terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Aquela pessoa


Estamos todos à procura daquela pessoa. Aquela pessoa que está e que, em não estando, permanece, como se a presença não fosse o destino mas a estrada. Estamos todos à procura daquela pessoa. Aquela pessoa que nos deseja secretamente o melhor e que discute com os ventos desfavoráveis, como se um grito, uma voz, uma certeza, pudesse mudar o curso das Estações.
Estamos todos à procura daquela pessoa. Aquela pessoa que nos faz rir, que nos deixa chorar, que sabe ver a mágoa atrás de um sorriso e a irritação atrás do rosto inexpressivo. Estamos todos à procura daquela pessoa. Aquela pessoa que não se importa de ouvir a mesma história vez após vez, que nos abana quando precisamos de ser chamados à razão e julgamos precisar de um afago. Aquela pessoa que sabe que a nossa alma não é sempre pura e que a nossa perfeição rachou, caiu e se perdeu nas valetas da vida.
Estamos todos à procura daquela pessoa. E estamos todos à procura na cegueira de não ver que ela já existe. Existe nas amizades de facto. Aquelas que surgem, talvez do nada, e constroem as barreiras de uma muralha que não havia em nós. Não há amor maior do que a amizade. Não há nada mais forte do que a amizade que resiste ao fim de um amor.
E "aquela pessoa" pode nem ser uma pessoa só. "Aquela pessoa" é quem sabe, quem sente, quem segue e quem pode dizer com toda a certeza que, independentemente de tudo, está ali.
Aquela pessoa é muitas vezes plural. São os anjos, são os irmãos, são os tigres e os ventos. Aquela pessoa é a amizade personificada pelos actos e as palavras e os sentidos. Aquela pessoa é a amizade em forma de mensagens, ralhetes ou conselhos. Aquela pessoa é a amizade construída na certeza de que, mesmo se tudo piorar amanhã, ainda não estaremos sós.Estamos todos à procura daquela pessoa. Aquela pessoa que entende que o amor é muito maior do que um romance a dois. Aquela pessoa que sabe que o coração humano nasceu para ser repartido e se oferecer, migalha a migalha, aos que farão para sempre parte de nós. Aquela pessoa que nos olha e sabe que estará sempre lá para nós porque, de alguma maneira, por algum motivo, para ela também somos "aquela pessoa".

Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Despida



Despi o meu quarto das recordações de ti e as minhas mãos da esperança infantil de que podiam voltar a ser agarradas pelas tuas. Despi as paredes de fotografias e as caixas de cartas de amor. Despi o corpo de desejos e selei os lábios para os despir de palavras.
Despi o chão de caminhos e os pés de regressos. Despi a alma de esperança e a vida de sentidos.
Despi a fé de esperança, despi o ar de sentido e até o céu de estrelas para não poder pedir desejos.
Despi-me de bondade e de pureza. Procurei a raiva. Despi a angústia de vergonha e o ódio de medos.
Fiz tudo isto na esperança de poder avançar, de poder roubar aos olhos o desejo de olhar para trás para te procurarem. Mas ninguém pode despir o coração de amor. Ninguém pode arrancá-lo do peito  e arrancar-lhe o único motivo para bater.
Então, para não arrancar a vida ao meu corpo, aceitei amar-te na distância, na saudade e o no silêncio. Eis a vida que levo. Uma vida deserta, despida de quase tudo, onde os olhares estão fixos no passado e a dor se mantém presente. Uma vida nua e fria, despida de esperanças para o futuro.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Ansiedade


É um tremor no corpo. Que se estende, fluído e demorado, em cada poro. Faz bater mais forte o coração mas não o move. E não o condena. Não é como o amor. É um deserto de coisas por sentir que se estende dentro da ilusão da plenitude. A vontade permanente do que vem a seguir à última página de nós.

Querer saber. É um querer saber que não quer saber de nada, nem mesmo de si. E que provém da mais breve migalha de história. Ninguém sabe a história. E ninguém sabe porque é que existe esta vontade de saber o que fica nas entrelinhas entre o tudo-quantificável e o nada-inimaginável que nos tende a vida.

É uma ilusão. Mas tudo é uma ilusão, contando que se tenha no olhar ainda um pouco da criança que se foi. E essa ilusão vem, tardia e descontente, iluminar as trevas do pensamento que cresceu e se fez homem.

Não é infelicidade, mas não é feliz. Não é desespero, mas não é calmo. É um tremor no corpo que continua. Não passa. Não esmorece. E magoa o espírito que trazemos dentro. Magoa o coração. Esse que nos põe nas mãos, na boca, na barriga. Há batimentos compassados em todo o lado. Como pequenos relógios a tiquetaquear pelas veias, na esperança (certamente infundada) de haver uma hipótese em mil e de a termos agarrado.

É inesperado. E não tem nem um laivo se subtileza. Ataca sob o sol. Debaixo da luz. À frente de quem quer que seja. Quer ser tudo o que não é. E, talvez por isso, vive numa constante vontade de deixar o presente e saltar para o futuro. Mas o futuro faz-se sempre presente. E é sempre de olhos no horizonte, nessa busca pelo impossível, que ela se torna amarga.

É um tremor no corpo. Trespassa a pele. Vem sem avisar. E acelera o mono existencial que trazemos no peito, como quem traz promessas inaudíveis. Não. Não é o amor. Não poderia, jamais, ser o amor, embora venha muitas vezes à sua conta, preencher os espaços em branco das demoras. Tem muitos nomes, a idade do pensamento e redime-se todos os dias no choro da imortalidade.

Não importa por que motivo vem. Acaba sempre por vir cumprimentar as gentes. Não se importa com a idade, o género, a posição social. É cega e dá-se a qualquer um, nas avenidas onde se vendem afectos ao preço do ar. E enquanto agita as almas descontentes, numa busca feita de devaneios, caminha, passo a passo, rumo ao abismo.

Hoje, escolheu-me a mim. Dou-lhe a mão e vou com ela. Vou. Vou sem saber se avanço na direcção do sonho ou do abismo. Vou. Vou e descubro.

Caímos juntas. Eu e a ansiedade. Havemos de cair tantas vezes que, um dia, talvez ela se erga sozinha, deixando-me no chão das desilusões. Mas não hoje. Hoje, levanto-me com ela. Tenho mais uma cicatriz. Mas está tudo bem. Sorrimos uma à outra. Ambas sabemos: cair não é mais do que voar por uns segundos.


Marina Ferraz

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Segundo acto


A luz do palco apagou-se. Com ela, deixo apagar o sorriso. Faço uma vénia à solidão. Começa o segundo acto desta peça chamada vida. Aquele que decorre sobre as tábuas esfarpadas do chão da realidade, onde caminho, de pés descalços, sem outro texto que não o do pensamento. A luz do palco apagou-se. E o sorriso, tal como a roupa, tal como os ornamentos, não era meu para trazer para casa. Deixei-o lá, pendurado no cabide, juntamente com a ilusão.
A luz do palco apagou-se e estou cansado.
Ainda ouço os aplausos. Os risos. Gargalhadas. E a sombra do desassossego, esquecida no camarote, juntamente com as mágoas e as desilusões. Naquela casa de três paredes, conto muitas vezes a história de quem nunca fui. E sou-o. Sou-o nos olhos das multidões contentes que riem e aplaudem e incentivam.
Sou uma marioneta. Os meus fios puxados pela ilusão sadia de que, um dia, as luzes do palco vão apagar-se e o sorriso não vai. Mas, todos os dias, quando se apagam os holofotes, deixo no palco a pele e o sorriso e o calor da vida. E preparo a alma para encarar o frio das ruas onde a morte espreita e o sangue gela.
A luz do palco apagou-se. Com ela, deixo apagar o sorriso. Fecho-me em mim. Custa ser eu. Não sei ser outra coisa. E arrasto os pés, pelos caminhos cinzentos da rua suja, cumprimentando o vento e as estrelas. Tenho lágrimas dentro da alma. E quero deixá-las verter. Mas fica-me o desconforto do choro. Fica-me o desconforto de não ter, sequer, por ou para quem chorar.
A luz do palco apagou-se. Apago o sorriso. Fecho-me em mim. E estou cansado. Avançando pela rua onde não há nada, compreendo que, entre o palco dos sorrisos e o choro calado da alma, não há mais do que ruas desertas onde fico sem mim, esperando que amanheça.
Vou só deitar-me um pouco. Estou tão cansado. Vou só deitar-me por uns minutos. Ouvir o silêncio. O grito insensato do silêncio. Vou só deitar-me um pouco. Aqui mesmo, no centro da rua. No centro da linha. No centro da eternidade vazia de mim.
E sinto. O tremor. A promessa. A promessa insensata de que, no final de todas as coisas, virá a recompensa. Talvez a recompensa seja o sorriso. Talvez seja o choro. Não importa. Não quero saber. Quero só deitar-me um pouco. Estou tão cansado. Tão cansado da vida. Tão cansado de mim.
O tremor. A promessa. O som. Acabou o segundo acto desta peça chamada vida. A luz do palco apagou-se.  Deixo acender o sorriso. Tenho lágrimas nos olhos. E nunca mais estarei triste.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Quinze anos


Havemos de vir aqui, daqui a quinze anos. Chorava. Havemos de olhar sobre esta cidade. De a deixar ser cidade sob a luz tremeluzente das ruas. Sob o negrume infinito dos céus. Chorava. Daqui a quinze anos, havemos de vir aqui.
Em que ano foi?
Ela tinha aquele jeito de sorriso na alma. E dor. Tanta dor. Chorava. Palavras tropeçando noutras palavras. Copo cheio. Meio vazio. Totalmente vazio entre as mãos. Havemos de vir aqui outra vez. Daqui a quinze anos. Vamos rir-nos disto.
O que lembro melhor nela é o sorriso. Um sorriso dançado. Nos lábios. No olhar. No rosto cheio de certezas. Ela tinha a força de um exército. A alma tinha vestido a armadura. Mas era suave e tinha um aroma doce, a baunilha ou morango ou afeição. O que fosse. Era uma dualidade infinita de coisas completas. Olhando para ela eu sabia. Sabia que ela era mais do que quase toda a gente e que podia ser tanto quanto quisesse.
Não naquela noite. Naquela noite era vulnerável. Havemos de vir aqui, daqui a quinze anos. Não te esqueças da data. Lágrimas e palavras soltas. Uma varanda sobre a cidade. Um frio que entrava nos ossos. Havemos de vir aqui, daqui a quinze anos.
Falou. Falou de coisas que eu não sabia. Falou do amor dado em corpos despidos. Da ferida aberta, a criar cicatrizes no coração que quer adormecer. Chorava. E ia dizendo, sob um céu negro e feito em smog: Havemos de voltar. Daqui a quinze anos.
Ela era tão bonita que era difícil não olhar para ela. Tão confiante que se tornava impossível não desejar ter um pouquinho do brilho que emanava do sorriso. Naquela noite, das lágrimas. A dor. Tanta dor. Porquê?
A história. Lembro-me da história. O soalho de madeira. Lembro. Lembro com saudade. Havemos de voltar, daqui a quinze anos. Amor. O sentimento espelhado, a escorrer no rosto que geralmente sorria. E a frase, sempre presente. Havemos de voltar. Quando?
Havemos de voltar daqui a quinze anos. Foi ditada a sentença que nunca se cumpriria. Mas relembro. Relembro as lágrimas caindo no rosto triste. Daqui a quinze anos. E, em pensamento, nesta varanda sobre a cidade adormecida, é com ela que eu estou. Lembro. Relembro-lhe as lágrimas. Mas principalmente os sorrisos. E a forma como gostava de partilhar as minhas próprias lágrimas e sorrisos com ela. Daqui a quinze anos, havemos de voltar.
Saudade. É isso que guardo, olhando a cidade que dorme. Saudade. Uma varanda sobre a cidade iluminada na luz intermitente da rua. Saudade. Daqui a quinze anos, havemos de voltar.
Não vamos voltar. Não agora. Não daqui a quinze anos. Mas lembro o sorriso. Sorrio. Daqui a quinze anos talvez eu seja uma figura solitária no topo da cidade. Daqui a quinze anos talvez aguarde, sozinha, no topo dessa memória. No topo do esquecimento. No topo do que fica pelos trilhos imprevisíveis da vida. Sim... a vida é mesmo assim. Mas tenho saudades.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Amor prostituído


As pessoas têm medo de falar de sexo. Fazem dele tabu. Dizem que não andam por aí, a dar-se e a vender-se nas esquinas. Condenam quem o faz. Riem de quem não tem pudor. E caminham pelas ruas de rosto erguido, alegando a pureza incansável do corpo imaculado que só se dá num silêncio censurado, de janela fechada e estores batidos. Mas que ama? Toda a gente diz que ama sem pudor, ame ou não. O vocábulo amor esvaziou-se de sentido e tornou-se palavra de uso. No meu tempo, é assim. As pessoas envergonham-se da partilha do corpo e escondem-na, enquanto a palavra amor se prostitui livremente nos recantos das conversas.
A palavra amor prostitui-se. Anda por aí nas ruas, nas esquinas. Entra em qualquer casa, de qualquer maneira, sem fazer caso de nada. Entranha-se nas promessas falsas, na vontade de uma companhia fácil, no desejo de luta contra a solidão. E não precisa de muito para se dar. Dá-se em troco de muito pouco. Em troca de quase nada. A palavra amor prostitui-se, neste tempo recatado, onde se julga de fácil qualquer pessoa que não tema o assumir do desejo.
Hoje em dia diz-se "amo-te" com a mesma facilidade com a qual se pede um copo de água. A palavra espalha-se, na voz de crianças que não têm idade para falar de amor, de adolescentes que não têm vontade de esperar, de adultos que não têm tempo para amar. E prostitui-se, assim, de uma forma simples e ligeira. A palavra amor é fácil, compra-se, vende-se, oferece-se. Prostitui-se. E ninguém lhe paga o suficiente.
Se, em tempos, poetas insistiam em definir o amor das formas mais complexas, sem encontrar respostas que julgassem aceitáveis, a verdade é que, hoje, é bem mais simples. "Amo-te", no nosso século, equivale a quase tudo. Tem sinónimos plurais, diversos, vazios. Em casos extraordinários e muito raros, "amo-te" significa "amo-te".  Mas, normalmente, amo-te significa "apetece-me dormir contigo",  "dá-me um jeitinho sentimental", "estou farto de estar sozinho" ou "acho que gosto de ti". Mas não se usam os sinónimos. Claro que não. "Amo-te" soa sempre bem. Soa sempre melhor do que as expressões unívocas.
É de amor que se deve falar, mesmo se o amor for luxurioso. Porque falar de sexo fica mal, não é próprio de uma menina, não é politicamente correto. E soma-se às incorrecções o desejo, o prazer, o estímulo. Fala-se de amor. Mesmo quando o amor é só carne e, sendo assim, não é amor. Mas fala-se de amor. Porque o amor (essa mentira que raras vezes se torna verdade) não causa transtorno a quem ouve nem embaraço a quem diz.
As pessoas envergonham-se de falar da partilha do corpo. Mesmo quando a fazem e a sentem e a querem. Mas falam abertamente de amor, quando, tantas, tantas vezes, ele não passa de uma mentira elaborada. No meu mundo, a verdade importa menos do que a convenção. E a palavra amor prostitui-se por aí. Torna-se obscena, ridícula e descabida. Perde-se-lhe o sentido nas esquinas do engano. Mas não faz mal. De amor, pode-se falar... pode-se falar de amor, mesmo se o amor for outra coisa, mesmo se o amor for a mentira inerente aos corpos que se perdem nos lençóis. De amor pode-se falar! Mas de sexo? De sexo não...

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Carta de um soldado



Eu tinha um amigo. O meu amigo tinha os olhos verdes. Inclinava a cabeça para a direita quando se ria. Falava sempre de forma mais cortês e mais formal com aqueles de quem não gostava. Usava a ironia com frequência mas nunca como arma de arremesso. Usava-a em tom de brincadeira, qual insinuação tola de criança grande. E fazia sorrir toda a gente com quem se cruzava.
Eu tinha um amigo.

Eu tinha um amigo. O meu amigo tinha casado com uma mulher ruiva, franzina, cheia de sardas acastanhadas junto ao nariz. Todas as noites, junto à fogueira, tirava a fotografia dela do bolso e dizia: "Eis a mulher mais bonita do mundo". Nunca a achei particularmente bonita mas, noite após noite, olhando a fotografia, iluminada pelo fogo, aprendi que a beleza era apenas um dos nomes da paixão. "É por ela que ainda vou voltar vivo para casa", dizia-me. E eu anuía.
Eu tinha um amigo.

Eu tinha um amigo. O meu amigo tinha uma fé mas nunca, nem por uma vez, o ouvi confessar o credo num tom de intolerância. Pouco falava de Deus. Era um homem, entre homens, na luta constante por ser um homem melhor. Dos céus, retirara a lição fundamental: o amor. E, desse amor, fizera crença. Dava-o a toda a gente. Mesmo àqueles que tomávamos por inimigos. Não odiava ninguém. Os nossos colegas diziam: "Estás no sitio errado". Eu nunca lho disse. Mas concordava. Podia ter-lhe dito: "Estás no mundo errado".
Eu tinha um amigo.

Eu tinha um amigo. Um dia abriram fogo sobre o nosso campo. "Os outros". Era esse o nome que lhes davam. Tinham outra nacionalidade. Outra cor. Outra religião. Mas, à medida que se aproximavam, com armas nas mãos, eles não me pareciam "outros". Eram iguais a nós. Também tinham duas pernas, dois braços, dois olhos. E, nas mãos, como nós, tinham armas. Desde quando é que as armas eram uma parte de nós? Desde quando é que nós também eramos "os outros"? Questionei a violência. Bloqueei o instinto que me pedia para sobreviver. Baixei a arma. Dei o peito às balas.
Mas eu tinha um amigo.

Eu tinha um amigo. O meu amigo protegeu-me com o próprio corpo. Quando caiu, tinha os olhos verdes abertos e sangue nos lábios. Numa mão, agarrava a fotografia da mulher mais bonita do mundo. Na outra, segurava a arma que nunca disparou. Não voltou para casa. E vieram palavras cruas, cheias de ódio. "Os outros, os outros". Mas a culpa não foi d' "os outros". A culpa foi de quem julga que podem travar-se guerras de poder sob o disfarce da diferença. Nós também somos "os outros". Somos todos "os outros". E não há "outros". Não somos uma nacionalidade. Não somos uma crença. Não somos um tom de pele. Somos humanos. Somos homens. Eramos homens, até nos fazermos monstros, atrás de armas de fogo.

Eu tinha um amigo. Chamam-lhe herói. Não era um herói. Era um homem bom e forte. Completo e cheio de vida. Diz-se por aí que, na guerra, caem primeiro os mais fracos. Eu discordo. Os primeiros a tombar são os justos, os bons, aqueles que faziam do mundo um lugar melhor.
Eu tinha um amigo.

Hoje tenho memórias. Palavras por dizer. Saudades.

Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet


Música e Letra de Helder Godinho
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terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Jogo de Sorte


Era um jogo de sorte, aquele em que apostei o coração. Pousei-o. Arrastei-o, com as mãos firmes, para o centro da mesa. Levantei o olhar e encarei  todos os outros. Apostei o coração num jogo de sorte. Com ele, sem saber, apostava a vida inteira, com todos os seus anteontens e todos os seus amanhãs. Mas estava tão certa de mim, tão certa da sorte, que o apostei sem o mais leve temor. Apostei-o com a leveza de uma manhã de Verão. E sorri. Sorri, enquanto apostava o coração, abandonando-o, assim, no centro de uma mesa, ao alcance de qualquer pessoa.

O meu sorriso, despropositado e demente, foi encarado com perplexidade. Quem apostaria o coração num jogo de sorte? Quem poderia estar tão certo, a ponto de colocar no centro das apostas, a única coisa que se podia esperar que sobrasse, nos fins dos dias em que tudo se perde ou ganha, por entre escolhas inconsequentes.

Era um jogo de sorte, aquele em que apostei o coração. Podia ganhar ou perder. Com a mesma facilidade. Era um jogo de sorte. Daqueles em que se apostam os botões e as esmolas. Daqueles em que se aposta o anel de diamante e o segredo. Apostei o coração. Arrastei-o, qual bijuteria, para o centro da mesa. E ele batia calmamente, como se não fosse nada. Como se o centro da mesa não fosse um espaço mais indigno do que aquele que ocupava no meu peito. E foi a vê-lo bater assim, naquele quase-alivio de se ver longe de mim, que me perguntei. E se o perder?

Não se perdem corações em jogos de sorte. Nem mesmo quando se perde. O que se arruína nas mesas das apostas não são os corações arrastados para o centro das mesas. Mas perde-se a vida. Perdi a minha. Foi preciso perdê-la para compreender. Apostei o coração. Mas não era um jogo de sorte. Não havia sequer a mais breve nuance de sorte nesse tudo ou nada de loucura em que tinha apostado tanto. Era um jogo de azar.

Foi num jogo de azar que apostei o coração. Sob o olhar perplexo de quem não compreendia que não havia nada a perder. O coração. A vida. Olhavam para mim. Que coração? Que vida? Não olhariam para mim, com os olhos arregalados, se soubessem a resposta. Mas não sabiam. Apostei o coração nesse jogo de azar. E sorri.

Apostei o coração. Perdi tudo. Nunca se perde tudo num jogo de azar. Perde-se apenas o que se aposta. Mas eu perdi tudo, excepto o coração. Esse dei-o. Dei-o a quem não o queria. Dei-o a quem não o sabia cuidar. Não era um jogo de azar. Não era um jogo, sequer. Era azar, somente. O azar de ter, comigo, apenas o coração. O azar de o ter apostado. O azar de não poder arrancá-lo de mim para o arrastar para o centro da mesa.

Não perdi o coração. Guardei-o. Não havia forma de o perder. Fiquei com ele mas ele já não era meu. Foi assim que me perdi de mim. Foi assim que perdi a vida.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Dois segundos


Fechei os olhos por dois segundos. Foram só dois segundos, não foram? Fechei os olhos por dois segundos e a vida passou.
Quando abri os olhos, não estavas aqui. O telefone tocava insistentemente. Do outro lado, ninguém. Ficava o toque intermitente da desistência. A mesa tem seis lugares mas sento-me só. Sozinha com os fantasmas que, há dois segundos atrás, eram aqueles que juravam "para sempre".
Nesta mesa, recordo, fomos seis. E depois fechei os olhos por dois segundos. Fiquei só. Fora, só dois segundos, não foram?
Retorna-me o olhar, no espelho baço, um rosto velho e enrugado, emoldurado pelo branco dos fios gastos do cabelo. Seguram-me, algures, três senhoras o mais frágil entre eles. Mas não cortam ainda. Querem que veja, que saiba quão errado foi fechar os olhos por dois segundos.
Nas prateleiras há memórias emolduradas de uma vida que perdi. Fechei os olhos por dois segundos e perdi-a. Como? Nem eu sei...
Onde foste, amor? A tua roupa desapareceu das gavetas e o pó acumulou-se nelas, em seu lugar. Não há vestígio de ti, senão esse das molduras velhas com as quais implicavas tanto. Ainda bem que não te ouvi! Como poderia saber que foste real se não me ornamentasse o corredor esse teu rosto de anjo taciturno?
Fechei os olhos por dois segundos. O pêndulo do velho relógio está parado. Mas ouço ainda o seu tiquetaque na memória. Compassava-me o pensamento e era fácil pensar. O relógio parou e pensar magoa, cansa. Porquê? De novo, insistentemente, toca o velho telefone, sem que vivalma reaja ao "olá" seco e arrastado que sai de onde antes estava a minha voz. Foram só dois segundos. Fechei os olhos por dois segundos e perdi a voz.
Na mesa vazia, na cama vazia, na casa vazia, sinto a mente cheia de quem fechou os olhos por dois segundos e perdeu uma eternidade. E a velha do espelho, chorando, parece que ri de mim.
Cansei-me de deambular por entre a poeira e as memórias emolduradas. Cansa-me porque magoa. Aquela rapariga, que era eu, nunca a fui. Por entre o sorriso, não fui feliz. Mas não fui feliz porquê, se tinha tudo, incluindo a mesa cheia, a cama ocupada, a vida plena? Por entre o brilho, não fui jovem. Fui sempre anciã de anseios e idosa de sonhos. Mas pergunto à velha enrugada do espelho: porquê?
Fechei os olhos por dois segundos. Fechei-os porque o cansaço adensou, nos tempos em que nem cansaço deveria haver. É ridículo gastar tempo de mesa cheia. Sento-me hoje só, com fantasmas e memórias. O telefone toca. O relógio já não dá as badaladas. Nenhum tiquetaque. É assustador o grito constante do silêncio que fica quando o telefone emudece.
Fechei os olhos por dois segundos. Foram só dois segundos, não foram? Fechei os olhos por dois segundos e a vida passou. Deixou-me as rugas no rosto, as memórias emolduradas e uma mesa de seis lugares, onde me sento só, desejando o dia em que nela já não se sente ninguém.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

A festa do Sol


Antes do Natal, havia o Sol. O Sol que brilhava no céu do Inverno, fazia promessa em Dezembro: dias mais quentes virão. E vinham. Para todos. Antes do Natal, havia o Sol.
Com o tempo, o Natal mudou. Mudou de centro, mudou de ideias, mudou de religião. Em tempos, era feito em honra de um menino. O menino cresceu. Vestiu encarnado. Usa barbas brancas. Em tempos, era um tempo de entrega e partilha. Entrega e partilha de emoções, de momentos, de histórias. Com o tempo, passou a ser um tempo de dar e receber. E mudou o que se dá e recebe. Hoje, vem dentro de caixas com lacinhos. Em tempos, honrava o Sol. A vida. Depois a vida de um Deus. Depois o Deus do dinheiro, que se acorrenta ao senhor de barbas brancas. Mas antes, antes do Natal, antes dos presentes, antes do consumismo, antes dos sentidos se darem e venderem e embrulharem com papel colorido e fitinhas luzentes, havia o Sol.
Vem com o Inverno, o Natal. Esse que dizem que é um tempo de alegria. Nas ruas, eu vejo pessoas apressadas, iluminações coloridas, montras recheadas e mendigos a pedir esmola. Vejo pessoas a comprar doces, a comprar brinquedos, a comprar livros e joias e consolas caras. E vejo meninos a tirar comida do lixo. E, enquanto uns vibram na alegria do Natal, junto a lareiras acesas, entre risos e gargalhadas, outros deitam-se nas caixas que sobraram sob o seu tecto de estrelas. E, pelas ruas, o som do silêncio, entrecortado pelo eco inexistente da partilha que só se dá àqueles que, de alguma forma, têm Natais todos os dias.
Lá fora, neve ou chova, há quem não tenha mesas cheias, famílias felizes, agasalhos. Seja Natal ou não, há quem se afogue nos prantos de uma vida onde a regalia ficou vedada, vendo passar as elites da má sorte, que se queixam por quase tudo o que não é problema.
É Inverno. E, no Inverno, pesa mais a visão enregelante daqueles que não têm nada. Mas o Natal mudou. Não é o tempo da partilha. É o tempo da cegueira. Já não se faz no centro das ruas. Faz-se no centro comercial. Faz-se no fechar de olhos voluntário que se estende um pouco por todos nós. Porque ver magoa. E ninguém quer sofrer.
No Natal fala-se de magia. E eu também a vejo. É que, antes de haver Natal, havia o Sol. E o Sol não se dá mais a ninguém. Nasce para todos. Antes do Natal, havia o Sol. No meu cantinho quente e privilegiado, é o seu nascimento que eu celebro. E não tem nada a ver com religião, com moralismo, com lições de vida. Não tem sequer a ver com textos bonitos e poéticos. É só que, antes do Natal, havia o Sol. E, enquanto que o Natal não é para todos, o Sol ainda é. 

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet