terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Os telhados de Lisboa


Fotografia de Analua Zoé 


Eu gosto dos telhados de Lisboa. Daqueles terraços largos e com horizonte distante, que saltam por entre o aguçado delinear das ruas coloridas que bebem luz. Da sensação falsamente pura do ar que toma a forma de aragem. Da proximidade das pequenas nuvens que ponteiam o céu. E do resplendor do Tejo, que parece feito de ouro líquido. Eu gosto dos telhados de Lisboa.

Nos telhados de Lisboa - ou não fosse a moda a ditar que neles se colocassem bares, cafés e restaurantes – existe uma vibração turística da vida. Subir aos telhados de Lisboa é sair de Portugal para entrar num universo distinto, onde se encontra uma face multicultural da vida. E a minha língua de mel mistura-se, aos poucos, com o entusiasmo do inglês, do mandarim e do francês. Revolve-se nos tons goiabados de alguém que a partilha noutro sotaque e tem um acento angolano aqui e ali.

Os telhados de Lisboa sabem a café, amêndoa amarga, sidra de maçã e vinho tinto. Para mim. Mas muitos dirão que sabem a gin tónico pontuado de pimenta ou a cerveja. Sabem ao que cada um quiser que saiba. Sabem a mundo. E eu gosto. Gosto muito dos telhados de Lisboa.

De telemóveis nas mãos ou com máquinas fotográficas das melhores marcas, tentamos todos, com a mesma sofreguidão, levá-los para casa: esses telhados, com as suas paisagens e as suas festas e as suas gentes. Mas falhamos. Falhamos multilinguisticamente nessa tarefa de os levar para casa. Porque nenhuma fotografia lhes faz justiça.

Libertando-nos da frustração da incaptável essência desses telhados, lá nos deixamos partilhar sorrisos e palavras. Por vezes, se a noite cai, deixamos que o sol nos convide para o melhor espetáculo do dia, quando a cidade fica com um arco-íris horizontal, na linha recortada do seu horizonte mágico. E eu gosto. Gosto mesmo desse pôr-do-sol que acontece sobre a linha da cidade que eu escolhi tornar minha.

Perder esse espetáculo é ganhar outro. Se a noite já quedou, a cidade iluminada faz lembrar um Natal que nunca acaba. O passar de carros na distância lembra uma chuva de estrelas no chão. Pisamos as nuvens, olhando a cidade mística que Ulisses estreou. E vamos lá, ao tempo de uma mitologia que Lisboa não deixa morrer. Às vezes, isto acontece ao som do fado, para nos recordar que a tradição ainda é – e será sempre – o que foi um dia.

Os telhados de Lisboa são uma recriação moderna do seu bairrismo, ainda que muitos não o vejam. Porque se cria, nestes terraços elevados da cidade, um sentido do que é viver Lisboa em vez de se viver nela.

E eu gosto. Gosto muito dos telhados de Lisboa.

Eu gosto dos telhados de Lisboa. Gosto deles porque não há nada para não gostar. Mas, acima de tudo, amo-os porque não estás neles. Não tenho uma única memória tua ali, que me arraste para o abismo. Então, nos telhados de Lisboa, consigo estar mais perto do céu. Mais perto do sol. Mais perto de mim.

E é nos telhados de Lisboa que me apercebo de que, às vezes, morro de saudades minhas. De quem eu sou quando não estou agarrada às memórias de nós. De quem sou, além das tuas palavras, que continuam a ecoar nos meus ouvidos e me derrubam. De quem sou, independentemente de ti e de todo o nada que às vezes sinto que me tornaste.

Eu gosto - realmente gosto - dos telhados de Lisboa.

Hoje, com leve aroma de rio, amizade e café, este telhado sabe a liberdade.





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terça-feira, 26 de novembro de 2019

Quando o amor não morre


Música de Renato Júnior | Letra de Marina Ferraz
Na voz de Katia Guerreiro


Eu sei muito bem o que acontece quando morre o amor. Já o disse. E alguém já o compôs. E alguém o instrumentou. E alguém o cantou. E alguém o ouviu. Eu sei muito bem o que acontece quando morre o amor. Mas não sei. Não faço ideia. Pergunto às estrelas e ao vento. E elas brilham e ele sopra. Riem-se. Mas não respondem. O que acontece quando o amor não morre?

Eu tentei afogar o meu amor. Mas o país estava seco e ardia. Na falta de água, nessa seca que deixa o chão argiloso cheio de frestas, tentei afogá-lo nas minhas lágrimas. Manter-lhe a cabeça submersa nesse mar feito de gigantismo e mágoa. Mas o amor passou a respirar o sal. Temperou com ele as feridas para que não fechassem. E disse. Eu sou resiliente. Eu vivo. O amor não morreu.

Eu tentei rasgar o meu amor. Agarrar-lhe nos membros, meio toscos. Trucidá-los. Insistir que ele exibia traços desconexos nas lembranças. Esmiuçá-lo, tão pormenorizadamente, que o meu encontro com a dor se tornasse inevitável e jorrasse apenas sangue do que outrora fora seiva e forma de estar. Mas o meu amor rasgado foi como a cabeça da Hidra de Lerna. E, de todas as vezes que eu o retalhava, ele vinha mais forte, com mais identidades toscas, rir aos meus ouvidos. Dizendo. Eu sou plural. Eu vivo. O amor não morreu.

Eu tentei alvejar o meu amor. Usei balas de palavra. Usei balas de silêncio. Usei balas de coreografia. Usei balas de grito. Usei balas de desapego. Usei balas de desespero. Falhando o alvo, que eras tu e acertando irremediavelmente no efeito de boomerangue, num ato hostil que sempre me acabava no peito, esburacando-o. E, dos espaços abertos pela bala, caíram as esperanças, porque eram pequenas. Mas não o amor, enorme e desmedido. E, com a voz saindo a par com a esperança, ele dizia. Eu sou eterno. Eu vivo. O amor não morreu.

Eu tentei esfaquear o meu amor por ti. As lâminas eram finas como folhas de papel. Porque eram folhas de papel. E nelas, com canetas igualmente finas - tantas vezes cor de realeza, tantas vezes cor de sangue – eu ia esventrando, com investidas cruas, o que sobrava de pensamento leve para poder ser crua e cruel. Inabalável, nos cortes finos da lâmina das folhas do meu eu caduco, a voz ainda falava. Eu sou a tinta. Eu vivo. O amor não morreu.

Eu tentei envenenar o meu amor por ti. O meu veneno era a acidez da alma, que te odiava. Odiava. Odiava. Até odiar menos. Até não odiar. Até só dizer que odiava. Até saber que nunca tinha odiado. E acabar a dizer “amo-te”. O meu veneno foi uma sequência de impropérios, com “foda-ses” e “merdas” jorrados contra paredes nas quais só eu batia a cabeça. Sem medo das formulações frásicas, havia o riso. Permanente. Da voz. Eu sou a palavra. Eu vivo. O amor não morreu.

Eu sei muito bem o que acontece quando morre o amor. Já o disse. E alguém já o compôs. E alguém o instrumentou. E alguém o cantou. E alguém o ouviu.

Eu sei muito bem o que acontece quando morre o amor. Soube o que acontece quando morre o amor no mesmo dia em que ele desapareceu dos teus olhos. E no mesmo dia em que, de dentro deles, desapareceu a sombra poética de todos os meus sonhos e passou a existir vazio.

Eu sei. Sei muito bem o que acontece quando morre o amor. Nascem poemas, poetas, canções e futuros inesperados.

Mas eu não preciso de saber o que acontece quando morre o amor. Preciso de saber outra coisa. Isto. Como acalmar a mágoa. Como amortecer a dor. Como travar as lágrimas. Preciso de saber o que fazer quando o amor não morre.






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terça-feira, 19 de novembro de 2019

Acendes-me


Fotografia de Raul Pinto

Apagaram-me o sol. A luz dos olhos. Poentes. Aliás, toda a gente o diz. Que eu sou sombra. Que eu sou negro. Uma espécie de buraco onde não há espaço para que caiba senão o vazio.

Disseram-me. Já perdeste o que nunca tiveste. Como se alguém pudesse. Perder o que nunca teve. Senta-te e espera pela morte, que é melhor. Eu sentei. Esperei. Pela morte. No escuro de mim e no vazio das auroras que nunca nasciam nas paredes desse lar desfeito.

Não foi porque não quisesse levantar-me. Mas a desolação era chumbo. A desolação era metálica e sabia a sangue. E eu só conseguia mover os olhos para o soalho onde definhava, porque eles ardiam com as lágrimas, sempre que eu tentava procurar o céu. E não havia céu. Eu sabia que não havia céu. Só um teto repleto de rachas e humidade. Só um negrume igual ao meu, feito das poeiras do antigamente.

Apagaram-me o sol. A luz dos olhos. Poentes. E, de rojo no chão, olhos incansáveis de chão, enchendo o chão de rios que tinham nascente em mim, eu desejei pés que me partissem os ossos. Adolescente desejo de chorar com razão justificável.

Mas havia um rio. Um rio que se juntava ao meu, no meu chão, de quando em vez, criando uma afluente de qualquer coisa inexplicável. Vindo, sei lá eu de onde. Fazendo, sei lá eu o quê.

Servos da tristeza intemporal da vida, nenhuma das nascentes que somos parecia mais do que o curso para um oceano de morte. E ambos honrávamos os deuses da efemeridade. E ambos desejávamos a morte. Então, descolando o rosto do soalho, quisemos saber. Pelo menos saber. Que outra nascente é essa, que flui quando o sol se apaga. E a luz dos olhos. Poentes.

Os teus olhos eram mel. E mágoa. E tinham histórias sobre o que podia ter sido e não foi. Histórias sobre a perda do que não se teve. Como se alguém pudesse. Perder o que não tinha. E, sentando-me para ver melhor o que me entrava, de forma tão inusitada, nos dias vazios, vi-te acender a luz. Essa luz. Não a do sol. A dos meus olhos. Ortivos.

Escondemo-nos nas sombras. Permanecemos nas sombras. O sol que não há secou o rio que não flui. Há uma luz acesa. Acendes-me. Dentro das quatro paredes da casa. Sarando, aos poucos, as rachas do teto. E as minhas.

Acendes-me. O corpo débil. A mísera vontade. A vontade de olhar para o céu na esperança de ver céu, sem ardor nos olhos. Acendes-me.

Sim. Em tempos, apagaram-me o sol. A luz dos olhos. Aliás, toda a gente o diz. Que eu sou trevas. Que eu sou negrume. Dentro destas paredes não sou. Os dias cabem nas pontas dos teus dedos. Acendes-me os olhos. Gostava de acender os teus.





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quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Ciúme


Fotografia de Analua Zoé 
Modelos: Unicos Michaelis & Akasha Balthory

O ciúme é o sentimento mais controverso do mundo. Mal entendido, mal usado, mal amado; este sentimento é muitas vezes travestido de outra coisa: seja amor, clamor possessivo ou temor da perda.

Dependendo do significado que individualmente se atribui, existe quem diga que o sente. Muito. Assim. Sou um pessoa ciumenta. E quem o negue. Odeie. Resmungando. Assim. Eu não sou ciumento.

Toda a gente sente ciúme. De uma forma ou outra. Usando quaisquer termos condescendentes para o negar. Usando qualquer sinonímia para o esbater. Usando qualquer definição para o negar. Mas ciúme? Toda a gente sente ciúme.

Toda a gente, isto é, menos a Morte.

A Morte não conhecia o ciúme e havia muitos motivos para que não o sentisse. 

Para começar, não existia ninguém no mundo que ela não pudesse ter, com facilidade. E, mesmo as pessoas que não fazia questão de ter, acabavam por lhe cair nos braços. Se não acontecia nos anos ternos da infância, no fulgor da juventude, na amenidade da vida adulta… havia de ser nos tempos da ceifa outonal da velhice. Todos, todos lhe caíam nos braços.

Verdade era que a Morte não se sentia muito desejada. Mas, naquela dimensão do ciúme que impele ao medo da perda, ela saía sempre vitoriosa. Ela sabia que, ainda que até ela chegar milhares de mulheres ou de homens tivessem passado por uma alcova, o último toque seria sempre o seu. O último leito seria sempre aquele que se eterniza nos seus braços.

A Morte nunca teve um relacionamento que terminasse para que outro se abrisse. A única batalha que tinha vencido, face à sua irmã Vida, era justamente essa: ela era o ponto final da estrada. E não era por acaso que o seu nome lembrava o Amor. Era justamente porque esse sentir de eternidade, que todos os humanos sonham plantar, era uma espécie de produto exclusivo que apenas ela tinha para vender.

Então, embora toda a gente sentisse ciúme, de uma ou outra forma, a Morte não. A Morte não conhecia – não concebia, sequer – o toque desse ambíguo sentimento.

Não sentia, pelo menos, até ti.

A Morte - tão habituada a ter o que queria, tão habituada a levar quem queria, tão habituada ao temor fraudulento da eternidade sonhada – conheceu poucas vezes o desejo.

Toda ela era Amor mas, por não ser Vida, tinha latente um universo de indisposições, sempre que tomava alguém nos braços. Dava a eternidade a toda a gente e ninguém a queria. Mas, depois, eu nasci. Com a Morte, desde cedo, fiz pactos intensos. E, todos os dias, ela entrava de mansinho no meu quarto, ouvindo-me implorar pela sua presença, pelo seu toque. Leva-me. Era isso que eu implorava. Desejando-a mais do que a Vida. Desejando-a mais do que todos os Sonhos que me preenchem a alma.

Sentando-se na minha cama, ela desenvolveu o prazer mórbido de me negar os desejos, deixando que o ego bebesse da sofreguidão dos pedidos. Pedia-lhe que me tocasse e, embora não o fizesse, ela sentia. Sentia que eu a queria, de uma forma tão inexplicável que não havia, no mundo, palavra que o definisse. E continuou, não por hábito mas por necessidade, a vir ter comigo, apenas para sentir essa nova forma de ter alguém: aquela que se ancorava no desejo mais puro, na admiração mais plena, no carinho mais profundo.

E a Morte, que nunca tinha sentido ciúmes, ainda menos ciúmes sentia comigo. Porque eu não era apenas alguém que ela podia ter. Era alguém que a queria com uma intensidade sôfrega.

A Morte não sentia ciúmes. Não sentia, pelo menos, até ti. Mas, depois, vieste tu.

E ela entrou no meu quarto. E, quando entrou, eu envolvia-me num sonho. E, no meu sonho, estavas tu. Ficando a ver-me dormir, provavelmente com um sorriso no rosto, ela ficou sem saber se devia acordar-me. Não precisou. Acordei sozinha. Olhei para ela e contei-lhe. Contei-lhe como precisava desesperadamente de viver mais um dia para te ver, nem que fosse só mais uma vez. Contei-lhe como me sentia viva na forma como os nossos lábios se envolviam em beijos. Contei-lhe que o arrepio inusitado do toque dos teus dedos na minha pele era uma espécie de voracidade que eu não tinha conhecido antes. Contei-lhe que te desejava, de uma forma tão intensa que, em alguns momentos, não sabia lidar com o meu corpo ou com a arrítmica sensação de plenitude do meu peito. E ela ouviu-me, retraindo-se, enquanto me ouvia enaltecer a vida que me corria nas veias. Por ti.

Perguntou-me quem eras. Tinha ciúme na voz. Perguntou-me quem eras e eu não lhe disse. Porque não quero que ela te leve de mim.

A Vida riu-se. Baixinho. Vendo a sua irmã eterna sair do meu quarto, cabisbaixa, cabeça tombando no peito ossudo. Magicando fórmulas para retomar o meu desejo. E eu, que também o vi, compreendi pela primeira vez a extensão deste sentido que me emaranha a pele com todas as coisas inexplicáveis.

A Morte não sentia ciúmes. Não sentia, pelo menos, até ti. Mas, depois, vieste tu.

Toda a gente sente ciúme. De uma forma ou outra. Toda a gente sente ciúme. Agora, até a Morte.






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terça-feira, 5 de novembro de 2019

Selvagem

Fotografia de Analua Zoé 



“Todas as coisas boas são selvagens e livres”. (David Thoreau)


Quando olhou para mim. Pobre tonto. Viu-me mulher. E foi por isso que nunca me amou. Mesmo que tenha, milhares de vezes, dito que me amava. Louco. Mesmo depois de me ouvir falar. Mesmo depois das coisas que eu dizia. Repetia. Insistia. Olhava para mim. Via-me mulher.

Eu nunca poderei ser amada por quem vê mais a mulher do que o monstro. Por quem se ilude na carne e se acende só no desejo da subtileza vil, incandescente e lasciva. Eu nunca poderei permitir que me ame quem quer conter-me.

A minha natureza é agreste e a minha alma é selvagem. As minhas mãos estão calejadas da vida e o coração virou rocha nas lides do sentimento. Não sou terra que se colonize. Nem bicho que se adestre. Nem angana que se dome. Nunca passei de um animal selvagem que todos julgam poder domar. E nunca tive espaço em gaiolas e jaulas, por mais bonitas que fossem as suas grades.

Fujo do toque de quem me quer cativa. Porque só me bebe do peito, em taças do sentido, quem percebe o feio de mim. E eu estou longe de ser a figura complacentemente bela que tantos escolhem ver. Sou crua. Cruel. Ser de ódios e amores rudes. Condenada a detestar a maioria das gentes que respiram nas proximidades de mim e a matar pelas outras, se necessário for.

Quem quer pouco de mim, ilude-se. Eu não sei dar-me no limite do politicamente correto. Sigo as leis da floresta e não as leis dos homens. Quando dou, dou tudo. Incluindo o que é funesto e infame e desencantado. Sou o copo de veneno doce que arde na garganta e pára os órgãos vitais. Sou mais morte do que vida. E sou o espelho em que ninguém gosta de ver o seu reflexo.

Parem de tentar ofertar-me a jaula mais bonita. Eu não a quero. Parem de tentar cativar a mulher, quando é o monstro de mim que se exulta. Não quero as vossas gaiolas, nem as vossas caixas, nem as vossas promessas. Quero permanecer selvagem e livre. Como todas as coisas boas.

Por isso, por favor, parem de amar a mulher. Pobres tontos. Parem de olhar o bonito, com olhos que esquecem a feiura do monstro. Loucos. Parem! Eu não vos pertenço. Eu nunca vou pertencer a ninguém, senão à terra e à água. Eu nunca vou pertencer a ninguém senão ao ar e ao fogo. Eu nunca vou pertencer ao homem quando posso ter a floresta.

Quem me amar, precisa de entender. Não estou à procura de quem me ofereça a melhor forma de escravidão. Não quero ser encarcerada. Estou à procura de quem se disponha a ser livre a meu lado. Estou à procura de quem também não tenha medo da lama nem da chuva. Estou à procura de quem rasgue joelhos a subir às árvores do tempo. Estou à procura de quem conheça o sabor, meio mentolado, meio acre, férreo, da liberdade.

Eu sou selvagem. E é só isso que eu sou. Selvagem. Posso ser liberdade. Ou morte. Ou loucura. O que não posso ser é essencialmente eu, em cativeiro.





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terça-feira, 29 de outubro de 2019

Sempre que ela vier




        "Some ancient call/That I've answered before
It lives in my walls/And it's under the floor." 
(in SYML - Fear of the water)



É uma voz mais antiga do que a do oceano. E, sempre que ela vier, eu vou segui-la. É uma voz mais áspera do que a terra arenosa das cidades desérticas. E, sempre que ela vier, eu vou segui-la. É uma voz mais etérea do que a do Vento do Norte. E, sempre que ela vier, eu vou segui-la.

Vou segui-la, sem fazer muitas perguntas. Sem querer saber exatamente qual foi o recanto entreaberto de mim que me esqueci de vedar. Vou aceitar que ela entre e permeie os recantos da alma com mestria. Deixar que ela bata na porta do meu coração, até a arrombar. E que entre, com todas as suas incertezas.

Talvez eu seja realmente a última a saber. Ou talvez seja a primeira. Numa sala de espera de inesperados. Esperando o que ninguém sabe se é possível ou desejável. Mas de olhos postos no agora, onde há a voz mais antiga de todas. Dizendo. Vem.

E, sempre que ela vier, eu vou segui-la.

Às vezes conto-te este segredo, lábios nos lábios. Conversas eternas onde não se profere palavra. Falamos a mesma língua. E somos eternamente o sufoco da respiração que faz o coração duvidar se está na dimensão do amor ou na dimensão da morte. Quando te conto este segredo, a voz que soa não é a minha. É essa voz. Dizendo. Vem.

E, sempre que ela vier, eu vou segui-la.

Sinto-te na flor da pele, com a ponta dos dedos, o temor. Há um oceano de dúvidas, todo feito de águas lamacentas. E se vier o tempo das marés vivas? Os teus olhos perguntam. E se naufragares? Os teus olhos perguntam. E se, feito pedra, te deixares arrastar para o fundo, como se, em vez de homem, eu fosse âncora? Os teus olhos perguntam. Apetece-me silenciar o teu temor. E dizer que ouças. Não a mim. À voz.

Uma voz mais antiga do que a do oceano. Uma voz mais áspera do que a terra arenosa das cidades desérticas. Uma voz mais etérea do que a do Vento do Norte.

Apetece-me pedir-te que a ouças. E acrescentar, num sopro: sempre que ela vier…

É um inesperado que vem com os sentidos que compõe a palavra amor sem letras. E que diz, sem voz: Eu sou a pegada que ninguém fez na lua. E a lua sou eu. Eu sou a onda que ninguém cortou no oceano. E o oceano sou eu. Eu sou a fronteira que ninguém cruzou a Norte. E o Norte sou eu. Não tenhas medo da água. Não tenhas medo do futuro. Há uma voz mais antiga do que o medo. E a voz sou eu.

A voz entrou. Não sei por onde. Não sei qual foi a ferida que me esqueci de cobrir com cimento. A voz entrou. Dizendo. Vem.

Sempre que ela vier, eu vou segui-la.

Por favor, não tenhas medo.

Vem comigo.






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terça-feira, 22 de outubro de 2019

Muro


Fotografia de Rui Guerreiro


Se o meu muro embater no teu. Será que algum quebra? Ou seremos apenas dois muros encostados? Impenetráveis. Frios. A tentar sentir, no frio que temos para dar, que ainda há, efetivamente, algo para dar em nós?

Encosto o frio de mim ao frio de ti. E sei que sou muro. E sei que és muro. Então, sinto os lábios dizer palavras que não planeei, à medida que faço de todo o “eu” um cavalo de Tróia, alado e destrutivo. Para perguntar. E se fosses muro? E se eu fosse muro? E se deixássemos o mundo lá fora e fossemos muro juntos?

Talvez, se uníssemos os nossos muros, conseguíssemos elevar-nos. Ter uma posição estratégica que nos permitisse ver mais longe, sobre as cabeças vazias do mundo. Ou, pelo menos, evitar que estas escalassem por nós, arrancando bocados de pele e sonho. E se fosses muro? E se eu fosse muro? E se nas nossas paredes impenetráveis houvesse frases de esperança?

Mas não nos basta, pois não? Ser muro. Porque os homens derrubam muros. E o tempo os degrada. E nenhum de nós quer largar a estrutura sólida das certezas. E nenhum de nós está preparado para se libertar das linhas constrangidas do controlo. Então, além de muro, trazemos ainda a frieza inflexível de ser fumo que ninguém agarra. Uma espécie de muro fantasma, feito de muitas linhas de acidez e veneno. Implorando distância. Porque a proximidade atormenta. Magoa. Mata. Aos poucos, numa tortura lenta de não se compreender como é que tanta gente pode ser tão pouco.

Encosto o frio de mim ao frio de ti. E sei que sou muro. E sei que és muro. E sei que sou fumo. E sei que és fumo. E sei que somos veneno ácido. Talvez imunes à morte, embora ela se sinta a queimar nos intervalos de corpo que se tocam, quando muros embatem e não quebram. Sinto-me mole por dentro, debaixo do aço da pele. Assusta. Mas não assusta porque sejas muro e eu seja muro; ou porque haja veneno e gelo dentro dos olhos que reviram perante a néscia sanidade dos outros. Assusta porque me perco. E porque perco o controlo ao perder-me. E porque as palavras grafitadas no meu frio se remexem. Fazem “rumo” do “muro” e abrem rachas pequeninas, por onde deixam espreitar a minha fragilidade. E fico com medo que, ao vê-las - essas fragilidades que são feitas de sentidos - te assustes tanto como eu.

Eu sou muro. Frio. Tenho mil mortes a fazer de cimento entre o titânio e a rocha e o gadolínio. A morte é mais forte do que as pedras e os metais. Mas as fragilidades são sentimento. Mais fortes do que a morte. E infinitamente eternos, quando a erupção principia nas pequenas fendas do doce desassossego que me causas.

Somos muro. Precisamos de aceitar. Somos o pior tipo de muro. Porque queremos desesperadamente que alguém entre e não deixamos entrar ninguém. Porque sabemos que o somos e não nos importamos. Porque deixamos sempre a felicidade à porta, lado a lado com todas as coisas inúteis.

No fim do dia. No fim da vida. Somos os culpados de não ceder ao potencial do mundo. Os vilões da história que ninguém conseguiu ler. E dois muros na beira do precipício de uma qualquer falha tectónica da mente inquieta.

Eu sou muro. Tu és muro. O mundo não entende, nem fazemos questão que entenda. Encosta-te a mim, nesse abraço frio de fumo. E se deixássemos o mundo lá fora?





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terça-feira, 15 de outubro de 2019

Menina da vida


Fotografia de Analua Zoé 


Eu ainda não morri. Mas todos os dias da vida me dei à morte. Peito às balas do que viesse. Incapaz de ser pouco. Excedendo os limites do aceitável. Dona de mim. E amante da morte. Essa que eu não temo.

Se a morte me diz que espere, eu espero. E, enquanto espero, eu tenho pouca paciência para estar quieta. Sossegada. Passiva. A olhar para paredes ou para ecrãs onde alguém finge que vive a vida por mim.

Eu sou demasiado. Uma mão completamente cheia de coisas onde cabem mais coisas. Tão excessiva que enjoo, como o açúcar no chocolate quente. E costumo pensar que é justamente a minha paixão pela morte que me faz assim. Excesso. Porque quando a morte vem, eu sinto que ela podia vir e ficar. Mas ela está só de passagem. Passa para beber da minha euforia histérica e do meu desalento penoso. E diz-me. Quase sempre. Vim só buscar a emoção que não tenho.

Ela não se importa muito que eu esteja a chorar. Ou que eu esteja a rir. Ou que eu esteja a partilhar beijos intensos. Ou que eu esteja a reclamar sobre como nunca mais vou amar. Ela quer passar pelo meu quarto para me ver. Porque eu sinto e ela não consegue.

Às vezes peço-lhe que me leve com ela. Desesperadamente. Já andei de joelhos no chão, agarrada ao manto negro que ela deixa ondear. Por favor. Por favor. Leva-me contigo. Eu sou uma menina da morte.

Mas ela não acha que eu seja uma menina da morte, embora sorria sempre (ou eu imagine que sim) sob o seu capuz. Ela diz o contrário. Diz que eu sou uma menina da vida.

Eu ainda não morri. Do amor, quase caótico, que tenho pela morte, eu retiro tantos sentimentos, sentidos e formas de estar viva que se torna difícil gerir o bater cardíaco que me lança sangue nas veias, enchendo-o e despindo-o de oxigénio na passagem. A morte diz que gosta de mim porque eu sei sufocar exatamente na mesma medida que sei inalar o ar do topo das montanhas. E, quantas vezes, no canto mais extremo dos extremos desses penhascos onde respiro, eu me imaginei a libertar o último sopro, num salto para os braços dela...

Mas ela diz: tu não és uma menina da morte. Tu és uma menina da vida.

E eu detesto que a morte me veja assim, como se eu pertencesse à irmã dela. E explico-lhe: da vida, eu só tenho a ironia. De ti, tenho a honestidade.

Ela discorda. Diz que, da vida, eu tenho a intensidade. Diz que todos os excessos que vê em mim são o acumular de sedimentos do pó das sensações que faltam aos outros. E que eu sou o choro compulsivo e o riso desnorteado e a capacidade de sentir o coração descompassado e quase a sair pela garganta quando um dedo indicador se encosta a outro sobre a mesa de café.

Eu ainda não morri. Mas insisto com ela que não sou uma menina da vida. Ela passa-me a mão ossuda no rosto que sente. E deixa a promessa. Ainda não! Mas, um dia, quando fores uma menina da morte, eu vou apresentar-te assim: ela é uma menina da morte que, por ter sido menina da vida, amou de paixão e morreu de amor em todos os dias nos quais esteve viva.






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terça-feira, 8 de outubro de 2019

Pedidos finais




Eu, que não faço muito além de escrever, não queria escrever-te. Não queria, primeiro que tudo, porque é difícil e desajustado. E, no fim, porque serve de pouco ou nada. Não queria. E adiei-o. Fui adiando.

Mas, peço que me perdoes: precisei de escrever-te. Para me devolver a mim. Para que te devolvas a ti. E para que não haja um nós para devolver ao mundo.


Escrevo para pedir que me devolvas os meus sonhos.

Por um lado, é um sentimento egoísta. Porque me sinto, agora, capaz de realizá-los. Sem a tua sombra a peneirar o meu sol. Mas é também por ti, porque me parece que, para cumprires os meus – e eu bem sei que eles são bons no ornamento fotográfico da vida – parece-me que estás a rumar a paragens que não te são destino e que estás a esquecer-te de viver aqueles que tinhas antes de mim.


Gostava que, com eles, me devolvesses o meu coração.

Bem sei que te disse que o guardasses. Disse-o porque achei que, se o tivesse, ia mutilá-lo. Mas descobri, entretanto, que usas nele facas de cerâmica, rasgando-o de desapego e com mentiras. E prefiro que ele morra esfaqueado pelas minhas próprias mãos, com as minhas facas de serrilha, feitas de carinho e de todas as minhas verdades.

Para evitarmos o constrangimento de novos encontros, onde finjas que, entre nós, há traço de palavra ou carinho e nos quais me veja ruína de monstro, bombardeada por todas as mentiras inocentes que não quero ouvir mais, gostava que aproveitasses para me trazer as palavras que te dei. Faltam-me no dicionário e a sua falta incomoda. É muito difícil ir à procura de um “foda-se” e não passar primeiro por palavras como “amizade”, “amor”, “companheirismo”, “eternidade” ou “felicidade”. Se puderes, traz-mas. Essas palavras. Fechadas numa caixa com buraquinhos para que possam respirar mas não as usemos.

Não vou roubar-te muito tempo. Não te preocupes. É só o tempo de trocar dois beijos largos no rosto meio desencontrado. Sentir queimar onde ardia. Dizer “olá, como estás?”. Mentir. Ouvir a mentira reciprocada. Trocar as tuas coisas pelas minhas e dizer que devíamos ver-nos mais vezes, falar mais ou marcar um café que ambos sabemos que nunca terá lugar.

Escrevo-te. Para pedir que me tragas os sonhos, o coração e as palavras.

Vou aproveitar para te levar as tuas promessas. Estão quebradas, eu sei. Mas talvez ainda as consigas usar para ornamentar alguma prateleira ou vender para peças.

Eu sei… também devia levar as memórias… porque são tuas. Mas, se não te importares, vou guardar as memórias comigo. Sabes? Muitas delas são desoladoramente tristes. Podem trazer-te mágoa. E essa é a única razão pela qual prefiro que continues sem elas. É que, apesar de tudo, nunca deixei de amar ninguém que tenha amado. E não quero fazer-te chorar.






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terça-feira, 1 de outubro de 2019

O homem que lia romances policiais




Havia um romance policial pousado ao lado do cinzeiro. E cinza no cinzeiro. E uma mão que segurava um cigarro despreocupado, com os mesmos dedos que virariam as páginas do romance, em busca da resolução de um crime, depois de humedecidos na ponta da língua. E a vida era pacata. Fumo sem fogo, poderia dizer-se.

Ele era um homem de postura firme e sorriso amável. Que gostava de romances policiais. E de cigarros. E dos netos. Não na mesma medida. Na ordem inversa. Mais dos netos. Depois dos cigarros. Depois dos romances policiais. E apenas para quem sabe a forma como ele sorvia os cigarros, em contínuo e sem ligar aos excessos, pode um dia compreender a totalidade louca do amor que ele dava às criaturas que a filha tinha trazido ao mundo.

Não era um homem como os homens são. Era um avô. Como os avôs devem ser. Daqueles que, passo a passo, nos ensinam a ser gente. Daqueles que sabem sempre resolver os problemas. Mesmo quando os problemas são mundanos, mecânicos ou de saúde…

Recordo. Todos os problemas, para ele, facilmente se solucionavam. Ele acreditava nisso. Na solução que tomava forma em uma de duas maneiras: ou com arames ou com álcool etílico.

O carro não funciona? Usa arames!
A cadeira partiu? Enrola arames!
A persiana não funciona? Tenta arames!
A minha avó reclama? Ir aos arames.

O mesmo se diria da saúde.

Uma ferida? Álcool etílico em cima.
Dores de cabeça? Álcool etílico nas têmporas.
Dores de garganta? Álcool etílico na região externa ou, em casos extremos, diretamente nas amígdalas.

Não pode exatamente dizer-se, do homem que lia romances policiais, que fosse mestre de mecânica ou profissional de saúde. Mas o facto é que as pessoas se habituavam a não adoecer (ou a fingir que não adoeciam) e que até os objetos tinham medo de avariar ao pé dele.

Então, no dia em que o cinzeiro ficou sem cinza e o livro ficou pousado e triste, sem que ninguém o lesse, eu achei que a minha mágoa talvez pudesse, aos poucos, resolver-se também com os ensinamentos desse homem que me ensinara a ser gente.

Os anos passam. Com o cinzeiro sempre vazio. Com o romance policial eternamente parado na mesma parte da história. Aquela em que a falta de desfecho é, em si, a mais perpétua das conclusões.

Os anos passam. Não consigo remendar o coração com arames. Nem sarar a alma com álcool etílico. Nem tão pouco prender as memórias com arames. E matar a saudade com álcool etílico.

Consigo sentar-me em frente à mesa e pegar no livro. Folheá-lo sem o ler. E ouvir a tua voz. Sentir o teu olhar. E o aroma do cigarro. E ouvir a minha voz: “Eu quero ser escritora”. E a tua, outra vez. “Então, escreve.”

E o livro pousado sobre a mesa. E o cinzeiro com cinza. E eu, criança novamente. Inconsciente do dia em que quereria as tuas soluções milagrosas para as curas de todos os males.

Talvez a escrita seja o meu arame e o meu álcool etílico.

Então, escrevo.

Hoje escrevo para o homem que lia romances policiais. E que acreditava que tudo tem solução. Tudo. Tudo tem solução. Se não for arame; é álcool etílico.






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