terça-feira, 9 de outubro de 2018

Jogo de interesses




Isso não foi uma relação. Foi um jogo de interesses. Foi o que me disseram. E eu, que me levantei num repente e usei de todas as minhas forças para não dizer nada, devia ter dito. Devia ter falado. Devia ter começado assim: “tens razão”.


Tens razão. Foi um jogo de interesses.

Eu e ele. Que nos demos como poucos se dão e sentimos o que poucos sentem. Fomos isso. Só isso. Um jogo de interesses. Tens razão.

Quando começou, por exemplo, estávamos os dois interessados em dar um ao outro o mundo. Claro que nenhum de nós tinha um mundo para dar. Éramos meros mortais, ambos de mãos vazias e com trocos no banco. De bolsos rasgados. De sapatos que diziam ao chão que íamos descalços mas enganavam os céus. O que tínhamos? Tínhamos um corpo. Então, foi isso que demos. Vez após vez. Uma entrega fatalmente condenada pelas horas de sono, que nos obrigavam a parar e pelas horas de refeição que nos forçavam a comer. Fora isso, demos o corpo. Tantas vezes que, em alguns momentos, pareceu que eu não começava e não terminava. Como se fossemos um.

Mas os dias passam e nem toda a vida é cama. Então, interessámo-nos pela arte um do outro. Um interesse mútuo que chegou a render trabalhos conexos, alguns dos quais nos pagaram dívidas e nos puseram comida na mesa. Mas eram poucos, esses que fazíamos os dois. Então, interessámo-nos em ter uma vida melhor. Arranjámos novos trabalhos, que nos faziam dormir no acordar do sol ou não dormir de todo. Esgotámos energias, na demanda por essa vida melhor que estávamos interessados em ter juntos.

Interessámo-nos em quebrar as distâncias e fomos viver juntos. Partilhámos tarefas com o interesse de que o outro soubesse sempre que não estava só. E, quando um não podia, o outro ia. Quando um não conseguia, o outro fazia. Quando um caía, o outro segurava as pontas acutilantes da vida. Tínhamos interesse em ser o sol e o solo um do outro. E fomos, muitas vezes. Tantas vezes que, pensando nelas, parecem um contínuo de histórias abraçadas para que ninguém se afundasse nas amarguras do mundo.

Interessámo-nos em seguir. De tal forma que, por entre conversas que viravam discussões e discussões que se faziam pedidos de desculpa, demos por nós a anular a parte de nós que nos fazia ser gente. Fomos a ideia que tínhamos do que o outro queria de nós. E perdemos, aos bocadinhos, numa completa ausência do “eu”, aquele ego que bem conheces e que primas por cuidar e acarinhar, como nunca fizeste aos teus filhos.

Neste eterno jogo de interesses, interessámo-nos por voltar a ver um sorriso nos lábios sedentos de beijos e recheados de mágoas. Dissemos um adeus que se concretizaria apenas depois e partilhámos, em despedida, amor feito de cama e de palavras que eram já memória, assente no prazo de validade de nós.

Interessámo-nos em ficar. Cheios de amor um pelo outro. Mas amigos. Ainda que a amizade fosse um corte e uma brecha, entre o que podia ter sido tanto mais. Como nunca amaste mais do que o teu reflexo e nunca deste mais do que produtos físicos e adquiríveis no teu fundo de previdência, provavelmente este é um conceito que te escapa. Mas interessámo-nos em que o outro fosse mais feliz do que nós mesmos.

O meu jogo de interesses foi uma instituição. Dessas que não cabe no diâmetro da aliança e que não se concretiza com a procriação ausente de seres indesejados. Nunca tivemos contas em nome dos dois nem bens comuns. Mas partilhámos uma vida, um coração, um amor… de uma forma tão interessada e presente que em nenhum momento sentimos que estivéssemos a perder a noção da vida.

Perdemos. Perdemos tudo. É o que acontece quando nos interessamos a ponto de apostar tudo. Perdemos tudo. E a perda, ao que parece, define agora tudo o que fomos.

Boa educação e pouco afeto foi uma máxima que aprendi há muito tempo, pelas mãos de uma relação de sangue que me fez gente… mas não pessoa.

E, se o que tu e eu temos é uma relação… tens razão! Com ele, eu não tive uma relação. Tive um jogo de interesses. Perdi. Mas ainda me interesso. Porque amar é isso mesmo. Estar interessado no outro. Desejar que ele esteja bem. E sofrer calado… se isso significar que, ao longe, podemos vislumbrar um sorriso.




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segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Cor de âmbar


Para o meu avô

Sento-me na varanda. Há amendoins. Cascas espalhadas pelo cinzeiro, onde algumas beatas se deixaram e a cinza se desfaz. Tens o cigarro entre os dedos e olhas o mar. O pôr-do-sol raia nos teus olhos e confere-lhe uma cor de âmbar, semelhante ao do whisky puro que diariamente agitas no copo largo antes de beber um pequeno golinho. E olhas para o horizonte. Esse que se reflete nas lentes dos teus óculos. E que te deixa os olhos mais claros. Mais doces. Ainda mais doces quando largam o horizonte e se pousam em mim. A noite cai. Tu fumas. Eu como amendoins. Uma confusão de cinza e cascas sobre a mesa, agitados e movidos pelo vento. E o verão está todo no som da televisão, atrás de nós, que debita palavras de um mundo que começa a desfazer-se. Tu sabes que o mundo está desfeito e eu não. Eu sou só uma criança. Sentada na varanda a comer amendoins até que o sol desapareça e as sombras da noite cheguem.

Elas chegam. Mas eu não tenho medo da noite. Estás ali. E eu sei. Não há sombra noturna nem mundo desfeito que vença esse teu jeito de homem forte. Sinto-me protegida ao teu lado, com o cheiro acre do teu cigarro e o toque inebriante do teu copo de whiskey, agora vazio. Sinto-me segura com o teu sorriso e com os teus olhos castanhos. Sinto-me segura contigo.

Pergunto-te se amanhã podemos ir ao parque infantil. E dizes que sim. Não o dizes porque te apeteça cumprir os três passos que nos separam do parquezinho central, onde se agitam baloiços e gritam crianças mais desinquietas do que eu. Dizes que sim porque não sabias – e nunca soubeste – dizer-me outra coisa. Nem mesmo quando eu queria torradas com manteiga e Chocapic ao lanche, pelo gosto de molhar no leite esse universo gorduroso de manteiga, depois do travo doce dos cereais já o ter maculado com a tonalidade beje. Nem aí me dizias que não.

Tentei não abusar muito dos meus pedidos mas sei que o fiz. Sentada naquela varanda, que ainda permanece, porque a pedra não se desgasta ao ritmo dos homens, eu fiz muitos pedidos. E ali comi muitos amendoins ao pôr-do-sol, depois de dias de praia que começavam pela madrugada, depois do leite com chocolate e das padas com manteiga. E, um a um, foste acedendo a todos. Porque os teus olhos, que eram castanhos, tinham a tonalidade do âmbar quando o sol se punha. E todo o seu mel vertia na minha direção, como seu fosse o mundo.

O tempo passa. A varanda vendeu-se, com o resto da casa, para nos livrarmos da garagem inundada e da confusão da avenida. O tempo passa. E a varanda, que permanece, quase sempre sem vida, sem alma, vazia de tudo, ainda está lá. Enquanto que tu, com toda essa vida, toda essa alma, tão cheio de tudo, já não estás.

Sinto que vivi o âmbar dos teus olhos com pedidos feitos aqui e ali, na voz de criança que sei que tive e que tu recebeste com ternura. E sei que cresci a fazer pedidos nunca negados. Fomos novamente essas duas pessoas sem idade que se sentam na varanda da minha memória, quando eu já não tinha a varanda e tu já não tinhas a energia.

Uma noite, levantaste-te da tua cama de hospital. Vestiste a camisa e puseste o boné. Libertaste-te dos fios que te prendiam às máquinas e caminhaste até ao meu sonho. Sorriste. Eu sorri. Falámos com os olhos sobre o que sentíamos, porque nunca fomos bons a usar os lábios para falar de sentimentos. Deste-me um beijo na bochecha, em despedida. Tinhas novamente o reflexo do sol poente nos olhos cor de âmbar quando viraste as costas. E eu, que sempre te pedi demais, chamei por ti e disse: “despede-te também deles”.

Nunca me negaste um pedido.

Nessa noite, toda a gente sonhou contigo.

E o sol que se pôs nos teus olhos, nunca mais nasceu.



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segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Amor de folha caduca




Meu amor de folha caduca. O Outono chegou e tu não estás. A tua ausência já me dura há uma Primavera e um Verão. E o relógio continua a marcar a hora do Inverno. Não quis que houvesse hora além dessa, na qual me deixaste com tempo para olhar para os ponteiros do relógio e pensar.

Há um cheiro a canela no ar e tu não estás. Há pedaços de chama que se esbatem em fumo e dançam, antes de desaparecerem no inconcreto de tetos e paredes, e tu não estás. Há um bolo de cenoura a cozer no forno, e tu não estás. Há um lago inteiro de mágoas nos meus olhos secos e tu não estás.

Confesso-me incapaz de sentir. Como se o coração, demasiado cansado de amar até ao limite da loucura, tivesse finalmente feito greve. Tirado folga. Férias. Bem merecidos dias de repouso. E, então, é como se ele não sentisse mais do que a vontade de não sentir. De malas feitas, o meu coração sabe que está mais disposto a largar as possibilidades do que a somá-las à longa lista de nuncas e sempres. Está mais disposto a dizer “adeus” do que a ficar. E tudo o que a ele se somasse o reduziria. Porque os abraços sobre o coração o oprimem, o amassam, o amarrotam. E as sistoles e diástoles solitárias, nesse inferno sem anjos nem demónios, são o que, aos poucos, estão a permitir que ele retome a forma e se faça inteiro. É um processo moroso e que me dói até nos espaços vazios do eu. Ainda bem. É o pouco que me resta para lembrar os tempos em que o coração, hoje grevista, nem folgas tirava.

As folhas começam a cair. E tu não estás. Também não é como se conseguisses, agora, desbravar o mato por entre as silvas para chegar às flores amenas da suavidade que eu não tenho. Sinto que não quero nem posso amar nada além de mim. E tu não estás. Faço-me amante de mim mesma. E tu não estás. E falta-me, talvez, a amargura de te ouvir dizer que eu estou errada, que eu sou o erro, que eu nunca vou aprender. Sinto nos lábios o travo saudosista por essa miséria desanimada e depressiva, cheia de angústias e tormentos, que me torturava e me desfazia, orientando-me para o abismo. Amar-me é também amar o abismo. E a ideia das tuas palavras, que me partiam as asas, osso a osso e pena a pena.

Apetece-me gritar e tu não estás. Ainda bem. Não quero gritar contigo. Nem para ti. Nem para a aura inebriada de sobriedades toscas que ainda ondeiam em teu redor e te retiram da pele o sal marinho dos olhos cada vez mais azuis. As sombras dos meus querem apenas paz e vazio. Querem apenas que me respeitem a paz e a vontade do vazio. Porque, se eu escolher morrer sozinha, com gatos e memórias a encher a casa, essa é uma escolha cujo direito reclamo.

O temporizador do forno toca e tu não estás. Desenformo o bolo de cenoura e tu não estás. Sirvo o chá de canela e tu não estás. Há fumo no ar. Saúdo o Outono. Beijo apaixonadamente essa ideia das folhas que caem, algures, enquanto eu olho pela janela, para ver andaimes e tela de construção.

A vida passa e tu não estás. Se estivesses, terias beijos só teus. Um amor perene à tua espera. Bolo de cenoura e chá de canela.




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terça-feira, 18 de setembro de 2018

Uma parte dele




Há uma parte dele que tu nunca vais ter. Por mais que queiras. Por mais que faças. Ainda que te quebres em dois, na ânsia desenfreada pela plenitude dos sentidos. Há uma parte dele que tu nunca vais ter.

Hás-de dar por ela ao longo do dia. Quando acordares para o olhar disperso, em busca do aroma a café e lhe notares, na sonolência dos passos, a inquietude da madrugada incerta e cheia de nuvens.

Vai ser muito subtil. Um sorriso que se atrasa por segundos. Um toque que se afasta antes de o ser. O ouvido atento, aguardando por fantasmas de anteontem. Tão subtil será que talvez não percebas ao acordar. Mas há uma parte dele que tu nunca vais ter.

Avançará pelo dia. No almoço, em mesa posta a preceito. Ou no restaurante, entre fatias de piza e sabores orientais. A procura da familiaridade entre as palavras que se repetem, enquanto escolhes. E o afastar do pensamento dos pimentos removidos e do picante, médio ou intenso. Ficará nos trejeitos da voz, num pedido que soa sempre a pergunta. Como quem não entende. Como quem não sabe. Mas sabendo.

As mãos no volante, a caminho de casa, irão, por vezes, à maneta das mudanças. Mesmo de sexta metida e a 120 quilómetros por hora. Não procurarão, nem a tua, nem a redução rotativa. Ele estará apenas ali. À distância de um toque. E a 10 mil anos-luz. Agarrando a memória do riso. E da viagem. Mas mais do riso, preso na maneta das mudanças. E, aí, talvez comeces a desconfiar. Há uma parte dele que tu nunca vais ter.

Na manta – ou cobertor – sobre o sofá manchado. Ecoando no papel de parede mal amanhado e cheio de altinhos. Na motivação dos dedos sobre as teclas gastas de jogos intermináveis e na rapidez da paragem no permeio da história que te habituaste a ver de corrida. Hábitos inusuais de outras atmosferas. Silêncios cheios de palavras que se perdem. E documentos de identificação que pouco primam pela seriedade e bons costumes sociais. Estranheza que, de entranhada, passa de feitio a defeito, qual pedaço desabotoado de um pano de linho puro.

Estranharás. A quebra – primeiro diferente e depois horrífica – de um sonho que, afinal, era só isso. Pela certeza do amor, começarás, aos poucos, a sentir a falta. E a falta é como um aroma leve mas pútrido de uma certeza. A de que existe uma parte dele que tu nunca vais ter.

Será no toque. Na permissividade do toque. Na plenitude do toque - por vezes agreste na intensidade e nos jeitos. Desconfortável no seu conjunto, pelo inusitado da temporalidade que o molda. Uma ausência de regras que se faz regra. Ou o medo de errar, exposto em questões dúbias que se ancorarão numa só. Sabes que há uma parte dele que tu nunca vais ter?

Acabará em noites na cama. Na espera pela tua última excursão – que, provavelmente, não terá lugar - ou pela procura do teu corpo, voltado para o infinito, para te agarrar pela cintura e te prender à terra dos homens, com medo de que voes e não voltes mais. Como não podes ir lá – ao mundo do voo – não compreenderás a urgência das mãos ou da distância depois do toque. E vais saber então, se não o descobriste ainda – que há uma parte dele que tu nunca vais ter.

Perdoa. Perdoa essa falta de entrega, quase ínfima, que impede que o tudo seja um todo. Ele quererá, por certo, dar-te tudo o que é. Entende. Eu passei. Passei como só passa quem fica. E a parte dele que tu nunca vais ter, sou eu.



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terça-feira, 11 de setembro de 2018

Debaixo dos filtros




Debaixo dos filtros e da maquilhagem existe uma pessoa. Fundamentalmente igual a todas as outras pessoas, que têm borbulhas e cicatrizes e manchas na pele. Peço desculpa. Não acordo maquilhada e com filtros. Ainda que deles faça uso.

Não faço uso deles porque quero que me julguem perfeita. E por isso admito: Debaixo das tintas há pele. Debaixo da roupa há nudez. E não tenho medo delas. Mas também não tenho medo das roupas, dos filtros, da maquilhagem.

Não acho que me reduza a forma do meu corpo sem push-ups. Não acho que me reduzam as manchas e as olheiras na pele sem tintas. Mas também não acho que o seu uso me reduza, que me embruteça, que me torne mais insípida ou superficial.

Passei uma vida a ser mulher entre as noções do que uma mulher deve ser. E anos no seio elitista da noção que nega à mulher o direito de se enquadrar nas noções do que a sociedade diz que a mulher deve ser.

E cansa-me. Cansa-me que não possa estar natural para ser mulher. Cansa-me que não possa estar maquilhada para ser feminista.

Não quero cair nos erros fartos do mundo.
Maquilho-me… se me apetecer. E não me maquilho… se não me apetecer. E tiro selfies. E uso filtros. Se e sempre que me parecer bem.

Recuso-me a ser livre só no papel que diz que o sou. A liberdade não é um contrato que nos vincula a um espaço de prisão a céu aberto, com paredes de crítica e de opinião alheia.

Debaixo dos filtros e da maquilhagem, existe uma pessoa. Também acordo com olheiras. E sardas do sol. Se queres mergulhar na minha imperfeição, onde o nado é livre, pára de ficar sem fôlego na camada superficial das minhas fotos das redes sociais.

E não! Não vou deixar de sorrir para a lente da frente do telemóvel, procurando o meu melhor ângulo. Nem vou deixar de editar essa fotografia. A menos que queira.

Porque não devo a mim mesma nada senão a liberdade. E escolho a ambiguidade de amar o rosto que me reconhece pela manhã e aquele que pinto. Escolho levar o segundo à rua, sem medo que ele anule o primeiro.

Eu sei que não sou perfeita! Nem excessivamente bonita. E sei que não tenho a pele que as bases e os filtros entoam. Mas não me importo!

Acontece que me amo. Amo o meu eu de pijama e pé encardido no chão. E o meu eu de salto alto e três camadas de tinta.

Não engano ninguém nas fotografias. Simplesmente, sou mais do que elas. Tenho mais na vida do que o momento estático das fotos de modelo. Como pensar, questionar, rir. Acima de tudo rir. Rir da ideia de que não devia tirar fotografias porque me faz parecer superficial. Rir da ideia de que não devia maquilhar-me porque me faz parecer burra. Rir da ideia de que não devia falar do meu eu natural porque tiro fotos e me maquilho.

Apresento esta ideia:
Não me limito e não me reduzo.

Debaixo dos filtros e da maquilhagem, tal como sobre eles, existo eu! E sim, eu devia fazer tudo isso. O que eu não devia fazer é ouvir comentários de pessoas que escolhem um rótulo só e o levam para a cova, feito bandeira.

Eu levo os meus mil rótulos. Em caso de dúvida, escrevam na minha morada final, talhando a pedra da lápide com rudeza: “ninguém entendeu, mas viveu em paz.”.





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terça-feira, 4 de setembro de 2018

Um lugar para mim




Disseste-me. Adeus. Depois de todas as promessas. Mas eu sabia que as promessas eram palavras vazias. Vazias como a cadeira onde já não me sento. E sabia que me dirias. Um dia. Adeus. Como se nunca me tivesses prometido nada. Está tudo bem.



Quando me sentei na floresta, contei-lhe. Um coração partido que falava, sem voz. Tinham-lhe roubado a voz. E a música. Não havia música no meu coração há muito tempo. Talvez desde que os dedos que se demoravam nas teclas brancas e negras do piano se tinham dedicado a divagações ao longo da minha pele, deixando-lhe o aroma do carinho.

A floresta conheceu-me um coração sem música e sem voz. Mas falou com ele. E ouviu-lhe os queixumes de uma alma macerada nesse silêncio, onde havia sangue seco e hematomas e cicatrizes. “Ninguém as vê”. Foi isso que a floresta disse. E eu anuí. Sorrindo. Porque o sorriso faz parte de uma peça de teatro bem ensaiada que me esqueço de deixar em casa, mesmo quando vou à floresta.

Com um sentido desassossegado dentro dos ossos miúdos e uma intempestividade carente nos olhos que vertem, eu deixei, em silêncio, que a floresta me estendesse a brisa de braços nus e me envolvesse o corpo. Sinto sempre frio, desde que não há quem me agarre na noite. Sinto sempre noite, desde que não há quem me arraste para as sombras do sol.

Habituada a ser mãe, a floresta contou-me. Debaixo da terra há vermes. Passeiam junto às raízes. Sem sol. E, um dia, quando também eu for terra, eles estarão lá para me lembrar dos abraços anoitecidos de um amor poente. A vida passa. Um dia acaba. Um lembrete cheio de cuidados mornos, que tentava recordar-me de que eu não era um coração calado, sentado numa cadeira na floresta. Eu era um mar de possibilidades. Possibilidades que se multiplicavam se as pernas tivessem a força de me erguer e me levar pelos dias, numa direção que não a do hábito.

Quando me sentei na floresta, contei-lhe. Uma dormência que me picava as mãos. Como se o vazio entre os dedos as tornasse inúteis. Uma secura que me raiava os lábios. Como se o vazio do toque de outros os deixasse eternamente sedentos. Uma raiva que me enegrecia as veias etéreas do sonho. Como se o vazio entre os segundos se revelasse na lúgubre manifestação do eu.

A floresta disse. Não mais. Levanta-te. E eu não compreendi. Contei-lhe que me tinhas dito adeus. Depois de tantas promessas. Ela sabia. Ela já sabia. Ela sabe tudo. Mas não me abraçou com os seus ventos e miragens. Apontou-me os ramos de árvores viçosas e disse. Se a promessa dos homens se cumprisse, não estarias só nessa cadeira. Se a promessa dos homens se cumprisse, eu não estaria a definhar, aos poucos. Se a promessa dos homens se cumprisse, mais gente viria à floresta enumerar mágoas e venturas.

Minha filha. Disse ela. As promessas são um caminho para o que será jamais. Mas é quem se senta na floresta que sabe. O sol que se põe, nasce de novo. E a lua que mingua, renasce. E o Inverno dá lugar às flores da Primavera. Quem se senta na floresta sabe. Por isso vai. O teu lugar fica. E esta é uma promessa. Uma que cumpro, por não fazer parte do mundo dos homens.


Disseste-me. Adeus. Depois de todas as promessas. Mas eu sabia que as promessas eram palavras vazias. Vazias como a cadeira onde me sentei por um tempo, quebrada e vazia. Sem rumo.

Levantei-me. Da cadeira. Nela, ficou o meu lugar. Entre as árvores. E posso sempre voltar. Eu sabia que me dirias. Um dia. Adeus. Como se nunca me tivesses prometido nada.

Está tudo bem.

Há um lugar para mim na floresta.




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terça-feira, 28 de agosto de 2018

A temperança




As mãos. Olho para as minhas mãos. Segurando copos e jarras. De onde se vertem agruras e amenidades. Traços de frio. Traços de calor. Sensações. Sentimentos. Sentidos. As mãos. Olho para as minhas mãos. Nuas. Segurando entre os dedos o que é invisível aos olhos.

Cuida de mim – pedem essas mãos – e acreditam que sim. O futuro parece todo a seu favor. Excepto pelos dedos. Onde só há o vazio de copos e jarras. Temperando, aos poucos a solidão de dedos nus e solitários.

Gosto das minhas mãos, embora as ache feias. Com os dedos curtos, roliços, anafados, que lembram a preguiça e o desajuste. Gosto delas porque, da mesma forma que seguram canetas e mexem tachos de comida, elas fazem amor com a vida. Ou, melhor dizendo, enquanto seguram canetas e mexem tachos de comida, elas fazem amor com a vida.

São amantes exímias, as minhas mãos. Colocam um pouco de amor em todas as suas ações. Temperam, frequentemente, todos os momentos com um pouco de carinho e de tolerância. E procuram trazer ao mundo apenas o melhor.

Gosto delas, não só porque conhecem os caminhos da beleza dos sentidos, mas também porque conhecem o limite onde a aceitação termina e não temem o voo altivo pelo ar, na direção de rostos cujos lábios não conheçam os traços do respeito. As minhas mãos são assim. Trazem um copo de violência e uma jarra de amor. E vão temperando, aos poucos - seja com essa violência ou esse amor - o carinho, a rudeza e o desacato. Até haver equilíbrio outra vez.

Olho para as minhas mãos. Numa mão trago o meu desassossego e na outra a certeza de que tudo passa com o tempo. Imagino que uma terceira mão segure essa ampulheta. A do tempo que passa. E que sara. Mas nas mãos. Nas duas que trago em frente aos olhos e que limpam lágrimas. Nessas, trago essencialmente o desassossego e a esperança. Vou temperando a vida assim. E nenhuma delas se importa com o resultado efetivo do momento que ainda não chegou. Porque se ocupam do presente e tentam transformá-lo, modelá-lo, torná-lo melhor.

As mãos. Olho para as minhas mãos. Essas que, de percorrerem rostos e corpos alheios guardaram, em si, traços mágicos de paixão; essas que, de embaterem em rostos e corpos alheios guardaram, em si, traços de força; essas que, de trabalharem em prol de rostos e corpos alheios guardaram, em si, traços de aptidão. Numa, seguro a jarra da ousadia. Na outra, o copo de insegurança. E existe um traço de audácia no verter destemperado do orgulho líquido de um recipiente para o outro. Vai ficar tudo certo – diz esse movimento.

É o leite, o sangue e a seiva de mim que verte de um lado para o outro, temperando-me a vida com a ideia da concretização. E há o jarro. E há o copo. E há a temperança. Mas olho. Olho para as minhas mãos. Segurando copos e jarras. De onde se vertem agruras e amenidades. Traços de frio. Traços de calor. Sensações. Sentimentos. Sentidos. Olhando para elas – para as mãos – sei que elas são donas de uma tolerância feliz, de uma praticidade profícua, de uma paciência sã.

Tempero. Com elas. Com as mãos. A minha vida. Os dedos - curtos, roliços, anafados - têm espaços vazios entre si. Mas tocam com ternura o universo onírico do mundo. E sabem que precisam de segurá-la: a esperança. E sabem que precisam de usá-la para minorar o desassossego. Os espaços vazios preenchem-se. Um dia, quem sabe, talvez o façam com outras mãos que entendam. E que temperem o meu amor com mais amor. No sentido mais amplo da temperança.




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terça-feira, 21 de agosto de 2018

A lista IV



Eu fiz uma lista. Duas. Três. Gosto de fazer listas. E pus-te nelas.


Começou por ser uma lista de sonhos para amanhã. Sobre as mãos que viríamos a dar, sobre o mar que veríamos em olhares de contentamento, sobre os dedos que enlaçaríamos, cheios de desejo pela vida. Uma vida que só seria plena se a lista nos incluísse aos dois.

Disseste que eu era a metade de ti que faltava e eu disse-te o mesmo. Sussurrámos. Enquanto enumerávamos as estrelas e lhes dávamos nomes. Uma delas – determinei eu, à revelia da NASA – era tua. Eternamente tua. Porque as estrelas são de todos e te dei a minha parte. Então, tinhas sobre ela poder de decisão.

Essa primeira lista que eu fiz, sobre tudo o que não éramos e podíamos vir a ser, foi uma espécie de trampolim do sonho para a realidade. E, então, fiz outra lista.


A minha segunda lista falava de perfeição. Em pontinhos muito concretos dizia que sabia que eu tinha chegado a um ponto de entendimento onde o próprio ato de fazer listas poderia não fazer sentido.

Não tínhamos espadas. Nem revólveres. Tínhamos as mãos dadas. Poemas nos olhos que sorriam. E éramos crianças a brincar ao faz de conta, acreditando ser mais fortes do que um exército e estar prontas para enfrentar, da vida, as agruras.

Rasguei essa lista. Rasguei-a porque acreditei que éramos donos do mundo e não nos faltava nada. Não fiz listas durante muito tempo.


O tempo. Foi o tempo que me levou de volta. “Apanha agora os cacos dessa folha de papel e os do teu coração!”. Uni-los era impossível. Então, escrevi outra lista. Nela, escrevi os meus motivos para ir embora e os meus motivos para ficar. O meu motivo para ficar. Tão forte, tão débil; tão certeiro, tão imaturo; tão quebrável.

Fiz essa lista para te dizer: eu sei que dói. Eu sei que custa. Eu sei que não é tão perfeito como a estrela que roubei do céu. Mas eu amo-te e pode ficar tudo bem. Vai ficar tudo bem. Amo-te. Amo-te. Amo-te.


Não ficou tudo bem. E, hoje, sentada entre quatro paredes cheias de sombra, nas ameias recolhidas da persiana, sinto entrar o toque do vento morno do verão. Não vai ficar tudo bem.
Esta é uma lista que podia estender-se por folhas e dias e universos. Não faltarão palavras. Nem sentimentos. Talvez falte apenas a vontade que me move pelos dias e me faz capaz de as escrever.

Se esta é uma lista sobre o que falta, eu poderia usar esta vida e as próximas com ideias e pensamentos.

Mas existe muito mais espírito de síntese na dor do que na felicidade. Porque, quando falar magoa, evitam-se palavras e pensamentos. Procura-se outra coisa, ainda que ela própria seja dor. Para camuflar dor com dor, esperando que ela pare de doer; tal como fazem os sábios dos ventos nos incêndios, quando erradicam fogo com fogo, esperando que pare de arder.

E a minha lista de um é bastante simples, para dizer o que foi e o que é. Quando tu estavas, eu tinha tudo. Quando tu estavas, estragámos tudo. E, agora que não estás, falta tudo.


Enumeremos o meu coração. Que já foi um. Elogiemos o meu coração. Que já foi teu. Enumeremos agora. O coração. De cacos no soalho. E nem a madeira é real. Flutuando. No centro de uma casa que não é um lar. E de uma vida onde falta tudo.

Tu-do.
Tu.
Uma vida onde faltas tu.


Esta é a lista. É uma lista muito breve. De tudo o que eu preciso. E nunca mais vou ter.





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terça-feira, 14 de agosto de 2018

A caixa




Têm tentado. Continuamente. Desde sempre. Rotular-me e pôr-me numa caixa. Limitada pelas suas paredes. Feitas de preconceito. Feitas de noções redutoras. Feitas das linhas do ar. E de betão.

Têm tentado. Justificar-me com ideias e frases feitas. Explicar-me com conceitos e limites. Como se um traço de mim aniquilasse o outro. Ou me definisse concretamente. Ou fizesse de mim uma coisa só.

Têm tentado. E têm descoberto que eu sou um ser sem filtro, com traços de luz e sombra. Com traços de riso. Com traços de depressão. E de alheamento. E de apreciação do mundo. Têm descoberto que eu sou beleza e feiura. Preguiça e tarefa e desporto. Escrita e silêncio e palavra dita. Têm descoberto que, sempre que me colocam numa caixa, eu intempestivamente a derrubo e salto para outra… e outra… e outra a seguir.

Irritam-se com os traços de mim. Que se colocam no espaço da menina e os seus livros, por um segundo. Para saltar para o espaço da futilidade e das roupas, por outro segundo. Para adentrar os universos da política e as discussões acesas do feminismo e da equidade, por mais um segundo. E para tocar nos nervosinhos que compõem a alma de cada um, por um segundo de eternidade que lhes baralha as ideias e os deixa sem saberem bem onde podem colocar-me.

Peço que não me coloquem numa caixa. Faço-o insistindo que não é esse o meu lugar. Mas insistem. Insistem em tentar fazer de mim objeto redutível à descomplexificação do eu. E a reduzir-me a uma das minhas partes. Porque será mais simples ver-me como um fragmento de mim. Ou simplesmente porque existem traços de inconsequência na divisão de parcelada de mim em milhares de fragmentos de poeira, que sejam catalogáveis e passíveis de colocar nas caixinhas mentais dos outros.

Não me coloquem numa caixa. Mesmo que cause estranheza que, pela manhã, eu seja atleta; pela tarde, artista; pelo crepúsculo, contestatária; e pela noite, bailarina de fogueiras nuas. Não me coloquem numa caixa. Tenho demasiada liberdade em mim para encaixar nos espaços determinados pelas mãos dos outros.

Podem colocar-me numa caixa. Quando eu morrer. Só quando eu morrer. Antes não. Ou, se puserem, vão ver que as caixas não me seguram. Que salto de uma para a outra. E que me completo com um pé em cada uma. Com uma mão em cada uma. Com um olhar estendido sobre tantas quantas o olhar me abarca.

Sim. Podem colocar-me numa caixa. Quando eu morrer. Só quando eu morrer. Aí podem. Prometo ficar dentro dela, se nela me depositarem. Mas, mesmo aí, devo confessar. Preferia ir livre na respiração do vento. E ficar um pouquinho em toda a parte. Com os rios. E com as flores. E com as árvores. Para lhes contar que faço parte da terra. E que o meu mundo se fez fora da caixa. Para voar. Outra vez. Livre.




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terça-feira, 7 de agosto de 2018

Deitei fora a minha infância



No dia em que te escolhi, deitei fora a minha infância. Troquei-a pelos teus dedos na minha pele nua. Porque pensei que nua e no toque dos teus dedos o sonho também sobrevivesse.

Ser criança era querer fechar os olhos à realidade. Viver na imersão completa das minhas ilusões. Mergulhar na profundidade inóspita dos meus pensamentos e dançar com as cascatas e as flores, juntamente com as criaturas. Uma vinha e dava-me um medalhão. E ele permitia que respirasse sob as águas. E eu nadava. Lado a lado com as sereias do meu pensamento.

Ser criança era fazer jogos inocentes de apanhada. Correr com os ventos. Sentir a liberdade como um sopro e a adrenalina como uma dormência no nariz e um aperto no estômago. “Não me apanhas”. E fugir. Ser criança era fugir do tempo que me determinava os traços, cada vez mais patentes, de uma forma de estar construída em tudo o que ficava depois da fronteira de mim.

E as fadas perguntavam. Não queres amar? E as sereias perguntavam. Não queres amar. E as ninfas perguntavam. Não queres amar? E os faunos perguntavam. Não queres amar?
Ser criança era ser louca. Ser criança era responder-lhes que sim.

E tu vieste. Uma emoção feita de uma loucura maior do que a meninice dos meus jeitos. E as fadas sorriram. As sereias sorriram. As ninfas sorriram. Os faunos sorriram. Mas eu não os vi sorrir. Porque tu sorriste. E, subitamente, o teu sorriso era o único que iluminava os meus passos.

Todos os meus caminhos. Todas as minhas possibilidades. Todos os meus trilhos. Subitamente, tudo era uno e levava a ti. Senti o sopro do vento na tua direção. Senti o curso das águas na tua direção. Segui a corrente, despindo-me da infância no caminho para os teus braços. Neles, nua, achei que o toque dos teus dedos bastaria para manter vivos todos os meus sonhos.

Escolhi-te. Como te escolhi! Acima das selkies e das fadas e dos universos oníricos que, em tempos, tinham preenchido os meus dias. Fui tua como nunca fui deles. Fui tua como nunca fui minha. Fui tua como nunca julguei vir a ser de ninguém.

No dia em que te escolhi, deitei fora a minha infância. Orgulhei-me de ser mulher. Um orgulho vazio de quase tudo. Na esperança de que os teus dedos, na minha pele nua, mantivessem vivos os sonhos.

Cansados, talvez, da minha pele, os teus dedos acenaram em adeus. E fiquei só. Em meu redor, notei: não havia fada ou fauno que sorrisse. Havia vazio e descontentamento. E vontade de os afastar de mim. Ainda nua, percebi o frio dos dias. Ainda nua, percebi que cresci. Ainda nua, percebi que os teus dedos na minha pele não tinham servido para manter vivos os sonhos mas apenas para os roubar.

Escolhi-te. Deitei fora a minha infância. Quando te escolhi. Porque te escolhi. Não existe ser mágico que me pergunte. Não queres amar? Todos eles sabem que te amo. E nenhum deles está.

Estou sozinha. Sozinha e vazia da criança que sorria em mim. No dia em que te escolhi, deitei fora a minha infância.





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