terça-feira, 9 de junho de 2015

Premonição



"Lê-me a sina", pediste. Tinhas o jeito abrupto de um homem do mar mas a suavidade terna de amante que há muito navegava as marés do meu corpo. Agarrei-te as mãos calejadas. A manhã cinzenta, ainda nos primeiros acordes de luz, era feita de névoa e escuridão. Lá fora. Mas não na nossa cama, onde me estendias a mão e me pedias que te lesse a sina.
Fechei os olhos. Fechei-os para te imaginar o rosto. O teu rosto cheio de sorrisos e sonhos para amanhã, espelhando a felicidade do mundo, irradiando sonhos, impulsionando a minha fé na vida. Fechei-os no toque quente da tua mão, desejando que ela se desprendesse da minha e percorresse as curvas do meu corpo cigano, em busca de um momento de prazer antes da partida. Desejaria isso. O teu rosto na minha mente, aquando desse toque feito de conforto. Seguido do anuncio simples: "a tua sina diz que, quando voltares, teremos de volta a felicidade que hoje levas no convés". Mas quando fechei os olhos. Quando os fechei para te imaginar o rosto. Quando os fechei, à espera da sina mais breve e concreta, onde eu era tua e tu eras meu, tudo o que vi foi o vazio de dois olhos abertos, onde não havia esperança, onde não havia felicidade, onde não havia vida. Uma imagem longínqua, que parecia desfocar-se nos destroços amadeirados de um barco com o meu nome. Subitamente, o calor da tua mão não era conforto. Queimava. A imagem era um fragmento inusitado de tudo o que eu não queria ver. Tão crua, tão fria, tão vazia que dela tive o ímpeto de desviar o olhar, o ímpeto de te soltar a mão num recuar melindrado. Mas tinha mergulhado em ti. Tinha mergulhado nos confins do teu futuro. E sentia no peito, como via, com os olhos cheios de medos, esse amanhã.
A imagem permaneceu. Com as ondas. Subindo e descendo nessa incessante náusea de improváveis. E a chuva. A chuva caía, cada vez mais gélida, sobre esse oceano onde, de olhos abertos, não vias. E a madeira a flutuar tornava-se uma imagem cada vez mais esbatida, cada vez menos nítida, à medida que enegrecia à tua volta o mundo e o inferno te puxava para o fundo. Fundo. Cada vez mais fundo. Braços pendendo, ondeando, sem vida que os fizesse esbracejar. E quero gritar "luta". Mas fica preso na garganta o grito que te sabe ido. Não podes lutar. Mas eu posso. E luto contra essa imagem que insiste em entrar em mim, no toque da tua mão. Mas a imagem permanece e continuas a afundar-te, afastando-te do ar, afastando-te da madeira tosca que flutua, afastando-te do sonho que sonhámos juntos.
Sinto as lágrimas nos olhos. Sinto-as como se a premonição desse destino fosse tão concreta como uma notícia confirmada nos anteontens do mundo. E obrigo-me a abrir os olhos, enquanto a tua mão calejada se retira da minha e se dirige ao meu rosto molhado, para o limpar.
"Não vás", imploro-te.
"Ora, sabes que vou...", é a resposta sem perguntas. E nascem em mim mil dúvidas. Para que te leio eu a sina, meu amor, se não queres sabê-la? Se não me ouves? Se sempre te prevejo a morte e sempre a ignoras? Não te faço estas perguntas. E tu não esperas por elas. Esperas apenas provar-me errada, entrando de braços abertos pela porta deste nosso lar, viúvo de finais felizes.
Beijas-me os lábios. Beijas-mos como se eu tivesse acordado de um sonho e nada fosse verdade. Beijas-mos como se fosses voltar a beijá-los. E, agarrando nas tuas coisas, vais, deixando no ar um "amo-te" que serve também de "adeus".
Com a porta batida, digo-te que sei que não me amas. Amas, certamente. Mas não me amas. Não sei quem amas mais. Se é o mar ou a aventura ou a sina que te espera noutro porto. Não sei quem amas mais. Sei que não sou eu.
Fico sozinha com a cama desfeita. Não sei se voltas. Não sei o que farei se não voltares. Não sei o que fazer com a imagem concreta da premonição que me atormenta há tantos anos. De todas as amantes que podias ter tido, escolhes dar-te a essa cortesã imprevisível, cheia de marés de temperamento instável.
A minha alma cigana não quer o luto. Peço ao mar que hoje te leva que em breve te traga de volta. Não sei se ele ouve. Sinto o eco da premonição nas paredes nuas da casa deserta. As ondas rebentam. A chuva cai. Amanhece lá fora. Anoitece em mim.

Marina Ferraz
* Imagem retirada da Internet



Este texto integra, também, a colectânea "Premonições" da Lua de Marfim Editora

terça-feira, 2 de junho de 2015

O meu pedaço de caos

ou Crónica sobre um Cabelo (a)Normal



Nasci com a peculiaridade de herdar, de pai e mãe, os piores genes capilares da história planetária. De alguma forma, a trunfa indecisa entre ondas e liso da minha mãe, aliado ao cabelo cacheado e desalinhado do meu pai deu origem a algo que gosto de apelidar de "juba".

O meu cabelo mistura, com facilidade, todos os traços do caos. Tem vida própria. Vontade própria. É emancipado. Independente. Não aceita conselhos. Nem imposições. Quando tentam moldar-lhe a vontade, tende a espetar em todas as direcções.

No meu cabelo, qualquer corte parece o mesmo. Os caracóis formam-se como lhes convém e sem respeitar o esforço dos profissionais que tentam dar-lhe forma. Esticado, permite que se notem as nuances ruivas que permeiam o castanho. Durante vinte minutos, isto é... Depois, o volume rouba-lhe as características e o ciclo recomeça.

Esses vinte minutos de relativa cedência costumam ser os mesmos que fazem as cabeleireiras que conheci ao longo da vida esbugalhar os olhos e suspirar. Porque, quando contrariado, o meu cabelo exprime-se adolescentemente, dificultando a vida dos outros e fazendo, da aparentemente simples tarefa de alisamento, uma tarefa de duas horas e esforço militar.

Chamam-se os reforços: champô para cabelos secos e estragados, champô para caracóis rebeldes, amaciador para cabelos ásperos, máscara para crina de cavalos... Mais o spray de alisamento. Gel, cera, laca. Tudo o que houver à mão com uma descrição que grite "amenizador de caos".

É perante este cenário, em frente à montra interminável de produtos para cabelo, nas grandes superfícies, que dou por mim a pensar...

Lendo apenas a descrição de uma dúzia de embalagens é possível encontrar: para cabelos lisos, ondulados, encaracolados e afro; secos, estragados, queimados do sol, com pontas espigadas, oleosos, fracos, sem volume, sem vida, pintados... e, troçando-me, junto a estes, a indicação, no fundo de outras embalagens: "para cabelos normais".

A minha escolha nunca recai sobre estes. O meu pedaço de caos não enuncia normalidade. Mas questiono-me: O que será um cabelo normal? Não será certamente liso, nem ondulado, nem encaracolado, nem seco, nem oleoso... nem nenhum dos que se enquadre nas restantes opções! Talvez um cabelo normal seja um cabelo caucasiano, ocidental, heterossexual, casado, com um emprego das nove às cinco e que vá à missa, aos Domingos, com os seus filhos. Talvez seja um cabelo que gosta de ver T.V. e de beber uma ocasional cerveja enquanto a mulher cozinha. Ou talvez seja um cabelo que finge ler o jornal enquanto o metro não chega à estação e se envolve em discussões sobre futebol.

O meu pedaço de caos, em toda a sua vontade própria, não será, certamente, normal. Como também eu não sou. É rebelde. Incontrolável. Tem personalidade. E, talvez por isso, junta-se a uma enorme massa de rejeitados que não se enquadram na norma. O problema da norma é, claro, o facto de não existir fora do papel onde se enuncia. As únicas pessoas que imagino que escolham aquele champô são as que não lêem as descrições ou as que, perante tanta escolha, não saibam o que é melhor para si.

Eu herdei, dos meus pais, os piores genes capilares da história do planeta. O meu cabelo já era difícil antes de eu ser e já não se dizia normal antes de eu própria recusar o rótulo.

Mas a sociedade insiste. Identifica tipos. Usa-os como rótulos de embalagem. E atira-nos à cara que existe, além disto, uma normalidade. Ser normal não é regra, mas antes objectivo. Infelizmente, não só para o cabelo.

Estendo frequente a mão para longe do normal. Amo o meu pedaço desalinhado de rebeldia. São as características exacerbadas que nos tornam nós. E um bocadinho de caos nunca fez mal a ninguém...

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet


terça-feira, 26 de maio de 2015

Forte


Eu nunca aprendi a ser forte. As camadas da minha pele nunca calejaram no fechar das feridas. A minha alma nunca deixou de sentir o abalo nos confrontos com o mundo. Não. Eu nunca aprendi a ser forte.

Mas aprendi a escrever.

Aprender a escrever foi quase como aprender a ser forte. A escrita deixava-me fazer tudo o que as pessoas nunca deixaram. Viver no meu mundo de fantasia. Dizer o que penso. Explicar quem sou e o que gostaria de ser no centro do universo onírico desta realidade que desprezo. Escrever permitiu-me ser aquilo que ninguém queria que eu fosse. Permitiu-me ser eu. E, no universo imenso das folhas de papel, eu deixei os medos pender, um pouco, na algibeira e deixei-me voar na minha fantasia louca, maior do que a humanidade e todas as suas guerras, maldades e conflitos.

Eu nunca aprendi a ser forte. Houve sempre fragilidade nos gestos e instabilidade nos alicerces que me mantinham de pé. O meu coração nunca aprendeu a manter-se firme. Habituou-se à dor. Foi apenas isso. Nunca aprendi a ser forte.

Mas aprendi a pintar.

Aprender a pintar foi quase como aprender a ser forte. Significou, primeiro, deixar páginas ganhar outras tonalidades. Não querendo fazer dos cadernos, já tão cheios de poesia, a minha única tela, aprendi a pintar o rosto. Descobri que era mais fácil sobreviver aos dias com o contorno negro dos olhos e os lábios de sangue vivo. Descobri que, pintando, me enquadrava melhor. Pintar foi descobrir a arte da camuflagem que me permitia passar despercebida no centro de um mundo de aparências. E, com a tinta e os pós e os cremes era mais simples ausentar-me do recipiente inócuo do meu corpo e viajar para o lugar onde podia ser eu, sem artifícios nem subterfúgios.

Eu nunca aprendi a ser forte. Permeando os traços rudes da minha debilidade, nunca houve mais do que instantes de satisfação que me traziam a ilusão de que podia lutar e sobreviver. A ilusão não bastou. A alma não soube ser firme. O coração não soube ser uno. Eu nunca aprendi a ser forte.

Mas aprendi a fingir.

Aprender a fingir foi quase como aprender a ser forte. Sentir a mágoa e esboçar um sorriso. Sentir o chão e abrir as asas. Sentir o medo e erguer o rosto. Descobri que as pessoas não se importam com a fraqueza, com a fragilidade, com a  tristeza. Descobri que as pessoas se importam apenas com o que é imediato, superficial, visível. E, embora o coração quebrado não soubesse ser uno, ensinei-o a fingir que o era. Embora a alma, estilhaçada e dormente, não soubesse libertar-se dos traços débeis do sentir, ensinei-a a fingir que sabia. Embora o rosto sentisse as lágrimas tatuadas, criando linhas de treva sob os olhos, ensinei-o a sorrir abertamente. Ergui o rosto. Enfrentei o mundo de frente. Fingi.

Eu nunca aprendi a ser forte. Aprendi a escrever, a pintar, a fingir. Aprendi a sobreviver, a fugir, a viver. E escrevendo, pintando, fingindo, aprendi ainda outra lição: o motivo pelo qual, por entre as agruras da vida, não pude aprender a ser forte é porque se pode apenas aprender aquilo que não se sabe. E eu sabia. Sabia ser forte. Forte o suficiente para criar mundos de fantasia. Forte o suficiente para me camuflar no centro da realidade fútil e desprezível do mundo. Forte o suficiente para erguer a muralha e usar a máscara. Eu nunca aprendi a ser forte. Nunca precisei de aprender. Nasci assim. Com a robustez de um exército no coração quebrado e na alma estilhaçada que, talvez por serem tão fortes, preferem o desalento eterno à aceitação crua e cega do que todos tomam por certo.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 19 de maio de 2015

Sobre o amor


Eu não sei onde mora o Amor. Talvez seja no nosso palácio de emoções. Talvez seja no beco poeirento do nosso pensamento. Talvez ele seja apenas um vagabundo procurando abrigo nas esquinas frias do nosso ser.
Eu não sei se o Amor amou alguém. Se é um masoquista insatisfeito. Se é um sádico vingativo. Se ele sabe que a sua dor e a sua felicidade estão ligadas uma à outra como se elas mesmas fossem almas gémeas, eternamente apaixonadas num romance impossível.
Eu não sei se o Amor sabe o meu nome. Se sabe o teu. Se algum dia perdeu tempo a pensar nas pegadas que deixou impressas quando fez a vida pisar-nos o peito.
Eu não sei muito sobre o Amor. Não sei se ele é mesquinho ou apenas descuidado. Não sei como ele chega. Não sei se ele pode ir embora. Não sei se é para todos ou se ilude apenas alguns tolos que encontra no caminho. Não sei se ele faz parte do Destino ou se troça dele, enquanto desfaz tudo o que era para ser...
Eu não sei se o Amor é fogo gélido ou gelo ardente. Não sei se ele é eterno ou enganoso. Não sei! Não sei as suas origens nem as suas intenções.
Ainda assim, ouso dizer que conheço o Amor. Ouso dizer que decalcando a dor na minha alma, ele se imprimiu em mim. Que me rasgou sorrisos e me regou o rosto com lágrimas. Ouso dizer que ele se alojou no meu peito. Acredito que veio de ti e que to devolvi, aos poucos, a cada dia, qual criança inocente que apenas quer entregar o que sabe não lhe pertencer.
Ouso dizer que conheço o Amor porque não preciso de saber muito sobre ele: basta-me saber que, algures, ele existe. Numa breve vida, sabê-lo foi o que bastou. Foi assim que nunca estive só. Caminhei sempre acompanhada pela fé cega nesse sentimento cheio de definições inexactas.
Talvez, para muitos, a resposta exista e o amor possa ser algo concreto. Talvez o vejam nos gestos, nas palavras, na dança ou nos poemas. Eu não sei muito sobre o Amor mas sei que ele não se fabrica, que ele não se escreve, que ele não é um acto nem um movimento. Sei isto: o lugar onde o Amor não está é no espaço onde tentam reduzi-lo à simplicidade de uma explicação.
Eu não sei muito sobre o Amor. Mas sei muito sobre amar. E, por vezes, isso é o suficiente! O suficiente para o meu coração perder uma batida. O suficiente para me erguer do chão e tentar de novo, cada vez que a definição falha. O suficiente para saber que nunca deixarei de acreditar.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 12 de maio de 2015

A tua carta


A tua carta chegou esta manhã. Vinha amarrotada e estava escrita a lápis. O papel, de tão fino, quase comera a palavra. A única palavra que me escreveras, no centro do papel sujo.
Vi-te mais no papel do que nas palavras. Sempre foi assim. Incapaz de seres honesto contigo mesmo, mentias. Primeiro, para dentro. Depois, para fora. E sujavas a alma, amarrotavas o coração e ias falando. Não sei o que dizias. Já não. Entre declarações de amor e pedidos de desculpa, ficou apenas a imagem da tua alma suja e do teu coração amarrotado.
Não foi diferente hoje, na tua carta. A tua carta, quase vazia de palavras, diria o mesmo se estivesse em branco. Mas li-a, ainda assim. Demorei tanto a lê-la como se a tua palavra fosse uma dissertação infinita, escrita na linguagem mais erudita e incompreensível. Aliás, também isso costumava ser assim. Sempre tentei perdoar-te a mentira numa busca pelos sentidos do que fica de permeio, no som dos silêncios abertos. Eram os únicos fragmentos de verdade em ti. Li-os tantas vezes em busca de algo que valesse a pena que, a dada altura, me esqueci de que o silêncio podia ser, também ele, uma mentira.
A tua carta tinha só uma palavra mas perdi-me a lê-la, no constante embalo encardido e amachucado da folha branca, na busca por esse consolo feito de silêncios. Mas o papel, demasiado fino, quase translúcido, gritava. Cada grito era uma palavra. Cada palavra, uma mentira. E o meu coração doía.
Senti em mim a vontade de rasgar o papel, de ver os seus fragmentos esvoaçar pela cidade, fora da minha janela. Desejava ver a tua carta pisada pelos pés de mil pessoas alheias, derretida no asfalto onde ninguém pararia para a ler. Depois, travei. A tua carta não me merece a ira e as tuas mentiras não fariam mais do que manchar o já maculado asfalto das ruas.
Com que direito vens agora roubar-me a paz? Não bastou, ainda? Para quê esta carta de infernos? Porque não me deixas acompanhada pela solidão? Ela pode ser fria... mas não mente. Grito, segurando nas mãos a tua palavra e as minhas mil perguntas. Grito, mas grito calada, porque me roubaste até a voz. Mas eu ouço a tua, nesta carta. E, ao ouvi-la, ouço também a mentira. Uma mentira sem começo ou fim que se estendeu em cada recanto de todas as palavras que me disseste. Uma mentira sem perdão que se estende agora, nesta folha rascunhada e suja à qual, por alguma razão, continuo acorrentada. Por que razão? Porquê?
Trago muitas perguntas onde, esta manhã, chegou a tua afirmação. É a tua letra. O teu nome. Uma palavra. Mas pergunto quem ma enviou. Quem a escreveu. Tenho mil perguntas sem resposta, na ilusão tardia de que talvez as mentiras tenham bastado e a carta não exista e eu não possa lê-la. Mas agarro-a entre as mãos. Sinto-a. Vejo-a. Vejo-a como espelho de um bilião de perguntas por fazer.
A tua carta entre as mãos. Uma palavra. Uma palavra sozinha, rabiscada em caracteres descuidados, a lápis de carvão. E a imagem suja e amarrotada de ti, qual fantasma translúcido, feito de papel.
Foi no cansaço desse olhar sobre ti que a palavra rascunhada no centro do papel me atingiu. Atingiu-me como se a tivesses escrito a tinta, como se o papel fosse grosseiro e debruado a prata. Atingiu-me como se fosse verdade.
"Adeus". Li a palavra um bilião de vezes antes de pegar num papel, antes de agarrar a caneta, antes de abandonar as certezas, de deixar o orgulho, de ceder à loucura. "Adeus". Escrevo. Escrevo para dizer que me mentiste, que me magoaste, que arrancaste de mim quase tudo o que valia a pena. Foste o papel sujo e amarrotado no qual tentei escrever um conto de fadas que jamais poderia sê-lo. E, no entanto, escreveste essa palavra, a carvão, no centro rascunhado do papel. "Adeus". E tudo o que eu consigo pensar é no quanto quero responder dizendo: "por favor, não vás".


Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet


Este texto integra, também, a colectânea "Cartas" da Lua de Marfim Editora


terça-feira, 5 de maio de 2015

Por entre elogios


Para a minha mãe

Aos 13 anos eu já era um poema. Não, não era poeta. Era poema. E diziam, à boca cheia, que eu rimava, que eu tinha métrica, que eu ainda ia soar por aí, parte integrante de um mundo feito de palavras. Sorri.
Aos 13 anos eu já era romance. Não, não era escritora. Era romance. E diziam, sem medo, que eu emocionava, que eu tinha uma estrutura definida, que ainda ia ser folheada por aí, peça imprescindível de um mundo feito de criações e imaginação. Sorri
Aos 13 anos eu já era antologia. Não, não era autora. Era antologia. E diziam, sem a mais breve nuance de dúvida, que eu era um sem fim de ilustrações pacatas, a tomar forma no centro de um mundo onde as ambiguidades se escreviam a sangue. Sorri.
Quando eu tinha 13 anos, a minha mãe disse-me: "tu escreves bem, mas não escreves bem o suficiente para seres escritora". Chorei.

Aos 13 anos, eu não era poema. Aos 13 anos, eu não era romance. Aos 13 anos, eu não era antologia. O que eu era aos 13 anos é muito simples de descrever: eu era uma menina que queria ser. Tinha sonhos maiores do que eu e muito maiores do que o meu talento. Mas também tinha uma mãe que sabia parar e ver tudo o que eu podia vir a ser. "Tu escreves bem, mas não escreves bem o suficiente para seres escritora". Por entre palavras meigas. Por entre conversas cheias de conforto. Por entre elogios, apreciações debruadas a ouro, louvores. Esta foi a frase da minha mãe. E foi a melhor coisa que alguma vez me disseram. A frase que me tornou quem sou. O motivo pelo qual agora não digo que sou poema, nem romance, nem antologia. O motivo pelo qual não quero sê-lo. Sim, é verdade: eu não quero ser poema, nem romance, nem antologia. Eu não quero ser produto acabado. Ninguém devia querer. Eu sou uma folha em branco, à espera do amanhã. Uma linha, à qual se soma outra e outra, em cada segundo que passa. E tento, em cada linha, ser melhor do que fui na linha anterior.  

Quando todos me diziam como as minhas palavras eram perfeitas, que o meu futuro era grande, que o meu sonho seria real em menos de nada, a minha mãe disse-me outra coisa. E ninguém quer ouvir essa coisa. A verdade. A verdade tem muitas nuances de insatisfação. Levanta muitos mantos. Abate muitos egos. A honestidade é mesmo assim. Parece crua e cruel. Por vezes desnecessária. É difícil de ouvir. Mas, olhando para a menina que fui, para a mulher que sou, finalmente compreendo. Ela é ainda mais difícil de dizer. É difícil olharmos nos olhos de quem amamos, dispostos a dizer algo que sabemos que vai ferir. Para dizer a verdade crua, a verdade inconveniente, a verdade penosa, é preciso mais do que amar uma pessoa... é preciso amá-la de coração inteiro, com toda a força da alma.

Aos 13 anos, eu não era poema. Nem romance. Nem antologia. E também não era alguém que quisesse ouvir "não escreves bem o suficiente para ser escritora.". Mas é engraçado. Foi a melhor coisa que alguma vez me disseram.

Aos ouvidos dos outros, talvez pareça cruel, insensato. Talvez, algures, no julgamento rápido e desnecessário que tantas vezes se faz, alguém pense, até, no abalo sofrido pelo sonho construído num solo de elogios. A minha mãe não foi cruel. Tão pouco foi insensata. Mas, acima de tudo, a minha mãe não foi a pessoa que abalou os meus sonhos. A minha mãe foi a heroína que vestiu a armadura, despindo preconceitos e olhares de comiseração sentimental e me disse o que mais ninguém teve a coragem de dizer. Desta forma, foi a pessoa que me fez dar o murro na mesa. Agarrar no papel. Escrever. Apagar. Escrever de novo. Amarrotar papéis. Lançá-los ao lixo. Apanhá-los do lixo. Emendá-los. Escrever de novo. Escrever mais. Escrever melhor.

Talvez, se a minha mãe me tivesse dito que as minhas palavras eram ouro fino, eu hoje fosse uma pessoa que não passou pelo sofrimento imediato de ouvir algo que fere. Mas aí, seria certamente detentora de sofrimentos sem fim à vista, inundada pela incompreensão dos "nãos" da vida. Arrastada para o fundo do poço com o sonho impossível de realizar.

Mas a minha mãe disse-me: "Tu escreves bem, mas não escreves bem o suficiente para seres escritora". Ao dizê-lo, apoiou-me como mais ninguém fez. As suas palavras, misturadas no sentido de urgência que partilhávamos e no meu desejo de concretização, deram-me as ferramentas para dizer que não quero ser um poema, nem um romance, nem uma antologia, ao mesmo tempo que me permitiam crescer dentro do sonho ao qual dediquei a vida.

Estou aqui. Cada dia é o primeiro dia na concretização do que idealizei para mim. Lutei muito para aqui chegar. Sinto que chego. Todos os dias. Mas hoje sei. Não chego porque o meu sonho é grande. Chego porque a minha mãe o é. Chego porque ela sabia que eu podia ser melhor e teve a coragem louca de mo dizer. E, hoje, é ela a primeira a dizer: "Ninguém escreve como tu!"

São as pessoas que nos elogiam que nos fazem sentir melhor.
Mas são as que nos criticam que nos fazem ir mais longe.


Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 28 de abril de 2015

A (outra) lista


De mãos dadas pela rua. Com os dedos entrelaçados num abraço. Com as almas perdidas e enlaçadas na certeza de um amor que não pode esmorecer. O mundo lá fora pertence-nos e não nos importa. Talvez nos pertença porque não queremos saber dele. Talvez seja essa a razão.
Avançamos. Vamos, cegos de nos vermos um ao outro. Cegos de não vermos além do que fica nos meandros dos olhares partilhados e gastos. Sinto que te pertenço. Sinto que me pertences. Sinto que o sabemos de cor e que não precisamos que mais ninguém o saiba. E os teus olhos. As tuas mãos. O teu calor. A tua perfeição imoderada e insolente, por entre as imperfeições do universo.
Apanhámos, de corrida, o último navio para a Felicidade. Somos os donos do Mundo. Temos biliões de estrelas e podemos reinar sobre as galáxias mais distantes. Damos-lhes nomes eternos, que ficam pendentes na memória e se perdem nos dias que passam. Somos os senhores do Mar e da Lua. Com eles, passamos noites e dias e "para sempres" só nossos.
Caminhamos. Não temos espadas. Nem revólveres. Temos as mãos dadas. E poemas nos olhos que sorriem. Somos mais fortes do que um exército. Temos a força que os Deuses nunca quiseram dar aos Homens. E, no caminho percorrido, deixamos a conquista das ruas que passamos, porque as trilhamos com a certeza irrebatível de que não há maldição, nem guerra, nem tormenta, nem mágoa que possa destruir-nos.
Sou tua. Tu és meu. Somos os donos do mundo. E a lista, outrora feita, enumerada, cheia de exclamações, é agora um papel em branco, onde vamos escrevendo a história de um hoje sem pressa.
A minha lista de desejos não tinha nada de simples. Para nós, eu tinha desejado o Sol que se punha sobre o Mar, o Mar que espelhava as Estrelas, as Estrelas que cintilavam ao longe, no cansaço eterno de morarem na distância. Tinha desejado risos que soassem pelas terras altas e ecoassem em cada vale, cada planície, cada montanha...
Mas, de mãos dadas pela rua. Com os dedos entrelaçados num abraço. Com as almas perdidas e enleadas na certeza de um amor que não pode esmorecer. Compreendo. Gritamos o amor e não precisamos que ninguém ouça. Porque é um grito calado que trazemos em nós. Somos completos, nesse enlaçar de dedos onde abraçámos as almas. E ouvimo-nos melhor nesse silêncio.
Sim. Cumprimos a lista. Temos o Mar. E os pores do Sol. E as palavras ditas, re-ditas, sem a barreira dos pensamentos. Temos as Estrelas. Biliões de Estrelas. E galáxias sem nome, das quais ninguém ouviu falar. Somos os donos do mundo. Mas não somos os donos do mundo por termos Oceanos e Sóis e Palavras e Estrelas e Universos. Somos os donos do mundo porque nos temos um ao outro. Eu sou tua. Tu és meu. O mundo lá fora pertence-nos e não nos importa.
Rasgo a lista de desejos. Somos os donos do mundo. E a felicidade não se enumera.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 21 de abril de 2015

Na avenida dos sorrisos vendidos


Aviso: O texto que se segue contém linguagem forte que pode ser considerada imprópria e/ou obscena.

Ela tinha feito do corpo um instrumento de trabalho. Aprendera a arte do prazer. Não de uma forma subtil e romântica. Não com floreados e delicadezas maiores que o tempo. Não! Sem eufemismos. Ela aprendera que podia viver apenas usando o corpo nu, dando-o, vendendo-o. Aprendera que isso lhe pagava as contas e os vícios. Que lhe saciava as necessidades básicas e os caprichos. Ela tinha feito do corpo um instrumento de trabalho. E sabia o nome que davam a quem, como ela, batia as esquinas dos bairros. Não se importava.
Há uns tempos, tinha ouvido da boca de uma mulher igual a si: "é porque a vida a isto me obriga". Revirara os olhos e erguera o dedo do meio, enquanto virava costas e se afastava das demonstrações de auto-comiseração. A vida não obrigava ninguém a fazer coisa nenhuma. Muito menos abria uma porta com a indicação "fode ou fode-te". Não era isso que acontecia. As pessoas tinham uma escolha. Faziam a escolha. Tudo certo. Já era tempo de deixar as justificações hediondas sobre como a vida má e o mundo cruel tinham sido estrada para a degradação. "Se todas as pessoas que têm vidas tristes se prostituíssem, estávamos desempregadas", costumava atirar, por entre as conversas. Claro que ninguém gostava de ouvir essas teorias. As pessoas dizem que o livre arbítrio é a melhor coisa dos seres humanos. Mas não naquele meio. Era muito mais fácil achar que se era puta por falta de opção do que admitir que se escolhera sê-lo.
Ela não tinha paciência para limpeza de discurso e justificações vazias. Nem com colegas, nem com clientes. Se calhava um perguntar-lhe, como tantas vezes acontecia, o que a tinha levado àquele caminho, ela respondia sempre o mesmo: "Querido, estás aqui para falar ou para foder?". Eles estavam lá para foder. Ela também. Era uma mera troca de bens de consumo, baseada no corpo. O corpo era o seu instrumento de trabalho. E sim! Dava trabalho! Depilação, ginásio, dieta. Uma constante preocupação. Ser puta era como ser modelo mas com ainda menos roupa e sem edição de imagem.
Não se queixava. Fora escolha sua. Até ao limiar do que loucamente podia ser anunciado. Fora escolha sua. Poderiam, um dia, inscrever isso mesmo na sua lápide: fora escolha sua. Não guardava, sobre a escolha, arrependimentos nem mágoas. Todas as pessoas escolhiam alguma coisa. Ela escolhera duas: a prostituição e a honestidade. E eram duas escolhas válidas, embora parecessem anular-se.
Ela tinha feito do corpo um instrumento de trabalho. Não pensava nele como parte da alma. Não pensava nele como recipiente da alma. Não pensava que tivesse alma. Mas acreditava que, se a tivesse, a sua pureza não seria medida pelo número de corpos que tocavam o seu nem pelo número de leitos onde se estendia e se dedicava ao prazer. Se houvesse alma, ela devia certamente ser medida pelo resto.
As pessoas confundiam, com frequência, o verbo ser e o fazer. Havia uma diferença grande entre ser bom e fazer o bem, tal como havia diferença entre ser puta e viver da prostituição. Mas ela sabia que discutir normas e conceitos sociais era equivalente a tentar prender as ondas na costa. Completamente inútil e estupidamente ilógico. Não as discutindo, optava por pensar nelas. E tinha muitas perguntas onde toda a gente parecia ter respostas. O que é que tornava uma escolha errada? Quando é que a sociedade tinha desprezado os próprios pilares da vida? Onde se guardava a lógica dos tempos que tinham determinado o que era moralmente aceitável e o que era incorrecto?
A noite passava nesses pensamentos. Passava neles, de corrida, até rua se transformar em motéis. E motéis se transformarem em rua. E a manhã vir romper o horizonte para lhe dizer "bom dia".
Na manhã que começava a nascer, iniciava-se o caminho apático das gentes na direcção dos trabalhos. Taciturnas e descontentes, passavam de olhos no chão. Iam sem vontade e sem outro intento que não o da obrigação. Notou que ninguém sorria. "Será que as pessoas têm medo de sorrir?", perguntou-se, enquanto largava o canto e começava o caminho para casa.
Tinha os pés cansados da noite. Mas sorria. E, nas ruas onde passou, entre passeios atolados de pessoas, pessoas atoladas de problemas, problemas atolados de preconceito, compreendeu que era a única a sorrir. "Será que as pessoas têm medo de sorrir?", perguntou-se novamente. Mas, depois, ocorreu-lhe que talvez não fosse medo. Talvez as pessoas vendessem os sorrisos. Talvez fosse esse o preço da sobrevivência. E teve pena delas. Cada uma daquelas pessoas, a vender-se assim, despindo-se de felicidade a troco de dinheiro, de estatuto, de reconhecimento. Sabia quem era. Sabia o que fazia. Tinha feito do corpo um instrumento de trabalho. Mas teve verdadeiramente pena das pessoas que passavam sem sorrir. Teve pena da forma como vendiam os sorrisos a troco de migalhas. Ela prostituía-se... mas não tanto e não por tão pouco.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 14 de abril de 2015

Coração vazio


Nasci com o coração vazio. Preenchê-lo foi a segunda coisa que fiz. Primeiro chorei. Depois enchi-o de alegria. A alegria fez dele um coração mais completo.
Com o coração recheado de alegria, provei os primeiros sabores e senti os primeiros aromas. Apreciei as primeiras texturas. Derreti-me nos primeiros abraços. Com o coração inundado por essa felicidade, dei os primeiros passos. Disse as primeiras palavras. Sofri as primeiras quedas. Com o coração cheio de contentamento, senti o embate dos primeiros sentidos. O desgaste dos primeiros sentimentos. Cultivei as primeiras ilusões. As ilusões trouxeram consigo realidades além da minha. Subitamente, o mundo em meu redor não bastava. A alegria dissipou no centro do horizonte onírico dos meus desejos. O meu coração ficou despojado de tudo.
Tinha o coração vazio pela segunda vez. Nunca gostei do vazio. Preenchê-lo foi a primeira coisa que fiz. Enchi-o de sonhos. Sonhos para hoje. Sonhos para amanhã. Sonhos para um futuro incerto que há-de vir. Os sonhos fizeram dele um coração mais completo.
Com o coração recheado de sonhos, fiz as primeiras experiências. Escrevi as primeiras linhas. Apaixonei-me pela primeira vez. Esse primeiro amor não era pessoa mas palavra. Apaixonei-me pela prosa. Pela poesia. Pelo que podia ser criado no horizonte infinito de uma folha em branco. Com o coração inundado de sonhos, criei as primeiras expetativas. E vi-as defraudadas pela primeira vez. Pela segunda. Pela terceira. Vi os meus sonhos destruídos nas mãos da vida. Nas mãos das pessoas. Nas mãos do tempo, esse traidor sem rosto. Cultivei as primeiras mágoas. Subitamente, os sonhos não bastavam. Lentamente, deterioraram-se em fragmentos. Os seus fragmentos esvoaçaram, fizeram-se poeira. O meu coração ficou despojado de tudo.
Tinha o coração vazio pela terceira vez. Nunca gostei do vazio. Preenchê-lo foi a primeira coisa que fiz. Enchi-o de amor. Não sabia muito bem que podia amar-me. Achava que não. Como podia eu ser merecedora de amor, se tinha já desgastado a alegria e destruído o sonho? Então, no cultivo de um amor ao próprio amor, amei a ideia da alegria que tinha perdido e amei as pessoas que me tinham arrancado os sonhos.
Com o coração recheado de amor, dei-me pela primeira vez. Selei os primeiros beijos. Desatei os primeiros medos. Entrelacei os dedos pela primeira vez. Com o coração envolto na plenitude das paixões, entreguei-me ao prazer. Destruí as primeiras muralhas. Acreditei que o sonho e a felicidade eram um só e se cruzavam na realidade do agora. Criei esperanças maiores do que eu. Senti-as pesar nos ombros e no peito. Vi-as quebrar com amostras de desilusão. Vi o coração esvaziar-se de novo, mais rápido, mais brusco, envolvendo-se nas nuances de desespero.
Tinha o coração vazio pela quarta vez. Nunca gostei do vazio. Mas entendi, finalmente, que talvez devesse gostar. O vazio tem sombras. Se tem sombras é porque existe luz. Compreendi que a sombra da alegria ainda é alegria. Que a sombra do sonho ainda é sonho. Que a sombra do amor ainda é amor. Preencher o coração não foi a primeira coisa que fiz. Primeiro, aprendi a amar as sombras. Depois, aprendi a amar a luz que as cultiva. Preencher o coração, foi a última coisa que fiz. Preenchi o coração com as sombras do vazio. Elas alojaram-se com naturalidade. Preencheram até os recantos que nunca tinham conhecido o toque do sentir. Prenderam-se às suas paredes com raízes de treva e caos. Hoje o coração está cheio. Já não há espaço para mais ninguém. Já não há espaço para mais nada. Fecharam-se as janelas. Nunca mais terei o coração vazio.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 7 de abril de 2015

Uma história


"A imaginação é mais importante que a ciência, porque a ciência é limitada, 
ao passo que a imaginação abrange o mundo inteiro."
- Albert Einstein -

A maioria das histórias começa com "era uma vez". Esta não. Esta começa com o toque insistente do telefone a ecoar nas paredes vazias de uma casa onde já não mora ninguém. E, se houve tempos em que algo existiu para que se dissesse "era uma vez", não foi hoje. Não agora. Não no toque insistente deste telefone que toca sem que vivalma o atenda.
Dentro das paredes nuas da casa onde ecoa o som estridente da ausência, nunca houve história que merecesse ser contada. Nunca houve amor. Nunca houve amizade. Afago. Carinho. Ternura. Talvez tenha havido intrigas. Se as houve, elas foram camufladas e perderam-se, escorrendo ao de leve pelas frestas do soalho velho, que range sozinho, como se fantasmas tristes caminhassem sobre si.
Seria uma boa história para começar com "era uma vez", se houvesse fantasmas. Mas não há. Há tão somente o vento, insistindo contra as traves de madeira velha, assobiando baixinho, qual viúva carpideira de outras eras. E talvez, por entre as notas agudas do seu eterno sopro, ele traga os fantasmas etéreos do passado. Mas não importa. O telefone toca. O som ecoa. O vento, embora responda, não pode atender.
No pó que se acumula sobre a mobília, repousa a memória do vazio. Um vazio que, obviamente, o telefone não conhece. Porque toca. Ainda. De novo. Outra vez. Não há passos que corram na sua direcção, nem mãos que se estendam num ímpeto voraz.
Talvez pudesse começar por "era uma vez" a história da pessoa que insiste em ligar para a casa vazia onde já ninguém mora. Ou a história de quem deixou o telefone ligado, no abandono da vida. Mas não merece esse começo a história do vazio. O vazio é apenas isso. Sem que, noutros tempos, noutra dimensão, noutro modo se encontre o incentivo para dizer que algo aconteceu. O vazio é apenas isso. E a pessoa que insiste em ligar, tal como aquela que morreu sem que ninguém se lembrasse de desligar o telefone são apenas a memória apagada nas paredes vazias, soterradas sob a camada densa de pó. Se ninguém disser delas "era uma vez", em breve serão também vazio. Serão absorvidas por ele, condenadas a desaparecer neste pedaço de papel onde não há espaço para começar histórias com conteúdo.
Esta história não começa com "era uma vez". Começa com o toque insistente do telefone a ecoar nas paredes vazias de uma casa onde já não mora ninguém. E, como não há quem more nela, a história acaba como começa. O telefone toca. Ninguém atende. Porque é que ninguém atende? Porque é que a casa está vazia? Porque é que alguém insiste em ligar, se não há quem responda?
Nenhum de nós sabe e, de alguma forma, sabemos todos a resposta. Estamos certos de saber. Ficamos todos na sala a olhar para o telefone que toca, ainda não estejamos lá. Imaginamos. Não precisamos que nos digam nada. Sabemos que a casa está vazia e que o telefone toca. Apenas isso. E, a maravilha é esta: Subitamente, cada um de nós tem uma história que merece começar com "era uma vez"...

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet