terça-feira, 19 de setembro de 2023

Garfo

 


Não estou equipada para o mundo em que vivo. Lamento. Se tivesse nascido na América já alguém me teria dito, estou certa, que a minha vida é a criadora informal da expressão “bring a knife to a gunfight” (“uma faca para um tiroteio”, portanto). Acontece que eu não gosto muito de guerras e guerrinhas... e não estou nem quero estar armada até aos dentes e preparada para este desgastante-mundo-novo, onde a construção mais sólida se desfaz em pó... em segundos.

 

 

Um garfo. Sabem? Aquele utensílio de mesa de criação ocidental, usual mas não obrigatoriamente metálico, com três ou quatro dentes relativamente aguçados, que serve, de entre outros propósitos, o de levar a comida na viagem que separa prato e boca. Um garfo! É isso que eu uso para fazer puré de batata... Batatas cozidas (geralmente com um tempo de cozedura extra, para facilitar processo), uma tábua de cortar vegetais, um prato fundo ou taça... e um garfo. Um processo milenar: põe batata na tábua, miga com o garfo até estar desfeita, raspa da tábua para o prato ou taça. Repete. Processo repetido vezes o número de batatas cozidas, com mais uma moidinha extra no final, para garantir a ausência de pedaços grandes e lá volta tudo para a panela. Manteiga ou margarina vegetal. Leite de vaca (ou vegetal). Manteiga ou margarina vegetal. (Vou cortar na descrição para não assustar quem teme o colesterol, mas ressaltando que o segredo é mesmo a manteiga). E voilá!! Habemus puré! Sem Bimby. Sem Passe Vite elétrico. Sem Passe Vite manual. Com um garfo!

 

 

Esta sou eu. Bem-vindos a mim. Gosto de fazer as coisas de maneira tradicional. De amassar a massa da piza com as mãos. De pintar paredes a pincel. De cozinhar com colheres de pau e fogões a gás. Perco a conta ao número de vezes que roguei pragas a fogões elétricos ou de indução, mais a quem os inventou! Da mesma forma, gosto de ler livros que posso cheirar e cujas páginas criam sensações na ponta dos dedos. E de escrever à mão. De sentir o papel liso. De abraçar a caneta com os dedos. Claro que é impossível fazê-lo sempre! Lá me rendo aos teclados dos computadores, que são esse facilitador de processo e acelerador de resultados. Mas só o faço porque, acima da vontade, necessidade efetiva a isso obriga. Diria Camões “que outro valor mais alto se alevanta”.

 

Sou dura de integração na modernidade. Parece que nasci fora de tempo, sem o chip certo para aprender a interessar-me e a utilizar os recursos novos. De muitos, acho ilusória a ideia de sirvam os interesses das pessoas, até porque vejo mais vezes as pessoas a servirem os interesses dos recursos. Não quero ser o velho do Restelo, mas contento-me com a ideia de o ser porque me preocupa o futuro-do-futuro nesta estrada onde o futuro-do-presente nos vai despojando de propósito. E sim, talvez me sinta injustiçada quando vejo a inovação roubar a essência da vida. Quando tudo o que tentei construir, palavra a palavra e passo a passo, em anos e anos de luta, se transforma em dúvida por parte de quem me conheceu antes de o mundo ser uma gigante plataforma de maquinazinhas e conteúdos digitais.

 

De que raio está ela a falar? Perguntariam. E bem! Porque sou humana e a mente dispersa no discurso, em vez de estruturar de maneira perfeitinha e sem espinhas o conteúdo do texto. Estou a falar da fadada Inteligência Artificial. Estou a falar do modo como, pouco a pouco, a vejo ir roubando o espaço das pessoas, criando um preocupante espaço vazio no que ainda existe de humano. Estou a falar do modo como a tenho visto, sorrateira, invadir o meu local de trabalho. Estou a falar da forma como os avisos sobre o seu uso começaram a saltar-me à frente dos olhos, mesmo sem que a use ou queira usá-la. E da forma como a substituição do homem embrutecido pela máquina inteligente gera, entre pessoas, relações de triste desconfiança, que se agrava à medida que se assume que tudo provém das conexões hiper-mágico-lógicas de um ser não-vivo.

 

Gosto de escrever. É talvez a única coisa da qual sempre gostei. Uma espécie de dom-maldição que arrastei, feito bandeira, pela vida. Trabalhei para poder trabalhar na escrita durante 28 dos meus 34 anos de vida. Insistentemente. Custou-me (quase) tudo. E nunca parei- Nunca desisti. Quis sempre ser melhor do que eu. Do que o eu que fui ontem. A IA é a Bimby dos textos. E chegou, aclamadíssima. Não sei por quanto tempo me vou safar com a minha caneta... ou mesmo com o meu computador velhinho ao qual já faltam – literalmente – duas  teclas.

 

 

Trouxe uma faca para um tiroteio.

 

Ou pior. Trouxe um garfo.

 

Não sei viver neste mundo.

(E o meu Velho do Restelo interior acrescenta que tenho muito, muito pouca vontade de aprender!)


Marina Ferraz




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quarta-feira, 13 de setembro de 2023

Turismo temático

 


Viajar é algo que a maioria das pessoas inclui na sua lista de “favoritos”. Ainda que os preços das viagens possam ser um impedimento, muitas pessoas optam por reservar uma parte dos seus salários frequentemente precários para aproveitarem um pouco do que o mundo tem à sua espera.

 

É comum que se ouça dizer que viajar é um luxo. Não é. Ou não devia ser. Viajar devia ser parte integrante da vida de qualquer pessoa. Estudos revelam que as viagens têm um impacto na construção cognitiva, no bem-estar e até mesmo na saúde. Mas as dinâmicas do capitalismo continuam a segregar pessoas, afastando-as das necessidades mais básicas... e ter um teto e comida na mesa ainda soa para quase todos mais importante do que conhecer o mundo.

 

Acontece que conhecer o mundo é fundamental para que se entenda que o salário e a cultura são precários. Acontece que conhecer o mundo é fundamental para que se entenda quão importante é a construção cognitiva e o bem-estar. Acontece que conhecer o mundo é fundamental para perceber que as dinâmicas do capitalismo são uma merda.

 

 

Independentemente do ponto de partida. E não me refiro ao local, mas à situação. O facto é que viajar se tornou fenómeno de instagram. Tendência. E ninguém se espante de ouvir dizer que muitos visitam os locais apenas para ter a foto ideal no local da moda. Acontece. E o turismo de criação de conteúdos sabe que é moda e insiste com o mercado temático para que se emancipe e vire moda também. E, claro, ainda que o turismo de influencer (ou com base no que disse o influencer) se destaque, a tendência, de facto, não anda só! Turismo balnear, de lazer, religioso, cultural, gastronómico, de jogo, de negócios, de saúde e – abençoado seja - ecoturismo são amplamente procurados. Procurados e, diria eu, ainda mais promovidos, fazendo-se acompanhar de promoções imperdíveis que facilmente são perdidas ou despojam um português de classe média de pelo menos um mês de salário...

 

Quando dou por mim, a vida deu-me o mimo de entrar nessa moda. A de viajar. Sem sair do país mas atravessando o oceano, senti a voz: Mundo, Marina. Marina, Mundo. Prazer. Olho em redor. Gentes. Cultura. Histórias. Alguém tem noção de quantas histórias se perdem nos recantos mais inóspitos deste planeta imenso?

 

Não vos quero falar de lugares. Os lugares são pedra gasta e a erodir. Aqui, maioritariamente (ou totalmente) fruto de erupções, do tempo em que os eventos explosivos não eram sobre as celebridades nas capas de revistas cor-de-rosa. Lavas marítimas e subaéreas empilham-se em milhões de anos de uma história em forma de cones e vales e disjunções prismáticas. E é por entre a lava solidificada que lavo a alma. Mas as ruas têm pescadores de pele gasta do sol e do sal e as senhoras de sorriso simpático ainda oferecem o pão e fazem biscoitos de rapadura. Pintam-se os muros das casas e os entornos das janelas. Passeiam-se vacas de carne pelas estradas e encontram-se cavalos à beira das estradas.

 

O senhor Manuel, acreditem ou não, esteve morto e voltou. A mulher prometeu um Império à Nossa Senhora dos Milagres. Quando desligaram as máquinas, depois de um AVC e de um ataque cardíaco que certamente o levaria – ou assim garantia o médico – acordou sem mazelas. O homem com quem falei e que oferecia um jantar de Sopa de Espírito Santo e vinho tinto “lá do Continente” estava bem vivo. E feliz por estar vivo porque não queria ainda deixar os três filhos biológicos e os três filhos adotados, e queria ter mais uma oportunidade de viver no mundo onde serviu de família de acolhimento a mais de 230 crianças. A ilha – desta feita de Santa Maria, nos Açores – rumou a Milagres para comer e celebrar. O senhor Manuel tinha matado e cozinhado quatro vacas e durante um fim-de-semana, cumpriu assim a promessa, grato pelo milagre da sua segunda vida.

 

O senhor Manuel não está num roteiro turístico e não é, talvez, a foto instagramável que os meus seguidores esperavam ver. Mas é a expressão de uma tradição tão antiga quanto a ilha, esta que é a anciã dos Açores. E é, possivelmente, a mais bonita história de viagem.

 

Sentada numa mesa corrida, lado a lado com gentes que tinham histórias, eu trouxe o souvenir mais valioso de todos para casa. Um que vem com uma casquinha fina, que posso exibir em palavras, mas com um centro “tão requim” que é muito difícil transpô-lo para letras e textos.

 

São experiências de luxo. Mas viajar não devia ser. Um luxo. São histórias que nos modelam. Mas viajar não devia ser. Uma moda. Viajar devia ser para todos e porque todos precisam de se conectar com realidades além da sua realidade.

 

O mundo está a globalizar-se e as pessoas estão a individualizar-se. Algumas pessoas recusam-se a viajar até para fora de si mesmas, para aceitarem os outros e as suas formas de estar e de viver. A minha velha máxima “ser e deixar ser” está em desuso.

 

Acho que sou velha e, como a Ilha de Santa Maria, meio árida, meio cheia de florestas. Mas a minha atividade vulcânica não está extinta. O mundo à minha volta faz-me sentir próxima da explosão.

 

Viajar devia ser parte da vida de todos. E deviam ser dadas as condições para que as pessoas possam fazê-lo sem se privarem dos bens essenciais à vida. E devia ser explicado que a fotografia importa menos do que a memória, que o Instagram é só uma montra meio inútil que não retrata a realidade, e que o encontro com a diferença, com o outro, é o verdadeiro tesouro no final do arco-íris.

 

Volto para casa com a mala cheia de memórias. Algumas são férricas, aguçadas e acutilantes. Espero que passem sem problemas pela segurança dos raios x e detetores de metais na entrada da sala de embarque dos terminais dos aeroportos... ainda que fosse divertido ver os seguranças a tentarem apalpar a alma para descobrirem a origem o problema.


Marina Ferraz




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terça-feira, 5 de setembro de 2023

Infinito

 


 

Todos o meus limites tendiam para infinito. Foi assim que sobrevivi à trigonometria. Mal. A passar com a nota que dá-para-o-gasto. Ou sem ela, mas com a simpatia clara da professora que não me queria chumbar no começo do ano e me classificou com cinco ou seis valores acima do que eu merecia.

 

Penso muitas vezes na minha professora de Matemática e nos limites. No modo como os limites, absolutamente incalculáveis na minha (falta de) lógica, acabaram por se transformar em regra. Pensei. Se usar sempre a mesma resposta, algum dia estará certa. Um pensamento semelhante ao de que talvez ganhe o Euromilhões – no qual não jogo –se usar sempre a mesma chave. Se o secundário fosse eterno, talvez algum dia a resposta tivesse sido esse infinito. Se a vida fosse eterna e eu jogasse no Euromilhões, talvez houvesse menos meses com dias de sobra depois de acabar o dinheiro...

 

O facto é que eu perdi a lógica da trigonometria porque a cabeça estava no infinito da minha resolução. A pensar nos livros e na vida e na morte. Na lógica dos livros e da vida e da morte. Num cálculo incalculável que me afastava de números e de conceitos para me levar até ao espaço onde toda a curiosidade tem a magia como resposta evidente.

 

Mergulhando nos espaços entre as letras dos meus poemas, fui descobrindo que as folhas quadriculadas também tinham linhas horizontais, muito semelhantes às dos cadernos pautados, mas que se pareciam muito mais com a cela triste dos canários. Aprisionada atrás da ideia, comecei a escrever poemas nessa gaiola de capa azul e argolas. Achei que talvez a liberdade dos poemas, quando divididos por esse infinito pudesse trazer consigo outras coisas etéreas e eternas.

 

O resultado efetivo da poesia nos meus cadernos de Matemática foi uma sobrevivência a custo com a nota que dá-para-o-gasto (por pura simpatia da professora) e muitas ideias loucas sobre salvar um mundo sem salvação. Descolei essa ideia da sola do sapato à medida que fui aprendendo que os meus limites não eram infinitos. Que os meus limites, na verdade, estavam claramente definidos e que seria bom que os da sociedade também o estivessem. Um sonho de utopias que caiu em seco sempre que dito e começou a formar um tumor quando foi calado.

 

Hoje disseram-me pela primeira vez. Qualquer coisa dividida por infinito é zero. E, na voz de um homem de ciência, lembrei o modo como tentei soltar as amarras quadriculadas do caderno com poemas divididos por um infinito de coisas, desenhando ao lado gráficos inventados que tendiam, também eles, para o infinito, sem que eu conseguisse alcançar respostas práticas e lógicas. Percebi o pequeno nada que é esse meu desejo de dividir as letras pelas almas que povoam o pequeno infinito finito que é o globo-azul onde moro. Senti-me como os cachalotes e golfinhos de plástico que residem nos globos de neve turísticos dos Açores. Agitaram-me. Fizeram com que nevasse em pleno verão. Senti os flocos da perceção na pele, enregelarem a pele, à medida que tudo assentava novamente e eu entendia que não entendera nada.

 

Saber que não sei ajudou-me a saber. Percebi perfeitamente que o meu problema – com a trigonometria e o resto – nunca foi o cálculo dos limites, mas o facto de todo o tempo ser pouco para que os poemas ao lado dos gráficos tivessem alguma função no rumo da liberdade.

 

Por isso, não quero que este texto se divida por toda a gente. Porque ele só tem 4514 carateres com espaços e há aproximadamente 8,04 mil milhões de pessoas no mundo. Hoje, só quero que este texto tenha uma pessoa que o leia e o entenda e o sinta. E que essa pessoa rebente com as jaulas, mesmo que deixando em paz as pobres das folhas quadriculadas onde em tempos escrevi poemas que quase me chumbaram a Matemática.

 

Com tempo – disseram-me ainda – tudo é fluído. Talvez o pensamento também possa sê-lo. Por favor, não partilhem esta ideia com infinitos de gente. Mas, se puderem, partilhem com a vossa mãe, o vosso pai, os vossos filhos. Partilhem com o jardineiro ou o balconista. Com a cabeleireira ou a condutora do Uber. Partilhem com alguém. Dividam com peso e medida. Para que flua no tempo. Sem infinitos, para que o resultado final seja um número concreto. Outro que não zero.

 

Os meus limites são claros. Não sei nada sobre trigonometria. Mas sei que tenho visto a sociedade fazer o que eu fiz: dar sempre a mesma resposta à espera que algum dia esteja certa. São certezas divididas por infinito.

 

Livre de infinitos, trago hoje o sonho utópico de salvar o mundo. A começar por uma pessoa. Só uma. De cada vez.


   Marina Ferraz




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terça-feira, 29 de agosto de 2023

Avec um peu de saudade

 


Veio ainda com a mala atrás, atirando-a para fora da bagageira do carro sem cuidado e espreguiçando-se levemente, para tirar a tensão dos ombros. Olhou em redor. E sorriu. Com os lábios também. Mas mais com o olhar, que procurava, nas paredes velhas das casas, os mais ínfimos pormenores. Para os decorar. E, quem sabe, levar consigo quando tornasse a carregar o carro.

 

A matrícula era francesa. Tal como o sotaque que teve ao dizer à esposa, que carregava nos braços a menina, ainda pequena. “Allez”. Subiram os degraus da casa e bateram à porta. E logo os passos corridos no seu interior transformaram o silêncio da rua num fogo-de-artifício tocado a sapatos de sola de borracha e alegria. Abriu-se a porta. E dela se lançaram dois braços. E esses dois braços enlaçaram o pescoço dele, num verdadeiro salto em altura, com lágrimas correndo dos olhos. “Chegaste, chegaste. Entra, entra. E tu também. Passa cá a menina. Que linda! Que linda!”. Uma repetição eufórica. Simples. No fechar da porta, que deixa lá fora os cartazes políticos tristes.

 

Da porta para dentro, ninguém sabe o que se passa. Mas desconfia-se. É um sentimento comum pelas aldeias de Portugal, mesmo noutras que não esta, plantada no interior centro do país. É um sentimento de palavras francesas mas com uma alma lusa. E que tem mais luz do que toda a vanguarda parisiense.

 

Mas esta é uma história que não começa aqui. Com a chegada deste casal e da sua filha, que nasceu no estrangeiro. Esta é uma história começa antes de haver esta filha. Antes de este casal se conhecer. Antes de eles terem nascido. Esta história começa com uma tradição que, desde sempre, levou os portugueses ao mundo, à procura de outras aventuras, outras sortes, outras vidas. Uma tradição que criou dois alicerces que sustentam a nossa cultura: a necessidade de ir e o desejo de voltar.

 

Desta história nasceu muito do que vemos nas nossas ruas: o olhar posto no mundo, a hospitalidade, o pessimismo e a pressa. Desta história, nasceu o fado que se canta e a palavra sem tradução que nos mora nos lábios, nas almas, nos corações: saudade.

 

Antiga, esta é uma história que não se esgota e que é, talvez, para contar no verão. Em agosto. Porque é em agosto que nos tornamos assassinos voluntários e loucos, enfeitando as ruas e contratando artistas para celebrar a Morte. Somos todos culpados, em agosto, de querer matar. Matar essa palavra sem tradução. Matar a saudade.

 

Matamos a saudade assim. Chegando, atirando a mala ao chão e palavras francesas uns aos outros, batendo à porta onde dois braços nos recebem num embalo caloroso e chorado, bebendo vinho caseiro de copos plásticos junto ao palco improvisado atrás das igrejas.

 

A noite cai. As pequenas iluminações acendem, conferindo magia às fitas mal postas sobre os estacionamentos onde, agora, se servem comidas e bebidas. Canta-se música popular. Nem sempre de qualidade. Porque a música não importa. Importa que se ria e que se dance. Que se partilhe o momento. É assim que se mata a sede, com vinho. O tédio, com dança. A saudade, com conversas. E há risos permeáveis, entre canções. Gritos bilingues e histéricos. Ninguém se importa com a balbúrdia. Há reencontros. Com familiares. Com amigos. Com pessoas que dizem “alors? Há tanto tempo, longtemps, longtemps!”.

 

Sim! Em agosto, as conversas portuguesas fazem-se assim: metade em português, metade em francês, sempre num clima festivo. Critica e reforço palmilham as mesmas ruas. Uma espécie de teimosia caricata das gentes da terra. E quem não entender... entendesse!

 

As vozes a duas línguas trazem os olhos de quem regressa. Verão após verão, esses são os olhos onde a tenacidade evidente faz questionar as razões da ida.

 

Perguntei, um certo dia, a outro rapaz, em tudo parecido com este que hoje chegou e reviu a mãe, qual tinha sido a melhor parte de partir. E a resposta, que não tardou, era poesia pura e rural, nos lábios meio toscos: “voltar”.

 

É um sentimento comum. A saudade. Essa que não tem tradução. Porque “ter saudade” é mais do que “sentir a falta”. “Ter saudade” é uma espécie de vazio permanente, formado nas paredes da alma e que espeta, como espada, a cada bater do coração, quando a distância acontece.

 

Por isso, os portugueses vão. Por isso voltam. Ano após ano. Sentem saudade. Voltam. Para voltar a partir. Deixam na porta braços a acenar e lágrimas. Faz parte de nós. Os braços. As lágrimas. A saudade que se planta, que se colhe e que se mata em agosto. Faz parte de nós e entra-nos na pele porosa, chegando aos ossos.

 

Imagino que ele carregue o carro. E vá. Mas não é a ida. É a promessa que já fica, nos braços a acenar. Do novo regresso. Da nova festa. Dessa forma que é nossa de viver com a saudade. E de matar a saudade. Sem que ninguém seja condenado por isso.

 

Fico a desejar que o ano passe. Para que a saudade se mate novamente. Mas na rua há cartazes políticos a falar de um futuro que lembra o passado. Na rua da minha inocência fica-me um pedido extra. Que não matem, antes disso, um Portugal que mereça saudade. Que não matem, antes disso, Portugal.


   Marina Ferraz




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terça-feira, 22 de agosto de 2023

O simples

 


Trilhei muitos caminhos de exuberância. Ociosidade. Luxo. Aparato. E houve muitos risos presos nesse excesso. Não minto. Houve. Houve o prazer dos sabores mais fortes. Das músicas ininterruptas. Dos cocktails onerosos. Das danças exaltadas. Dos tetos em frescos e pormenores leves com arestas debruadas a ouro. Mas tudo isso é manobra de diversão na alma. Mata a gula de vida. Não alimenta. No fim, a resposta foi. É. Sempre a mesma.

 


 Algures, um pássaro entoa uma canção alegre. Longe, longe. Saudando o sol que atravessa as folhas e cria pequenos desenhos no solo. Galinhas bicam o alimento e pintainhos correm atrás da mãe e piam - piam alto – se ela se afasta. O vento cria um restolhar lento e leve da folhagem, que soa a uma respiração viva da terra. Os peixes dançam nas lagoas, em cardumes calmos e serenos. Uma queda de água traz a água fresca das nascentes. O ar tem um fresco natural. E há Amor. Com todas as letras do alfabeto, escrito nos eventos mais simples do quotidiano.

 

Fecho os olhos nessa exuberância do simples. É um luxo diferente. Um aparato diferente. Feito do sabor das amoras silvestres, filhas das silvas que ninguém arrancou. Feito das canções permanentes na voz de seres cuja vida ninguém ceifou. Feito do sumo da águas frias e férreas. Feita das danças das árvores e dos remoinhos de terra seca junto ao solo. Feito de tetos de céu e de pormenores leves com arestas debruadas a nuvem e flor.

 

Saciada, a alma reencontra-se consigo mesma. Redescobre que tem vida dentro. Rejubila com a simplicidade das coisas. Fala do Divino. E é parte dele.

 

As palavras parecem todas poucas. As que sobram – essas poucas – parecem gastas. Porque a Natureza se renova a cada segundo e a linguagem não. Vai lenta e não tem senão ajustes feitos por eruditos que nunca souberam expressar o simples do idioma mundano e natural.

 

Quero fundir-me com a terra. Deixar os pés ganhar raízes. Despir-me de roupas e conceitos sociais. Ser. Só ser. Parte deste universo que é pleno e justo. Pleno e bom. Pleno.

 


Não quero matar a gula da vida, da alma, mas alimentá-las. No fim, a resposta foi. É. Sempre a mesma. É o simples. É no simples. Que está a abundância. É nele que mora o derradeiro luxo. O pássaro canta. A cascata cai. A água corre. O sol aquece-me o rosto. Ganhei, penso eu, a lotaria do mundo.



    Marina Ferraz




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terça-feira, 15 de agosto de 2023

Pensamentos soltos IV: Paz Podre

 Fotografia de Pedro Fonseca

A minha avó era uma mulher de fé. A sua igreja ficava num dos seminários de Coimbra. No terreno, uma pequena horta e pomar dava, por vezes, em excesso. Nada se estragava. Os devotos levavam sempre mais do que a homilia nos ouvidos. Levavam sacos nas mãos, com fruta comprada por preços meramente simbólicos. Em alguns casos, o padre chegava a oferecer, para que não se estragasse.

Lembro-me de estar em casa, pagã como sou, e da entrada sorridente dela, pousando um saco na mesa.

- Hoje, na igreja, deram-me tangerinas.

E logo o meu humor sobrepôs o politicamente correto.

- Então?! Acabaram as hóstias?

Ela olhou-me chocada durante alguns segundos. Depois riu-se. Almoçámos. A leveza de quem encontra a fé na partilha do Amor. Porque apenas o Amor é sagrado.

 

 

 

Não é muito frequente que as igrejas sejam como aquela que a minha avó frequentava. Dos meus tempos de frequência obrigatória nesses templos que me destinaram sem que os escolhesse, lembro-me mais vezes de me pedirem que desse algo, fosse tempo ou dinheiro, do que de me darem alguma coisa.

Lembro-me também da fila dos condenados nas ruas de Roma. Pedintes estendendo mãos, quando as tinham. Rastejando no chão sujo da cidade. Isto, até à orla de um Vaticano limpo. As beatas que povoam o chão da Praça de São Pedro não são de cigarro. E os pobres também não sujam a paisagem, posto que não podiam, pelo menos então, cruzar essa fronteira do alegado divino.

 

 

As coisas mudam. Melhoram. São positivas. É o que me dizem. Como o presidente disse, quando destacou que nos portámos todos exemplarmente bem: “os católicos e os outros”. Coisa da raça. Essa que, em tempos, tapou bocas. A mesma que desenhou estrelas nos braços dos judeus. Quando eram os alemães e os outros. O “outro” é imagem do problema. Não merece nome. Não tendo nome, não existe. Referência de corrida. Esquecida antes de ser lembrada. Deixe-se o espaço para a paz.

 

 

A minha irmã acredita devotamente na mensagem que fica nas linhas do que é dito e eu amo-a profundamente por isso. Gostava de não cair tantas vezes no fosso das entrelinhas e das entre-palavras. Dizem-me cínica. Comparativamente com ela – que crê, apesar de – eu sou. Talvez ser cínica ainda seja melhor do que ser os outros. Mas sou ambas as coisas. Lembrando que fui a menina a passear o saquinho das oferendas, largadas por mãos beatas. Tão bonitinha, com caracóis e vestidinho de folhos, a incentivar os pobres a dar dinheiro para os pobres-ricos da instituição mais abastada do mundo. Que orgulho me lembro de ter, com o som tilintante das moedas no saquinho vermelho, sem notar que o pedinte que se sentava à porta tinha a caneca metálica livre dessa canção. Não lhe estava destinada a paz nem a redenção. Isso não é coisa para quem tem o estômago vazio e um teto de estrelas à noite.

 

 

Dados oficiais dizem que, em 2021, 9,8% da população global passa fome e 29,3% se encontra numa “posição de insegurança alimentar moderada ou grave”. Felizes os convidados para a Ceia do Senhor! Porque os outros não foram convidados para a ceia. De nenhum senhor. E, enquanto rebentam as guerras que outros senhores fazem, discursos populistas sobre a paz são feitos dentro de igrejas e na mesa de refeição das famílias a quem nunca faltou o abençoado pão.

 

Perdoem o cinismo. Tropecei logo nas pedras do Genesis e caí no que fica entre as palavras alegadamente divinas escritas por homens. Vi pouco de divino nelas. Ou de humano, para o que conte...

 

Gostava de ser mais como a minha irmã, que acredita. Imagino que, de facto, carregar no colo a paz de um mundo melhor, colhida numa qualquer homília, seja uma espécie de “tudo”. Mas o mundo está cheio de “nada” para muita gente. E eu não fui abençoada com a cegueira que deus (propositadamente despido de inicial capitular) vai dando aos tais e negando aos outros.

 

 

O troco destas palavras é quase sempre a da enaltecida exceção. Ainda bem que as há! A minha irmã – catequista e católica – é uma delas. A igreja onde davam tangerinas à minha avó (seria em vez de hóstias?!?) talvez fosse outra. Gostava que a paz delas, que vem das mãos delas, que se dá pelas mãos delas, fosse a paz do mundo. Mas a paz que se vende na maior parte das igrejas não é uma paz para todos. Não tem o preço simbólico das tangerinas. Também não tem a sua frescura.

 

Se descascarem essa paz, como eu descasquei as escrituras. Se descascarem essa paz, como eu descasquei as ações além das escrituras. Se descascarem essa paz, como eu descasco os atos efetivos da igreja. Se descascarem essa paz, como eu descasco os atos efetivos de tanta gente que se diz da igreja. Aí, será fácil ver com os olhos dos outros. É uma paz pobre. É uma paz podre. E está cara... 


    Marina Ferraz




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quarta-feira, 9 de agosto de 2023

Pensamentos soltos III: A sombra

 




“O homem que planta árvores,

sabendo que nunca se sentará à sombra delas,

começou a entender o significado da vida.”

(Rabindranath Tagore)

 

 

Se a árvore tombada escrevesse um sonho antigo, diria, talvez - rebento ainda a estender as primeiras folhas com a preguiça, para expulsar os grãos de terra - que um dia sairia da sombra anciã das árvores grandes. No chão, moribunda, tem agora o mesmo tamanho dos rebentos que lhe escutam a história.

 

Da sombra cada vez maior da minha história – haveria de dizer – tinham nascido outras estórias. Algumas de amor, outras inusitadas e de guerra fria. Mas focaria as estórias de amor. Essas – diria – e só essas, valeram o tempo das flores e dos frutos. Ciclos inevitáveis de um caos muito humano, expressão do belo e arquitetas do futuro do mundo. Dignas de menção. E só.

 

Todo o humano ama a sombra. Diria a árvore caída aos brotos. Quando o tempo aquece, todo o humano ama a sombra. Mas o tempo muda. E a vontade segue esse tempo. E o caos do amor é ódio, por vezes, amenizado pelas máscaras. Isto, não diria já, para não assustar as crias da terra. Acrescentaria antes: todo o humano ama a sombra e todo o humano a teme.

 

Abençoaria os esforços dos pequenos rebentos com um suspiro. O vento entoaria esse sopro de madeira, removendo os últimos grãos das primeiras folhas das futuras árvores. E pensaria, triste mas silenciosamente: que tenham futuro e venham a sê-lo...

 

E o broto mais pequeno perguntaria: como se pode amar o que se teme? E a árvore tombada lembraria o egoísmo e a inveja. O desejo humano de que o outro não cresça, não vá ele ser obrigado, subitamente, a viver na sombra do sucesso alheio. Mas não o diz. Esboça um sorriso ténue no ranger da madeira velha. Frequentemente amor e medo juntam-se na mesma canção. Entenderás ao crescer. Amarás as tempestades que te regam e temerás que te destruam. Amarás o verão e temerás a seca. Amarás os homens e temerás o seu machado. Suspira. Deves temer o seu machado.

 

Em tempos, fora uma árvore num caminho. Sombra. Agora, árvore fora do caminho. Sobra.

 

Nada mais disse aos rebentos. Adormeceu. Se a árvore tombada escrevesse um sonho antigo, diria, talvez, que preferia os homens que entendiam o sentido da vida do que aqueles que, claramente, tinham somente sentido na morte e machados e serras e desapego...

 

O seu silêncio foi marcado com as lágrimas muito secas de um verão escaldante. Os caminhos desertos evitavam-se e as sombras eram abrigo divino de quem se aventurava nas ruas.

 

Como não servia para nada, foi cortada em pedaços e esquecida.

 

Viriam dias frios, e o calor seria também esquecido. Viriam dias frios nos quais se arrancariam brotos, feito ervas daninhas. Viriam dias frios, em que se cortariam árvores para alimentar lareiras.

 

Se a árvore tombada falasse e os rebentos tivessem sobrevivido, haveria de lhes dizer que o problema era esse. As pessoas esquecem com facilidade que amam a sombra, quando já não precisam dela...

 

 

Toda a gente gosta da sombra. Mas poucos o lembram.

 

 

Desmatamento. Incêndios. Destruição.

 

Toda a gente gosta da sombra.

 

Que triste será o Verão dos nossos netos...

 

 

Se a árvore tombada falasse, penso que concordaria...


 Marina Ferraz




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terça-feira, 1 de agosto de 2023

Pensamentos Soltos II: Sobre a bondade

 


Fotografias de André Mascarenhas


 

“E Deus os abençoou, e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra.”(Génesis 1:28)

 

Leram?

 

Então, leiam novamente. Devagarinho. Ponderadamente.

 

Releiam, se necessário for.

 

Bem-vindos ao lugar exato onde todos os ensinamentos de meus pais, recebidos de seus pais, meus avós, e de meus avós, que os haviam recebido de seus pais, meus bisavós, caíram por terra.

 

Não me entendam mal... o parco conteúdo que nos leva até aqui já foi encarado com crítica. Mas a gota de água foi esta: “dominai (...) sobre todo o animal que se move sobre a terra.”

 

A minha avó tinha-me dito, num tom menos bíblico: “diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és”. Mulher sábia e bondosa, ensinou-me com gestos uma outra: a do cuidado com as pessoas, com as coisas, com os animais e, principalmente, com as flores e as crianças, as melhores coisas do mundo.

 

Foram muitos anos até que percebesse que a minha religião era outra. Mesmo depois de ter negado aquela à qual me prometeram sem pedirem consentimento. Foram muitos anos até que me assumisse irmã dos ventos e filha da Mãe Natureza, assim como sua irmã e serva, assim como seu fruto e semente. Mas esse caminho, no qual me fiz animal que se move sobre a terra, foi o mesmo no qual aprendi a diferença inerente entre amar e dominar, entre cuidar e dominar, entre servir e dominar, entre honrar e dominar. Este ensinamento, criou uma adenda (não errata) para o que a minha avó me dissera. “Diz-me como tratas os animais, dir-te-ei quem és.”

 

Filosofia aparentemente simples, mas nem sempre imediata, ela levou-me ao encontro de um deus muito concreto. Que devia morar em nós. Estar no meio de nós. E corações ao alto. A bondade.

 

Vejo facilmente dentro dos outros quando os observo no cuidado com os animais e a Natureza. O pior e o melhor do ser humano tende a enfatizar-se quando se   julga em posição de poder. Uma verdade que se estende a cargos laborais, também... mas isso é outro pensamento.

 

No trato com animais é fácil esquecer a máscara social e, por isso, mais evidente o que vai dentro. Falei já, em tempos, da Senhora Miau... e, como ela, felizmente, há outras. Gente de alma pura que os animais procuram porque têm mãos e gestos abnegados, onde o tratamento e cuidado diários não são serviço... mas expressão de amor.

 

Isto não é algo que nasce connosco. Alguns vão dizer que sim... mas eu não acho que seja. Acho que os processos de socialização – principalmente nos primeiros anos de vida – são o que nos ensina o nosso papel no mundo. E importa ensinar que não, não nascemos para dominar nada - nem deveríamos querer dominar nada - incluindo as lágrimas que tentam ensinar os rapazes a engolir - nascemos para amar e ser amados, olhando os outros e a Natureza e todos os seus seres de igual para igual. E, de igual para igual, honrando a alma de cada um, de cada ser, devíamos procurar a harmonia.

 

Vem de berço, mas não é “óbvio”. E, claro, toda a gente comete erros ao educar uma criança. Não existem manuais para a montagem de seres humanos. Alguns pais diriam “mas era bom”. Caros pais, não! Escutem: não há, nem devia haver! As pessoas não são móveis do IKEA para que as construamos passo-a-passo, homogéneas, com madeiras fracas e acabamentos pobres... as pessoas são vida e individualidade, complexidade e desconstrução. Vão sobrar parafusos e faltar peças... e está tudo bem! Ensinar-a-ser não é ensinar-a-ser-perfeito-segundo-a-norma. É só ensinar a ser... e não há garantias de nada, só intuição e estrada para andar!

 

Claro, nessa saga do ensinar-a-ser há muitas gafes. Mesmo sem ser mãe, eu sei que cometi muitos erros e alguns “acertos” a tentar ensinar-a-ser. Mas houve erros que nunca cometi! Acertei sempre, por exemplo, no primeiro passo. E por isso, partilho apenas esse, testado e verificado, certificado por gente-agora-grande que me honra dizer que ajudei a criar. Ensinem-lhes a bondade. O resto vem…

 

Poderia dizer: “Diz-me como tratas os animais, dir-te-ei quem és.”

 

Ou acrescentar: “Diz-me como tratas as crianças, dir-te-ei quem és.”

 

Ou dizer ainda: “Diz-me como encaras a primeira frase deste texto, dir-te-ei quem és.”

 

 

Mas o que importa não é quem és. Nem quem eu sou. Já o disse e repito: a pessoa que queremos ser é muito mais importantedo que a pessoa que somos.

 

 

Algures, aposto que a Senhora Miau alimentou os gatos de rua.

 

Algures, a mãe do André foi efusivamente recebida pelos cães.

 

Hoje recebi um beijo de um cavalo e um olhar charmoso de duas avestruzes, e mergulhei lado a lado com um cardume de peixes esverdeados. Tudo isto me fez sorrir.

 

Gosto de pensar que domino. Mas só isto. A arte de me melhorar aos poucos...

 

Porque me ensinaram a bíblia... e não colou... mas primeiro me ensinam a bondade. E o resto veio…


 Marina Ferraz




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