terça-feira, 27 de outubro de 2015

Muitas coisas



Tu eras muitas coisas.  Mas não eras cruel. Fazias-me chorar. Odiavas-me o choro. Tentavas fazer-me rir. Nem sempre conseguias. Mas tentavas sempre. Nunca te encostaste na ombreira das coisas simples, pronto a desistir da minha felicidade. Meu amor, tu eras muitas coisas. Mas não eras cruel.

Tu eras muitas coisas. Eras, talvez, dono da honestidade mais crua que algum dia conheci. Dizias a verdade dura, a verdade inconveniente, a verdade que despertava o medo no centro dos corações puros e impuros. Dizias o que pensavas. Mas tentavas sempre que, ao dizê-lo, passassem pelas tuas palavras os traços brancos da verdade e não os seus espinhos. Meu amor, tu eras muitas coisas. Mas não eras cruel.

Tu eras muitas coisas. Em alguns dias, eras o herói que desafiava os ventos. Noutros, o monstro que tentava mudar-lhes a direcção. Vi-te bateres-te contra o destino. E ouvi-te despejar palavras indecorosas e obscenidades nessa eterna luta contra o imprevisto. Mas nunca, nem por uma vez, te vi fazê-lo a outra pessoa, como se culpasses os outros pelo que de pior te estava fadado. Meu amor, tu eras muitas coisas. Mas não eras cruel.

Tu eras muitas coisas. Vi-te cair. Vi-te levantar. Vi-te no teu melhor e no teu pior. Descobri, por entre os meandros de ti, lugares negados aos outros e repletos de inconformidades presentes. Das quedas, vi-te as cicatrizes. Descobri a profundidade delas num vislumbre tosco da tua alma. Soube sempre que a vida te tinha ferido de uma forma mais densa do que o sorriso do rosto deixa adivinhar. E julguei sempre que, num momento ou outro, a frieza do mundo se espelharia em ti. Mas não. Meu amor, tu eras muitas coisas. Mas não eras cruel.

Meu amor. Cansaste-te de ser muitas coisas. Quiseste ser apenas tu. Tu sem mim. Somente tu. Gritaste coisas sem nexo. Quebraste-me o chão. Foste. Eu fiquei. Fiquei no chão quebrado. Aos meus olhos pareceu-me que, a cada passo, distorcias uma imagem de ti. E questionei quem era este homem que me abandonava, na certeza de que ele não podia ser o mesmo que amei.

Continuo à procura de uma razão...  não te reduzo os passos ao egoísmo nem ao desapego. Não sei quem és. Sei quem eras. E eras muitas coisas... Mas, meu amor, não eras cruel.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Amo-te muito. Amo-me mais.



Amo-te muito. Amo-me mais.

São estas as palavras que falhamos em dizer. Temos medo. Medo da sociedade que diz que devemos olhar os nossos defeitos e odiá-los, numa busca constantemente insatisfeita pela perfeição. Medo de um deus que nos aponte o divino dedo para nos acusar de sermos egoístas e egocêntricos. Medo do olhar reprovador do espelho que, de uma forma sempre crítica, nos censura o desejo de amar o ser que ali se reflete.

Falhamos em dizer estas palavras: Amo-te muito. Amo-me mais. E talvez devêssemos dizê-las todos os dias. Pela manhã. No intervalo do café. Nos bocejos lentos do enfado quotidiano. Devíamos temperar as nossas refeições com sal, pimenta e estas palavras: Amo-te muito. Amo-me mais. E devíamos fazer ecoar, em cada passo, o som que elas fazem, à medida que deixam de ser só palavras e passam a ser premissas reais e cheias de sentido.

Amo-te muito. Amo-me mais.

Não é um arredondamento brusco do egotismo que permeia as ruas. É uma necessidade consciente de auto apreço que devia criar raízes claras e profundas dentro de nós. Devíamos deixar-nos saber que nos amamos. Que nos bastamos. Que estamos lá para nós próprios. Que, venha o que vier, somos a força motriz que nos mantém de pé, a rocha que nos segura, o fogo que nos aquece, a água que nos embala. Precisamos de saber: não estamos sós enquanto tivermos em nós e por nós um amor puro e completo. E é apenas depois deste amor, profundo e para dentro, que devíamos deixar-nos olhar além da fronteira do eu para amar alguém.

Amo-te muito. Amo-me mais.

Devíamos dizê-lo! Amo a tua presença, o teu carinho, os teus gestos, as tuas palavras, a forma como completas o que havia em branco nas linhas de mim. Amo. Amo-te as cores e as tonalidades. Amo-te o perfume, o riso, a companhia. Amo até a falta que me fazes. Devíamos dizê-lo e acrescentar: Mas amo-me mais a mim. Amo a minha força, a minha perseverança, a minha crença, a minha capacidade. Amo a minha rotina, os meus sóis, as minhas luas, os meus ciclos. Amo a minha resmunguice, o meu bom humor, a minha ternura, a minha raiva. Amo-me. E devíamos dizê-lo para sabermos que podemos aguentar, da vida, o melhor e o pior. 

Não há nada de errado em precisar dos outros. Vivemos na dependência constante. Mas não devíamos precisar de ninguém para sermos amados. Não devíamos precisar do amor dos outros. Devíamos querê-lo, recebê-lo, acarinhá-lo e saber o seu valor. Mas não devíamos fazer dele uma necessidade, como se fosse água ou ar ou alimento. Esse amor que é necessário à vida, devíamos tê-lo em nós. O amor que recebemos devia simplesmente complementá-lo. Só assim se pode andar lado a lado no amor, em vez de ir de arrasto, cravando unhas e dentes no medo de perder alguém. A lição é essa: amarmo-nos primeiro. A lição é esta: Amo-te muito. Amo-me mais.

Desconfio sempre de quem ama e não se ama. O que se dá aos outros é um fragmento do que trazemos connosco. Pedaços feitos da matéria que vem de dentro. E é por isso que acredito. Quem tem ódio, dá ódio. Quem tem negrume, dá negrume. Quem tem amor, dá amor. Não podemos dar o que não temos. E precisamos de ter amor para podermos dá-lo. 

É uma aprendizagem difícil mas necessária. É preciso dizer, seja a quem for: É em mim que cultivo o amor que te dou. Por isso, amo-te muito mas amo-me mais. E espero que me ames e te ames mais. Para podermos ir, lado a lado, como iguais, felizes e cheios de um amor que durará até que a vida nos seja tomada.

Está na hora! É um grito de libertação e uma forma de cuidar de nós e dos outros. É a expressão mais pura do amor. É a forma de garantir que a vida vale a pena. Começa e acaba assim:

Amo-te muito. Amo-me mais.


Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Poeira



"Somos poeira de estrelas." (Carl Sagan)

Poeira. Há apenas poeira no caminho. Memórias que se desintegram e vão no vento. Um passado desfiado, desfeito, reduzido a poeira.
O tempo. Andando sempre na mesma direcção. Fragmentado na sua plenitude. Incompreensível na sua linearidade. Parece que foi ontem. Parece que passaram mil anos. Respiro. Penso que morri. Será que morri? Poeira. Poeira lenta de ponteiros irrequietos. Poeira baça, tiquetaqueada, desajustada.
Fotografia. Sobre a mesa. Sob a camada densa de poeira que fica entre o olhar humedecido pela saudade e a incapacidade de estender a mão vazia. Os sorrisos. Poeira. Todos eles rasgados pelo adeus. E a fotografia. Poeira. Grão de poeira. Memória isolada de uma felicidade que não tem lugar.
O dia. Poeira. O nascer do sol por entre os buraquinhos ovais dos estores. Poeira. Cintilando como purpurina nos primeiros raios de sol. A minha insónia. O tempo. A fotografia. A luz do sol a rasgar-me a solidão acordada. Poeira.
Há apenas poeira. No chão, na cama, na mesa, na memória. No sono que não vem. No sonho que não vai. Poeira. Há apenas poeira.
Há perguntas sem resposta. Também elas são poeira. Ausências fugazes. Corações furtados na demora de tempos que não regressam. Instantes captados pela lente. Desfocados. Sorrisos empoeirados e vazios de sentido, abertos para dar a ideia de um mundo que nunca existiu fora da ilusão construída grão a grão. Com grãos de poeira.
Mentiras. Poeira. Atiram poeira para os olhos cegos. Tudo é ilusão. O tempo que passa. A memória que desvanece. O amor que cessou. A tua vida. A minha. Os sorrisos. O Universo. Poeira.
Fazemos todos parte de um tudo que não é nada. Não definimos o nada com medo das definições. Não concretizámos o tudo por mera incapacidade.
Poeira. Não há nada além de poeira no caminho que nos leva da vida à morte. E morrer é voltar para casa.
O tempo. O relógio. A fotografia. A memória. As perguntas. A mentira. A insónia que me faz ver a poeira esvoaçar no primeiro raio dourado do sol nascente.
Poeira. Há apenas poeira. Somos apenas poeira. Não significamos nada nos meandros da infinitude do Universo. Somos apenas poeira.
Não sou ninguém. Não és ninguém. Não somos nada. O tempo. A fotografia. A insónia. O coração que dói, macerado no peito. É apenas poeira. É tudo apenas poeira. Então, porque é que dói tanto?

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Sobre ela



Para a minha avó

Vou contar-vos sobre ela. Talvez não acreditem nos traços com os quais pinto a imagem. Mas vou contar-vos, ainda assim. Não a ilusão. Não a irrealidade. A verdade cândida, pura e imutável com a qual, desde menina, a vejo ser mulher. Se ler as minhas palavras, ela será a primeira a rebatê-las. Vai dizer que não me merece as palavras. Que não merece os elogios. Que não merece. E não será com falsa humildade que o fará. Será de lágrimas nos olhos e coração nas mãos. Ela é mesmo assim...

Vou contar-vos sobre ela. Nasceu noutros tempos. A época em que nasceu veio-lhe impressa na pele, na alma, nos traços todos de um feitio que ficou lá e nunca se adaptou aos dias de hoje. Reflete-se nos jeitos com os quais cumprimenta as pessoas, sempre cordial e simpática, sem deixar o hábito do "senhor doutor" e do "minha senhora". Reflecte-se nos agradecimentos frequentes e na forma como sempre demonstra aflição pelos pesares alheios. Reflecte-se na forma como se exalta com as mentiras políticas e com as maldades que se cometem pelo mundo todos os dias. Sim: ela não pertence ao nosso tempo. Chegou aqui ainda agarrada a conceitos e noções que ficaram para trás há décadas e décadas. Não evoluiu com o tempo. Muitos ririam dos seus jeitos e troçariam das suas noções sobre o mundo. Mas a verdade é que ela as trouxe, qual guia de orientação, e que foi desse livro nunca escrito que retirei muito do que me tornou eu. O passado diz muito sobre o lugar para onde o mundo deveria ir no futuro. Foi ela que me ensinou isto.

Vou contar-vos sobre ela. Não foi apenas sobre o passado que ela me ensinou. Ensinou-me, talvez antes de tudo, sobre a vida. Foi uma das minhas maiores professoras. Ensinou-me a ler, a escrever e, usando sempre a ameaça do "vou contar à tua mãe" (ameaça que nunca cumpriu com medo de me ver sofrer consequências), ensinou-me até a fazer as contas que sempre detestei. Acreditem ou não, chegou a passar horas seguidas, nas vésperas dos testes a fazer aquilo que ambas apelidámos de "pôr a matéria na cabeça". Dou-lhe o crédito por muitas das boas notas que tive e admiro-lhe a paciência incansável com a qual, por entre o cansaço das horas passadas, insistia comigo: "vá lá, vamos ver isto só mais uma vez.". Fosse no começo desta trama ou no seu final, ela acreditava sempre em mim. Não importava que eu não soubesse uma palavra para o teste de História ou que não tivesse aprendido, ainda, as conjugações e os tempos verbais que iam ser testados em Português. Ela olhava para o meu cansaço nervoso de menina, pousava a mão sobre a minha e dizia: "Vai correr bem... agora vai escrever isto cinco vezes e depois vem cá, que eu pergunto-te a lição". Com lágrimas nos olhos, eu ia. E, quando voltava, às vezes sabia, às vezes não. Hoje, isso não importa. Com o passar dos anos percebemos que o que importa é outra coisa: independentemente das tristezas, da preocupação, do cansaço e das tarefas que tinha para cumprir, ela pôs-me sempre em primeiro lugar. Nunca me falhou. Nunca me faltou. Esteve sempre lá para mim.

Vou contar-vos sobre ela. Tivemos muitos desacordos: sobre a forma como a vida deve ser, sobre a forma como o mundo deve ser, sobre a forma como uma menina deve ser. À medida que cresci, salientaram-se as diferenças de opinião. Discutimos bastante. Às vezes, porque ela insistia, na sua teimosia, em não ver a realidade do nosso século. Às vezes porque eu insistia, na minha teimosia, em viver crises parvas de adolescente intolerante. Fui injusta com ela muitas vezes. Cheguei a fazê-la chorar - não o choro usual de mulher sensível e emocional - o choro triste e magoado de quem não merece palavras duras e as ouviu. Arrependo-me disso. Mas ela não guarda ressentimento... ainda hoje não sente que eu precise de pedir desculpa. E nunca sentiu. No final dessas brigas, convidava-me para lanchar, para ir comer um gelado ou, quando cresci, para ir beber um café. De todas as pessoas que conheço ela é a que melhor aprendeu a perdoar. O amor que tem guardado dentro de si chegaria para colmatar o enorme buraco negro que o mundo tem no seu centro e dar alguma esperança à humanidade dormente que nele vive.

Vou contar-vos sobre ela. Acredita em Deus com fervor. Defenderia a sua fé perante tudo e todos. No entanto, quando lhe contei que a minha fé não era a mesma, ela olhou para mim, fez duas ou três perguntas e disse-me: "sabes? Tinha um livro que dizia que, desde que seja para fazer o bem, todas as religiões são boas". Depois sorriu. E sabem os Deuses - o dela e os meus - que não houve sorriso mais bonito do que aquele, tão cheio de amor e aceitação. E, fosse sobre religião ou não, ela aceitou sempre. Aceitou-me sempre. Acreditou sempre em mim.

Sobre ela, posso contar isto e outras coisas. Um infinito de coisas. Posso contar como ela me faz rir com as suas histórias, como me faz deitar fumo a falar das notícias que passam na televisão, como faz por estar presente em todos os dias importantes. Posso contar como, mesmo hoje que já sou adulta, ela me telefona para me embalar com um beijinho de boa noite, todas as noites.

Ela é um mundo de coisas que podem ser contadas e um universo de coisas que não podem. Uma das melhores pessoas do mundo. Uma das minhas pessoas favoritas. E sei que, na sua humildade, sempre sincera e fora de época, ela diria que não. Mas é. Pelo menos, é-o aos meus olhos. Não sei o que se chama a uma mulher assim! Sabendo a sua história, alguns iriam chamar-lhe heroína, outros mentora, outros amiga... e eu poderia chamar-lhe tudo isso... mas, por força do hábito e honra do destino, chamo-me avó.

Marina Ferraz





quinta-feira, 1 de outubro de 2015

O imortal



Para o meu avô

O telefone tocou. E, deitada na minha cama, eu fingi que não sabia. Mas há momentos assim. Em que sabemos. Se o telefone toca, principalmente na noite caída, traz apenas consigo o aviso das lágrimas por devir.
O telefone tocou. Como uma respiração mecânica. E deixou de tocar. E eu chorei. Foi a única altura em que chorei. O meu choro não foi visto por ninguém. Das lágrimas que caíram na almofada, ninguém teve aviso ou vislumbre. Ninguém soube delas. Por isso, foi exactamente como se eu não tivesse chorado. Para todos os outros, foi assim: o telefone tocou e eu não chorei.

De mãos dadas com a ilusão, decidi, mais do que senti, que não ia chorar. Decidi que era uma escolha minha. Criei ao meu lado uma realidade diferente. Melhor. Mais concreta. Dela, fiz navio. Mas mais ninguém embarcou. E ninguém soube. Tomaram-me, certamente, o rosto que não chorava por outra coisa qualquer. Disse baixinho para mim que não importava. A ti, disse outra coisa. Disse que te faria imortal. E, se de todos os outros retirei a incapacidade da compreensão, de ti retirei a resposta, na forma do vento e uma presença que ainda hoje se senta ao meu lado e me apoia no melhor e no pior da vida.

Tornar-te imortal tornou-se a meta dos meus olhos que não choravam. Eu sabia. Só morre de verdade quem é esquecido. Não acreditei que tinhas partido e, talvez por isso, não foste a nenhum lugar senão aquele que permanece sempre em mim. A morte não é o que leva a alma e deixa o corpo. A verdadeira morte é o esquecimento que o tempo traz. O tempo não ameniza dores. Esbate memórias. Alguns, ficam felizes de as ver esbater, justamente porque lembrar magoa. Mas eu tinha as promessas. Não ia chorar. Havia de te tornar imortal. E, em alguns dias, doeu a memória que ficava e me fazia lembrar da ausência. Mas não estavas ausente. Não chorei. Procurei sempre lembrar-me.

Lembrar-me significou escrever-te. Escrever sobre ti. Contar ao mundo sobre o nosso chocolate quente, o nosso dominó, a nossa partilha no tempo das vindimas. Significou dizer que fui uma menina a pedir copos de água, noite após noite, e que foste uma figura paciente a cruzar o corredor para me fazeres as vontades. Foi aos pouquinhos. Deste conta? As pessoas souberam de ti. Subitamente, já não vivias apenas na memória de quem te amou. Vivias também no espaço das gentes que não te conheceram. E permanecias, nas linhas, intocado, pontuado por reticências e exclamações que não podem ser apagados. Aos poucos e poucos, a memória tornou-se história. A história tornou-se livro. Tu tornaste-te imortal.

Do telefone que toca, já só guardo nuances de memória. Mas de ti, de ti guardo as memórias concretas e que não deixo esbater. Cada memória é um fragmento das asas com as quais construo a vida que vivo na demanda pela tua imortalidade. E ficas vivo, em mim e no mundo que deixaste, justamente porque as lágrimas que não verti fazem sentido. É o dom e a maldição das palavras - têm o poder de roubar à morte o padrão irreverente do esquecimento que ameniza; têm o poder de roubar aos Deuses a decisão de um fim concreto e sem retorno.

Não chorei. Tu não morreste. Ainda não. Não até eu morrer e te levar comigo nessa viagem sem retorno. Porque escolhi tornar-te parte de mim. E viver-te nestas linhas que ficarão muito depois de eu própria ter cedido. Não chorei porque chorar seria dizer adeus. E eu não disse. Em vez disso, prometi a mim mesma. Prometi-te a ti, num silêncio só nosso. Não irias morrer nunca. Não te deixaria morrer.

Odiavas ver pessoas chorar. E há quem chore. Não leves a mal. As pessoas pensam que morreste. Eu sei que és imortal. Hoje, sorrio-te, embora não te veja. E sei que me sorris de volta. Eternamente.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Luo-te



Não te amo.

Desculpa.

Sou-te luar. Não posso dizer que te luo. Posso? A lua não tem formas verbais. Conjugações. Mas é isso. Sou-te luar. Luo-te.

Luar é muito mais do que amar. O amor é redutor. Fizeram dele palavra de uso. E definiram-no, como se pudessem definir o cosmos, em palavrinhas tão pequenas que delas mal se retira um significado que valha a leitura.

Passa por coisa de brilho. Coisa de luz. O amor. A lua não. Sendo brilho e luz, a lua lembra que anoitece. Lembra que há fases. Que há escuridão nos meandros do tempo que avança. E lembra que o negrume aparece, alastra, se torna tão permanente que é como se não existisse salvação. Tudo, para depois lembrar que a salvação existe, que a luz retorna, que o brilho não se perdeu.

Somos assim. Tu e eu. Com as nossas fases boas. Com as nossas fases más. Com as nossas metástases de sonho, irradiadas pelo corpo e pela alma. Pelo coração pulsante. Pela garganta arranhada dos gritos e dos desassossegos. Temos dias bons. Temos dias maus. Às vezes, és o meu cavaleiro, protector e indestrutível contra as adversidades do mundo. Mas, em alguns dias, és menino, e eu visto a armadura e avanço rumo aos medos, pelos dois. Somos escada. Degraus da mesma escada. Subindo pelos mesmos objetivos. E, todas as vezes que me deparo com as sombras irradiadas pela dor penetrante de um adeus, sei (mais do que admito saber), não quero descobrir um mundo sem ti.

Somos o reflexo dos passados que vivemos e nunca superámos. Bichos isolados, temerosos, sempre à espera que nos seja infligido o sofrimento. Não deixamos ninguém passar da soleira da porta. Só deixámos uma vez. Passei a porta. Passaste a muralha. Passei a carapaça. Passaste a máscara. Entrámos na vida um do outro. No espaço um do outro. No lugar um do outro. No corpo um do outro. Na pele um do outro. E sabem os Deuses que entrámos, por vezes, à força de nos batermos contra pessoas, problemas, circunstâncias e fantasmas.

Obsessivamente, recuso-me a imaginar-me sem ti. E sinto, de ti, uma recusa igual. Passa o tempo. Passa a vida. E lá vêm os nossos quartos minguantes. A nossa escuridão. Procuro não dizer que também te quero o caos. Mas quero. Quero-te o sorriso. A mão. O calor. Mas também quero o nervosismo irado que embate nas paredes e me ataca, me desconsola, me atormenta.

Dirão - têm razão - não é amor! Não te amo. Luo-te. Em todas as tuas fases. Sinto-me sempre perder o olhar e a noção em ti. Sinto-me sempre contemplar a tua beleza, feita de metamorfoses. Luo-te. E, porque vejo nos teus olhos o reflexo dos meus, sei. Luo-te e sou-te luar.

Que se amem as figuras de livro que preenchem os romances e não vivem.
Que se amem as personagens de cinema, sempre tão banais e lineares.
E que continuem a fazer do amor um verbo conjugável em tempos que não fazem sentido.

A lua não tem presente. Nem futuro. Não é luz. Nem escuridão. Conjuga-se num tempo chamado eternidade e apenas nele se transforma sem mudar.

Desculpa se eu não te amo.

Mas o que temos não é amor.

É luar.


Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Danças na floresta


O vento. Pagão. Incontrolável. Soprando por entre as árvores. Minhas irmãs. E o canto inaudível da Lua. Cheia. Olhando para nós e para as nossas danças na floresta.

Pergunto quem sou. Sem palavras. Movimento. Suor. Coração descompassado. Pergunto quem sou. Ao ar. À brisa que me acolhe os passos e os eleva do chão. E digo-lhe. Ao Ar, às sílfides, ao vento: Às vezes sou como tu. Às vezes, queria ser mais como tu. Ter a tua calma. O teu equilíbrio. Ele fala. Responde. Não são palavras que qualquer um possa ouvir. Mas eu ouço. "És como eu.", proclama. E eu sei que sim. Que é verdade. Danço. Ao redor da fogueira. Pergunto quem sou.

O rio. Pagão. Seguindo cursos marcados. Concretos. Por entre as margens. Sobre as rochas. Debaixo do mesmo céu. E a chuva. Caindo em intervalos. Abençoando-nos e às nossas danças na floresta.

Pergunto quem sou. Sem palavras. Espaço. Amor. Coreografia. Pergunto quem sou. À Água. Ao rio, às sereias, ao mar. E digo-lhe: Queria ter a tua pureza e o teu rumo. Por vezes, gostava de saber onde vou. Ela fala. Responde. Muitos não ouviriam o seu canto. Mas eu ouço. "Tens em ti a pureza, tens em ti o rumo". E eu sei que sim. Que é verdade. Danço. Ao redor da fogueira. Pergunto quem sou.

A fogueira. Pagã. Quente. Vida. Morte. Intervalo. Chama. Cinza. Gémea, dançando connosco esta valsa sem compasso, nem tempo, nem passos pensados. Iluminando os nossos passos e as nossas danças na floresta.

Pergunto quem sou. Sem palavras. Corpo. Paixão. Dar e receber. Sentir. Pergunto quem sou. Ao Fogo. Aos dragões. Às labaredas. E digo-lhe: Queria ter a tua força. A tua intensidade. Por vezes, gostava de ser dona de mim. Ele fala. Responde. A sua voz seria incompreensível para muitos. Mas eu ouço. "A chama mais forte brilha dentro e não se vê. Mas está.", acredita. E eu sei que sim. Que é verdade. Danço. Ao redor da fogueira. Pergunto quem sou.

O chão. Pagão. Firme. Rochoso. Feito de grãos compactos. Sob os pés. Sob a Lua. Sob a fogueira. Recebe-nos os passos. Dá-nos o solo sobre o qual traçamos as linhas de sonho. Permanece. Fica por nós e pelas nossas danças na floresta.

Pergunto quem sou. Sem palavras. Gesto. Silhueta. Sombra de mim e sobre do que antes fui. Pergunto quem sou. À Terra. Aos elfos. Aos grãos de areia. E digo-lhe: Às vezes sou como tu. Mas queria a tua estabilidade. A força de ser pisada sem ceder. Ela fala. Ninguém a ouve. Eu escuto. "Não há força que não tenhas nem firmeza que te falte. És como eu". E eu sei que sim. Que é verdade. Danço. Ao redor da fogueira. Pergunto quem sou.

Quem sou? Sou o Ar. Sou o Fogo. Sou a Água. Sou a Terra. Anciã de espírito. Donzela de idade. Pagã como elas. Livre como elas. Dançando, descalça, ao redor da fogueira. Quem sou? Não sei. Não me conheço. Vou-me descobrindo, aos poucos, nestas danças na floresta.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Com a saudade



Um aperto no peito no despontar do dia. E uma mágoa que nasce no abrir dos olhos.
Hoje acordei com a saudade. Uma saudade sóbria e sem sentido. Acordei com saudade do caos, da dor. Acordei com saudade das palavras duras, despidas, atiradas ao ar como punhais. Acordei com saudade das lágrimas e do som dos silêncios a permear a quietude dos gritos.
Hoje acordei com a saudade.
Dei por mim à procura, pela casa, de algo que pudesse trazer de volta o caótico de ti. Procurei nas gavetas e nas prateleiras. Folheei os livros, esperando que caísse, de dentro deles, um pedaço concreto que me fizesse sentir mais perto de ti. Nas gavetas, somente roupa. Nas prateleiras, somente pó. Nos livros, uma sabedoria ancestral que nada tem de tua.
Procurei na despensa, debaixo da cama, dentro dos baús. Procurei neles palavras por dizer, fragmentos de um nós rasgado, queimado, reduzido a poeira.
Hoje acordei com a saudade.
Uma saudade louca. Uma saudade consciente. Saudade do sofrimento, da amargura, da mentira que nos destruiu e de todas as outras.
Procurei pela casa. Procurei nas rachas das paredes, debaixo do colchão, dentro da caixa do correio e da máquina de lavar. Procurei por instantes perdidos. Aqueles que planeámos e esquecemos como se fossem um "para sempre" qualquer.
Procurei nos frascos, sob os tapetes, na gaveta dos medicamentos. Procurei pela mais pequena nuance de demência. Pela sobra. Pela poeira de estrelas de nós.
E, sem encontrar mais do que vazios, enterrei a cabeça na almofada para encontrar o teu cheiro. O teu perfume tem o doce da mentira. O amadeirado da traição. Um travo a desgosto. Mas ainda é o teu cheiro. E acordei com a saudade.
Tento encontrar algo de bom nesse passado que nos pertenceu. Talvez ainda acredite. Talvez porque não queira ser a louca que sente falta de sofrer. Tento apanhar memórias, como quem apanha borboletas. Mas a felicidade é poeira. Passa por entre os espaços da rede, deixando apenas o concreto de tudo o que não deve deixar saudades.
Mas, subitamente, a dor não parece dor. A mágoa não parece mágoa. A mentira não parece mentira. Tudo parece nada. Tudo se oculta na saudade. E a saudade insiste: insiste que te quer. Insiste que a dor e a mágoa moram na cama vazia onde acordo. Insiste que o sofrimento é a única mentira e que a digo a mim mesma quando penso estar melhor sem ti.
Tento mergulhar na banheira. Suster a respiração. Lembrar como me sentia quando me sufocavas. Lembrar como era não poder falar, nem respirar, nem ser eu...
A saudade insiste. Pergunta para quem vou falar agora, de qualquer forma. Pergunta se vale a pena respirar sem ti. Pergunta quem sou, agora que não estás.
Enlouqueço. Acordei com a saudade. Saudade do caos plantado na minha alma pela caridade das tuas mãos.
E vou perguntando se é loucura ou masoquismo esta vontade de encontrar até o pior de nós por entre a mobília da casa.
Acordava contigo. Para sofrer. Para sentir o peso do mundo nos ombros. Para sentir a alma fragmentada. Para ver o coração estilhaçar, esmagado sob o teu peso.
Hoje acordei com a saudade... saudade de acordar contigo. Saudade de acordar com o caos que trazias para a nossa casa e a nossa vida.
Acordei para a loucura. E não há nada teu entre as páginas dos livros.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 1 de setembro de 2015

É



É na promessa quebrada,
na curva da estrada
que fere o olhar.
É na alma macerada
de quem não diz nada
mas fica a chorar.

No momento sem aviso,
nesse improviso
de ir e não voltar.
É no segundo conciso
em que o paraíso
decide mudar.

É no estender de uma mão,
no toque sem chão
que teima em quebrar.
É no eterno senão
e tantos virão
para o confirmar.

É no adeus, na demora,
no que fica agora:
saudade a queimar.
É no que fica de fora,
que reza e implora
sem ninguém escutar.

É no que fica em final,
triste e desigual,
sem ninguém notar.
Na chegada triunfal
de um amor de sal
que morreu no mar.

É onde vive esta gente
de rosto dormente,
sem pão pra trincar.
É no olhar indolente,
pobreza inocente
que 'inda tenta dar.

Eis onde mora o meu povo,
sem nada de novo
para se agarrar,
preso ao passado
onde 'inda é narrado
um sonho d' encantar.

Eis onde fica o lugar
que insiste em ficar
preso ao que nem sente.
Aqui, quem tenta ficar,
sabe que o luar
é tecto de gente.

É na esmola caída
que se compra a vida
de quem quer morrer.
Beco sem saída
onde, entristecida,
eu vivo a escrever.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Dói



Dói. Como uma ferida aberta no centro da alma. Carcomida pelo tempo que tenta atingir a memória. Dói. Mãos dadas, perdidas, de dedos desenlaçados, arrancados, esgotados na demora dos pensamentos. Primaveras e Verões. Outonos e Invernos. Dói. A vida segue, o mundo avança, tudo muda. Nós não. Ficamos. O mesmo lugar. A mesma memória. A mesma mágoa. Dói. É ferida que alastra. Permanece. E o tempo passa. O tempo mói. O tempo não cura.
Foi ontem. Ou há mil anos. Beijo de fogo nos lábios. Risos prontos. Mãos fechadas noutras mãos. O toque por entre a noite. O desejo. A partilha incandescente dos corpos suados. O aroma a café, semeado na preguiça das manhãs de sol. Dói. A memória do sorriso dói. A felicidade dói. Tudo fere quando já foi e não retorna. A saudade. Medo. Medo de ter apenas saudade, onde antes se tinha o mundo inteiro. Dói. Como uma ferida aberta no coração pulsante.
A tua sobriedade. A tua sobriedade inebriada e louca, bebida de copos vazios. O som seco das promessas feitas nos brindes desajustados. O silêncio dos corpos dados. O grito da vontade carpida de viver. Dói. Perplexidade. Abandono. O ontem que se somou ao passado plural das minhas mil vidas. Dói. A ferida vai corroendo o tecido saudável do eu. Eu sou. Eu fui. Eu era. Quem? Dói. O desvanecer das ilusões. Da realidade. Do sentido. Dói. O tempo. Diz. Repete. Intitula. Enlouquece. O tempo passa. Tic-tac. Dói.
Linhas. Linhas traçadas sobre a mesa. Sobre a cama. Linhas no céu. Linhas nas mãos. Linhas. Linhas passando o fino espaço da agulha, tentando remendar o que não tem arranjo. Eternidade. Falha. A falha da linha. O toque ritmado do outro lado. Do adeus à ausência. Desistência pura. Dói. O teu toque que me falta, misturado no toque intermitente e compassado que insiste sem resposta. Dói. Linha desenhada. Palavra. Texto. Poema. Dói.
Inacabado. Este. Esse. O outro. Todos eles. Inacabado como nós. Assino. Data. Hora. Descrição. Não sei quem sou. Qual é o dia. Que números apontam os ponteiros. Dói. Dóis-me. O tempo passa. O tempo mói. O tempo não cura.
Dói. Chávena de café vazia. Ao sol. Sem o abraço da mão. Sem beijo tecido. Só com memória. Memória de café. Memória de sol. Memória. Saudade. Dói. Quero beber um copo de morte. Perder a tua sobriedade. A memória louca do que o tempo não pode curar. Leva. Leva-me. Basta. O tempo. Pergunta. Resposta. O tempo.
O tempo não é um poema. A dor é. E dói. Poema. Ilusão. Saudade. Olhos abertos. Semicerrados. Fechados. O suspiro. Último. Fumaça de anteontens. Despedida. Dói. Doeu. Doía. Agora já não...

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet