terça-feira, 27 de agosto de 2024

Sismo

 

Fotografia: João Almeida Firmo

Provavelmente fui eu. Perdoem. Ando a cismar no que não devo. Porque quando eu cismo, cismo... Vou dizendo a mim mesma que não quero mudar ninguém. Repito para dentro o mesmo mote que me move a vida. Ser e deixar ser. Ser e deixar ser. Mas cismo. E dá vontade de dar uns abanões por aí. Abanar o chão. Abanar as pessoas. Fazer com que entendam que não é sobreviver. Mas sobre viver.

 

 

A terra tremeu. Eu não dei por que ela tremesse. Mas tremeu. Não dei por isso, provavelmente, porque tenho precisado de dias de 48 horas para acabar o trabalho. Porque tenho contas para pagar e o que sobra depois de pagos os impostos nem sempre chega para o resto. Porque quando me deito, em vez de dormir, como toda a gente, durmo com a conta das próximas 48 de que preciso para continuar a fazer o mesmo, e já a arrepender-me do prejuízo que será fechar os olhos por três, quatro, cinco horas... só para não fritar mais o único neurónio que ainda se arrasta para a função, marcando ponto com os filamentos trémulos e já a emborcar um café triplo.

 

Estava ocupada a fazer o que ninguém faz por mim. Descansar. Para depois me ocupar de fazer o que ninguém faz por mim. Trabalhar. A pensar na possibilidade de fazer o que ninguém faz por mim. Viver. E a lembrar-me de que, provavelmente, também não estou a fazer isso por mim. Porque tenho contas para pagar. E o que sobra depois de pagar os impostos nem sempre chega.

 

Segui pelo meu dia como sigo pelos dias. Sem querer saber de que a terra tivesse tremido. Lendo, aqui e ali, sobre isso. Desconhecendo ainda o impacto que um sismo pode ter nas pessoas. Mas tem. Tanta gente me perguntou se o tinha sentido, que dei por mim a repetir para dentro. Ser e deixar ser. Ser e deixar ser. Ser e deixar ser. Ser e deixar ser. Ser e deixar ser. Até à exaustão. Ser e deixar ser. Ser e deixar ser. Porque o monstro dentro de mim queria soltar-se da boca. Porque o monstro dentro de mim queria abanar as pessoas. A terra. O planeta inteiro. E perguntar: sentiste quando te roubaram a possibilidade de viver a vida que querias? Sentiste quando te mataram a esperança? Sentiste quando te obrigaram a ser escravo do teu país? Sentiste quando definhou a tua luz, porque eles a apagaram num sopro, como quem celebra o aniversário? Não perguntei isto a ninguém! Ser e deixar ser. Ser e deixar ser. Ser e deixar ser.

 

Estou a tremer. O chão parece-me estático. As pessoas também. E estou a tremer. Um pouco de raiva. Um pouco de dor. Um pouco porque o cansaço faz com que se sinta frio, mesmo que estejam dias quentes lá fora. Não sei se estão. A minha casa é fria porque mal apanha sol... e eu tenho de trabalhar as ditas 48 horas dos dias estendidos, porque o meu país me impede de existir condignamente a menos que o faça.

 

As pessoas, meio assustadas, reúnem agora um conjunto de estratégias de sobrevivência... e perguntam, baixinho, como se não quisessem assustar as placas tectónicas: Porque é que isto aconteceu? É que foi um sismo com uma magnitude de 5,3 na escala de Richter... Porque é que isto aconteceu?...

 

Provavelmente fui eu. Perdoem. Ando a cismar no que não devo. Porque quando eu cismo, cismo... Provavelmente fui eu. Apetece-me abanar qualquer coisa. Alguém. Mas quem sou eu? Fico por aqui. A cismar. A tremer. A pensar. Talvez se a tirania se medisse na escala de Richter, pudéssemos ser nós o terramoto.

 

Não para tentar sobreviver. Para tentar viver.

 

A sobreviver estamos nós... e para quê?

Marina Ferraz




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terça-feira, 20 de agosto de 2024

Verão

 

Nasci no Verão. Sempre me liguei mais ao Outono. Talvez porque, se a matemática não me falha, fui gerada nessa estação, com a queda das folhas. Disseram-me muitas vezes que, como elas, a minha vida seria em queda. Como se eu fosse a folha frágil que tomba, sem capacidade para se agarrar aos ramos e sobreviver. Não é que eu faça muita questão de sobreviver. Mas ainda aqui estou. Tomando as tonalidades quentes do mundo, perseverando e seguindo para o Inverno com a seiva muito viva em mim.

 

Todos os anos, atravesso o Inverno e a Primavera para chegar ao Verão. Chego caótica. Com sardas no rosto, fazendo reticências na pele branca que escondo do sol sempre que possível. Cansada de esticar o cabelo, até porque o treino de braços do ginásio me chega, desisto mais vezes de sequer me pentear. As ondas e cachos bravios fazem um retorno, dando razão às placas dos cafés onde se lê “há caracóis”. E eu transformo-me, assim, num misto entre um dálmata e um poodle, caminhando nas mesmas ruas e escondendo-me no mesmo covil.

 

Olho para mim e sei que é Verão. Mas, quando abro as páginas das redes sociais, descubro que as duas estações do momento são o Inverno e o Inferno. Há um frio nas pessoas de enregelar a alma, e o mundo vai ardendo com temperaturas que negam quem nega as alterações climáticas e um ambiente de guerra e medo, um pouco por todo o lado.

 

As estações estão todas trocadas. Mesmo que as sazonais fotografias de pernoca ao léu ainda compitam com os anúncios dos ginásios para quem é crente no milagre do Espírito Santo... As estações estão todas trocadas. O mundo arde. Ora bomba. Ora incêndio. Fogos postos por homens que não merecem esse nome, pois não respeitam homens, mulheres, crianças, árvores, animais, nem coisa nenhuma...

 

Fico feliz por não acreditar num deus único, nem que ele criou o mundo, porque me incomodaria ter pena de deus. Mas num concílio de todos os deuses, de todas as fés, imagino que há um desespero agarrado à desistência, vertendo copos de gin tónico... porque é amargo como a visão terrena e embriaga os sentidos.

 

Vivaldi tocaria agora de forma muito diferente as suas Quatro Estações. Talvez fossem duas estações, mais desafinadas e grotescas. Uma peça que os pianistas só pudessem tocar em pianos partidos, aos quais já faltassem teclas.

 

Olho para mim e sei que é Verão. Há qualquer coisa em cima das minhas sardas. É realmente Verão. Tenho mar a fugir dos olhos. 


Marina Ferraz




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terça-feira, 13 de agosto de 2024

Frases feitas

 


As pessoas usam frases feitas. Não eram frases feitas da primeira vez que foram ditas. Tinham muito sentido. Conteúdo. Como o primeiro hambúrguer quando foi feito, antes da maquinaria pesada. Mas hoje em dia, entra vaca, sai Big Mac. E não me parece que seja a mesma coisa.

  

As pessoas dizem-te “estuda, se queres ser alguém”. O que não te dizem é que ninguém te vai ensinar a gostares de estudar. Ninguém te vai incentivar a pensares pela tua cabeça, fora do manual. Ninguém te vai dizer que História não é de decorar, mas de entender. Nem que o mais provável é que acabes por ter de trabalhar em algo muito diferente da tua linha de estudos, ou de sair do país para encontrares trabalho. Ninguém te diz que as coisas mais importantes que precisarás de saber na vida não estavam nos manuais escolares, nem no currículo académico. E ninguém irá dizer-te que, agarrado à expressão do “podes ser o que quiseres”, há um se que se prende com as regras da estatística. Podes ser o que quiseres, mas se decidires ir contra a norma, prepara-te para pagar pelo menos 50% do teu salário em impostos e contar trocos o mês inteiro. Acima de tudo, aquilo que ninguém te diz é que se não estudares, também vais ser alguém. Que toda a gente é alguém. Profissão é o que fazes. Não define o que és.

 

As pessoas vão dar-te os sentimentos no enterro de alguém que amas e vão dizer-te “o tempo cura”. O que não te dizem é que o esquecimento é feito de fios de teia de aranha, muito finos, e que eles se vão agarrando à pele da mente e incomodando, à medida que começas a esquecer cheiros e vozes e momentos. O que não vão dizer-te é que vais desesperadamente tentar agarrar tudo isso, para que não vá. E que a dor dessa segunda perda é um segundo luto. Um terceiro luto. Até que simplesmente perdes uma batalha e lembras um nome, um rosto, histórias que se vão esvaziando. Aquilo que ninguém te diz é que o tempo – esse que cura – também é quem te fere.

 

As pessoas vão dizer-te “nunca é tarde demais”. O que não te dizem, com franqueza, é que tudo o que não fizeste, não poderás fazer agora. Um ato vive no momento em que é feito. Uma palavra vive no momento em que é dita. E o momento é, também, parte do que define o seu sentido e o seu entendimento. Nada se repete. Então, o que as pessoas não dizem é que tudo o que se adia, morre. Não é tarde demais para viver outro momento, para dizer algo... mas é tarde demais para saber o que teria significado antes. Aquilo que ninguém te diz é que, depois de todas estas pequenas mortes de procrastinação, ainda assim chegará o dia em que, por definitivo, será tarde demais.

 

As pessoas dizem “o amor supera tudo”. O que ninguém te diz é que às vezes ele só precisava de se superar a si mesmo e nem isso faz...

 

E aqui estamos. Comigo a querer dizer-te um mundo de clichês. Consciente, muito consciente de que as pessoas usam frases feitas, que não eram frases feitas da primeira vez que foram ditas. Tinham muito sentido. Conteúdo. Como o primeiro hambúrguer quando foi feito, antes da maquinaria pesada. Mas hoje em dia, entra vaca, sai Big Mac. E eu tenho muitas palavras em mim... e olho para ti e não me ocorre nada eloquente para te dizer.

 

Silencio-me. Choro um bocadinho no desespero dos meus dias, cada vez mais colados à realidade. E qualquer clichê da tua boca me soaria a tese filosófica.

 

Olhas-me e dizes: “o que vier, nós enfrentamos”.

 

Quero acreditar em ti. Como se tivesses sido a primeira pessoa a dizê-lo...

 

   Marina Ferraz




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terça-feira, 6 de agosto de 2024

Lentes

 

Fotografia de Ricardo Torb

Devia ter uns 13 anos. Quando o queixume sobre quão difícil me era ver o que escreviam no quadro ao sentar-me da segunda fila para trás deixou de ser interpretado como a nerdzinha que queria sentar-se nas primeiras filas para cair nas boas graças dos docentes, lá me levaram a um oftalmologista.

 

Ainda que não visse muito bem, não foi difícil de ver que o senhor – considerado o melhor da região – devia uns anos à reforma e agia como se já estivesse reformado. Cada gesto pedia permissão ao anterior para se dar. O desinteresse pautado nos olhos. Perguntas que julguei idiotas logo que entrei, entrando neste leque o velho: “então, porque estamos aqui?”. Ele estava porque era o trabalho dele e ainda não se tinha reformado. Eu estava porque via mal... que não tenho por desporto andar a correr as capelinhas da saúde privada.

 

Fez-me alguns testes. Pediu-me para ler letras cavalares e letras médias, ignorando as mais pequenas, como se elas não estivessem no painel. Deu-me duas palmadinhas nas costas. Disse que eu tinha os melhores olhos que ele analisava há anos. Entregou a astronómica conta à minha mãe e mandou-nos para casa, para continuar, assim, a sua atividade de dolce far niente.

 

Confirmava-se a suspeita da tripulação do navio dos tristes. A nerdzinha queria sentar-se nas primeiras filas para cair nas boas graças dos docentes. Seis meses depois fui saber uma segunda opinião e descobri que era míope. Lembro-me do espanto de ver a tal famosa linha do horizonte e de descobrir, pela primeira vez, que era efetivamente uma linha.

 

 

Hoje, com as minhas lentes de contacto, a olhar para o mundo, sinto-me muitas vezes na cadeira do meu primeiro oftalmologista... mas ao contrário.

 

Vejo claramente a roda do tempo trazer de volta a tirania, a censura, a disparidade social, a discriminação, o genocídio... vejo-o antes de estar nas notícias, antes de outros o dizerem. E, quase sempre, quando o comento antes do tempo certo me é dito que são teorias da conspiração.

 

 

As lentes pelas quais vejo o mundo têm atualmente 2,75 e 3 de graduação. Mas a História faz-me ver de forma muito clara o que, aparentemente, anda desfocado atrás das camadas de gatekeeping e dos interesses das grandes empresas. 

 

 

Mas sabem qual é diferença entre ter teorias da conspiração e ver para onde o mundo está a ir?

Exatamente a mesma que existe entre ter os olhos mais saudáveis do mundo e ser míope...

Seis meses!


  Marina Ferraz




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terça-feira, 30 de julho de 2024

Sobre a educação

 

Foto da performance "A Fada Desastrada"

Eu sei que pode ser otimismo exacerbado. Mas eu ainda acredito que é possível aprender...

 

Algumas crianças não são fáceis. São inocentes. Acreditam em mundos além do mundo. São insistentes. Fazem perguntas intermináveis. Exploram a paciência de quem as rodeia com as suas vontades, as suas manias, as suas teorias insensatas sobre as coisas.

 

Algumas crianças não distinguem uma pessoa da outra. Confiam. Colocam-se em risco pela confiança. Outras, escondem-se atrás da primeira entidade ou objeto, quando sentem a primeira centelha de perigo. Para compensar, correm como se não pudessem cair. E caem. Magoam-se. Choram. Fazem ocasionais birras porque querem algo que está fora do alcance. E depois tentam outra vez. Batem com a cabeça na esquina do móvel. Voltam a chorar. E repetem a seguir.

 

Algumas crianças gostam mais de olhar pela janela para ver os pássaros e a neve, do que de enfiar as cabeças nos livros de ciências que lhes falam dos pássaros e da neve. Algumas pintam nas paredes, sem o mínimo de respeito pelos custos de uma pintura interior. Algumas cantam alto durante as viagens. E perguntam se falta muito para chegar. Ficam entusiasmadas com a ideia de chegar.

 

Algumas crianças largam a mão para correr, mesmo depois de lhes terem dito para não largarem a mão e não correrem. Saem dos quartos, mesmo quando estão de castigo. Fazem o que querem e lhes apetece. Algumas crianças vão fazer asneiras e pedir desculpa a seguir. Vinte vezes consecutivas. A mesma asneira. O mesmo pedido de desculpas.

 

Eu sei que pode ser otimismo exacerbado. Mas eu ainda acredito que é possível... tem de ser... Com o esforço, empenho e dedicação certos, eu acredito que é possível - para qualquer adulto - aprender com elas...

  Marina Ferraz




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terça-feira, 23 de julho de 2024

Modo de baixo consumo

 

Imagem retirada da web | Pixabay

Eu e o meu computador temos um ritual. Uma luta inglória. Uma espécie de discussão entre homem e máquina, em que inevitavelmente perco. Vencida, mas não convencida, lá acabo por me levantar. É difícil levantar, às vezes.

 

 

Esta história começa nos 20% de bateria. A tela iluminada perde parte substancial da sua luminosidade. O pop-up pula para o meio do ecrã. Explica - como se eu não tivesse percebido - que está em modo de poupança de bateria. Digo-lhe que também estou, como se isto fosse uma conversa num grupo de apoio. Uma demonstração de empatia ou de falta dela. Aquele típico não és só tu que tens problemas.

 

Só que, ao contrário de mim que sou independentemente problemática, o computador lembra-me de que se baseia em modelos numéricos com frequência. E, como a Matemática, fica à espera que eu lhe resolva o problema. Quer comer. Quer ter energia. Não se cansa de me dizer que devia ligar o computador à corrente. Insiste tanto que, por vezes, pensando que deixei o cabo na mochila, na entrada, lhe digo: Aguenta-te! O cabo está na China... se eu for buscar o cabo, é para te enforcar com ele!

 

Sim. Poderia dizer-se que temos problemas quando começamos a falar com o nosso computador. Mas é um problema maior ainda quando ele começa a responder. Quando damos conta, as redes sociais estão repletas de anúncios de cabos e cordas e viagens para Pequim. Um olhar em redor, para tentar encontrar a escuta. A minha carreira na política - que ainda nem começou – não pode ser, deste modo, precocemente destruída com gravações indevidas!

 

Tento continuar a trabalhar. Ou a procurar alternativas. Ou a ver qual foi a conta que chegou esta semana por parte das Finanças ou da Segurança Social e exatamente quão na merda vou ficar quando as pagar, e à renda, e aos serviços. Logo o computador me placa, numa luta corpo a corpo, lançando um novo pop-up. 10% de bateria. Para continuar, ligue o seu dispositivo à corrente. Como quem diz, paga a conta da Luz ou nem terás meios de verificar exatamente quão fodida estás por causa do capitalismo.

 

Dos 10% aos 5% de bateria, eu e o meu computador vivemos um momento à Velho Oeste, com banda sonora dramática e tudo. Discutimos sobre quem tem menos energia. E, mesmo continuando a achar que sou eu, lá acabo por me levantar.

 

É difícil levantar, às vezes. Digo-lhe. Sou portuguesa. Hoje em dia, para me levantar, não é só do sofá, é do fundo do poço...

 

Enquanto o ecrã retoma o brilho e o queixume dele se dissolve, penso que, já que estou levantada, poderá ser um bom momento para fugir, pegar em todo o dinheiro que sobra destes pagamentos e simplesmente sair em viagem até que ele acabe.

 

Penso que seja suficiente para ir até à Amadora, se voltar de boleia.

 

 Marina Ferraz




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terça-feira, 16 de julho de 2024

Notas de viagem

 


Querem que eu saia de casa como as borboletas saem dos casulos. Naturalmente e sem fazer alarde. Aguardando que o céu traga novas aventuras. Aventuras frugais. Querem que o meu ir seja um ir como os outros vão. Trazendo para contar aquela história engraçada e os relatos das paisagens, dos monumentos, da multiculturalidade e do exótico.

 

E eu continuo a voltar para o casulo. Parece que há vontade inerente de ser a lagarta de asas comprimidas. Talvez seja cultural. Um conforto português. Esse. De viver com as asas comprimidas...

 

Só que, a cada viagem, acontece o mesmo. Não caibo no casulo de onde saí. Já não caibo nesse casulo há muito tempo. E esteve tudo bem enquanto ficava uma perna de fora. Ou um pé. Ou o nariz. Só que a mão e a boca são muitas vezes soberanas nessa arte de ficarem desalojadas... traço também luso, este de longa tradição. Não sei muito bem como não criticar o meu país. E não sei parar de amá-lo, ainda que a relação seja claramente tóxica.

 

 

Não tenho aquela história engraçada. Os relatos das paisagens, dos monumentos, da multiculturalidade e do exótico. Ou tenho. Na verdade tenho. Só não tenho vontade de falar sobre eles.

 

 

Apetece-me falar sobre os transportes públicos gratuitos. Sobre o respeito pela Natureza. Sobre os festivais em prol da inclusão. Sobre a bandeira LGBTQIA+ hasteada à frente de um dos principais monumentos da cidade. Sobre a ligeireza das pessoas.

 

 

Não me fica a vontade de ficar noutro canto do mundo, mas a vontade de mudar o meu canto. A utópica vontade de mudar o meu canto. Esse onde o único transporte gratuito é o que leva as pessoas para a miséria e o inferno dos dias. Onde se arrancam e cortam e queimam as árvores. Onde se atacam estrangeiros. Onde se discutem os danos que tem iluminar o parlamento com as cores do arco-íris. Onde as pessoas caminham encurvadas, soturnas, tantas vezes com o peso do mundo. Fico com vontade de mudar o meu canto. E o meu casulo fica mais pequeno. Mais desconfortável. Se já era miúdo para mim, imaginem para mim e a utopia...

 

 

 

Então busco a compensação. Relatos. Aquela história engraçada. Vem à memória a prova de vinhos da Geórgia. Valha-nos a abençoada prova de vinhos. É preciso que a haja, para recordar Amália. Dar de beber à dor. Encontrar a forma cordial de dizer “nah...”.E lembrar a opinião realista, sorrida, no verter do copo: eu sou portuguesa, temos muito bom vinho.

 

 

Temos. Temos bom vinho. E pouca vontade estar sóbrios perante a dificuldade permanente.

Raios, lá vou eu outra vez...

 

 

 

Continuo a voltar para o casulo. Esse, no qual não caibo. Continuo a amar o meu canto. Esse onde as condições escasseiam. Ainda quero (estar com) o meu país. Mas a cada voo, eu sei – e não posso des-saber – esta é uma relação tóxica. E talvez morra disto... cedo. Como as borboletas depois de saírem dos casulos.


Marina Ferraz




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terça-feira, 9 de julho de 2024

O fruto

 

Imagem gerada por I.A.

O fruto que nasceu na árvore do mundo foi o mais doce desde há muitos verões. Por isso, cortei-o em gomos muito finos e dei um pedacinho dele a cada pessoa. Toda a gente sorriu. Havia sete mil milhões de pessoas a sorrir. Subitamente, ninguém sentia fome. Todas as doenças sararam. Ninguém sentia frio. Ninguém tinha vontade de fazer a guerra. De lutar na guerra. De fugir da guerra. De lembrar a guerra. A rua era morna. As portas das casas estavam destrancadas. Quartos que há muito serviam de arrecadação foram arrumados e deram espaço aos sem-abrigo. E as pessoas apanhavam outros frutos e distribuíam os gomos umas pelas outras. Quem não tinha fruto, dava pão. Quem não tinha pão, dava poema. Quem não tinha poema, dava canção. Ou peça. Ou auxílio. Ou conforto. Ou cobertor.

 

 

A menina olhou para mim, enquanto eu contava esta história. E disse-me: "Oh, mas esse mundo não existe."

 

E eu disse-lhe. "Tudo o que se diz existe. Tudo o que se escreve existe."

 

- Até as fadas e os unicórnios?

 

- Até as fadas e os unicórnios... Até os frutos mágicos...

 

Ela sorriu, fechando os olhos.

 

E é por isso, acrescentei, sem que me ouvisse, que a primeira coisa que os ditadores nos roubam é a esperança e a liberdade de expressão.

 

 

Trinquei o fruto da fruteira. Não tinha sabor. E o telejornal falou da doença e da fome. Dos desalojados e dos mortos de guerra. Da escassez e da ganância. Tranquei a porta antes de me deitar.

 

Tudo o que se diz existe. Tudo o que se escreve existe.

 

Quero o mundo das minhas histórias. Estou farta deste!


Marina Ferraz




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quarta-feira, 3 de julho de 2024

Duas toneladas e meia (de saudade)

 



Para Maria Graciosa Cunha de Almeida


Dizias sempre que eu levava muito peso. Que eras um peso. Ainda te lembras?

 

Deixava-te ficar mesmo na orla da praia. Espera por mim, um bocadinho. E lá voltava para trás, pela estrada de areia prensada, à procura de um lugar para o carro.

 

A Praia de São Julião era uma das tuas favoritas. Até te apaixonares, como eu, pela Adraga. Não importava se era numa ou na outra... Deixava-te lá. Mesmo pertinho da areia. E ia estacionar. E voltava. Carregando o chapéu de sol, a tua cadeira de praia, as duas toalhas, o saco com a merenda e os protetores solares. Um livro – quantas vezes de poesia, para ler para ti? – e mais o que fosse preciso.

 

Alcançava-te. Sorrias-me, ao veres-me chegar, como se não me visses há muito tempo. E eu sabia que tinham sido apenas alguns minutos. Mas olhavas-me assim. Com esses olhos pequeninos e escuros, atrás das lentes grossas dos óculos amarelados. E eu sorria de volta, sentindo-me o centro do mundo.

 

Colocava o peso inteiro num dos braços e dava-te o outro. Agarravas-mo. Mas fazias isto sempre com a mesma relutância. Dizias que eu levava muito peso. Que eras um peso. E eu assegurava-te de que estava bem. Porque estava. E que não pesava assim tanto. Era mentira.

 

A verdade era outra: tudo aquilo pesava duas toneladas e meia. E, mesmo assim, eu seguia a pensar que me tinha esquecido de alguma coisa de que podias precisar. Os teus passos eram lentos e morosos. Pesavam-me mais no braço quando deixávamos o passadiço e palmilhávamos a areia. A verdade era esta: tudo aquilo poderia pesar o dobro e eu ainda o faria com o mesmo amor. O peso era leve, porque era teu, por ti... e eu amava ver o teu sorriso na contemplação da praia, do mar, das arribas. E eu amava a tua voz, dizendo: já não pensei que visse isto. E eu amava pousar a cabeça no teu colo morno do sol, sentir o carinho dos teus dedos entre os fios desgrenhados do meu cabelo. Sentir esse amor incondicional.

 

 

Atravessar a praia pesa-me mais sem ti. Às vezes, quando piso a areia. De carteira no ombro e telemóvel no bolso, sinto falta de todas as trouxas e do peso quente do teu corpo. Gostava de ainda ter de carregar, pela areia, essa carga que me deixava as pegadas fundas, ao lado das tuas.

Mas o peso esvaece. Mesmo hoje.

 

 

Sabes? Às vezes, olho para o lado, à procura das tuas pegadas. Não as vejo. E lembro a parábola triste do descrente. Como não sou católica, não pergunto porque me abandonaste. Agradeço simplesmente, porque sei... Agora és tu que me levas ao colo.

 

Sinto-me leve. Como me sentia quando ancoravas o corpo no meu corpo carregado de tralha. E avançávamos juntas pela areia de toda a nossa cumplicidade.


 Marina Ferraz


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terça-feira, 25 de junho de 2024

Adoro...!

 

Imagem retirada da web | Pexels

Eu adoro ouvir as pessoas que defendem o indefensável. Há algo de absolutamente tranquilizante no imenso vazio que preenche as suas mentes, onde o cérebro, se existiu, desertou. Resta um espaço oco e de ecos. Como uma sala abandonada de uma fábrica de fertilizantes orgânicos, com a luz entrando pela janela dos olhos e mostrando as manchas nas paredes, qual gravuras rupestres pintadas a dedo por bebés tristes a quem não mudaram a fralda. 

O vazio entre as paredes soa pacífico. Isto, embora imagine que a proliferação bacteriana provocada pelos resíduos de adubo e lixo, bem como a rega frequente da Tirania justifique o cheiro nauseabundo das palavras que lhes saem pela boca, enquanto mastigam pastilhas elásticas com sabor a Os-Media-Disseram. Seja como for, adoro ouvir as barbaridades que dizem. Deixo notas, em forma de lembrete frequente, a mim mesma, dizendo que é importante querer o bem de toda a gente. E, por isso, mesmo detestando as mensagens, eu adoro ouvi-las na voz das pessoas ocas.

 

“Eu não acredito que há fome em Portugal...”, “eu acho que as imagens da guerra são criadas por IA”, “eles dormem na rua porque querem”, “mesmo que seja uma criança que tenha sido violada, ela deve levar a gravidez até ao fim”, “não dou para a Cruz Vermelha, nem para o Banco Alimentar porque os armazéns estão cheios de produtos estragados e os beneficiários deitam os produtos fora”, “eutanásia é matar velhinhos”, “os estrangeiros e os pretos deviam ir para a sua terra...”.

 

Adoro. Fico feliz, na verdade. Ainda bem! Que bom!

 

Porque quem o diz, não passa fome. Porque quem o diz, não está a fugir da guerra. Porque quem o diz não dorme em cima de cartão, nem nas tendas dos jardins. Porque quem o diz não foi violado na infância, nem engravidou do violador, nem tem dificuldades que o impeçam de criar um filho. Porque quem o diz nunca soube o que é precisar de pedir ajuda para ter o que comer, o que vestir. Porque quem o diz não está com uma doença terminal e a sofrer de forma indizível a cada respiração. Porque quem o diz não teve se emigrar para se proteger ou encontrar uma oportunidade de trabalho, ou de enfrentar a vida com dificuldades maiores só por questões relacionadas com a melanina.

 

Adoro que haja quem o diga. O indizível. Quem o defenda. O indefensável. Por entre o nauseabundo de palavras que não consigo subscrever, escolho o amor em vez do ódio. Ainda bem! Quem bom! E, quando o digo, ofendem-se.

 

O eco da bondade no vazio entre as paredes da sala abandonada da fábrica de fertilizantes orgânicos que têm dentro traz a memória do pensamento que deveria povoá-lo. De repente, por um momento, a tranquilidade é abalada. E nenhum tirano sabe fazer mais do que deixar que as ideias injustificadas, injustificáveis, sejam mais do que verborreia. Quem não tem argumentos, fala muito para não dizer nada. Discorrem longamente sobre as teorias, como quem tenta explicar as razões pelas quais a Terra é plana. Porque sabem que também eu não passo fome ou vivo na rua. Que também eu não enfrento a guerra, o racismo, a xenofobia, a doença indizível ou a gravidez indesejada. E que, mesmo assim, escolho estar do lado da História onde se colocam os que defendem a equidade, a justiça e a paz.

 

Dentro da minha própria cabeça, sinto o pensamento doer. É para isso, também, que servem os cérebros. Para nos dizer, um dia, que tiremos da boca a pastilha elástica com sabor a Os-Media-Disseram e a colemos debaixo da carteira. E é então que abrimos o livro. Um atrás do outro. E descobrimos que tudo é um ciclo. De onde vimos. Para onde vamos. É absolutamente assustador! E, de algum modo, encontro paz quando encontro esse vazio, todo cheio de uma placitude que eu não conheço... com paredes pintadas a gravuras rupestres – agrestes e rudimentares - pintadas a dedo por bebés tristes a quem não mudaram a fralda.

 

Eu adoro ouvir as pessoas que defendem o indefensável. Há algo de absolutamente tranquilizante no imenso vazio que preenche as suas mentes.


 Marina Ferraz


CONVITE

26JUN - 19H | Adega Belém | Adega LêBem 

 - Convidados, Poesia, Artes, Open Mic | Festa de Anos Marina Ferraz




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