terça-feira, 9 de março de 2021

O resumo

 


Sumários, resumos, sínteses e breviários. Nunca tive jeito para eles.

 

 

Era coisa de menina. Cabeça no mundo dos sonhos. Universos de fantasia na cabeça. Lápis e caderno. Um Jardim Secreto. Umas férias grandes. Um trabalho de casa. Se o livro tinha 110 páginas, o meu resumo tinha 20. E a professora lá escrevia, debaixo da resma de papel, ativa representante da floresta que eu tinha acabado de destruir: Falta de espírito de síntese. À qual acrescentaria a jocosa nota. Ao menos já não preciso de ler o livro.

 

Era uma coisa de menina. Sumários, resumos, sínteses e breviários. Nunca tive jeito para eles. Mas também era uma coisa do eu. E que cresceria comigo. E que tomaria o seu lugar nos patamares da minha realidade.

 

Não sou de reduzir nada a uma palavra só. Uma lista de compras – tarefa alegadamente simples – complexifica-se. Em frente ao nome dos artigos, lá se encontra a nota do local onde estão em promoção ou a justificação da necessidade da compra, ou outra nota qualquer, só porque sim. Salmão (está em promoção na superfície comercial X), detergente da roupa (mas só se estiver com um bom preço porque ainda tenho para duas lavagens), uvas (ver se há das brancas e se estão decentes).

 

O mesmo se passa com questões simples. Não há conversa sobre notícia de jornal que não gere conversa sobre o jornalismo, sobre o estado do mundo, sobre os antecedentes históricos que nos trouxeram aqui ou sobre o potencial de mudança. Análises simples sobre o rio que transborda com a chuva transformam-se em cáusticas observações sobre as alterações climáticas, o degelo dos glaciares, a globalização do conhecimento, as lógicas do capitalismo e a forma como – real e metaforicamente – é quem está na “baixa” que se afoga.

 

A minha professora tinha razão. Tenho falta de espírito de síntese. Ou talvez só de síntese, por excesso de espírito.

 

Nunca fui muito boa a resumir numa palavra o que quero dizer. Seja para o ato mais simples do quotidiano ou para o mais complexo. Sempre achei que as palavras deviam vir em conjunto, numa verdadeira celebração discursiva, que as misture e encadeie, em lógicas e semânticas e demagogias. E nunca tive medo delas, pelo que as usei sempre, em abundância, para tudo e nada. Mesmo quando, sozinha, divago apenas com as paredes sobre assuntos diversos, que tanto podem ser sobre Física Quântica como sobre como a melhor estratégia para encaixar as minhas 30 horas de tarefas nas 24 horas do dia e ainda dormir um pouco.

 

Sumários, resumos, sínteses e breviários. Nunca tive jeito para eles.

 

Falei sempre pelos cotovelos. Escrevi sempre até me doerem as mãos. Criei um calo de escrever no dedo que frequentemente me apetece mostrar aos políticos nacionais. Nasci e continuei sempre a ser uma pessoa que prefere pecar pelo excesso do que pela falta.

 

E, depois, penso na Morte. Como não sou sintética, pinto sempre uma história extensa em torno da forma como ela há-de vir até à minha cama, sentar-se ao meu lado e falar comigo, antes de me levar. Também essa conversa é desenvolvida e longa, até porque caraterizo a Morte com muitas palavras, que lhe definem o semblante e a voz e a extensão da mágoa, antes que se inicie o diálogo. Mas, quando o diálogo vem, uma das questões – entre as muitas outras que idealizo – pede-me síntese.

 

Imagino que a Morte - senhora de negro, perpetuamente escrava da sua condição de eternidade e dona de uma empatia muito rara – me pergunta assim: Se tivesses de dizer o que definiu a tua existência, o que te levou pelos anos, o que te deu sentido, para que nasceste e viveste neste mundo, o que dirias?

 

Imagino que a Morte tenha pressa. Imagino que tenha mais onde ir. Mais sopros para cessar. E, claro! Sumários, resumos, sínteses e breviários. Nunca tive jeito para eles. Mas imagino-me a ter!

 

Imagino que, com simplicidade, resumo tudo atabalhoadamente e sem medo. Confiante e firme. Imagino que, erguendo a mão para agarrar a dela e ir, deixo o sopro voar com as asas da eternidade, numa resposta breve.

 

Para amar.


Marina Ferraz






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terça-feira, 2 de março de 2021

Fénix

 

Fotografia de Astro Photography



Anoitece-me o olhar. Quando o céu olha os meus olhos, as suas nuvens são gás e poeira. Cor. Nesse escrutínio morro e renasço. Vivo. Sejam bem-vindos ao Caos.

 

 

Saio pelas ruas procurando ervas e vigas. Há tons de canela e mirra, de sálvia e de osso. Preparo a pira. Sobre ela me deito. Paixão a paixão, a história vira embarque e ninho. Desapareço nas labaredas da crónica que ninguém escreveu. Consumida pelo gelo cálido das injustiças da Terra.

 

A luz das madrugadas infelizes dita-me dois destinos indulgentes. Força e imortalidade, de mãos dadas com o vazio, transfiguram-se em pó. As penas soltas. Um futuro que ondeia na insensatez da queda. E eu voo para o oculto.

 

Observo o céu aberto onde os pirilampos moram. E ele olha para os meus olhos, que inevitavelmente são mar. Sódio e pranto. Olhos que ardem. Sangram. Neles se reflete toda a imagem do corpo que já não sobra sobre a pira que acendi, regada de amargor e com acendalhas ocas.

 

Palavras e gestos. Ausências. Espaços brancos entre a ode e o ferro. Lâminas de gadolínio. Tóxicas. Com um número atómico indefinido de questões que descrevam o rumo da História.

 

Incendeio-me na aurora e renasço na penumbra do pensamento, quando anoiteço. Os olhos interessados do céu, focando-se em mim como se fosse braço estrelar de uma constelação qualquer.

 

Imploro ao céu que não olhe. Mas cada um dos seus astros é olho, impregnado de interesse e indiscrição, tentando mergulhar no mar nebuloso dos meus versos para encontrar portais para o Reino dos Sonhos.

 

À medida que me arde a carne carcomida pelos demónios mundanos a que chamam gente, eu percebo que o calor emana um aroma de violetas e flor de macieira. Faço amor com a simplicidade nua das cinzas. E o céu aplaude. Aplaude quando me anoitece o olhar. Quando ardo. Quando sorrio. Quando morro. Quando renasço.

 

De repente, por entre a cinza, novos olhos e novas cores. Olhos abertos de espanto na novidade do eu que se renova. E o céu olha novamente os meus olhos. Neles, encontra sobrevivência e engenho. Amor e morte. Medidas certas de incerteza.

 

 

Anoitece-me o olhar. O Caos, plantado a 1500 anos-luz de distância, é parto e berço das minhas estrelas. Verte-se dela a água da Vida que eu bebo. Há lágrimas rosadas e azuis nos olhos que me fixam. Espelho inconcreto destes meus olhos que choram com as suas nuvens de gás e poeira.

 






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terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Encontro

 


Marquei encontro comigo. Combinei que seria pelo cair da noite. Quando a luz da tarde começa a enrubescer, criando traços corados junto ao horizonte.

 

Havia de me deitar sobre o aconchego de mantas e de privar comigo por alguns momentos. Neles, reveria um pouco da história dos meus muitos passados, onde a falha se misturou sempre com a força de novas tentativas, ainda que a luta fosse contra os ventos que o destino predefinira e que nunca me eram favoráveis.

 

Marquei encontro comigo. Estipulei que, desta vez, ia ouvir mais do que ia falar. Ouviria. Ainda que nenhuma das palavras se verbalizasse. O silêncio dos lábios é favorável ao cantar do pensamento. Escutaria essa canção. Mais uma vez.

 

Marquei encontro comigo. Sabia muito bem que também os demónios nos acompanhariam e, por isso, convidei-os para que também fossem, com o aviso – talvez improfícuo – de que deveriam manter a compostura.

 

Era um rito entorpecido no ocaso. Um sopro suspirado e eterno. Para que pudesse ir. Para que pudesse dar voz a mim mesma. Para que pudesse dar a mão a mim mesma. Para que eu pudesse ser, ao menos por uma vez, tanto para mim quanto fui para os outros.

 

Marquei encontro comigo.

 

Mas – ironia - vieste. Distraíste-me. Esqueci-me de mim. Os ponteiros continuaram a dançar no som da vibração do teu riso e do meu. Valsas de giros e giros badalados, constantes.

 

O céu enrubesceu. O céu enegreceu. O céu clareou. E a minha voz entorpecida pela ânsia dos sabores da vida, esqueceu-se de cantar. E eu esqueci-me de que lhe devia os ouvidos e o tempo.

 

Marquei encontro comigo e não fui.

 

Só me apercebi depois, quando o riso virou distância. E a palavra virou silêncio. E a amargura era o mel que temperava os meus passos.

 

A ausência de mim pesou. A solidão instalou-se novamente na tua cadeira, que lhe é trono. E as vozes, silenciadas no meu peito, puniram-me pelas decisões inesperadas e tomadas de improviso. Veio a dor. Uma dor aguda como o silvar do vento nas janelas. Rasgou-me a garganta. Emudeceu-me. Mas eu também já não tinha nada para dizer…

 

No silêncio, comprometi-me novamente. Prometi. Se algum dia tornasse a marcar encontro comigo, havia de ir e de me deitar sobre as mantas, de ouvir mais do que falar, de entrar nesse rito expiado, feito de sopros e libertações. E aproveitaria o ocaso e a noite e a alvorada nessa companhia feita de mim, com os fantasmas e os demónios e a insanidade.

 

Talvez um dia venhas e me abraces. E, caindo nos enclaves de um corpo sem alma, talvez não me encontres em mim e estranhes.

 

As promessas são sagradas e eu já falhei demais.

 

Um dia, marco encontro comigo… e vou.


 Marina Ferraz




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terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

A Guerra do Eterno

 


Quando eu nasci, a minha alma já tinha vivido muitas vidas. Era idosa, idónea, sábia. Tinha muitas eternidades no âmago. Já tinha sido pacifista e guerreira, conhecido o amor, perdido o amor, recuperado o amor. Quando ela nasceu, vinha pronta para viver. Tinha todas as ferramentas, todos os conceitos, todas as aptidões. Mas o corpo era novo e teve de aprender tudo outra vez.

 

Primeiros passos e primeiras palavras soaram a primeiros sonhos. Criados na voz das estórias antigas dos contos que se contam às meninas de ilusão fácil. Mas a alma já tinha passado pela desilusão e dizia, nas entrelinhas, com um toque de realidade por entre o glitter, que a vida não era destino mas guerra. Assim. Prepara-te, menina: quando as pernas te forem mais longas e os dedos mais eficazes, haverá mais vilões do que heróis na tua história. Prepara-te para lutar.

 

O vilão da vida era o tempo. O tempo, diziam-me os adultos, levava os sonhos. Corroboravam com as palavras da alma sobre a noção tardia de dificuldade, distanciando-se, ainda assim, da sua rebeldia eterna. Nos seus ensinamentos, cada vez mais negros com o passar dos anos, saíam pedaços de sabedoria gelada e crua. Diziam que era preciso deixar que o tempo nos mudasse. Que era essencial crescer. Largar os sonhos-meninos. Avançar pelo concreto. Calçar as normas dos outros. Anuir. Aceitar.

 

A minha alma já era velha quando eu nasci. Não havia parte dela que estivesse disposta a ceder. Dizia-me, na sua voz idosa: Se maturidade é desapego, escolho não amadurecer. Se crescer significa largar a magia em nós, escolho não crescer. E, se ser adulto é deixar de voar na sinestesia das horas, então para que raio fizeram os Deuses um céu tão vasto? Cresce, mas não deixes que te cortem as asas!

 

O corpo que crescia ouviu. Ser adulto não é esquecer a criança que fomos. Ao ouvir mais o Universo que ficava por dentro do que o mundo que ficava de fora, o meu corpo crescido escolheu, sem pensar, todas as batalhas dessa Guerra do Eterno.

 

Defendensor de sonhos e conceitos só seus, descobriu que ser adulto é um combate constante em defesa da criança que se foi. Mas também compreendeu. O sonho é uma nação inteira pela qual vale a pena lutar. O sonho é uma nação inteira pela qual vale a pena morrer.

 

Vou só, nessa batalha contra os anos que passam, contra as horas e os minutos e os segundos. Combatendo-os, todos os dias, quando me dizem para desistir.

 

Eu sei. Dizem que o tempo rouba os sonhos. Mas não. O tempo só leva os sonhos das almas que se rendem.

 

A minha alma é resiliente e louca. Quando eu nasci, já tinha vivido muitas vidas. Era idosa, idónea, sábia. Toda feita de eternidades. Aceitou, com este corpo, o desafio de uma nova guerra pelo Eterno. Tomou o seu lugar sobre a minha pele massacrada. Pediu-me que não desistisse e jurou-me lealdade. Depois, com a sabedoria das suas mil vidas, pediu que escolhesse a minha arma e avançasse, de peito aberto, na luta pelo sonho.

 

Fui.

 

Da sua dedicação fiz armadura. Abri o baú das armas. Escolhi o amor… e as palavras.

 

 Marina Ferraz


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terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

A viagem

  

Sentou-se no carro. Acendeu os faróis. A noite tinha tonalidades amareladas, inundada pela luz doentia de uma cidade que apagara as estrelas.

 

Limpou o rosto com as costas da mão. Olhou para o traço negro do rímel que, certamente, teria espalhado pela face. Girou a chave na ignição.

 

Pelo seu rosto, insistentemente, caíam lágrimas anafadas. Um rio largo, onde as margens eram os fios de cabelo e a foz era o peito deserto.

 

Sentou-se no carro. Dentro de si, tudo soava a incapacidade de estar. Paredes e tetos de insensibilidade, agregados ao aroma pútrido de uma solidão que pesara mais e mais com o passar dos anos, e depois das semanas. E depois dos dias. E depois das horas. Passo a passo, até cada segundo ser excruciante. Passo a passo até não conseguir respirar mais, na sua própria companhia só.

 

A pouco e pouco, o papel de parede da sala tinha começado a zombar dela. Uma zombaria que fazia saltar formas concretas dos desenhos abstratos. Eram quase sempre animais selvagens, que a atacavam e lhe rasgavam a pele, deixando cicatrizes subcutâneas.

 

Tinha-se levantado de um ímpeto e saído sem trazer mais do que a chave do carro. Tentando fugir dos animais e das vozes e do frio das paredes, constantemente ecoando, ecoando, quando, ando, ando…

 

Estava permanentemente disfarçada de pessoa mas já não se sentia humana há muito tempo. Já não se sentia gente há muito tempo. Já não se sentia viva há muito tempo. E o motor rugia. E o motor que rugia era a única esperança de libertação, de fuga.

 

Havia o  impasse.

 

Limpou novamente o rosto. E novamente o sujou de negro, sem se importar. No espelho central, o seu reflexo refletia a história da sucata interior, onde se amontoavam as peças de todos os sonhos que não tinha cumprido e de todos os que já não podia cumprir.

 

Algures, uma chuva miudinha começava a pontear o vidro empoeirado. Encostou a cabeça ao volante, com as mãos em guarda. Depois, recostou-se.

 

As estradas estavam vedadas. Mesmo que as estradas não estivessem vedadas, que destino poderia servir-lhe?

 

Desligou o motor.

Desligou as luzes.

 

Desligou o seu motor e as suas luzes.

 

Quando a encontraram tinha traços negros no rosto e gotas de chuva no cabelo. Sorria.

 

Para onde vamos quando queremos fugir de nós?



Marina Ferraz


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terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Reencontro

 



Olhei para ela.

 

Quando travei conhecimento com ela, ela tinha medo de tudo. Aos bocadinhos, enquanto crescia, num processo sublime e subliminar, ela libertou-se. Tem as costas mais direitas e já não fixa os olhos no chão, nas mãos, nas folhas… os horizontes alargaram-lhe a noção e o sorriso. Do seu semblante retiramos, por vezes, uma força maior do que a de um pelotão. Parece invencível. Acredita que o é. E, por acreditar, torna-se o que julga ser. Permanece erguida, seja qual for o vento, a ofensa ou a investida. Mas também não tem medo de cair porque sabe que, por maior que seja a queda, com mais ou menos cortes nos joelhos e na alma, acabará por se erguer de novo.

 

Olhei para ela. Ninguém diria que é a mesma!

 

Quando a conheci, ela precisava da aprovação dos outros. Tal era o temor de pôr um pé à frente do outro, que eram mais as vezes em que tropeçava do que aquelas em que caminhava fluidamente pelas ruas. Escondia-se em cada canto, afundando nos sofás das festas e encostando-se às paredes nas apresentações públicas. Desaparecia no cenário, sem beber do ambiente nem o momento, nem a vibração, nem a sonoplastia. Largando o silêncio, ela transformou-se no ambiente dos espaços. Vejo-a provocar riso com frequência. Há quem diga que é a alma das festas e o espírito dos eventos. Alguns dirão que faz figuras tristes. Mas ela está-se a cagar para a opinião dos outros. Compreende, finalmente, que essa noção de si é apenas isso mesmo: dos outros. Não diz nada sobre quem ela é ou virá a ser no futuro.

 

Olhei para ela. Quem é esta pessoa?!

 

Quando a descobri, ela era do tamanho da sua altura. Agora tem universos e constelações lá dentro. Muitas das suas galáxias giram em torno de uma estrela feita de amor. Mas ela já nem do amor é escrava como era, nesses tempos antigos, quando a conheci. Agora, é escrava da liberdade… e só! Do amor ela quer, agora, outras coisas. Companheirismo, verdade, partilha, momentos e um presente cheio de luz. Desapegando-se dos conceitos de um futuro que não sabe que tem, ela tornou-se rainha do hoje. E, hoje, ela tem numa mão o cetro dourado de sonhos só seus e, na outra, uma orbe sem cruz, representando um mundo sem fronteira de religião. Tem o tamanho dos sonhos que carrega. E eles são infinitos, tal como a Natureza que ama, honra e carrega no peito.

 

Olhei para ela. Foda-se! Que orgulho!

 

Quando a conheci ela esperava pacatamente, do destino, algum traço de benevolência e de bondade que lhe permitisse ser feliz. Cansou-se de esperar. Foi a benevolência e a bondade que esperara do destino, construindo a sua história com esforço, dedicação e trabalho. Construindo a sua própria felicidade. Escolhendo a sua própria felicidade. Já não espera por nada que chegue simples e gratuitamente. Tem demasiadas coisas para fazer e não quer (nem consegue!) aceitar o sedentarismo, a morosidade e a inação. É a autora da sua história e de muitas estórias. Desfia as cordas normativas do mundo, desafia os seus conceitos, rebenta com grilhetas e vai…

 

Olhei para ela.

 

Teci-lhe um elogio ou dois, que em nada a espantaram, mas que ela agradeceu à mesma, porque é esse o seu jeito!

 

Olhei para ela. E, depois, com um sorriso no rosto, saí da frente do espelho.


Marina Ferraz



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terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Pessimismo

 


“Não sou pessimista. O mundo é que é péssimo.”

- José Saramago

 


Não creio que a felicidade volte.

 

Esta foi a frase que ela disse, fechando a porta e apagando as luzes. Colando páginas antigas de jornal nas janelas e arrastando-se até ao sofá, onde se escondeu sob a manta velha.

 

Tinha as mãos geladas e o gato miava. Ouvia-se o som do pensamento errante, quando pressionava as tábuas soltas do soalho humedecido. Os espelhos refletiam sonhos que nunca se tinham concretizado. E a figura itinerante da mágoa insistia em sentar-se na poltrona mais cómoda, olhando para ela, com desprazer impresso nas rugas ocasionais que a eternidade causara.

 

Lá fora, prostituíam a palavra amor e faziam autos de fé à liberdade. Os olhos eram cúmplices da língua que não tinha pudor na denúncia. O ódio patrulhava a cidade, levando mais depressa a mão às armas do que ao sentido de empatia.

 

Pediam a toda a gente que pagasse com cartão, para evitar que o dinheiro sujo contaminasse as mãos cansadas dos escravos. Mas o único cartão que a maioria das pessoas tinha era aquele que puxava para os becos escuros, para encontrar abrigo e dormir mais quente.

 

Ela tinha sorte porque tinha um teto. O teto protegia-a de inimigos visíveis e invisíveis, como um deus sem religião, que só cedia quando a chuva caía durante mais de meia hora seguida.

 

Não creio que a felicidade volte.

 

Repetiu, com a voz abafada pela manta, que tentava colmatar a temperatura constantemente gélida, que vinha da rua e da casa e da alma, encontrando-se toda na pele que, insistentemente, não aquecia.

 

A figura atroz da mágoa que se sentava na poltrona, agitou-se levemente e ofereceu-lhe concordância em silêncio. O gato miava.

 

Lá fora, o som das sirenes ajudava a ocultar o som que o estômago vazio das pessoas fazia. Já não se alimentavam de comida e de esperança há muito tempo. Quase desde o tempo em que ainda sobrava, nelas, esperança de que a carta fundamental fosse fundamentalmente resistente a qualquer vírus de tirania.

 

O som das sirenes também lhe escondia os sons orgânicos. Mas lembrava-lhe a morte dos pais. Dois tiros certeiros, por saírem na hora errada, do dia errado, por uma necessidade qualquer.

 

Já lhe tinham cortado a eletricidade há alguns meses, por falta de pagamento. Mas, para abafar aquele som terrível, de sirene e desgosto a sinalizar o deserto das ruas, ligou o rádio a pilhas para buscar conforto.

 

Claro: a música era coisa rara. A cultura fora a primeira a cair quando todas as estruturas tinham abanado. Os artistas tinham sido os primeiros a dar o peito às balas e a pintar as ruas de vermelho. E ela tinha saudades da música e do teatro e da poesia.

 

Estática interrompia a voz do jornalista que anunciava uma nova vaga de doenças e terminava com mensagens de esperança sobre um amanhã melhor. A mágoa levantou-se da poltrona, rindo e saiu, deixando a porta aberta.

 

As sirenes estavam mais próximas. Entraram com o vento. E ela deixou que a porta assim ficasse, escancarada, deixando entrar sons e sonhos e saudade de tempos que a memória já apagava.

 

O frio enregelante arrepiava-a. O gato que miava fugiu. Ela destapou-se. E repetiu:

 

Não creio que a felicidade volte.


Marina Ferraz



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terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Rotina

 

 Fotografia de Rui Barroso


O despertador toca. Ritmadamente. Arrancando-nos do sonho pesado e do sono leve, onde continuamos a contemplar, com a mesma desatenção, o impossível. Na ânsia de desligá-lo, há o rebolar sobre o próprio corpo, o esquecer de que o travão humano e cálido que povoava a cama é, hoje, apenas uma botija de água quente (agora morna), a separar-nos do precipício no fim do colchão. Há a queda. Nada de espalhafatoso. O pé chega antes das costas, sustenta o peso. Mas o chão, húmido e frio, como o resto da casa, lembra-nos de que a hora de levantar é essencial para que se pague a conta da luz, já astronómica, mesmo sem desumificadores e sistemas de aquecimento.

 

Quem nos manda ficar em casa talvez não o saiba, nas suas casas com ar condicionado e soalho térmico radiante, salamandrazinha de pellets e lareira com recuperador. Mas, para a maioria dos seres humanos, as casas são mesmo assim. Calor não é conforto a que todos tenham acesso.

 

Da lavagem do rosto à higiene matinal, com a gata a pedir atenção e um sol envergonhado a espreitar pela janela com o cuidado de não entrar, por temer que, se entrar, não possa sair mais; e até ao primeiro café do dia: luxo imprescindível no começo destes tempos sem rua.

 

A rotina faz-se no trabalho e na arrumação sucessiva do que está desarrumado e do que pode ser reorganizado. E, depois, faz-se no acumular de novos trabalhos e no deixar que tudo se desalinhe novamente. É preciso que haja algo para fazer. Se não houver, corremos o risco de que o corpo parado seja invadido pelo frio que o rodeia. E, como toda a gente sabe, quando o corpo enregela fica só o pensamento. Quente e ativo, o pensamento leva-nos com facilidade a lugares de tristeza e revolta.

 

De repente, no sedentarismo de um sofá, somos engolidos pelos sonhos que não cumprimos, pelas más decisões que tomámos, pelas preocupações que acumulam sobre o lugar para onde as coisas caminham nestas ruas desertas de gente e de sentido. Tentamos distrair-nos. Contamos os carneiros nas redes sociais. Um, dois, três. O frio deles deve ser melhor do que o nosso. Pensamos. Pensamos mas já nem dizemos. Há uma mudez inerente ao desassossego. Adianta de pouco ter vontade de falar quando se está só.

 

Salta, das notificações das notícias, a ideia de que mudaram as restrições e que devemos cumpri-las para nos protegermos. O pensamento continua a fazer jornadas de 24 horas por dia e 7 dias por semana. Serve sinapses a postigo e traz sempre conclusões no pires, de oferta. Não tem cafeína mas oferece insónias gratuitas que nos obrigam a colocar novamente o despertador para que consigamos sair da cama no dia seguinte, para viver mais um dia frio. Esse pensamento não é contra estar em casa – onde, aliás, sempre gostou de estar – nem tem como intuito pôr o corpo que povoa ou os demais em risco. Mas é um pensamento tão livre, que permite excursões alargadas a todos os monumentos das arestas e defeitos e falhas tectónicas de nós, da nossa casa, da nossa sociedade, do nosso planeta.

 

O problema não é a casa. O problema nunca foi a casa. O problema é que, em casa, é mais difícil fugir da sala de tortura que todos temos dentro de nós.

 

O despertador toca.

 

Desligo o despertador.

 

Tiro um café.

 

Estou cansada. Doem-me as costas. Tenho frio. É só de mim ou este Inverno está mesmo muito frio?!

 

Enquanto bebo o café, penso que gostaria de aproveitar o sol num jardim qualquer. Salta das notificações das notícias que eu sou a causa de todos os males do mundo.


Marina Ferraz



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terça-feira, 12 de janeiro de 2021

A pessoa que me salvou a vida

 


Ela não era nada de especial. Ou, na verdade, talvez fosse. Diziam que era. Mas de forma condescendente. Especial nunca significava especial. Especial significava muitas coisas. Difícil, diferente, estranha. Especial era a palavra condescendentemente colocada na frase, por aqueles - tão poucos - que se preocupavam com a ideia de não a ferir.

 

Aos meus olhos, ela não era nada de especial. Baixinha, gorducha, de cabelos desgrenhados. Sempre agarrada a cadernos cujas capas rasgavam do uso excessivo. Sempre agarrada a canetas cuja tinta durava dois dias. Com os fones nos ouvidos e baladas fora de moda aos berros. Atenta às letras e desatenta das pessoas. Com medo de abrir a boca em público, nem que fosse apenas para pedir um hambúrguer ou uma colher para comer o pastel de nata como as crianças.

 

Ela não era nada de especial. Se não sabiam dela, o mais provável era que estivesse na biblioteca. A apaixonar-se pelos livros e o xadrez e os rapazes que também se escondiam entre aquelas prateleiras literárias. De forma leve e fugaz, nem sequer sabia o que era o amor... mas construía, sobre ele, narrativas épicas que tomavam contornos muito mais maduros do que os seus anos de idade.

 

Não sendo especial, ela era excessiva. Arrastava muitas histórias sobre os ombros. Tantas que eram mais do que as que tinha vivido. O horizonte das pedras do chão era-lhe familiar como o mar é familiar ao sol que se queda no fim da tarde. Mas cada pedra tinha uma história só sua. E, se não tinha, ela inventava-a. Acreditava que todas as coisas deviam ter um nome, uma narrativa, uma vida. Até as suas cicatrizes tinham nome e história. Algumas - que amava – trazia da infância. Outras - que apagaria com facilidade, caso tal chance lhe fosse dada – eram já fruto de uma juventude onde a sanidade se tornava discutível. Gostasse delas ou não, dava-lhes nomes, história e razão; deixando-se riscar por elas com a mesma facilidade com a qual tatuava cadernos com palavras.

 

Essa menina não gostava do reflexo do espelho. Mesmo assim, ainda o preferia ao reflexo da sociedade. Temia que o mundo estivesse a seguir os passos da decadência e que, um dia, viesse uma guerra ou - pior - uma ditadura. Preocupada com essas questões, chamaram-lhe várias vezes desequilibrada e louca. Ou especial. Mas nunca no bom sentido.

 

Dizia que não se importava com as críticas. Era mentira. Ela importava-se. Mas não se importava – nunca se importou - o suficiente para mudar. E, com uma força inexplicável, foi uma muralha firme face a todos os ventos e marés, face a todas as adversidades.

 

Não mudar e não querer mudar é, aos meus olhos, o que a tornou especial. Não na medida da condescendência mas na da comparação efetiva com o que é normativo, regular, medíocre e banal. Os meus olhos, que a fixavam a partir da superfície espelhada do vidro, passaram de ver a menina gordinha e baixa, de cabelo desgrenhado, para ver uma imagem de força intemporal. Assistir ao embate que a colocava só contra o mundo, as pessoas e os outros, fossem eles quem fossem, foi limpando a imagem pouco clara que dela eu tinha e fazendo dela uma espécie de heroína só minha, sem banda desenhada que a apresentasse ao mundo.

 

Pego na fotografia. O corpo que pega na fotografia é magro e tem o cabelo esticado. Usa saltos altos, às vezes, e maquilha-se com frequência. Esse corpo pega na fotografia. É quando ele lhe pega que eu a vejo. Gordinha e baixa, de cabelo desgrenhado. Os meus olhos maquilhados brilham um bocadinho a olhar para ela e mostram-na a alguém, que me pergunta se tenho vergonha.

 

Encolho os ombros. Não. Não há vergonha que possa ter-se da pessoa cujas pernas trilharam o meu caminho. Nem vergonha que possa nascer das mãos que se deformaram para me fazer cumprir o sonho. Nem vergonha que possa existir sobre quem, com uma fé maior do que a divina, decidiu acreditar no amor e na sua própria essência, mesmo quando a vida, na sua crueldade, punha falésias à frente dos pés, no caminho dos espinhos secos. Esta pessoa, concluo, foi quem me fez quem sou. Esta pessoa salvou-me a vida.

 

Devo-lhe tudo o que sou. A essa menina gordinha e baixa, de cabelo desgrenhado. Penso que, de alguma forma, se ela não tem algo de especial, ninguém tem.


Marina Ferraz



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terça-feira, 5 de janeiro de 2021

A conversa

 

Fotografia de TanteTati


Sentei o meu coração no degrau. Obstinado e rebelde, todo cheio de frases feitas, anarquistas e insubordinadas, ele agastou-se, enterrando a face nas mãos e começou a contra-argumentação antes mesmo de ouvir o argumento, soltando um imaturo “tu não mandas em mim”.

 

Suspirei, engolindo a realidade que conheço bem. Essa de que não, não mando. Nem nele nem em todos os seus trabalhos de artesanato, onde o nó é dado no final de cada ponto, sempre com uma mestria digna dos melhores criadores. Mas não lho disse. Ainda trazia, suponho, aquela esperança irrazoável, despropositada e pouco sã de que, com a intenção certa e uma dose coerente de argumentos, um dia ele pudesse ouvir-me.

 

Não podes preocupar-te tanto com os problemas dos outros. Disse-lhe. Nem com os do mundo. Nem dar-te tanto. Nem amar tanto. Tudo isso é um caminho para a dor.

 

Assobiou para o lado. Trazia ventos frios do Norte com essa respiração que era trejeito de linguagem antiga, com uma etimologia muito própria. E repetiu, sem precisar de mais: “tu não mandas em mim”.

 

Tentei explicar-lhe. Sabes quando a televisão está ligada? Aquela pontada que sentes, feito corte na carne, ao ver ditaduras nascer de normas e pessoas cegas que a aceitam? Aquele remoer que sai das vozes de quem se diz sem teto, sem comida, sem futuro; que ecoa e faz danos nas tuas paredes arteriais? Aquela sensação de sufoco, que dá ferroadas sempre que assistes à morte prematura de alguém que não aguentou mais? Não é a televisão que te fere mas a tua teimosia. Não podes preocupar-te tanto com os problemas do mundo.

 

Respondeu-me. “Tu não mandas em mim”.

 

E, insistente, continuei. Ou aquela sensação de responsabilidade, que te acelera e mói, sempre que alguém que conheces te telefona, pedindo o teu conselho ou a tua ajuda. Já pensaste que poderias ser mais calmo, mais leve, se não obrigasses as mãos a clicar no verde incandescente, se não obrigasses as pernas a caminhar na direção dos problemas, se não fizesses com que toda a tristeza se embebesse nos poros da pele? Não digo que não te preocupes... Mas preocupa-te menos!

 

Respondeu-me. “Tu não mandas em mim”.

 

E, ignorando-o, continuei. Mesmo o amor. Vê bem: estás fora de época. Já ninguém é assim. As estações mudam e as pessoas também. Achas sensato o desenvolvimento desses sentimentos perpétuos em tempos de efemeridade? As pessoas chegam e vão. E tu ficas, com uma dose igual de amor por elas, estejam ou não. Sofres a saudade e a solidão com a mesma dose de desejo pelo bem-estar dos outros. E ainda te dizes feliz por essa felicidade que não te pertence. Também tens direito a ela, sabias? Podias amar menos, dar-te menos, aceitar menos e ser feliz com isso. A tua felicidade também importa. Ama menos.

 

Pensei que me respondesse. Assim. “Tu não mandas em mim”. Mas irritou-se. Levantou-se do degrau onde o sentara. Com uma força desumana, pôs as mãos nos meus ombros e obrigou-me a tomar-lhe o lugar, naquele pedaço de escada fria e marmórea, ladeado de paredes lisas e geladas.

 

Minha menina – começou – sentir dói. Dói como estar vivo deve doer. Porque o mundo é amargo e as pessoas sofrem e o amor, às vezes, magoa. Mas é a inquietude que te faz estender a mão aos outros. E é a mágoa que te faz querer plantar sorrisos. E é o amor que te leva até aos locais que são negados aos pobres de espírito. Por isso, lamento, vou sentir. Vou sentir tão plenamente que, em alguns dias, vais querer morrer. Tão plenamente que, em alguns dias, vais querer ser eterna. Tão plenamente como me apetecer.

 

Olhou-me ali. Derrotada, sentada no degrau, e olhou para mim, com um ar insolente. Antes de retornar ao meu peito ergueu-me o rosto, olhou-me nos olhos e acrescentou: “Além disso, tu não mandas em mim”.


Marina Ferraz



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