. Porque me sinto, agora, capaz de realizá-los. Sem a tua sombra a peneirar o meu sol. Mas é também por ti, porque me parece que, para cumprires os meus – e eu bem sei que eles são bons no ornamento fotográfico da vida – parece-me que estás a rumar a paragens que não te são destino e que estás a esquecer-te de viver aqueles que tinhas antes de mim.


Gostava que, com eles, me devolvesses o meu coração.

Bem sei que te disse que o guardasses. Disse-o porque achei que, se o tivesse, ia mutilá-lo. Mas descobri, entretanto, que usas nele facas de cerâmica, rasgando-o de desapego e com mentiras. E prefiro que ele morra esfaqueado pelas minhas próprias mãos, com as minhas facas de serrilha, feitas de carinho e de todas as minhas verdades.

Para evitarmos o constrangimento de novos encontros, onde finjas que, entre nós, há traço de palavra ou carinho e nos quais me veja ruína de monstro, bombardeada por todas as mentiras inocentes que não quero ouvir mais, gostava que aproveitasses para me trazer as palavras que te dei. Faltam-me no dicionário e a sua falta incomoda. É muito difícil ir à procura de um “foda-se” e não passar primeiro por palavras como “amizade”, “amor”, “companheirismo”, “eternidade” ou “felicidade”. Se puderes, traz-mas. Essas palavras. Fechadas numa caixa com buraquinhos para que possam respirar mas não as usemos.

Não vou roubar-te muito tempo. Não te preocupes. É só o tempo de trocar dois beijos largos no rosto meio desencontrado. Sentir queimar onde ardia. Dizer “olá, como estás?”. Mentir. Ouvir a mentira reciprocada. Trocar as tuas coisas pelas minhas e dizer que devíamos ver-nos mais vezes, falar mais ou marcar um café que ambos sabemos que nunca terá lugar.

Escrevo-te. Para pedir que me tragas os sonhos, o coração e as palavras.

Vou aproveitar para te levar as tuas promessas. Estão quebradas, eu sei. Mas talvez ainda as consigas usar para ornamentar alguma prateleira ou vender para peças.

Eu sei… também devia levar as memórias… porque são tuas. Mas, se não te importares, vou guardar as memórias comigo. Sabes? Muitas delas são desoladoramente tristes. Podem trazer-te mágoa. E essa é a única razão pela qual prefiro que continues sem elas. É que, apesar de tudo, nunca deixei de amar ninguém que tenha amado. E não quero fazer-te chorar.






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terça-feira, 1 de outubro de 2019

O homem que lia romances policiais




Havia um romance policial pousado ao lado do cinzeiro. E cinza no cinzeiro. E uma mão que segurava um cigarro despreocupado, com os mesmos dedos que virariam as páginas do romance, em busca da resolução de um crime, depois de humedecidos na ponta da língua. E a vida era pacata. Fumo sem fogo, poderia dizer-se.

Ele era um homem de postura firme e sorriso amável. Que gostava de romances policiais. E de cigarros. E dos netos. Não na mesma medida. Na ordem inversa. Mais dos netos. Depois dos cigarros. Depois dos romances policiais. E apenas para quem sabe a forma como ele sorvia os cigarros, em contínuo e sem ligar aos excessos, pode um dia compreender a totalidade louca do amor que ele dava às criaturas que a filha tinha trazido ao mundo.

Não era um homem como os homens são. Era um avô. Como os avôs devem ser. Daqueles que, passo a passo, nos ensinam a ser gente. Daqueles que sabem sempre resolver os problemas. Mesmo quando os problemas são mundanos, mecânicos ou de saúde…

Recordo. Todos os problemas, para ele, facilmente se solucionavam. Ele acreditava nisso. Na solução que tomava forma em uma de duas maneiras: ou com arames ou com álcool etílico.

O carro não funciona? Usa arames!
A cadeira partiu? Enrola arames!
A persiana não funciona? Tenta arames!
A minha avó reclama? Ir aos arames.

O mesmo se diria da saúde.

Uma ferida? Álcool etílico em cima.
Dores de cabeça? Álcool etílico nas têmporas.
Dores de garganta? Álcool etílico na região externa ou, em casos extremos, diretamente nas amígdalas.

Não pode exatamente dizer-se, do homem que lia romances policiais, que fosse mestre de mecânica ou profissional de saúde. Mas o facto é que as pessoas se habituavam a não adoecer (ou a fingir que não adoeciam) e que até os objetos tinham medo de avariar ao pé dele.

Então, no dia em que o cinzeiro ficou sem cinza e o livro ficou pousado e triste, sem que ninguém o lesse, eu achei que a minha mágoa talvez pudesse, aos poucos, resolver-se também com os ensinamentos desse homem que me ensinara a ser gente.

Os anos passam. Com o cinzeiro sempre vazio. Com o romance policial eternamente parado na mesma parte da história. Aquela em que a falta de desfecho é, em si, a mais perpétua das conclusões.

Os anos passam. Não consigo remendar o coração com arames. Nem sarar a alma com álcool etílico. Nem tão pouco prender as memórias com arames. E matar a saudade com álcool etílico.

Consigo sentar-me em frente à mesa e pegar no livro. Folheá-lo sem o ler. E ouvir a tua voz. Sentir o teu olhar. E o aroma do cigarro. E ouvir a minha voz: “Eu quero ser escritora”. E a tua, outra vez. “Então, escreve.”

E o livro pousado sobre a mesa. E o cinzeiro com cinza. E eu, criança novamente. Inconsciente do dia em que quereria as tuas soluções milagrosas para as curas de todos os males.

Talvez a escrita seja o meu arame e o meu álcool etílico.

Então, escrevo.

Hoje escrevo para o homem que lia romances policiais. E que acreditava que tudo tem solução. Tudo. Tudo tem solução. Se não for arame; é álcool etílico.






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quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Não voltes




Não voltes. Por favor. Não voltes. Lembra-te de seguir, em linha reta ou não, mas sempre em frente. Não olhes para trás. Não te questiones. "E se?". Não voltes.

Claro que eu quero que voltes. Mas, de qualquer forma, o que eu quero nunca importou. Então, por favor: não voltes! Mesmo que seja o que eu quero. Não importa. Lembra-te que quero não querer. Que quero querer que vás. Que quero querer que não voltes.

Faz-me a vontade. Ao menos esta, já que ao longo dos tempos que passavam fora da nossa janela de tempos parados, não me fizeste nenhuma outra. Não voltes.

Se voltasses, imagina só. Imagina o caos. Esse caos que seria abrir a porta. Outra vez. Pisares pedras que já foram pisadas e nas quais já se cortaram as solas dos pés e da alma. Imagina como a dureza desses cortes causaria dor. E como, cansados da dor, nos lançaríamos na cama. Se voltasses, imagina só. O caos. Tu e eu envoltos numa paixão feita de luxúria, a sentir no corpo um prazer desconhecido aos outros. Só teu e meu. Outra vez. Não voltes.

Se voltasses, vê bem. Vê bem a possibilidade. A porta aberta poderia ter traços da ferrugem por não se ter aberto a mais ninguém durante tanto tempo. E, nos recantos mais tristes e confusos dessa acumulação férrea, poderia começar a cair uma inflexível chuva de pó e de sonhos. O pó só causa asma… mas os sonhos são perigosos. Causam cegueira. Imagina. Se voltasses, a cegueira do sonho podia fazer com que só nos víssemos um ao outro e a tudo o que, em tempos, amámos um no outro. E isto poderia ser o começo da ilusão. E a ilusão poderia gerar felicidade. E a felicidade, como bem sabemos, é uma estratégia de guerra usada pela tristeza para se apoderar, com afinco, das almas inocentes. Não voltes.

Se voltasses, pensa um momento. Pensa na pele. A pele gasta de dedos que nela erodiram memórias. Quereres explicar. E eu querer ouvir. E quereres calar. E eu querer esquecer. E terminar tudo em duas línguas demasiado ocupadas para falar. Em dedos demasiado ocupados para se enrolarem no desespero das narrativas do que não existe. Imagina só. Um perdão sem explicações, a deixar em aberto tantas coisas que podiam, deviam, ser faladas. E não haver necessidade de dizê-las porque, na verdade, tu e eu sabíamos, desde o primeiro segundo, que era destino. A condensação nos vidros da respiração tosca dessa sabedoria. O chover desse conhecimento dos astros, além do que se vê nos telescópios e nos documentários. Não voltes.

Se voltasses, quanta loucura. Vê como é impensável. Aquele espaço eternamente vazio, que em mim se faz na presença obsessiva de palavras e, em ti, na ausência de luz nos olhos, poderia preencher-se. A nossa mente, já atolada de pensamentos, poderia ficar empossada de algo além de ar. E teríamos de evocar os Deuses antigos porque os novos são poucos e quase sempre inúteis. Daríamos por nós a criar uma religião ancorada no amor eterno. Um que nos faz crer que até as almas podres têm existência entre a poeira caótica das estrelas do Universo. E saberíamos que não há, na distância entre nós e qualquer astro, medida que nos defina ou ao nosso amor paquidérmico e cheio de tudo. Quão perigoso seria sabermos que temos a maior força de todas? Quão perigoso seria retomar o poder universal das coisas nas nossas mãos enlaçadas e corpos nus? É impensável. Não voltes.

Não voltes. Por favor. Não voltes. Mesmo que eu queira. E quero muito. Mas não voltes. É demasiado arriscado. Demasiado caótico. Demasiado inesperado. Não voltes. Corremos o risco de ser felizes.






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quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Em cima do palco


Autor da foto: Miguel Pião


Sempre. Sempre que ela subia ao palco. Sempre. Havia alguém que dizia: “Transformas-te completamente”. E ela costumava anuir.

Em cima dele, sou fénix. Renasço das cinzas de mim.

Mas, depois, subindo ao palco, ela percebia que não era cinza. O linóleo debaixo dos pés ou a madeira envernizada. O subir de telas e panos. O descer das luzes incandescentes nos olhos de brilho. O brilho que é mais incandescente que as luzes que descem. E nas quais ondeiam pedaços de poeira. Que não é cinza. Mas magia.

Sempre. Sempre que ela subia ao palco. Sempre. Havia alguém que dizia: “Transformas-te completamente”. E ela costumava anuir.

Em cima dele, sou deusa. Vivo de imortalidade.

Mas, depois, chegando até ao microfone. Fazendo com ele uma dança de pares, onde os beijos de língua eram palavras. Sentindo a obscenidade no toque plástico na mão, quando o retirava do tripé, ela não se sentia imortal. Sentia que ia morrer. Ali. Que podia morrer. Ali. Que nem sequer se importava de morrer. Ali. E não havia imortalidade nas palavras ditas e sonhadas, ainda que a poeira ondeante de sonhos parecesse parar os ponteiros.

Sempre. Sempre que ela subia ao palco. Sempre. Havia alguém que dizia: “Transformas-te completamente”. E ela costumava anuir.

Em cima dele, sou esperança e História. Vivo de amanhãs e de anteontens.

Mas, depois, quando se movia, dançando, ela percebia que era toda feita de “agoras”. De momentos que se principiavam, que terminavam, que se sucediam. E aceitava a inevitabilidade do momento que já tinha sido ontem e já tinha sido amanhã mas que, ali, era simplesmente um “já” repartido em memórias concretas do segundo presente.

Sempre. Sempre que ela subia ao palco. Sempre. Havia alguém que dizia: “Transformas-te completamente”. E ela costumava anuir.

Em cima dele, não tenho género nem forma. Vivo sem definições.

Mas, Deuses, subia ao palco e sentia-se mulher. Subia ao palco e sentia-se bonita. Subia ao palco e sentia o exultar da feminilidade pelos poros e por todos os orifícios, incluindo os que alguns considerariam impuros. E não tinha vergonha do corpo nem pudores falsos. Tinha apenas vontade de (se) viver. Vontade de aproveitar a sensualidade da psique. Como um desmaio lúcido, no qual era gente.

Sempre. Sempre que ela subia ao palco. Sempre. Havia alguém que dizia: “Transformas-te completamente”. E ela costumava anuir.

Em cima dele, não sou eu. Vivo sem mim.

Mas era mentira. Porque ela avançava debaixo das luzes, sedenta dos risos da plateia, sedenta dos olhares da plateia, sedenta das palmas da plateia. E, por mais que se cobrisse de figurinos, despia-se da muralha, despia-se da pele, despia-se da carne e punha ali – totalmente nua e exposta – a alma.

Despida. Exposta. Desarmada. Ela procurava em si o texto. Vomitava ali o texto. Rasgava ali o texto. Sempre de olhos saltitando, entre o papel, a luxúria e a plateia, na qual persistentemente procurava algo. Alguém. Talvez tu. Sim. Definitivamente tu. Porque ela se despia. De quase tudo. Mas não de amor, porque era essa a essência da alma. E a essência era o que se via, de pés nus no linóleo, debaixo das luzes, exultando a expressão mais louca do ser.

Sempre. Sempre que ela subia ao palco. Sempre. Havia alguém que dizia: “Transformas-te completamente”. E ela costumava anuir. Mas agora não. Agora, não anui. Porque não concorda.

Em cima do palco, eu sou eu. É fora dele que não sei quem sou.





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terça-feira, 10 de setembro de 2019

A vala comum das mágoas

Fotografia de Analua Zoé 


Gosto de pensar que, na sucata que é a vida, o meu coração amontoado com todos os outros corações tristes não é só mais um, na vala comum das mágoas.

Eu sei que já lhe faltam bocados. E que, de tão lavado na esperança de que lhe saíssem as nódoas, ele começou a ganhar ferrugem, principalmente na aurícula esquerda, que deveria receber dos pulmões o ar que escasseia. E também sei que o pintei por cima, de forma nada bonita, para tentar esconder justamente o lado ferrugento das tentativas de salvar o que não tinha, como bem sabemos, salvação.

Mas ainda gosto de pensar, que, mesmo que esteja na vala comum das mágoas, o meu coração vale alguma coisa para alguém. Que ele ainda tem estofos confortáveis, onde uma ou outra pessoa possa sentar-se, de vez em quando. Mesmo que não permaneça.

Seria triste imaginar que o meu coração – que claramente já não serve para nada – viu esquecida toda uma história de vida. Por isso, quando penso no meu coração, na sucata da vida, na vala comum, tento imaginar que mais alguém, além de mim, sabe que as coisas quebradas também podem ser bonitas.

Eu acredito nisso. Que há uma beleza nas coisas quebradas. Sejam carros ou corações. Há uma beleza feita de ferrugem. Pelos quilómetros percorridos de mágoas. Uma beleza feita de cacos. Feita de caos. Feita de histórias. Uma beleza inusitada que fica entre tudo o que foi e tudo o que é. Como um fantasma de dias idos… mas melhores. Que ecoa. Contando uma história de vida.

Talvez o meu coração seja isso. O contador de histórias da sua vala comum. Talvez use os fogos do submundo para fazer uma fogueira, ao redor da qual se sentem corações e engrenagens inúteis – para o ouvirem contar a aterradora e horrível narrativa do amor.

Gosto de pensar que, na sucata que é a vida, o meu coração amontoado com todos os outros corações tristes não é só mais um, na vala comum das mágoas. Porque ele é isso. A história que viveu. Mesmo que a sua aurícula esquerda esteja particularmente ferrugenta e que globalmente se encontre sujo e destruído.

Há uma beleza nas coisas quebradas. E outros corações quebrados são, talvez, capazes de a ver. Mas desenganemo-nos. O carro sucatado não vai andar mais. Nem o meu coração vai sentir. Nem a maioria das pessoas poderá, alguma vez, ver beleza neles.

E, embora eu goste de pensar que, na sucata que é a vida, o meu coração amontoado com todos os outros corações tristes não é só mais um; na vala comum das mágoas, eu sei que ele o é. Todos os corações têm história. A do meu, é o esquecimento. Não houve amor que o reclamasse. Houve só amor que reclamasse dele. Morreu incógnito e só. Lançou-se à vala nessa condição. Não terá lápide que o identifique. Nem inscrição que conte que, em tempos, ele foi um bom coração.





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terça-feira, 3 de setembro de 2019

As feridas que ninguém vê


Fotografia de Analua Zoé 

As feridas que ninguém vê. Atadas com ligaduras firmes. Umas de pano. Umas de vento. Algumas de mentira suave - Estou bem. E tu? – As feridas que ninguém vê. E que tanta gente causa. E que tanta gente ignora. E que tanta gente critica.

Sim, eu sei. Devia provavelmente escondê-las, para que ninguém as visse. Ou esconder-me atrás delas, como tantos fazem. Ter, sobre elas, uma postura de vergonha ou de vitimização. Fingir que não as tenho ou reduzir-me a elas. Devia, em suma, ser os outros.

Eu percebo o desconforto que deve ser olhar para todas as minhas cicatrizes. Saber que algumas são fruto de feridas como as que ainda trago abertas e que outras sararam, sabe-se lá como, com água do mar e tempo. E encontrar, de permeio, as feridas que não saram. Como aquelas feitas de amor, num só corpo, abertas de dedos cravados na pele que hoje sangra lágrimas por dentro.

Não é difícil perceber. Causa desconforto. Um desconforto que se acentua porque eu não cubro as feridas e não me reduzo a elas. Porque as uso como brasão mas não como escudo. Porque as tomo por irmãs e não por escravas. Porque não tento evitar que vejam que sou imperfeita.

Tenho muitos defeitos. Defeitos que se acentuam pela magreza. Pela brancura. Pela sombra que coloca até o defeito que não há no espelho de mim. Pelo jeito socialmente desajustado. Pela testa franzida e os ossos salientes nos ombros. Pelas rugas teimosas entre os olhos. Olhos que tenho. E que não são cegos. E também vêem cada defeito de mim.

Eu vejo. Vejo mais. Vejo feridas. Vejo rugas. Vejo cicatrizes. Vejo a mancha permanente na mão direita. Vejo os traços tortos da tatuagem nas costas. Vejo os sinais que se amontoam junto ao pescoço. E vejo as estrias. E vejo as varizes. E vejo a flacidez quando o exercício se delega para amanhã, esquecido por entre o trabalho. E vejo a madeixa de brancos que surge na parte superior esquerda da nuca. Sim! Eu também sei. Eu também vejo. Os defeitos. As feridas que ninguém vê.

Mesmo assim. Com clareza de olhos que vêem, sinto-me capaz de amar. Amo cada uma das minhas imperfeições e cada um dos meus defeitos. Até aqueles que me fazem dar resposta a quem não merece resposta. Amo-os. Porque atrás delas. Das feridas que ninguém vê. Da pele branca. Do corpo magro. Atrás delas, a alma não está podre.

Eu tenho muitas feridas. Feridas que ninguém vê. Algumas delas são feias. Algumas delas são por dentro. Mas nenhuma delas é fermentada a maldade.

Deito-me ao lado das fontes e sei que, como a água, existe algo de permanentemente fluído, transparente e puro em mim. Mesmo que não se veja no meu corpo imperfeito e cheio de cicatrizes. E penso que talvez a pureza de mim derive justamente das imperfeições que me fazem monstro aos olhos alheios. Porque foram elas que me ensinaram que as nossas mãos, as nossas bocas, as nossas palavras nascem do alimento interino de nós e devem apoiar, elogiar, mimar os outros.

Prefiro ser quem chora a fazer chorar alguém. E dos poucos arrependimentos que trago é o de saber que nem sempre fui capaz de entender as feridas alheias. Dos poucos arrependimentos que trago é saber que, inadvertidamente, rasguei a pele de outras almas-água. Esta é uma das minhas feridas abertas. Que nunca sarou. Nem vai sarar.

As feridas que ninguém vê. Ato-as com ligaduras firmes. Umas de pano. Umas de vento. Algumas de mentira suave - Estou bem. E tu? – Algumas feitas de silêncio. Algumas feitas de resposta. Algumas feitas de eternidade.

Ato as minhas feridas. Dou nós lassos nas ligaduras que caem. Ato as feridas. Não as escondo. Não me escondo atrás delas. Deixo que se evidenciem. Ato-as só para que se prendam a mim e me deixem saber que não sou perfeita. E mostro-me. Com todos os meus defeitos.  Atrás das imperfeições - atrás delas - a alma não está podre.






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terça-feira, 27 de agosto de 2019

Em meu redor, dentro de mim

Modelo: Mariana Neves


Há um teto ruído na casa que um dia tive por lar. E as telhas amontoam-se no centro da sala, onde a lareira rachada nada mais é do que abrigo para a hera. Alguém pintou as paredes. Não com arte mas com traços adolescentes, arcaicos, feios. E o entulho, debaixo dos passos, é uma espécie de ferida na história padecente.

Em meu redor há caos. Dentro de mim também.

Sobem pedaços de silva pelas paredes. Escalam-nas. Picos aguçados, criando o aviso desconstruído do tempo, que se acelera e se esbate. Ama-me. Ama-me. Ama-me, por favor. Cada espinho é um espaço aberto na fenda dos anteontens da casa. Mas a casa não sabe. Ainda lhe pendem sonhos no telheiro que ameaça cair, preso apenas por algumas estacas de madeira podre.

Em meu redor há destruição. Dentro de mim também.

Alguém deixou o sofá, mesmo ao lado das escadas de madeira que sobem para o piso que já cedeu. E que têm os degraus rachados, num ângulo inusual e todo cheio de promessas. Entre ti e mim, são as escadas que cedem primeiro. Porque nem tu nem eu estamos preparados para ceder. E eu digo. Ama-me. Mas ecoa. O eco do vazio, do espaço vazio, do ruído vazio, do sopro vazio. Um rugir do passado que podia ser promessa. Que foi promessa. Mas que não se cumpriu.


Em meu redor há vazio. Dentro de mim também.

Um pássaro criou ninho no beiral. Mas o beiral tombou. E, tombando, um pássaro desalojado abriu as asas e voou. Deixou para trás as figueiras, de fruto ainda verde; as videiras com parras ressequidas; as amoras negras e doces, suculentas e cheias de sabor. Um pássaro desalojado abriu as asas e voou. Mas deixou no chão um ninho que alberga larvas sedentas dos ovos que nunca pôs, misturadas com aroma ácido dos frutos que caíram, sem pássaro que os comesse.

Em meu redor há desumanidade. Dentro de mim também.

Vivo, todos os dias, numa espécie de aldeia abandonada. Não moro só. É aqui que também a morte se alberga quando fica cansada das pessoas. E é com ela que, sentada no centro divino da árvore grande, velha anciã do sítio, conto as histórias que fazem eco sobre as asas do pássaro desalojado no meu peito. Ela ri. Eu também. Porque tem piada o caco da janela tombada nos meus olhos, lágrima de cristal que se prende nos vasos e não sai. E rimos. Justamente para não chorar.

Em meu redor há fragilidade, fraqueza. Dentro de mim não. Não, meu querido, dentro de mim não. Olha em redor.

Nas aldeias destruídas ainda há paredes em pé. Dentro de mim há o amor. Enquanto ele não tombar – olha bem nos meus olhos – enquanto ele não tombar, dentro de mim há resiliência, força, infinitude.

Estavas enganado! Não são precisos dois para amar. Quando amor é amor. Quando o amor é verdade. Pode ruir o mundo. Mas o amor permanece.






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terça-feira, 20 de agosto de 2019

Arame farpado


Modelo: Tânia Silva


Ninguém põe arame farpado nos muros para vedar caminhos. Qualquer manta amarrotada ou camisola velha torna o muro fácil de saltar. Não é preciso muita inteligência, nem ardis. Não é necessária destreza nem arte. O arame farpado não serve para vedar caminhos. Serve outro propósito. O do aviso: mantém-te à distância! E é isso que o teu silêncio é. Arame farpado.


Tenho muitas coisas para te dizer e nada que faça sentido dizer-te.

Gostava, por exemplo, de te contar que, no outro dia, andando pela rua, tropecei numa memória nossa e caí no chão asfaltado. Gostava de te contar que, desastrada como sempre me disseste que era, esfolei um dos joelhos e as duas mãos. E que as feridas não saram porque estou constantemente a mexer nelas, procurando na profundidade desses cortes a parte de mim que não sinto que tenho.

Gostava de te dizer que a memória na qual tropecei era boa. E que, por isso, enquanto caía, senti que voava. Até me estatelar. No chão. De asfalto. E de me lembrar. Da verdade dos dias. E de recomeçar o processo de maturação da mágoa. E de chorar.

Gostava de te dizer que houve quem acorresse. E me ajudasse a levantar. Quem me perguntasse se precisava de ir ao hospital. E de te explicar que agradeci a queda para não ter de explicar que as lágrimas não eram fruto do sangue da carne mas da seiva da alma.

Tenho muitas coisas para te dizer. Como esta. Mas não faz sentido. O teu silêncio é arame farpado.


Mantenho-me na distância segura. Para respeitar o aviso. Do silêncio. Para respeitar a sinalética luminosa presa na testa. A sinalética que é a única coisa que vejo brilhar no teu rosto, por entre sorrisos-verdade, sorrisos-mentira e olhos mate. Mantenho-me na distância segura. Afasto-me, pé ante pé, do arame farpado do teu silêncio. E, quanto mais recuo, mais perto fico do passado e mais te amo. Talvez já tenha recuado ao tempo antes de nós. E talvez por isso te ame. Em silêncio. Como antes. Só que pior.

Gostava de te dizer isso. Que te amo. Em silêncio. Como antes. Só que pior. Mas não faz sentido.


Tenho visitado muitas ruínas. Esta é outra coisa que gostava de te contar. Sabias que, aqui ao lado, uma quinta tem o nome do nosso passado e um palácio de contos de fadas? E sabias que sobra, de uma antiga aldeia, apenas a árvore anciã e que nela moram histórias? E sabias que debaixo da meia ponte romana existem folhas verdes e vermelhas, com formato de coração? Queria contar-te. Que saltando muros encontrei pérolas. E que valeu o risco da invasão. E que valeu o risco dos arranhões. E que valeu o risco das quedas. Queria contar-te. Mas não faz sentido.


O teu silêncio é arame farpado. E eu não tenho medo nenhum do arame farpado. Mas tenho respeito por ti. Não vou amarrotar mantas nem camisolas velhas. Não vou saltar o muro. Vou ficar a olhar. Para o arame farpado do teu silêncio. Toda cheia de palavras. E sem poder dizer-te nenhuma delas. Conheço bem as pérolas do outro lado desse muro. E amo cada uma delas. Ainda mais do que as folhas e as árvores velhas e os palácios feéricos. Amo-as. Mas não quero nenhuma delas, se não mas queres dar.


O teu silêncio é arame farpado. Ele deixa o aviso. Mantém-te à distância. E eu mantenho. Deste lado do muro. Durmo e acordo encostada a ele. Ao muro. Com a esperança. Uma única esperança. A esperança de que, um dia – silenciosamente e sem te incomodar - adormeça ali e não acorde mais.






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quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Sentir cigano


Modelo: Mariana Neves

“Home is where the heart is.” (Gaius Plinius Secundus)

O meu sentir é pagão. Mas não lhe basta ser pagão. É cigano. E nómada. Tem má fama. Anda descalço nas ruas. Maltratado. Sujo. E cospe na mão que se estende. Não quer ajuda de ninguém.

Dizem que vagueia à procura do elogio fácil. Que é por isso que, às vezes, veste as roupas domingueiras do sorriso. E que estremece de fúria quando alguém tem pena dele. Não gosta de pessoas condescendentes. Nem de condescendência. Na maior parte dos dias, nem sequer gosta de pessoas.

O meu sentir tem as mãos calejadas. E um corpo de pedra, impenetrável, que jorra sarcasmos e ironias a quem julga que os sulcos são falhas. Defende que os sulcos são história. E diz que os ama mais do que às superfícies limpas e desinfetadas das almas podres dos outros.

Dizem que ele é ácido. Não do tipo que arde na língua mas do tipo que corrói quando cai no mármore. E também dizem que é sincero. Mas uma sinceridade tão agreste que se toma, quase sempre, por rudeza. E, mesmo não querendo, o meu sentir – que é nómada, pagão e cigano – dá por si a preferir isso mesmo. O lado rude da vida. Mais honesto, diz ele.

O meu sentir tem os pés cortados. Não conta a ninguém que, um dia, se alojou numa tenda que era um peito. Nem que lá encontrou um conforto que a rua não tem. O meu sentir tem vergonha de ter acabado novamente disperso e pedinte nas ruas do despejo. E não quer os palácios. Não quer nenhum dos palácios. Com os seus pajens e príncipes e serventes. Não. Ele não quer os palácios. Diz que são torrentes de cloaca que as pessoas bebem como vinho do Porto, só porque alguém lhes disse que era bom.

Continua.

A vaguear pelas ruas solitárias onde não há nem música nem estrelas e muito menos algo que una ambas.

Continua.

Cigano. Pagão. Nómada.

Não está à procura de uma casa mas de um lar. Esse que é no sítio onde o coração está. E ouviu dizer, na esquina onde as senhoras de saltos altos vendiam amor, que ele está no lugar onde a mente vai só e sem pedir autorização.

Cigano, pagão e nómada, o meu sentir vagueia nas ruas. Não se dá. Não se vende. Não se quer. Mas sabe. Sabe onde está o lar pelo qual anseia. E, justamente por saber, cospe na mão que se estendem. Não quer ajuda de ninguém.

Anda quase sempre na direção contrária do lar que deseja. É um sentir que não quer o coração largado. Prefere ser sem-abrigo do que assassino de felicidades. E continua a rasgar os pés no asfalto. E a enregelar as mãos no frio da vida.

Dizem que ele é pagão. Nómada. Acusam-no de ser cruel. E ele segue. Cigano.

Dizem que ele não se dá porque não se quer.

Ele não se dá porque não se tem.





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quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Espero




Eu espero. E vou dizendo que espero por amor. Enquanto me dizem. Que não espere. Mas eu espero. Porque é isso que faz quem ama. Espera.

Em alguns dias, espero que, pela manhã, o sol nasça sem nuvens à tua porta. Espero que alguém te leve o café à cama, com um beijo e um poema nos lábios. Espero que, com ternura, novamente se enfie na tua cama e se recoste no teu abraço, caso queiras sentir o calor de outra pele. Espero que o café não seja acre. E que os gatos saltem para a cama e façam caretas no aroma cafeinado de um dia que te comece feliz.

Espero.

Em alguns dias, espero que as ruguinhas que te surgem junto aos olhos sejam estradas de sorrisos feitos ao longo dos tic-tacs dos relógios. E espero que te esqueças. Das rugas e dos relógios. Para seres menino e feliz e eterno. E espero que esse lado mais inocente de bebé crescido se note no fundo do brilho dos olhos que te refletem vidas. Mas só espero que se note porque espero encontrar, também para mim, algum alento.

Espero.

Há tardes em que espero que o trabalho não te engula mas te sustente. Assim. Espero que possas, folgadamente, deixar os passos marcar areias, deixando quatro pegadas. Porque espero – espero – que não conheças uma solidão igual a minha. E espero. Que os passos impressos na areia te levem para uma casa que seja um lar (como eu não tenho) ou para uns braços (como eu não quero) para acentuarem mais e mais essas ruguinhas que se formam na moldura dos teus olhos.

Espero.

Dizem-me que não espere.

Mas espero.

Espero que a noite venha lenta. Que o pôr-do-sol tenha a cor de uma fotografia com mil reações, espelhadas através do mundo pelo ecrã digital. E espero que os teus dedos, nessa subtileza desligada, acariciem, por vezes, com um toque de carinho, a memória de um eu que se expõe e se despe. Sempre mais em palavras. Mas também em roupas.

Espero. Em alguns dias, verdadeiramente espero, que tenhas a sorte de um amor maior do que o meu, embora não saiba se existe. Que tenhas a felicidade que eu não dei. Que tenhas quem te apoie nas quedas, porque na subida é tudo mais simples. E espero. Espero que tenhas quem te coloque na montanha russa que odeias para poderes ir mais longe do que os teus limites e ser mais do que compromisso rotineiro com a ideia da loucura.

Espero. Todos os dias espero. Que estejas bem. Mas, claro. Não sou a melhor pessoa do mundo. Como não sou a melhor pessoa do mundo - facto incontornavelmente repetido, até ao limite da sanidade e, de tantas vezes ressaltado, tornado real – eu espero. Às vezes espero que se cale a voz em mim. Essa que diz que espero que te vás foder. É uma voz que tem alguns ressentimentos. Desculpa. Pelas mentiras (que podiam ser evitadas). Pela distância (que nasceu numa mentira). Pelo silêncio (que nasceu numa distância). Pela crença de que a melhor pessoa do mundo não me deixaria à espera, por entre paredes que ecoam versos que nunca foram escritos.

Não o nego. Às vezes espero esquecer. Um dia. Talvez amanhã. Espero pelo dia em que não espere que sejas mais feliz do que eu. Espero pelo dia em que o meu coração perca um batimento e outro a seguir e outro depois. Espero por dormir. Espero.

Eu espero. E vou dizendo que espero por amor. E, quanto me dizem que não espere, eu digo que, quem ama, não pode fazer outra coisa.

Eu espero. Espero muito. Tanto que até espero que não leias este texto. Para não saberes. Que eu espero.






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