terça-feira, 27 de junho de 2023

O homem do campo

 

Alfafar - Portugal


Nota prévia: Nesta última ida à minha "Terra Mãe", fui à terra do meu avô. Este texto já é antigo, mas ainda não o tinha publicado. Deixo-o, com memória e saudade, para recordarmos os heróis da terra que fizeram o nosso país (e não os heróis da guerra que se sagram na História). 

 

Para o meu avô (e todos os homens do campo)

 

 

O meu avô era um homem do campo.

 

Nasceu como um homem do campo.

 

Morreu como um homem do campo.

 

E foi como tal que se construiu, sem nunca negar as origens ou querer ser outra coisa.

Tinha terras. Em algumas delas, havia vinhas. As vinhas tinham raízes presas à terra. Profundas. Tal como ele. Quase tão profundas como as dele.

 

Ao longo da sua vida, sem mais do que a quarta classe, o meu avô cultivou cultura junto das gentes e dos livros. Fez-se homem na cidade. E foi muitas coisas. Teve trabalhos de secretária e rotinas sem sol. Mas a terra? Trazia a terra agarrada às pontas dos seus dedos calejados. Plantando e colhendo a vida, estação a estação.

 

Mesmo quem não sabia de onde ele vinha, sabia: o meu avô era um homem do campo. Era algo que emanava do seu jeito, sempre educado e cortês. Como se a dureza da força que o fazia carregar poceiros que pesavam mais do que eu pudesse, de alguma forma, ver-se sob as camisas às riscas e os bonés.

 

Das uvas que cultivava, podava, sulfatava e colhia, o meu avô fazia sumo e vinho. Água ardente e, ocasionalmente, vinagre. Às vezes não o fazia de propósito. Enchia, com ele, copos à refeição. E havia quem bebesse. Porque o meu avô, que era um homem do campo, era também um homem bom, a quem se queria agradar.

 

Menina, nos meus jeitos citadinos, fui levada muitas vezes às colheitas. Vivi as vindimas com cortes superficiais nas mãos e dez quilos de lama seca nas sapatilhas. Vivi-as com queixume. Cortando as uvas e surripiando bagos dourados e doces. Vivi-as com curiosidade, brincando no trator, sob avisos e olhares preocupados da minha mãe – outra menina da cidade – e a permissividade do meu avô que me recomendava apenas cautela, enquanto pisava as uvas na loja sob a casa de campo.

 

Servia-me um copo de sumo de uva. “O primeiro vinho”. Não tinha fermentado. Mas fazia-me saber que, de alguma forma, aos seus olhos, eu merecia provar, apesar da tenra idade, o sabor dos meus esforços transfigurado em matéria.

 

Numa pequena aldeia, próxima de Coimbra, na alçada de Penela, eu senti, assim, pelas mãos de um homem do campo, o sabor de uma tradição. O sabor que ela tem antes de fermentar. O sabor que ela tem antes de chegar aos outros e deixar que eles provem também. Foi assim, atrevo-me a dizer, que conheci um sabor que não pode ser entendido por quem não conhece, do campo, o trabalho de sol a sol.

 

O meu avô era um homem do campo. Como há muitos, de Norte a Sul. Na sua vida conquistou, durante os dias, o dourar de esforços que não se esgotavam no vinho – posto que havia maçãs, nozes, azeitonas e dióspiros - mas que, no vinho, ganhavam expressão e força. E levantava-se com os raios de sol que lhe abençoavam o esforço. E deitava-se com o cansaço que lhe abençoava as noites.

 

Habituei-me a ver refeições servidas com o seu vinho. Acompanhando o seu vinho. Habituei-me a que as garrafas fossem rainhas na mesa e senhoras de brindes, embora eu brindasse com sumo. E havia alegria na mesa cheia, onde se serviam cozidos e chanfanas e sopas de casamento.

O meu avô era um homem do campo. Filho de uma cultura da terra e de uma tradição lusitana. Do sol e das videiras, fazia irmãos e irmãs. Apaixonava-se todos os dias pela forma como o sol nascia, aos poucos, vestindo os campos de luz. Apaixonava-se todas as noites pela forma como a luz da lua entoava canções de embalar no telúrico caminho das verdes histórias.

O meu avô era um homem do campo. Na pequenez da sua individualidade, o meu avô, mais do que homem, era campo. E, sendo campo, o meu avô era Portugal.

 

Recordo-o no sabor do vinho que já não é ele a fazer. E lembro-me sempre que, quem o faz, e, provavelmente, avô de alguém que diz, também, com orgulho: “o meu avô é um homem do campo”.

 

E, nos tons rubros do vinho tinto; no dourado do vinho branco; na vibração verdejante dos vinhos verdes, eu pinto a bandeira do meu país.

 

O meu país, tal como o meu avô, é homem do campo. Às vezes sinto-o como uma colheita tardia. Com as uvas mais doces a dourar ao sol, amadurecendo aos poucos a envolvência dos seus sabores. Tornando-os mais puros e honestos.

Ainda esperamos a mão que nos beije com o toque da apreciação. Que nos prove o travo de uma cultura ancestral e que se deixe embriagar pela doçura da nossa tradicionalidade.

 

Sirvo um copo de vinho.

 

Convido – como o meu avô, antes de mim e como os seus pais, antes dele – para que o bebam. Devagarinho. Provando o beijo do sol sobre as uvas. A gentileza calejada das mãos que as colhem. O toque firme dos pés que as pisam.

 

Para descobrirem, no sabor aveludado e silvestre, todas as nuances de uma história que não vem nos livros e que faz com que cada homem do campo seja, na verdade, um pilar do nosso Portugal.


Marina Ferraz




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terça-feira, 20 de junho de 2023

As vossas histórias

 

 

Olá. Esta é a minha história. Era. Não é. Foi. Agora é a vossa. Desafio-vos a que tentem que não seja. Vossa. Mas é. Eu escrevi a minha história muitas vezes e vocês nunca a leram. Leram? Não! Não leram! Leram as vossas... Mas não se preocupem! Eu gosto mais dessa vossa história do que da minha. A minha não era para ser. E a vossa é. Eu escrevi uma e vocês deram-me milhares. Superam-me em todos os passos. Concluo que não gosto muito das coisas que eu escrevo. Mas gosto muito das coisas que vocês leem. E é por isso que escrevo as histórias que vocês criam. Adoro. Adoro. As vossas histórias.

 

 

Todo o autor quer. Dizer. “Era uma vez uma árvore”. Ser dono dessa vez que era. Mas essa vez são vezes. E a árvore, que era, quem sabe, um chorão no meio do rio com as folhas a beijar a corrente, é agora um carvalho, um pinheiro, uma azinheira. Nenhum poeta escreve florestas como um leitor. Ainda mais se o leitor for criança e criar, na imagem desse “Era uma vez uma árvore” uma que seja pinheiro selvagem e dê maçãs vermelhas envenenadas.

 

O texto é um lugar de não existência. Todo o autor imortal foi uma impressora de pensamentos que foram personagem na mente dos outros. Matamos todas as personagens quando as transcrevemos. E ela renasce sempre outra quando alguém a lê.

 

Toda a minha vida dedicada às palavras. Um compromisso que estabeleci aos seis. Uma troca justa, para que mais trinta houvesse. E para que desses trinta eu pudesse trazer imortalidades. Equivoquei-me com a ideia de que podia criar alguma coisa. Verti-me no papel e vi que todas as minhas palavras eram borrão de psicólogo, exibidos uma vez por sessão para garantir que nada demasiado obsceno sai dos olhos dos outros. Tento explicar que as palavras eram obscenas, antes de serem borrão. Que eram mórbidas, também. Esventrei sonhos e arranquei entranhas com as unhas enfiadas nos globos oculares da alma. Digo. Ninguém quer saber.

 

E vejo uma lágrima ser rio. Verto o mar todo numa poça de mijo de um cão vadio ao lado da roda de um trator agrícola citadino. Descrevo o smog que vira peste e pústula na pele. Sorvo o pus com as agulhas de arroz ... Ouço falar do belo. Desisto. Fico à espera que me digam que sou trevas. Digo que sim, mas vivo como se fosse trevo. À espera da sorte. Da morte.

 

Faço a contagem decrescente. E outros dizem parabéns. Gosto mais dos parabéns do que da contagem. Gosto mais da celebração do que do momento inevitável onde todos os possessivos padecem.

 

Não vou levar textos para o caixão. São todos vossos. Toda a minha vida dedicada às palavras. Para ser das palavras. Para que palavras me velem na hora da vela acesa. Cânticos com letras que escrevi. E são vossas. Poemas com versos que escrevi. E são vossos.

 

Não sei se tenho dentro órgãos sadios. Mas se tiver. São vossos.

 

 

Concluo que não gosto muito das coisas que eu escrevo. Mas gosto muito das coisas que vocês leem. E é por isso que escrevo as histórias que vocês criam. Adoro. Adoro. As vossas histórias. Adoro o pinheiro que dá maçãs envenenadas. Foi dele que arranquei a maçã que trinquei quando disse “quero ser escritora”.

 

A maçã rola pelo chão e para dramaticamente em frente aos meus olhos vítreos...

 

A maçã era dulcíssima!

 

Marina Ferraz




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terça-feira, 13 de junho de 2023

Tudo o que sei sobre a vida

 


A pergunta, com algum sarcasmo, com algum escárnio, com alguma razão: mas que raio sabes tu sobre a vida? É um facto! Não sei muita coisa. 33 anos não chegam para saber muita coisa...

 


Nascemos e começamos a morrer. É isto que eu sei sobre a vida. As pessoas acham que nascemos e começamos a viver. Eu acho que viver, vivemos sempre. Nem toda a existência é humana. Mas quando o corpo miúdo rasga as entranhas das mulheres-herói que nos transportam no ventre, é para que inspiremos o ar, expulsando o mar dos pulmões, e comecemos a morrer, gota a gota.

 

Havemos de nos sentar em bancos de jardim e de andar de bicicleta por cidades povoadas de segredos. Havemos de dançar as danças infinitas de quem quer que o abraço chegue – como diz o Rui – até aos ossos. Encontraremos quem, dançando, nos entra no tutano. Ainda bem! Porque é aí que conheceremos o exclusivo tempo verbal do verbo gasto e o usaremos, de facto, mesmo que num silêncio pacato e nosso. Vestindo esse verbo que é peça de tamanho único, aprenderemos a olhar os dedos apontados das crianças para novidade do mundo, lembrando com saudade o tempo em que os olhos não tinham lentes-de-história-e-passado. Vestindo esse verbo, beijaremos a areia e inclinaremos o mar. Carregaremos, sobre os ombros, gente em vez de fardos.

 

O digital quer-nos fazer crer que a vida cabe em quadradinhos. Retangulozinhos. Mas a verdade é que é feita de círculos. A minha amiga Vanessa diz que foi num “círculo que encontrou um canto”. Eu encontro todos os meus cantos em círculos e gosto muito desta frase, em parte porque é genial... mas também por vir justamente de alguém que está no meu círculo e que me faz amar um bocadinho mais as dinâmicas circulares do mundo. Mas tudo o que não é círculo, é ciclo. E seguimos, repetindo padrões. Uns melhores. Outros piores. Lutando. Dando. Recebendo. Surgindo de quase nada e indo para o quase-nada que se dará à terra, sem nunca sermos outra coisa que não a “poeira de estrelas” que Sagan cantou no seu poema-ciência.

 

  Nascemos e começamos a morrer. Nesse caminho para a morte, se tivermos muita sorte, entenderemos que morrer é justamente o que dá valor à estrada e a todas as ervas que crescem na orla dos caminhos. Esse é o conhecimento que pesa no corpo. A aprendizagem que nos leva, da corrida infantil até à calma dos passos ponderados, apoiados na bengala, porque dois pés já não chegam para nos prender ao chão. Pesada, ela verga-nos o corpo em reverência, no entendimento de que a Natureza é mãe. Vamos baixando aos poucos, antes da hora de deitar e descansar no seu embalo. Parte intrínseca desse todo que é tudo.

 

Não sei muita coisa. 33 anos não chegam para saber muita coisa. 34, tão perto, também não vão chegar. Mas à pergunta - que raio sabes tu sobre a vida? – sinto que o desconhecido se consubstancia no verbo que não gastei, mas que me modela. Sei sobre a vida que há o círculo. E que ele importa. Que há o espaço dos outros. E ele importa. Que há lutas necessárias. E elas importam. Que há quem escolha andar connosco. E isso importa. Que vou morrer. E isso importa mais.

 

Que raio sei eu da vida?

 

Tão, tão pouco! E – talvez – tudo o que preciso de saber!


  Marina Ferraz




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terça-feira, 6 de junho de 2023

Correiofobia

 


Eu costumava ter medo de aranhas. De largar a mão da minha mãe em espaços abertos. De ser queimada pelo fogo preso durante os espetáculos pirotécnicos. De me esquecer do nome ou da cara das pessoas.

 

Crescer deve ser isto.

 

Ter medo de abrir a caixa do correio.

 

 

 

Desço as escadas aos pulos. Literalmente. Hábito de criança que me ficou. Levo a chave em riste. Uma espécie de espada medieval, pequena e prateada. Cruzo-me com o vizinho do lado e os simpáticos cães. Digo um “boa tarde” corrido. E chego.

 

Frente a frente, encaramo-nos por alguns momentos. O silêncio impera. Há aquela musiquinha de suspense estilo Western Movie. Sei que nos vimos no final da semana passada. Há precisamente quatro dias atrás. Mas é a história do mundo. Tanto, tanto acontece em quatro dias. Aproximo-me. Há o avanço para o toque. Há o toque. O som. O ranger do metal (ou serão os meus dentes?). O vazio. O suspiro.

 

Sorrio. O vazio é o meu estado favorito no que diz respeito à correspondência. Na era do digital ninguém envia cartas a ninguém e, quando envia, é muito raro que seja algo que se queira ler. As nossas relações tórridas por correspondência são hoje para com as empresas dos serviços municipalizados, a segurança social, as finanças e a polícia. Em suma: contas, dívidas e multas. As empresas e o Estado são como aquele familiar que só nos fala quando é para pedir dinheiro.

 

Abrir o correio e não ter lá nada. Esta é a definição de alívio no século XXI. Porque vivemos numa era onde a vida assenta na tentativa e erro. E ai-de-nós que não consigamos entender o português clássico que ainda se usa nas diretivas para o pagamento de todas as dez mil obrigações mensais.

 

Nesta era de correiofobia, os consultores imobiliários são uma espécie de psicoterapeutas de panfleto. Uma sessão sempre que, a par com as ditas contas, dívidas e multas, aparece um papelinho a perguntar se estamos a pensar vender a nossa casa e o número a contactar. Oscila o olhar entre a brochura e as contas. Senhor, com o devido respeito, eu neste momento já estou a pensar vender o corpo às peças para transplantes no mercado negro.

 

 

Ninguém nos disse em crianças que iriamos ter medo do mundano. Também ninguém nos explicou que seriamos explorados até à exaustão e levados a cumprir um regime do impossível, com normas que beneficiam sempre os mesmos.

 

Comentei – num tom de quase-riso nervoso - que fico ansiosa ao abrir o correio. Disse isso a três pessoas diferentes. As três, unanimemente, me disseram que era “normal”.

 

Eu não acho normal. Não acho normal que a política do medo defina os dias. Que atos tão simples quanto abrir o correio causem ansiedade. Mas quem sou eu? As pessoas acham“normal”. Deve ser. É coisa de adulto, dizem.

 

 

 

Crescer deve ser isto.

 

Será que crescer é isto?

 

Gostava de respostas. Que cheguem por email ou comentário. Porque o correio stressa-me.


   Marina Ferraz




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terça-feira, 30 de maio de 2023

Roteiro de ti

 


Tenho escrito muitos textos sobre viagens. O foco é simples. Casas de férias e villas. Quintas, herdades e bungalows. Tendas e bocados de chão de ninguém. Pedaços de território que já toda a gente viu. Certificado governamental. Edifício de interesse público. Monumento Nacional. Galardão de Bandeira Azul. Classificação da UNESCO. 7 maravilhas universais, mundiais e lusas. Pedaços de território quase inexplorados. Ponto aqui. Pormenor ali. Detalhe mais ou menos rebuscado acolá. Proximidade do mar, da floresta, do centro. Enfoque na biodiversidade. Na festa A, B ou C. Religiosidade. Tradição. Gastronomia. Pós de perlimpimpim e uma palmadinha nas costas do viajante pela escolha. Porque não vai faltar nada. Conforto, comodidade. Tudo à espera. Bem-vindo a 7 dias fora da vida.

 

E tu.

 

Estradinhas junto aos olhos quando sorris. Prefiro fazer nelas a viagem. Não sei quanto tempo demora, mas não te metas pela autoestrada. Quero que demore. Gomos de riso na tua companhia. Sabores da frescura da terra, misturados com sal não refinado. Refinado é luxo a mais para quem precisa de pouco.

 

Sol no toque da tua mão e conforto no teu abraço. O melhor espetáculo do ano em cada nascer e pôr-do-sol. Uma vida noturna ativa nas festas de um bar com L. Permissão de animais de estimação, para todos os efeitos, mesmo que estejam a perder a pelagem de inverno e os tufos preencham o chão.

 

Sabores do mundo num beijo. Tempero de caril, cravinho e carinho. Planos desenhados nos trilhos do agora. Dizer vamos. E ir. Chocolates à meia-noite. Doze doces badaladas. Um brinde feito de vinho e licor comprados a quem só usa o que a terra dá. Folhas carcomidas pela biodiversidade caseira. Folhas apanhadas em prol da sustentabilidade. Incontáveis maravilhas e nenhuma necessidade de galardões oficiais. Pontos e pormenores e detalhes. Verdade como religião. Tradições novas na fogueira onde se queimam poemas e caixas de ovos.

 

Festinhas nas costas do viajante. Porque não pode faltar nada. Góia. Conforto, comodidade. Góia. Tudo à espera. Góia. Bem-vindo a 7 dias fora do tempo. Na vida. E que fiz eu de tão bom nesse passado de espinhos?

 

 

E o trabalho.

 

Tenho escrito muitos textos sobre viagens. Mas já fiz muitas viagens. Já estive nos melhores resorts. Já contei as estrelas em cima dos portões. Já vi estrelas nos lugares mais inóspitos, onde a luz não estraga o céu. E o melhor foi sempre voltar para casa.

 

Mas leio-te. Esse pequeno roteiro de ti. E quero viajar.

 

Porque tu, como viagem, não és viagem.

 

É chegar a casa.

 

E ela ser um Lar.


  Marina Ferraz




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terça-feira, 23 de maio de 2023

Na reserva

 

Fotografia de Ricardo Torb 

Andamos todos com a luz de reserva acesa. E as de emergência também. Já ninguém está simplesmente bem. Então, dizemos todos que estamos. Não é mentira. É só porque o modo de poupança de energia nos implora para não explicarmos que temos as luzes todas do painel a piscar.

 

 

Eu falo do verbo amar. E mantenho tudo o que sempre disse. Pobre do Amor e de todas as conjugações do verbo que o diz... Tratam-no mal. Mas, entendam, eu não acho que as pessoas não sabem amar os outros porque são cruéis ou levianas. Talvez algumas sejam. Mas acho que as pessoas usam mal o verbo porque para amar é preciso conhecer o Amor e para conhecer o Amor é preciso amar-se. É um conceito bastante evidente: não posso dar esmola se não tiver dinheiro. Não posso dar tranquilidade se não tiver paz. Como haveria de poder dar amor se não me amasse?

 

A estrada que seguimos, usando o corpo feito veículo, é uma estrada com muitos buracos e muito poucas estações de serviço. Fazemos a estrada a cantar a canção da rádio-mental onde insistimos em dizer, em forma de discos pedidos, que nos amamos. Mas o Amor que sentimos por nós mesmos não é (só) essa coisa de ir atrás do que queremos e de mandar um beijinho ao espelho ou de nos aceitarmos plenamente com todas as nossas capacidades, virtudes, defeitos e falhas. Amar, também no que nos diz respeito, é cuidarmo-nos. E é preciso muito para que nos cuidemos.

 

De refeições onde a nutrição é perto de inexistente, a dias onde o tempo é plenamente ocupado por trabalho e ecrãs luminosos. Dos vícios alimentados quotidianamente – drogas várias que são álcool e ópio, mas também nicotina, cafeína, açúcar ou outros venenos legais. A destruição do eu é um hábito rotineiro e quotidiano. Temos formas muito cáusticas de nos amar. Se é que sequer nos amamos.

 

Nas ruas, eu levo as olheiras. Debaixo de três camadas de camuflagem líquida – em tom porcellain, nº10 – de corretor. Mas levo. Olheiras. Tenho a luz de reserva acesa e já me acendeu a luz de bateria, de perigo, de alternador, de motor e de falta de óleo. Até a chavinha a dizer que é tempo de me levar à inspeção e revisão já aparece quando o despertador toca. E aqui estou. A escrever este texto, entre um texto e outro, com um café na mão e a tentar ocultar o cansaço com um muffin de chocolate...

 

Se fosse o meu carro, iria à bomba de gasolina para o atestar. Provavelmente com combustível aditivado para que ele ficasse bem nutrido. Se fosse o meu carro, iria ao mecânico com medo que o motor gripasse. Chamaria a ajuda, na forma de reboque, porque a bateria já não é suficiente. Mas não é o meu carro. Sou eu. Numa estrada com muitos buracos e muito poucas estações de serviço, onde o que me vai valendo é levar gente boa no lugar do pendura.

 

 

Andamos todos com a luz de reserva acesa. E as de emergência também. Já ninguém está simplesmente bem. Temos as luzes todas do painel a piscar. Talvez devêssemos ter para connosco o cuidado que temos com os nossos amigos de quatro rodas (ou duas) e ter cuidado com a manutenção do eu. Uma coisa é certa, não vai sair um modelo novo para comprarmos a prestações. Pagaremos apenas as prestações de um corpo que soma quilómetros. Prestações cada vez mais caras, que bem sabemos que as taxas de juro andam assim!

 

 

Estou no volante da minha vida e acho que estou a aprender a conduzir um bocadinho melhor. Mas vou como vai o mundo. Com as luzes todas acesas. Porque mesmo consciente de tudo isto, ainda só aprendi parcialmente a desacelerar. Vou indo a ca-Fé. Dizendo: seja o que os Deuses quiserem e tomara que o motor não gripe. A companhia na viagem é o que me vai valendo!


   Marina Ferraz




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terça-feira, 16 de maio de 2023

Ecos silentes

 

 Fotografia de Pedro Fonseca

Reverbera em nós. Cada palavra dita. E todo o pensamento inaudito. Não está na camada cutânea. Não é mancha. Nem sombra. Nem corte. Nem tatuagem. Os outros não veem. Nós esquecemo-nos de olhar. Fica lá. Algures. Até ao mergulho.

 

Soou. Trovão. Tinha muitas estórias tristes para contar sobre os tempos da felicidade. Um eco silente. E eu andava. E os outros não viam. E eu não via os outros. Era a primeira vez em muito tempo que sentia. A cabeça à tona do rio. O ar a entrar nos pulmões. O toque suave que tem a liberdade quando a palavra se vomita.

 

Olá. Disse a mim mesma. Em silêncio. Bem-vinda de volta. E a alma pareceu entender que era com ela. Demorando a reconhecer-se. Remergulhando em si para se encontrar, já que desvendar o ser é como dançar, num compasso sem trégua ou pausa. Uma espécie de mar sólido e seco. Cratera. Num agito que é sopro e ventania.

 

Perguntaram-me se estava bem, porque não falei durante milénios. E eu respondi sem palavras. Já as tinha gasto. Expliquei. Mas expliquei por gestos. Colocando a mão num rosto. Tomando-o num beijo. Despindo a roupa. Despindo o pudor. Amando.

 

Quis dizer Amor. Apercebi-me de que já tinha gasto essa palavra, juntamente com todas as outras. Tatuei-a para que ficasse lá. Na camada cutânea. Porque me pareceu triste que o amor tivesse o destino de cada palavra dita e de todo o pensamento inaudito.

 

Fui outra vez. Eu. Uma espécie abismo. Porque todo o abismo é escuridão em altura. E eu ainda tenho muito espaço para voar antes do impacto. Fui outra vez. Eu. Uma espécie de projeto. Porque sonhos são pequenos fragmentos de impossível, criados para quem quer inconcretos. E eu estou farta. Descobri-me farta. Quero só improváveis porque os impossíveis cansam as almas de ciência. Para mim, conquista ou falha. Deixem a ilusão para os Narcisos. Eu. Uma espécie de semente. Que rasguei e rompi e saí do chão. Depois de caída no chão. Depois de deitada ao chão. Depois de todas as lágrimas que me foram rega.

 

Fica lá. Algures. Até ao mergulho. Não dizemos isto nem coisa alguma que se lhe pareça. Somos corpos-eco a andar nas mesmas ruas que as máquinas. Pessoas artificiais roçam-nos os braços por entre as multidões. As outras dão-nos um choque elétrico no contacto indesejado. Reconhecemos – em gestos – esses ecos silentes. Respondemos – em gestos – porque as palavras estão gastas.

 

Ocasionalmente, na noite. Enlaçamos as línguas e falamos boca-a-boca sobre como foi renascer. Renascer é – segredamos em gestos – sentir todas as dores do parto para nos darmos a nós mesmos. Embalamos os nossos pequenos e renovados “eus” à luz da lua.

 

Não é mancha. Nem sombra. Nem corte. Nem tatuagem. Mas a lua faz brilhar o gesto. Reconhecemos a essência. E vamos gritando. Assim. Rompendo a terra. Estendendo braços ao céu. Desvendar o ser é como dançar, num compasso sem trégua ou pausa. E eu ainda tenho muito espaço para voar. Antes de.


   Marina Ferraz




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terça-feira, 9 de maio de 2023

Criança interior

 


 Fotografia de Analua Zoé

Afaguei-a nos braços. E sussurrei. Obrigada. Ela estava cansada de tantas fugas. Tinha passado por entre as gotas de chuva ácida do mundo dos grandes. Ainda bem que era pequena. Quis perguntar-lhe como era sobreviver apesar de... mas ela já tinha adormecido. Era a primeira vez que se sentia segura.

 

 

O mundo dos grandes era cruel. Foi sempre cruel. Os grandes queriam, descobrira cedo, que ela fosse grande também. Mentiam muito, era verdade, mas nunca sobre isso. Nisso, desde o começo, tinham sido honestos. Começavam muitas frases com “quando fores grande...”. Repreendiam-na porque “não era coisa de menina crescida”. Até os estranhos lhe perguntavam: “o que queres ser quando fores grande?”. O problema. O grande problema. O problema grande era... Ela não queria. Ser grande.

 

Observando, em silêncio, o mundo pequenino das gentes grandes, ela ia descobrindo uma grande verdade: tudo era reduzido a nadas. Era um nada tão vazio que era plural. Nadas. De linhas retas nos lábios, os grandes iam alisando as curvas dos sorrisos dos pequenos, insistindo que eles deviam seguir-lhes os passos. Parecia ser algo triste e aborrecido.

 

Ignorando-os, foi voando na imaginação de outros mundos. Seus. Como não eram concordantes com a filosofia dos grandes, disseram-lhe sempre o mesmo. Que esses mundos não existiam. Esses mundos eram uma espécie de fé só sua. E, embora os grandes estivessem dispostos a crer num Deus que nunca tinham visto, negavam todos os outros Deuses com o argumento de que não os tinham visto. Os mundos, decidiu, eram esses outros Deuses que os grandes se recusavam a aceitar. Deviam ter medo que o mundo deles se ofendesse com os outros mundos... mas não entendia bem qual o castigo premente dessa crença, se o mundo em que os grandes viviam parecia ser já, em si, Inferno.

 

Troçaram-na. Castigaram-na. Vestiram-lhe o uniforme e mandaram-na para o abismo. Deram vergastadas nas mãos que tentavam agarrar os sonhos. Desligaram as luzes dos túneis que ela ia encontrando. Apontaram dedos tiranos na direção de todos os caminhos certos, palmilhados por gente que se esquecera de vestir a alma de manhã.

 

E ela? Ela pegou naquela centelha de pó de fada. Porque acreditava em fadas. Pegou na chave que dá entrada para o Reino dos Sonhos. Disse ao corpo: fica aqui e finge ser como eles, da mesma forma que eles fingem estar bem. Levou a alma e o coração a passear. Fora da carne. Plantou-os à beira-rio, mesmo à porta da Floresta Negra. Falou brevemente com o Vento do Norte e disse: protege-me. Ele chamou-lhe Amanda. Não era um nome. Significava só: aquela que é amada. E ela prometeu, ali, que nunca gastaria em vão a palavra Amor.

 

O corpo foi correndo o tempo do tempo. Até ganhar rugas de expressão e cabelos brancos. Inerte e ausente, visitava por vezes esse eu que era amado. Lá. Onde se refugiara da guerra diária que é querer ser pequena.

 

 

 

Duas crianças abraçaram-me. Era a Laura e o Tomás. Disse-lhes um poema. E abraçaram-me. Quando me largaram, tinha-a nos meus braços. Olhei-a. Reconheci-a. Afaguei-a nos braços. E sussurrei. Obrigada. Ela estava cansada de tantas fugas. Tinha passado por entre as gotas de chuva ácida do mundo dos grandes. Ainda bem que era pequena. Quis perguntar-lhe como era sobreviver apesar de... mas ela já tinha adormecido. Era a primeira vez que se sentia segura.

 

 

Olhei-a. Integrei-a. Fui-a. E hoje sou. Sou o corpo grande com a alma pequena. Tão pequena, tão pequena... que cabem nela muitos tudos. Um tudo tão pleno que é plural. Tudos. Se um dia for grande, acho que quero ser Vento do Norte. Para dizer à Laura e ao Tomás e a todas as Lauras e Tomáses que são Amandas. Que serão amadas apesar de... Que outros Deuses existem. Que outros mundos existem. Que fadas existem. Que a magia existe. Assim como tudo o que os grandes não veem, porque os mandaram ser grandes... e eles se tornaram tão pouco... que são só isso.


Marina Ferraz




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terça-feira, 2 de maio de 2023

Um pouco de tudo

 


Não se enganem. Eu vou ser um pouco de tudo. E, depois, vou ser a melhor pessoa do mundo.

 

 

Sobre mim? Sobre mim hão de criar muitas teses. Muitas delas não serão publicadas. Algumas serão. Das que serão, algumas – poucas – serão entendidas como sendo sobre mim. Essas afetarão algumas almas. Serão ignoradas por outras. No fim, o sumo que sai dessa fruta é muito escasso.

 

Dirão que sou manienta e rude. Obstinada. Arrogante. Falsa. Dirão que tenho ideias mirabolantes sobre a Vida, a Morte e o Amor, mas que não sei viver nem amar e que morrerei mal, de certeza, porque nunca fiz nada da maneira indicada ou coerente... e não será na hora da morte...

 

Vão dizer que eu fiz muitas coisas. Algumas fiz. Ah, se fiz! Fiz mesmo! E algumas fiz de propósito, outras sem querer. Algumas porque as situações me levaram a isso, mesmo se eu não queria fazer o que fiz. Outras porque o manual de sobrevivência vinha antes da Bíblia dos outros e eu também nunca quis saber realmente qual o papel que os outros usam na casa de banho... ou o que ele diz.

 

Tenho a certeza de que algumas pessoas também irão confundir-me com a Matemática e dizer que sou difícil. Difícil, na atualidade, é nome de uso corrente para todas as pessoas que o são. Pessoas. Ao contrário da Matemática, eu resolvo os meus problemas sozinha e os limites, principalmente os da minha paciência, não tendem para infinito. Sou difícil e reivindicativa sim. Mas sou-o com muitas coisas que importam mais do que a pequenez do mundo dos outros. Sou-o com guerras e governos e coisas picuinhas, como isto de os media mastigarem a informação como o meu médico gostaria que eu mastigasse a comida. Mas, se engulo o bolo alimentar com pouca mastigação, compenso-o justamente na dificuldade. Essa, de engolir as palavras dos outros.

 

As vozes que se erguem sobre mim não são mais do que o reflexo das palavras mastigadas para outros engolirem. E eu serei a manienta e a rude, a obstinada, a falsa, a puta, a déspota, a tirana, a louca, a problemática... serei aquela que fez e aconteceu e teria feito e acontecido. Serei.

 

Eu vou ser um pouco de tudo, meus amores. A manienta e a rude, a obstinada, a falsa, a puta, a déspota, a tirana, a louca, a problemática... mas também ignorante, imbecil, presunçosa, rasca... monstro. Sim. Monstro. Como disseram à minha mãe que eu viria a ser, estava eu ainda em tenra idade.

 

Eu vou ser um pouco de tudo. E, depois, vou ser a melhor pessoa do mundo.

 

Quando eu for a melhor pessoa do mundo, já não estarei cá para ouvir. Felizmente. E quem ouvir vai irritar-se porque sabe. Sabe que nunca fui a melhor pessoa do mundo, principalmente nas vozes que agora querem dar-me no céu o lugar que eu vivi a evitar.

 

 

Enquanto fui tudo o que não era, lutei. Lutei sabendo que nunca veria a diferença no mundo. Mas que, como sempre insisti, queria fazer parte dela.

 

 

Ninguém saberá que fiz parte dela.

 

As pessoas vão dizer. Que fui a melhor pessoa do mundo.

 

Não sou.

 

E elas só o dirão porque são espelho de tudo o que me chamaram primeiro.


   Marina Ferraz




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terça-feira, 25 de abril de 2023

Liberdade sem IVA

 


Deixo-te um bilhete. Vou sair. Talvez vá ao supermercado, encher o carrinho de Liberdade. Abastecer de Liberdade. Açambarcar Liberdade.

 


Liberdade que o seja não pode ter código de barras. Nem código. Nem barras. Nem nada que oprima. Talvez, por isso, demore a chegar a casa. Não te preocupes. Teremos Liberdade para o jantar... e se não for no jantar de hoje, será no de amanhã. Trarei Liberdade para a nossa casa, nem que tenha de palmilhar a pé todas as ruas da cidade e de entrar em todas as lojas, mercearias, drogarias e bordeis. Trarei Liberdade para a nossa casa.

 

Não me leves a mal se comprar a mais e deixar alguma espalhada por aí. Sabes que encho sempre demasiado os sacos e, depois, não consigo carregá-los. A Liberdade deve ser leve. Mas sabemos bem que aquela que se vende por aí é, muitas vezes, sucedâneo e, por isso, está cheia de condicionantes e aditivos, de complementos circunstanciais e de enredos políticos. Tudo isso pesa... mas nem vou deixar Liberdade por caminho porque ela pese. Vou deixá-la porque é muito triste olhar as ruas que se fazem cela. Prisões detalhadas com tantas injustiças no ornamento, que até as deusas pousam a balança para apertar a venda sobre os olhos, e não ver os prisioneiros do dinheiro a negar esmola aos prisioneiros da pobreza, todos eles irmãos na penitenciária do capitalismo.

 

Gostava de deixar um pouco dessa Liberdade na porta das igrejas, ao lado dos panfletos que vendem o céu em lotes. Também gostava de o deixar nas escolas, onde ensinam as crianças a pregar as pernas às cadeiras e a controlarem, à secretária, esse hábito terrível que é brincar, e onde ensinam os professores a seguir os moldes ocos de manuais escolares onde se vende a ficção do heroísmo e a fantasia da escolha, a par com os processos da mitose, o teorema de Pitágoras e a reforma industrial.

 

Prometo que não paro nos sinais vermelhos. Mas vou parar nos cravos. Não para os colher, mas para lhes pedir desculpa em nome da minha espécie. Ou será raça, outra vez?

 

Não sei bem onde ir buscar a Liberdade, mas vou. Dizem que os supermercados tiraram o IVA dos produtos essenciais. Por isso, aproveitarei para ir buscar a Liberdade. Espero que haja fila para o balcão da Liberdade. Que toda a gente vá, como eu, buscar um bocadinho e aproveitar a promoção para promover esse bem essencial que vai ficando esquecido, à medida que o desconforto e o cansaço se tornam habituais e rotineiros.

 

Então, deixo-te esta nota. Fui buscar Liberdade. Trarei Liberdade para a nossa casa, nem que tenha de palmilhar a pé todas as ruas da cidade e de entrar em todas as lojas, mercearias, drogarias e bordeis. Trarei Liberdade para a nossa casa. Teremos Liberdade para o jantar... e se não for no jantar de hoje, será no de amanhã.

 

Caminharei enquanto houver pés. Para a encontrar.

 

Se eu nunca voltar, procura-me na mesma vala comum onde enterram todos os heróis livres sem nome. Serei o cadáver que sorri. Talvez igual a todos os outros. E ainda bem. Atira-nos um cravo e segue. Livre. Com essa Liberdade sem IVA que sonho que possas colher nas ruas, nas igrejas, nas escolas e na mesa do jantar.

 

Prefiro que jantes na companhia da Liberdade do que na minha.

 

É que, percebe, quem ama não prende.


Marina Ferraz




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