terça-feira, 31 de outubro de 2023

Visitas

 


Hoje não posso. Tenho visitas. Compromissos inadiáveis. E já agendámos novamente um encontro no próximo ano. Um dia, irei eu, sem dia fixo de calendário, bater-lhes à porta. Mas hoje. Especificamente hoje. Abro todas as portas e todas as janelas e todos os recantos de ventilação. Para que entrem. Para que se sentem. Para que bebam do meu vinho. Para que comam da minha comida. Para que me amem. Para que sejam amados. Hoje tenho visitas. Tudo o resto terá de esperar. Até a vela que arde.

 

 

Não é um grupo muito harmónico. Sentá-los todos à minha mesa é pedir para que a discussão se faça. Um é salazarista. Uma é antifascista. Uma tem alergia a gatos. Outra é um gato. Um não gosta de massa com bacalhau. Outra gostaria que eu o tivesse feito. Concordamos todos no bacalhau com ovos à moda da minha bisavó. Mas a Idalina também tem um ou outro bitaite sobre a forma como eu devia alisar os ovos para que ficassem mais bonitos. Não se demora nisso. Mas só porque, de repente, o António diz qualquer coisa sobre a Guarda e é preciso iniciar a eterna discussão sobre qual é mais feia: a Guarda ou a Covilhã.

 

O Ramiro tem um descontentamento preso nos olhos quando me nota no pulso a palavra que ele mesmo disse. A Graciosa também não é fã de tatuagens, mas emociona-se novamente com a certeza de que aquela é a sua caligrafia. Beijo ambos no rosto. Mais do que uma vez. E sirvo tinto. Para ela, aquele vinho é delicioso, mas diz que não pode beber muito, que senão fica meio-meio. Ele diz que, hoje, já não sabem fazer vinhos, mas bebe com agrado, no recordar do sabor das vinhas que criou de berço e que lá permanecem, embebedando as histórias magras de outras eras.

 

Comem todos do mesmo prato. Bebem todos do mesmo copo. Quem mais vier, que se junte. O ar enjoado da Ali e do Ron, enquanto roem as guloseimas, soma-se a uma procura mais ou menos intuitiva da Tiara pelo bacalhau cozido. Entretanto, neste outro plano, a Sam segue-os com o olhar e a desconfiança dos vivos. E também ela recebe o mimo da guloseima rara, apenas porque é dia de festa... que não te quero a visitar-me só uma vez por ano tão cedo. Digo-lhe.

 

É uma festa que dura até de manhã. São visitas que desconhecem a hora. Estendem a estadia até dar. Saem quando lhes apetece. Voltam quando lhes apetece. Vão acalentando o pavio da vela ritual. Há-de estar acesa enquanto aqui andarem. E não levanto a mesa até que saiam. Humana e consciente da hora avançada, eu adormeço. Mas não como nos outros dias. Com as visitas. Ao colo de umas, com outras ao colo.

 

 

Então. Obrigada pelo convite. Sei que vai ser divertido. Agradeço que me queiras lá. Mas hoje... Hoje não posso. Tenho visitas. Não quero nem a música. Nem a agitação. Nem as pessoas de carne e osso. Estou cansada dessa vida dos vivos. Hoje, tenho visitas e muita esperança de que elas fiquem e fiquem e fiquem... mesmo que deixar a mesa posta por dias e dias seguidos me faça comichão na pele. Mesmo que deixar a vela acesa ataque todas as minhas cautelas.

 

Hoje não posso. Tenho visitas. Compromissos inadiáveis. Um dia, quando me juntar a eles nessa visita anual às casas, quero que me recebam também. Reclamarei, como eles. Da comida, do vinho, das conversas políticas (que certamente se frisarão com a minha presença).

 

Então. Nesse tempo vindouro. Aí. Aceitarei o convite de quem ponha o meu lugar à mesa neste dia.

 

Mas até lá. Não. Não contes comigo.

 

Hoje não posso. Tenho visitas.

 

Marina Ferraz




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terça-feira, 24 de outubro de 2023

Habitação

ou breve crónica em defesa das decisões tomadas pelo governo português

 

 


 

Eu sei que sou do contra. Ao longo da minha vida já fui considerada paranoica, teórica da conspiração e negacionista. Também já fui considerada má influência e monstro. E também já fui desconsiderada umas quantas vezes. Está tudo bem! Hoje, não direi nada contra. Venho afincadamente defender o trabalho do governo português. Fazer uma festinha no pelo dos carneirinhos lusos, mesmo antes de irem para mais uma tosquia à portuguesa, que lhes dará um Inverno mais produtivo, onde poderão demonstrar a heroica alma e provar a sua resiliência.

 

Sabemos todos – exceto quem, sofrendo de agorafobia também dispensa televisões, rádio, jornais e internet – que estamos a atravessar uma das mais graves crises de habitação desde que as cavernas sem risco de derrocamento já estavam ocupadas. Tão grave que existem muitas pessoas que aceitam uma caverna com risco de derrocamento em Lisboa, desde que a renda seja inferior ao salário. Na porta do parlamento, montam-se tendas e deixam-se indignados pedidos para um travão à situação atual. Na Internet, solicita-se a construção de uma terceira ponte sobre o Tejo, para que os portugueses possam viver sob a mesma.

 

A situação agrava mais e mais por razões diversas. Os travões à inflação no mercado do arrendamento tornam incomportável, para muitos senhorios, o aumento dos pagamentos bancários face ao aumento das taxas variáveis. Subitamente, o alojamento local é mais rentável. Uma espécie de “bora lá explorar os estrangeiros, agora que já roemos a carne nacional até ao osso e já chupámos o tutano”. Mas, com os pagamentos ao banco e o aumento nos preços dos produtos, também os senhorios são esse português de tutano chupado. Vivemos numa espécie de favores-em-cadeia... mas ao contrário... retaliamos no próximo, fazendo tudo aquilo de que nos queixamos de ser vítimas. Uma brincadeira de adultos. Passa a outro e não ao mesmo. E afundamos todos na velha e saramaguiana Jangada de Pedra, tão lúcida e atual.

 

Lisboa é a cidade mais cara do país para arrendar uma casa. E é a terceira capital europeia com rendas mais caras. Isto num país onde o salário mínimo é tão mínimo que não chega para o mínimo essencial à vida, com os preços a atingirem novos máximos todas as semanas. Os meus pais, que viajaram brevemente à Bélgica, contam que um taxista se queixou de que as rendas são incomportáveis porque são cerca de mil euros mensais (num país onde o salário mínimo é de quase 1.600 euros). Não desfazendo as queixas do taxista, mas qualquer lisboeta, com o seu salário mínimo de 740 euros mensais, não franziria a testa a ouvir falar do preço da renda. É ridículo, mas tão comum que não causa espanto.

 

Perante tudo isto, no entanto, hoje estou aqui, afincadamente disposta a defender a ação do nosso governo para solucionar isto. Adotando uma postura de Thomas Edison, o governo português tem vindo a descobrir as mil maneiras como não resolver o problema da habitação. Mas, depois dos travões à inflação do arrendamento, do arrendamento obrigatório de habitações devolutas, e da compra de supostos especialistas para a apresentação de medidas baseadas em exatamente pesquisa nenhuma... fez-se luz. Já a partir do próximo ano, os veículos a gasóleo anteriores a julho de 2007 terão um aumento do IUC de até 1746%. Com esta medida, o governo consegue transformar bens, antes circuláveis, em imóveis, solucionando, por fim, o problema da habitação, que será ao preço do parquímetro. A renda desta forma de car camping será executada pela EMEL e variará consoante a zona, devendo o acampamento no veículo preferir as zonas verde e amarela para maior poupança e as zonas vermelha, castanha e preta para quem quiser continuar a viver acima das suas possibilidades.

 

 

Inovadores e vanguardistas, os nossos líderes conseguem simultaneamente solucionar a crise da habitação, salvaguardar as questões ambientais, promover hábitos saudáveis nos portugueses (cujas deslocações serão agora maioritariamente com recurso às pernas) e resolver o trânsito caótico de Lisboa.

 

Devidamente comprovada a capacidade de raciocínio lógico e a orientação para a resolução de problemas que motiva os nossos governantes, já pouco há a dizer. Vale só a pena destacar que, ao descansarem nos seus imóveis de luxo com chão aquecido e jacuzzi, sobre os seus colchões de penas com lençóis de linho egípcio, estes líderes destemidos receberam ainda uma mensagem divina que os fez decidir manter o regulamento que determina que os carros do governo estarão isentos de IUC.

 

Mas... enfim... também não é grave! Não existem ostentações na frota governamental. Não é como se algum dos carros fosse mais antigo do que 2007.


 Marina Ferraz




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terça-feira, 17 de outubro de 2023

Marina

 

 Fotografia de amypointer

Sentada à mesa de um qualquer restaurante, rodeada de homens, de repente ouve-se um “foda-se”. A asneira faz-se seguir de um movimento brusco, tapando a boca. De um meio sorriso. De um “desculpa, Marina”. Sou a única mulher na mesa. Mas não sou o tipo de mulher que não diz palavrões. Preparo-me para dizer que não faz mal. Não tenho tempo. O meu ex-namorado diz, num riso casual: “A Marina?! A Marina é um gajo!”. E eu rio-me. Não sou. Mas, se considerarmos o estereótipo, a forma como me sinto confortável naquele ambiente, a minha escolha de linguagem (e, por vezes, de vestuário) e muitas outras posturas do quotidiano, é fácil entender – ainda que alguns possam criticar – aquela expressão. Sou uma mulher que se sente mulher. Que se tornou mulher, para usar as palavras de Beauvoir. Identifico-me com o género que tenho. Pura sorte. Mas não sou uma mulher dentro-do-padrão. Nem quero ser. Tenho pouca paciência para a maioria dos esforços que se associam ao ser-se mulher. Gosto de sê-lo à minha maneira. Às três pancadas. De me arranjar em 15 minutos de manhã. De andar sempre de sapatilhas. De comer como um camionista, que me perdoem os camionistas a comparação. De pegar em escaravelhos e gafanhotos em vez de fugir deles. De usar impropérios aleatórios no discurso. É a vida. De qualquer forma, estou só a viver, sem pretensões de vir a ser a próxima Miss Portugal.

 

 

Nunca fui – continuo a não ser – fã de concursos de misses. Recuso aqui, propositadamente, o termo “concurso de beleza”. Os concursos de Miss – sejam locais, Portugal, Mundo ou Universo – não são concursos de beleza. Critérios apertados garantem que além dos preceitos físicos, da elegância e da apresentação visível, as candidatas são símbolo de glamour e sofisticação, e indivíduos-modelo, que apoiam causas relevantes, têm um papel na área da filantropia, conhecimentos ao nível da história e cultura nacionais, objetivos estruturados e uma ficha criminal limpa. Não é fácil entrar neste leque de mulheres e muito menos ser, de entre elas, a melhor.

 

Olhando os critérios do concurso eu sei que jamais seria Miss. Mas a minha homónima, a Marina – aqui Machete e não Ferraz – foi-o. Usualmente, este seria um não assunto. Mas é um não assunto que se tornou assunto. Porque não faltam, pela Internet, manifestações de ódio puro, opiniões deslocadas e afirmações de amplitude mental limitada. A Marina – que nos representará no concurso de Miss Universo em El Salvador – é, pois, uma mulher que – e vou citar novamente a minha querida Simone - “não nasceu mulher” mas, em vez disso, “se tornou mulher”. Literalmente. Uma mulher trans.

 

Rapidamente avaliando a questão e sem grandes conhecimentos sobre o que levou o júri a escolhê-la, não me sinto chocada com a vitória. Vejo uma mulher bonita e elegante, que pode eventualmente cumprir todos os critérios do concurso e que em nada fica atrás das suas colegas. Só lancei um olhar muito rápido e talvez superficial, insuficiente, às candidatas. Só o lancei porque o machismo e transfobia de algumas afirmações, tão cruas e cruéis, me incentivou a fazê-lo. E, porque o fiz – talvez por não ser a mais-feminina das mulheres e porque realmente não me interessa muito o concurso... – senti-me ainda mais confusa. Repito. É uma mulher bonita e elegante. Pode bem cumprir todos os critérios do concurso. Não se destaca negativamente de nenhuma das outras candidatas. Nesta análise breve, acredito que ela venceu e é trans, mais do que acredito que tenha vencido porque é trans. Não me sinto chocada com a vitória. O que me choca é que, de repente, tantos homens cisgénero se importem desta maneira com o concurso de Miss Portugal...

 

As afirmações da Internet dizem sobre a Marina o mesmo que o meu ex-namorado – plenamente informado da minha condição feminina e em tom de brincadeira – dizia de mim: “A Marina?! A Marina é um gajo!”. Acontece que, neste caso, não me parece que seja! E não há tom de brincadeira nos discursos... Há ódio. E injustiça, se considerarmos que não acho nada que esta Marina seja um gajo. Parece-me ser mulher. Uma mulher que se apresenta, sente, vive e relaciona com o mundo nessa condição. Neste momento, penso que muita gente que só diz asneiras, deveria, sim, dizer “desculpa, Marina”.

 

Eu tropeço nos meus próprios pés, mesmo sem saltos altos. Falo como se tivesse nascido no Norte. Visto a primeira coisa que me vem à mão de manhã. Tenho zero de paciência para Shoppings. Não consigo entender o mundo das revistas cor-de-rosa nem as telenovelas. Sou anti-dramas no contexto de qualquer relacionamento. Tenho sempre o carro cheio de migalhas. Frequentemente a roupa com nódoas. Definitivamente por passar. Não nasci para a correção. Muitos dos meus gostos coadunam-se mais com os alegadamente masculinos do que com os estereotipadamente femininos. A maioria dos meus amigos são homens... Poderia continuar eternamente esta lista...

 

O facto é: entre esta Marina e a outra Marina, uma nunca poderia ser Miss... e claramente sou eu!

 

 

Entretanto, minha gente, não sei se deram conta. Mas com o novo Orçamento de Estado estamos todos fodidos com os impostos. Ups. Mão levada à boca no momento do impropério. Desculpa, Marina.


 Marina Ferraz




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terça-feira, 10 de outubro de 2023

Não se nota

 

 Fotografia de Analua Zoé


Ainda bem que não se nota. Diriam alguns. Mas nota. Talvez não se note no rosto. Nem no corpo. Para os olhos e ouvidos mais desatentos (hoje, quase todos!), talvez seja até subtil no vestuário e na forma de falar. Mas está lá. Revela-se em muitos quase-nadas. E sim. Nota-se.

 

 

Quieta no meu canto. Sem incomodar ninguém. Deixando-me ficar longe do barulho ensurdecedor e estridente dos apitos e das bolas a baterem contra o metal das redes de proteção da escola. Amplificados sei-lá-eu quantas vezes na minha cabeça. Às vezes, ainda me aninho a recordar-me menina. Aninho-me na menina. Preciso da menina para me lembrar de que o corpo que cresce ainda arrasta os mesmos desafios.

 

Ser autista quando não se nota é um bocadinho como tentar construir castelos de cartas – em modo tarefa – durante o furacão. Ter de construir os castelos de cartas. Sentir que se precisa de construir os castelos de cartas. E ninguém venha dizer que construí-los de pouco serve. E ninguém venha dizer o que quer que seja. Não vamos ouvir.

 

É um querer estar sozinho sem querer estar só. Um querer estar entre paredes mais calmas, silenciosas e seguras, sonhando aventuras de permeio. Um querer sair, mas não querer lidar com o estímulo constante. Um precisar de desligar os sons dos shoppings, dos parques, dos sinos de igreja. Um precisar de avaliar ementas de restaurantes com base na textura dos alimentos e ser picuinhas com os níveis de cozedura da carne e dos vegetais. Um ser-se GPSo-dependente, porque se torna fácil a sensação de desorientação, seja no centro de Lisboa ou dentro do Colombo. Sabem os Deuses quantas vezes já me perdi dentro do Colombo e até em centros comerciais mais pequenos. Um viajar e voltar com o desequilíbrio da rotina quebrada. O estar em casa e precisar que as coisas estejam no-seu-lugar. Um precisar do café logo de manhã, não porque é café, mas porque é ritual. Um querer vestir roupa quase igual todos os dias, e ter peças repetidas em cor-e-tudo, porque há algo de cómodo na ideia dessa nossa camuflagem.

 

Mas não é só nisso. É numa estranheza social. Numa forma de falar esquisita. Numa estrutura e encadeamento de ideias própria. Num ler de situações diferente. Num ter atitudes de momento sem filtro. No fluir de palavras sem contenção. Numa defesa permanente e constante do eu. No rosto inexpressivo em momentos de alegria, de espanto, de infelicidade, de tudo... ou na expressão quase-excessiva perante coisas simples e aparentemente pouco relevantes. Numa passividade ou numa explosão agressiva de verbetes menos aclamados na língua portuguesa. Tem tantas formas quanto pessoas, expressa-se sempre de forma diferente. Está em tudo. E, dizem: não se nota.

 

Nesse autismo que “não se nota”, onde parece tudo muito mundano e simples de entender, simples de aceitar, reside um pequeno-grande problema. Esse de se dizer: são pequenas coisas. Porque não são. São pequenas-grandes coisas. Principalmente quando se espera que haja uma mudança. Uma adaptação. Um ajuste. Quando se espera que a química do cérebro subitamente mude com um cerebrus reparo ou os pozinhos mágicos da Sininho.

 

Não se nota. Ainda bem que não se nota. Diriam alguns. Mas nota. Talvez não se note no rosto. Nem no corpo. Para os olhos e ouvidos mais desatentos (hoje, quase todos!), talvez seja até subtil no vestuário e na forma de falar. Mas está lá. Revela-se em muitos quase-nadas. E sim. Nota-se. Nota-se e afeta o dia. Pior, afeta o dia de maneiras muito diferentes para cada pessoa no vastíssimo espetro autista.

 

Assim ou assado, o facto é que ser autista quando não se nota é um bocadinho como tentar construir castelos de cartas – em modo tarefa – durante o furacão. É um equilíbrio muito instável. Uma necessidade de rotina e linearidade num mundo que nunca avançou com tanta rapidez, trazendo desconfortos novos mudança-a-mudança, numa constante inconstância que piora tudo.

O meu castelo cartas nem sempre aguenta os ventos fortes e os abalos do mundo. O meu castelo de cartas sou eu. E, por vezes, não é preciso que tentem – que queiram – apanhar-me do chão. Principalmente é preciso que não o façam dizendo que não se nota. Dizer que não se nota, como se fosse um elogio, é o mesmo que dizer que notar-se seria problema. E esse problema existe. Mas não é meu. É de uma sociedade de hiper-informada desinformação, onde toda a gente sabe o que é o blockchain e sabe qual foi o último iPhone a sair para o mercado, mas ainda se acha que um autista é um ser com um QI acima da média, incapaz de interagir e cuja neurodiferença se nota à distância. De um mundo onde se fala de inclusão, mas se reduz isso aos tons da pele, nacionalidades, géneros e sexualidades, facilmente esquecendo as deficiências, neurodiferenças e outros... A inclusão que se vende não é para todos... e o problema não é de quem alegadamente tem um problema. O problema é um mundo que ainda elogia dizendo que “não se nota”.

 

Este texto é o mais um castelo de cartas no tufão. Provavelmente a cair pela milésima vez hoje. Não faz mal. Dizem. Não se nota.


Mas sim: nota-se. Só não é evidente.

 

Vou ali beber o meu café ritual. Vestir a minha roupa preta. Ligar o GPS para chegar ao ginásio onde já vou há 3 anos. Esquecer-me de responder (ou ouvir) quem fala comigo, por estar em modo tarefa numa máquina qualquer. Escolher o chuveiro do canto, mesmo que todos os outros estejam vagos. E continuar esta vasta lista até me deitar, logo, na única posição confortável que tenho para adormecer.

 

Ainda bem que não se nota...

 

... a dormir não se nota.


Marina Ferraz




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terça-feira, 3 de outubro de 2023

Canto

 

Fotografia: Miguel Pião


Em criança, eu sabia cantar. Nunca ninguém me ensinou. Mas sabia. Sabia de tal forma que, abrindo as cordas vocais ao mundo, cantava alto nas ruas. Principalmente à noite. A canção da lua. A minha avó lançava sorrisos meio envergonhados a quem passava. Deitava-me um elogio aqui e ali. Destacava esta história sempre que surgia oportunidade. E sorria com carinho.

 

Na escola, a escolha dos papéis de teatro insistia em dar-me o protagonismo vocal. Fui uma Nossa Senhora a cantar salminhos. Fui o Anjo que convidava os pastores a entrar naquele local sagrado para adorar o menino numas palhinhas deitado. A prestação no palco escolar valeu o convite para a missa do galo, onde repeti a performance, com a canção soando alto e bom som. Fui também a Aurora, da Bela Adormecida, muito melhor na arte de cantar as canções do que de seguir o guião... (lembro-me de ter o príncipe, ali interpretado pelo Zé Gonçalo, a dar-me um beijo na bochecha... e do meu ar descontente, respondendo um “pode ser” meio enojado à pergunta de se queria casar com ele... casar... vejam lá bem!)

 

 

Cantei. Cantei porque sabia cantar. Nunca ninguém me tinha ensinado, mas também nunca ninguém me tinha dito que era preciso aprender. E a minha voz era solta e livre. Como o era. Solta. Livre. Eu sabia cantar.

 

E um dia disseram-me que eu não sabia. Um dia. O poder eterno da palavra. Informaram-me de que eu não sabia. Cantar. E eu retraí-me. Na vida e no canto. No canto e no palco. Até ficar no canto do palco e me recusar a subir durante muito tempo. Subiria ao palco, depois. Sem voz. Não cantei mais. Era apenas dona da frase. Da desculpa. Eu. Não. Sei. Cantar.

 

 

Olho para a minha voz tolhida e envergonhada. Presa como catarro antigo na garganta. Com uma agorafobia estranha. Mas finalmente decidi tossi-la. Não sem primeiro comprar uma ou duas piadas que me perdoam a falta de fé. Que me protegem do outro. Eu gosto de cantar, só dói aos outros. Uma espécie de escudo, para me perdoar o desafinado das notas. Não sou cantora, de qualquer maneira. Mais uma rede de segurança. Mas canto. Há quem cante a desafio. Eu canto a desafino. E, no fim, há sempre alguém que diz que gostou de ouvir. E eu finjo que acredito, arrastando nos pés ainda os ferros das palavras. Eu. Não. Sei. Cantar.

 

 

Tento voltar à menina que fui. Agora que tenho os palcos. Quero a minha voz de volta. Mesmo que doa aos outros. Quero a minha voz de volta. Mesmo que nunca mais aceite vestir-me de Nossa Senhora ou de Anjo. Quero a minha voz de volta. Quero desbloquear esse cerco em redor das cordas vocais. Quero defender-me da agressão das palavras e ter a respiração baixa na barriga novamente para me sustentar os tons. Quero o canto. Porque é do canto que se vai para o centro e eu quero ir.

 

 

 

Em criança, eu sabia cantar. Nunca ninguém me ensinou. Mas sabia. Volto, agora, à raiz, para que me ensinem. Não sei se quero que me ensinem a cantar ou se quero que me ajudem a voltar ao tempo em que achava que sabia.

 

 

 

Há muitas maneiras de nos calarem a voz. Há muitas maneiras de nos silenciarem.

 

Não quero mais o silêncio. Tenho uma canção pendente, com um poema lindo, à espera da peça que vem a seguir. Vou sair do canto para o canto.

 

Enquanto é tempo de cantar.


Marina Ferraz




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terça-feira, 26 de setembro de 2023

Os monstros da minha infância

 



Retiro de Minfulness para crianças. Foi exatamente esse o anúncio que travou a minha descida itinerante e desinteressada pelo feed do Facebook, naqueles momentos entre trabalho e trabalho. Se o feed subitamente não descia, o mesmo não se podia fazer do meu queixo, que caiu e – erro capital – cliquei na publicação. O retiro inclui momentos de meditação e espaços de silêncio introspetivo. Para crianças. As imagens mostram crianças de olhos fechados e pernas à chinês, com polegar tocando indicador. Dizem que é uma experiência importante e que promoverá uma vida saudável, equilibrada e feliz. Fecho os detalhes. Também queria fechar a boca. Mas não consigo. E não me parece que vá conseguir tão cedo. É a magia dos algoritmos. Abrimos um link e puff!: todo um leque de métodos para a desinfeção do espaço onde as crianças vivem, cuidados para as levar à rua, estufinhas para o bebé-estufa surgem, acompanhados, como é evidente, de mais e mais atividades de quietude, sossego e silêncio com efeitos incríveis para crianças e promotoras da sua saúde, equilíbrio e felicidade. Queria fechar a boca. Mas não consigo. Concluo que todos os adultos da minha vida, ao longo da minha infância, foram horríveis. Injustos. Inadequados. Monstros.



Apresento-vos a criança que eu fui. No tempo em que “Marina” era apenas um nome que estava lá antes do meu, sem grande motivo... da mesma forma que algumas pessoas tinham o “Senhor” e “Senhora”, eu era só a Raquel. Mas nem era a Raquel, porque não conseguia dizer o meu nome. Era a Kekeia. E a Kekeia viveu, nesses dias em que Marina era forma substantiva (e rara) de tratamento, uma experiência muito diferente da das crianças do agora. Eu vivi uma experiência muito diferente da das crianças do agora.

 

Fiz-me na terra e nos livros. Dos campos e das serras fiz matéria-prima para pintar a roupa acabada de lavar que a minha mãe me vestira. Saltitei em poças e entrei calçada em ribeiros. Às vezes sem querer. A maior parte das vezes a dizer que tinha sido sem querer, pelo sim pelo não. As macieiras do meu avô tinham risos pendurados. A cozinha da minha avó tinha massa até no teto e farinha (com glúten e tudo) espalhada no chão, depois de amassados os biscoitos que, dizia-me ela, saíam melhor à mãe. Cantei a plenos pulmões na rua. Corri para fugir dos meus irmãos e levei uma pedrada mesmo no meio da testa (que explica muitas coisas). Deixei escaravelhos passear pelos meus braços e adotei um caracol azul, que desapareceu num Toyota Avensis Cinzento... se alguém encontrar, devolva! Fui enterrada na areia só com a cabeça de fora e gritei até me libertarem desse confinamento feito de erosão e sonho. Levei praias quase integrais no meio dos cabelos revoltos para casa. Quase me afoguei com a minha irmã no agraciamento das ondas do final do Verão. Andei com pintainhos e patinhos ao colo. Fui dar pão às cabrinhas que pastavam ao pé de casa dos meus avós. Tentei prender um pardal, que morreu. Tentei soltar um canário para que não morresse e ouvi explicações sobre as formas de liberdade da voz velha e sábia do meu avô. Caí e rasguei o lábio a dançar uma música dos Excesso. Todos os adultos da minha vida, da minha infância, foram horríveis.

 

Crescendo. Dessa maneira hedionda. Foi assim que me tornei a Marina, sendo Marina já nome e não forma substantiva de tratamento. Continuei a ser Raquel para eles. Ocasionalmente, até Kekeia. Têm muito amor na forma como dizem todos os meus nomes. Provavelmente não sabem que foram horríveis e me destinaram um futuro doentio, desequilibrado e infeliz por não me terem obrigado a estar quieta e calada no meu canto a pensar sobre a vida, em modo de retiro. Provavelmente não sabem que me teria conectado mais com a Natureza a pensar sobre ela numa sala do que a comer terra no quintal. Provavelmente não sabem que teria relações mais equilibradas sem brincar na praia com os meus irmãos e as outras crianças...

 

 

Foi pena que os adultos da minha infância não soubessem nada disto. Faltam-me as soft skills para parar e estar em equilíbrio. Sobra-me, em vez disso, uma agitação permanente sobre o futuro e uma pena terrível dos pequenos seres que não serão enterrados na areia, nem comerão terra, nem adotarão caracóis, nem sujarão a cozinha dos avós com massa de biscoito, nem correrão até terem os joelhos esfolados.

 

 

Espero que venham a ser felizes e saudáveis e equilibradas. 

E que os pais saibam o que estão a fazer...

 


Penso que não serei mãe. Mas, se fosse, Deuses, eu ia querer ser um monstro. Injusta. Inadequada. Comos os adultos horríveis da minha infância. Com crianças que pintam de terra a roupa acabada de vestir e cantam alto na rua. Crianças desequilibradas. Daquelas que não parariam quietas em retiros de Mindfulness onde se promove a felicidade futura. Por estarem demasiado ocupadas. A ser felizes. Agora.


Marina Ferraz




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terça-feira, 19 de setembro de 2023

Garfo

 


Não estou equipada para o mundo em que vivo. Lamento. Se tivesse nascido na América já alguém me teria dito, estou certa, que a minha vida é a criadora informal da expressão “bring a knife to a gunfight” (“uma faca para um tiroteio”, portanto). Acontece que eu não gosto muito de guerras e guerrinhas... e não estou nem quero estar armada até aos dentes e preparada para este desgastante-mundo-novo, onde a construção mais sólida se desfaz em pó... em segundos.

 

 

Um garfo. Sabem? Aquele utensílio de mesa de criação ocidental, usual mas não obrigatoriamente metálico, com três ou quatro dentes relativamente aguçados, que serve, de entre outros propósitos, o de levar a comida na viagem que separa prato e boca. Um garfo! É isso que eu uso para fazer puré de batata... Batatas cozidas (geralmente com um tempo de cozedura extra, para facilitar processo), uma tábua de cortar vegetais, um prato fundo ou taça... e um garfo. Um processo milenar: põe batata na tábua, miga com o garfo até estar desfeita, raspa da tábua para o prato ou taça. Repete. Processo repetido vezes o número de batatas cozidas, com mais uma moidinha extra no final, para garantir a ausência de pedaços grandes e lá volta tudo para a panela. Manteiga ou margarina vegetal. Leite de vaca (ou vegetal). Manteiga ou margarina vegetal. (Vou cortar na descrição para não assustar quem teme o colesterol, mas ressaltando que o segredo é mesmo a manteiga). E voilá!! Habemus puré! Sem Bimby. Sem Passe Vite elétrico. Sem Passe Vite manual. Com um garfo!

 

 

Esta sou eu. Bem-vindos a mim. Gosto de fazer as coisas de maneira tradicional. De amassar a massa da piza com as mãos. De pintar paredes a pincel. De cozinhar com colheres de pau e fogões a gás. Perco a conta ao número de vezes que roguei pragas a fogões elétricos ou de indução, mais a quem os inventou! Da mesma forma, gosto de ler livros que posso cheirar e cujas páginas criam sensações na ponta dos dedos. E de escrever à mão. De sentir o papel liso. De abraçar a caneta com os dedos. Claro que é impossível fazê-lo sempre! Lá me rendo aos teclados dos computadores, que são esse facilitador de processo e acelerador de resultados. Mas só o faço porque, acima da vontade, necessidade efetiva a isso obriga. Diria Camões “que outro valor mais alto se alevanta”.

 

Sou dura de integração na modernidade. Parece que nasci fora de tempo, sem o chip certo para aprender a interessar-me e a utilizar os recursos novos. De muitos, acho ilusória a ideia de sirvam os interesses das pessoas, até porque vejo mais vezes as pessoas a servirem os interesses dos recursos. Não quero ser o velho do Restelo, mas contento-me com a ideia de o ser porque me preocupa o futuro-do-futuro nesta estrada onde o futuro-do-presente nos vai despojando de propósito. E sim, talvez me sinta injustiçada quando vejo a inovação roubar a essência da vida. Quando tudo o que tentei construir, palavra a palavra e passo a passo, em anos e anos de luta, se transforma em dúvida por parte de quem me conheceu antes de o mundo ser uma gigante plataforma de maquinazinhas e conteúdos digitais.

 

De que raio está ela a falar? Perguntariam. E bem! Porque sou humana e a mente dispersa no discurso, em vez de estruturar de maneira perfeitinha e sem espinhas o conteúdo do texto. Estou a falar da fadada Inteligência Artificial. Estou a falar do modo como, pouco a pouco, a vejo ir roubando o espaço das pessoas, criando um preocupante espaço vazio no que ainda existe de humano. Estou a falar do modo como a tenho visto, sorrateira, invadir o meu local de trabalho. Estou a falar da forma como os avisos sobre o seu uso começaram a saltar-me à frente dos olhos, mesmo sem que a use ou queira usá-la. E da forma como a substituição do homem embrutecido pela máquina inteligente gera, entre pessoas, relações de triste desconfiança, que se agrava à medida que se assume que tudo provém das conexões hiper-mágico-lógicas de um ser não-vivo.

 

Gosto de escrever. É talvez a única coisa da qual sempre gostei. Uma espécie de dom-maldição que arrastei, feito bandeira, pela vida. Trabalhei para poder trabalhar na escrita durante 28 dos meus 34 anos de vida. Insistentemente. Custou-me (quase) tudo. E nunca parei- Nunca desisti. Quis sempre ser melhor do que eu. Do que o eu que fui ontem. A IA é a Bimby dos textos. E chegou, aclamadíssima. Não sei por quanto tempo me vou safar com a minha caneta... ou mesmo com o meu computador velhinho ao qual já faltam – literalmente – duas  teclas.

 

 

Trouxe uma faca para um tiroteio.

 

Ou pior. Trouxe um garfo.

 

Não sei viver neste mundo.

(E o meu Velho do Restelo interior acrescenta que tenho muito, muito pouca vontade de aprender!)


Marina Ferraz




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quarta-feira, 13 de setembro de 2023

Turismo temático

 


Viajar é algo que a maioria das pessoas inclui na sua lista de “favoritos”. Ainda que os preços das viagens possam ser um impedimento, muitas pessoas optam por reservar uma parte dos seus salários frequentemente precários para aproveitarem um pouco do que o mundo tem à sua espera.

 

É comum que se ouça dizer que viajar é um luxo. Não é. Ou não devia ser. Viajar devia ser parte integrante da vida de qualquer pessoa. Estudos revelam que as viagens têm um impacto na construção cognitiva, no bem-estar e até mesmo na saúde. Mas as dinâmicas do capitalismo continuam a segregar pessoas, afastando-as das necessidades mais básicas... e ter um teto e comida na mesa ainda soa para quase todos mais importante do que conhecer o mundo.

 

Acontece que conhecer o mundo é fundamental para que se entenda que o salário e a cultura são precários. Acontece que conhecer o mundo é fundamental para que se entenda quão importante é a construção cognitiva e o bem-estar. Acontece que conhecer o mundo é fundamental para perceber que as dinâmicas do capitalismo são uma merda.

 

 

Independentemente do ponto de partida. E não me refiro ao local, mas à situação. O facto é que viajar se tornou fenómeno de instagram. Tendência. E ninguém se espante de ouvir dizer que muitos visitam os locais apenas para ter a foto ideal no local da moda. Acontece. E o turismo de criação de conteúdos sabe que é moda e insiste com o mercado temático para que se emancipe e vire moda também. E, claro, ainda que o turismo de influencer (ou com base no que disse o influencer) se destaque, a tendência, de facto, não anda só! Turismo balnear, de lazer, religioso, cultural, gastronómico, de jogo, de negócios, de saúde e – abençoado seja - ecoturismo são amplamente procurados. Procurados e, diria eu, ainda mais promovidos, fazendo-se acompanhar de promoções imperdíveis que facilmente são perdidas ou despojam um português de classe média de pelo menos um mês de salário...

 

Quando dou por mim, a vida deu-me o mimo de entrar nessa moda. A de viajar. Sem sair do país mas atravessando o oceano, senti a voz: Mundo, Marina. Marina, Mundo. Prazer. Olho em redor. Gentes. Cultura. Histórias. Alguém tem noção de quantas histórias se perdem nos recantos mais inóspitos deste planeta imenso?

 

Não vos quero falar de lugares. Os lugares são pedra gasta e a erodir. Aqui, maioritariamente (ou totalmente) fruto de erupções, do tempo em que os eventos explosivos não eram sobre as celebridades nas capas de revistas cor-de-rosa. Lavas marítimas e subaéreas empilham-se em milhões de anos de uma história em forma de cones e vales e disjunções prismáticas. E é por entre a lava solidificada que lavo a alma. Mas as ruas têm pescadores de pele gasta do sol e do sal e as senhoras de sorriso simpático ainda oferecem o pão e fazem biscoitos de rapadura. Pintam-se os muros das casas e os entornos das janelas. Passeiam-se vacas de carne pelas estradas e encontram-se cavalos à beira das estradas.

 

O senhor Manuel, acreditem ou não, esteve morto e voltou. A mulher prometeu um Império à Nossa Senhora dos Milagres. Quando desligaram as máquinas, depois de um AVC e de um ataque cardíaco que certamente o levaria – ou assim garantia o médico – acordou sem mazelas. O homem com quem falei e que oferecia um jantar de Sopa de Espírito Santo e vinho tinto “lá do Continente” estava bem vivo. E feliz por estar vivo porque não queria ainda deixar os três filhos biológicos e os três filhos adotados, e queria ter mais uma oportunidade de viver no mundo onde serviu de família de acolhimento a mais de 230 crianças. A ilha – desta feita de Santa Maria, nos Açores – rumou a Milagres para comer e celebrar. O senhor Manuel tinha matado e cozinhado quatro vacas e durante um fim-de-semana, cumpriu assim a promessa, grato pelo milagre da sua segunda vida.

 

O senhor Manuel não está num roteiro turístico e não é, talvez, a foto instagramável que os meus seguidores esperavam ver. Mas é a expressão de uma tradição tão antiga quanto a ilha, esta que é a anciã dos Açores. E é, possivelmente, a mais bonita história de viagem.

 

Sentada numa mesa corrida, lado a lado com gentes que tinham histórias, eu trouxe o souvenir mais valioso de todos para casa. Um que vem com uma casquinha fina, que posso exibir em palavras, mas com um centro “tão requim” que é muito difícil transpô-lo para letras e textos.

 

São experiências de luxo. Mas viajar não devia ser. Um luxo. São histórias que nos modelam. Mas viajar não devia ser. Uma moda. Viajar devia ser para todos e porque todos precisam de se conectar com realidades além da sua realidade.

 

O mundo está a globalizar-se e as pessoas estão a individualizar-se. Algumas pessoas recusam-se a viajar até para fora de si mesmas, para aceitarem os outros e as suas formas de estar e de viver. A minha velha máxima “ser e deixar ser” está em desuso.

 

Acho que sou velha e, como a Ilha de Santa Maria, meio árida, meio cheia de florestas. Mas a minha atividade vulcânica não está extinta. O mundo à minha volta faz-me sentir próxima da explosão.

 

Viajar devia ser parte da vida de todos. E deviam ser dadas as condições para que as pessoas possam fazê-lo sem se privarem dos bens essenciais à vida. E devia ser explicado que a fotografia importa menos do que a memória, que o Instagram é só uma montra meio inútil que não retrata a realidade, e que o encontro com a diferença, com o outro, é o verdadeiro tesouro no final do arco-íris.

 

Volto para casa com a mala cheia de memórias. Algumas são férricas, aguçadas e acutilantes. Espero que passem sem problemas pela segurança dos raios x e detetores de metais na entrada da sala de embarque dos terminais dos aeroportos... ainda que fosse divertido ver os seguranças a tentarem apalpar a alma para descobrirem a origem o problema.


Marina Ferraz




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terça-feira, 5 de setembro de 2023

Infinito

 


 

Todos o meus limites tendiam para infinito. Foi assim que sobrevivi à trigonometria. Mal. A passar com a nota que dá-para-o-gasto. Ou sem ela, mas com a simpatia clara da professora que não me queria chumbar no começo do ano e me classificou com cinco ou seis valores acima do que eu merecia.

 

Penso muitas vezes na minha professora de Matemática e nos limites. No modo como os limites, absolutamente incalculáveis na minha (falta de) lógica, acabaram por se transformar em regra. Pensei. Se usar sempre a mesma resposta, algum dia estará certa. Um pensamento semelhante ao de que talvez ganhe o Euromilhões – no qual não jogo –se usar sempre a mesma chave. Se o secundário fosse eterno, talvez algum dia a resposta tivesse sido esse infinito. Se a vida fosse eterna e eu jogasse no Euromilhões, talvez houvesse menos meses com dias de sobra depois de acabar o dinheiro...

 

O facto é que eu perdi a lógica da trigonometria porque a cabeça estava no infinito da minha resolução. A pensar nos livros e na vida e na morte. Na lógica dos livros e da vida e da morte. Num cálculo incalculável que me afastava de números e de conceitos para me levar até ao espaço onde toda a curiosidade tem a magia como resposta evidente.

 

Mergulhando nos espaços entre as letras dos meus poemas, fui descobrindo que as folhas quadriculadas também tinham linhas horizontais, muito semelhantes às dos cadernos pautados, mas que se pareciam muito mais com a cela triste dos canários. Aprisionada atrás da ideia, comecei a escrever poemas nessa gaiola de capa azul e argolas. Achei que talvez a liberdade dos poemas, quando divididos por esse infinito pudesse trazer consigo outras coisas etéreas e eternas.

 

O resultado efetivo da poesia nos meus cadernos de Matemática foi uma sobrevivência a custo com a nota que dá-para-o-gasto (por pura simpatia da professora) e muitas ideias loucas sobre salvar um mundo sem salvação. Descolei essa ideia da sola do sapato à medida que fui aprendendo que os meus limites não eram infinitos. Que os meus limites, na verdade, estavam claramente definidos e que seria bom que os da sociedade também o estivessem. Um sonho de utopias que caiu em seco sempre que dito e começou a formar um tumor quando foi calado.

 

Hoje disseram-me pela primeira vez. Qualquer coisa dividida por infinito é zero. E, na voz de um homem de ciência, lembrei o modo como tentei soltar as amarras quadriculadas do caderno com poemas divididos por um infinito de coisas, desenhando ao lado gráficos inventados que tendiam, também eles, para o infinito, sem que eu conseguisse alcançar respostas práticas e lógicas. Percebi o pequeno nada que é esse meu desejo de dividir as letras pelas almas que povoam o pequeno infinito finito que é o globo-azul onde moro. Senti-me como os cachalotes e golfinhos de plástico que residem nos globos de neve turísticos dos Açores. Agitaram-me. Fizeram com que nevasse em pleno verão. Senti os flocos da perceção na pele, enregelarem a pele, à medida que tudo assentava novamente e eu entendia que não entendera nada.

 

Saber que não sei ajudou-me a saber. Percebi perfeitamente que o meu problema – com a trigonometria e o resto – nunca foi o cálculo dos limites, mas o facto de todo o tempo ser pouco para que os poemas ao lado dos gráficos tivessem alguma função no rumo da liberdade.

 

Por isso, não quero que este texto se divida por toda a gente. Porque ele só tem 4514 carateres com espaços e há aproximadamente 8,04 mil milhões de pessoas no mundo. Hoje, só quero que este texto tenha uma pessoa que o leia e o entenda e o sinta. E que essa pessoa rebente com as jaulas, mesmo que deixando em paz as pobres das folhas quadriculadas onde em tempos escrevi poemas que quase me chumbaram a Matemática.

 

Com tempo – disseram-me ainda – tudo é fluído. Talvez o pensamento também possa sê-lo. Por favor, não partilhem esta ideia com infinitos de gente. Mas, se puderem, partilhem com a vossa mãe, o vosso pai, os vossos filhos. Partilhem com o jardineiro ou o balconista. Com a cabeleireira ou a condutora do Uber. Partilhem com alguém. Dividam com peso e medida. Para que flua no tempo. Sem infinitos, para que o resultado final seja um número concreto. Outro que não zero.

 

Os meus limites são claros. Não sei nada sobre trigonometria. Mas sei que tenho visto a sociedade fazer o que eu fiz: dar sempre a mesma resposta à espera que algum dia esteja certa. São certezas divididas por infinito.

 

Livre de infinitos, trago hoje o sonho utópico de salvar o mundo. A começar por uma pessoa. Só uma. De cada vez.


   Marina Ferraz




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