quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

"i" - "!"



Um dia. Um dia, eu escrevi um “i”. Esse “i” foi uma porta. Essa porta levou a uma estrada. Essa estrada levou a um futuro. E o futuro tinha muito passado dentro dele. E o passado tinha muitas histórias. E as histórias eram feitas de verdade e de mentira e de imaginação. Um dia. Um dia eu escrevi um “i”. Estava vestida de preto. Por cima da saia de folhos. Por cima do corpo miúdo. Por cima do coração que batia. E pendiam-me os cachos do cabelo, em caracóis imperfeitos. Com laçarotes de fita. Ao xadrez.
O quadro era de ardósia. O olhar era de complacência. Os passos eram ofegantes preces, na direção do estrado. Os risos eram dor. E as palavras eram mudas. E eu não tinha nada. Além do giz. Além da mão. Além de mim. E do “i”. Esse que escrevi. E que estava certo.
Um dia. Um dia escrevi um “i”. O “i” foi um alfabeto inteiro. O “i” foi um dicionário inteiro. O “i” foi universalmente galardoado como senhor de todos os manuais. Havia milhões de possibilidades. Em cima do estrado. No meio do quadro. Na pintinha feita com a mão a tremer. Um dia. Um dia, eu escrevi um “i”.
Disseram-me que a vida era do direito. E eu tentei pôr o tempo parado no espaço da ilusão, que começava com “i”. Guardado para mais tarde, quando me faltassem vogais. Mas as consoantes da vida não bastam. E vêm consoante a história. Não são bem assim. Tomam sentidos diversos e pintam cenários que não são. O “i” não. O “i” era vogal. E uma vogal é só isso. Inspirei. Fui buscar inspiração a histórias. Fui invisível no processo. Tudo bem.
Eu sabia. Tinha escrito um “i”. E a vida não era vida sem esse “i” que eu tinha escrito quando, aos seis anos, decidi a minha vida toda.
Decidi que a vida não era do direito. Virei a vida ao contrário. Escrevi novamente esse “i”. Virei a folha ao contrário. O “i” passou a ser “!”, um ponto de exclamação. E passei a ser o que, insistentemente, me disseram que era impossível. Decidi que “impossível” é a única palavra com “i” que eu não quero na minha vida.


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet


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quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

No alto da esfera



Há uma lua no alto da esfera
E um espelho onde finjo ser gente
Refletem-se fases, feito quimera
Levam-ma a alma indigente

Há um poema na ponta do medo
Não tem estrofes nem punhais
Repetem-se versos, feito segredo:
Uma caravela atracada ao cais.

Finjo ser gente por entre a gentia
Cansam-me os temas, cansados de mim,
Gentis são os dedos que, sem simpatia,
Me arrancam da terra, me ditam o fim.

Há uma lua no alto da esfera
E um espelho que reflete o nada.
Finjo ser gente… mas quem me dera
Ser, na distância, a lua quebrada.



Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet


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quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Amor lésbico



Quando lhe perguntei como estava, respondeu-me com o olhar. E o olhar era todo (m)ágoa. Escondeu-o entre os dedos. Refugiou-se, assim, da inquisitiva demanda presente nos meus. E nunca tive uma resposta.
Atirei-me no penhasco que era o seu corpo. Acreditando que, num abraço apertado, podia impedir as feridas de jorrar desalento ou reajustar as quebras, unindo as fissuras numa só pele. E ela afastou o abraço, com medo da unidade. Porque se cansava das supostas normalidades e da maneira como elas se sobrepunham aos sentidos.
A sociedade não estava pronta. Explicou. A sociedade não entendia que ela amava outra ela. E que essa ela a amava. E que bastaria o silêncio. O olhar para outro lado. Ninguém queria bandeiras. Ninguém queria palavras de incentivo. Só paz. Sossego. Espaço para poder ser. Para poder ter. Amor. A sociedade não estava pronta. Ela estava. Para combater a sociedade e o que viesse a seguir. Mas ela dependia de outra ela. E essa não estava. Pronta. Preparada. Para lutar.
Disse-me também que eu não entendia. Porque o amava a ele. E nunca tínhamos vivido sob o escrutínio dolorosamente impresso nas ruas, numa homofobia calcetada no chão de pedra, onde se insistia em intercalar pedras azuis e brancas.
Então, eu limpei o rosto dela. E disse. Que entendia. De coração. Acrescentei. Mais. Também eu amei uma mulher. Foi o meu primeiro amor.
Espantou-se. Nunca me vira senão com ele. Nunca parara para pensar nisto. E eu expliquei.
Ainda eu não tinha nascido e já amava uma mulher. E ela, mais liberal do que tudo e do que todos, amara igualmente este ser, ainda sem género nem identidade, antes mesmo de saber quem eu era ou se eu era alguém. De mim, pouco importava quem fosse: se homem ou mulher; proclamadora de fés ou psicopata; sábia ou com dificuldades de aprendizagem. Essa mulher, que eu comecei a amar antes de ter uma forma, amou-me independentemente de quem eu pudesse vir a ser.
Dentro dela, construí amor. Juntamente com as pernas e os braços. E os órgãos sexuais que me determinaram menina, quando ainda não sabiam quem eu era por dentro. E esta mulher, que se agradou do meu sexo, não fez nele ideologias sobre a minha sexualidade nem pautou nele as minhas formas de ação.
De mim, tolerou as dores que lhe dava e os mimos sob a forma de batimento de asa. Conhecia-me mal, posto que nunca me vira. Esse mal era já melhor do que o conhecimento em soma de todos os que se cruzaram até hoje comigo.
Eu amei uma mulher. Ainda a amo. E ela a mim. É um amor que não escreve romances, bem sei. Mas é amor. E não há tal coisa como um amor genderizado e feito a preceito nas normas do que encaixa ou não no momento dos corpos dados.
A sociedade é voz. E a voz é música. E as pessoas detestam o silêncio. Mas ela não merece a (m)água dos teus olhos.
E já não era. (M)água. Nos seus olhos. Era agora brilho.
Todas nós o tivemos. Esse amor lésbico. Gostamos de pensar que ele é diferente. Porque não é sexual. Nem sexista. Nem algo que se traga ao pensamento quando a paixão queima.
Mas é amor. Amor é amor. E quem somos nós – as filhas de alguém – para julgar o amor entre duas mulheres?
Eu amei uma mulher. Ainda a amo. Vou amá-la para sempre. Mesmo quando me deitar com ele. Mesmo quando disser que o amo. E entendo, sim. O amor dela. Não porque entendo que ela ama outra ela. Mas porque entendo que o amor tem muitas formas… e nenhuma delas é um erro.


Marina Ferraz


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terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Quatro razões



Quatro razões.

Tenho quatro razões. Completamente escondidas nos meandros do inexplicável. Mas tenho. Quatro razões. E cada uma delas é diferente da outra.

Tenho quatro ensinamentos. Cada um deles oferecido de forma terna e gratuita, sem palavras. Mas tenho. Quatro ensinamentos. Com eles aprendi mais do que a escola ensina.

Tenho quatro pilares. E deles retiro uma estabilidade que não é frágil nem temporária. Tenho. Quatro pilares.

Neste círculo eterno de quatro pontas, faço eternidade. E por ela me movo, devagarinho, tentando ser tudo o que não sabia ser antes. Faltava-me o que hoje tenho. Quatro motivos. Quatro razões.

As minhas razões são todas diferentes. E não chegaram todas ao mesmo tempo.

A primeira ensinou-me a amar no sentido mais lato e completo.

A segunda ensinou-me a arte de sorrir perante a agrura da vida.

A terceira ensinou-me a linha entre a agressão e a fragilidade e todas as formas como estas se transfiguram em carinho.

A quarta ensinou-me que é possível amar na distância, até o que ainda não se conhece.

São quatro razões. Todas elas feitas de amor. Que começam na semelhança que nos une, passando pela linha que nos identifica, pelo riso que nos atenua e pela emoção da permanente imagem de um amanhã.

Tenho quatro razões. Três de olhos claros. Uma de olhos castanhos. Todas as quatro perfeitas. Tenho quatro razões.

São quatro razões para ser forte. São quatro razões para lutar por um mundo melhor. São quatro razões para saber que ele pode sê-lo. Um mundo. Melhor.

Tenho quatro razões. Que não sei se mereci. Que vieram do nada e mudaram tudo. Que me fazem querer conquistar os sonhos para provar que é possível. São o melhor presente que recebi. O melhor do futuro que há-de vir.

Tenho quatro razões. Com nome de gente. E são nomes que ecoam nas preces que o mar canta nas suas ondas. São nomes que soam a canção. São nomes que se fazem poema.

Tenho quatro razões. Quatro pilares. Quatro sonhos. E o desejo. Só um. De que eles sejam felizes. No mundo. Um mundo. Como o meu. Só que melhor.



Marina Ferraz



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quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Sou verso


´
Não sou triste,
Sou verso,
O sentir algo perverso
De algo que não existe.
Deambulo e não vou,
Sou o que sou.
Sempre que olham pra mim
Sou universo sem fim
Na folha que m’albergou.
Não sou dor,
Sou verso.
Não tenho fim e começo
Numa linha sem valor.
Não sou tristeza
Nem nada,
Só um verso que se guarda
Num momento d’ incerteza.
Não tenho mas sou
Adjetivo sem ser,
Sou um sonho que, ao morrer,
Todos dizem: acordou.


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet


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domingo, 31 de dezembro de 2017

Desejos (também) para 2018



Utopias. Desejam-se utopias neste final de ano. Como se o quedar da noite anunciasse o fim de personalidades e problemas. E o fogo-de-artifício os incinerasse. E houvesse um sol diferente a nascer na madrugada do novo calendário. Desejamos sucesso, num mundo onde cada vez mais se aprecia a arte dos mínimos. Desejamos paz, num mundo onde a guerra rebenta. Desejamos amor, num mundo que se cola cada vez mais à efemeridade de momentos. Desejamos saúde, num mundo onde proliferam doenças antigas e novas, sob os interesses mais ou menos tácitos da indústria farmacêutica. E é tão bom desejar, que nos esquecemos, com facilidade, do papel que temos na construção do que será o amanhã.
Não. Não vos desejo sucesso, paz, saúde e amor. Espero que tenham tudo isto, mas não é isto que vos desejo.
O que desejo é outra coisa.
Desejo que tenham as ferramentas para trabalhar. E o espaço. E a oportunidade. E o alento para se levantarem de manhã. E a coragem de lutarem pelos vossos sonhos. E a capacidade de não deixar para depois o que pode ser feito neste instante. E o prazer da dedicação. E pernas que aguentem a subida dos degraus. E cimento que garanta a estabilidade das vossas construções. O que desejo é que saibam que vos cabe a construção do sucesso.
Desejo que tenham comida sobre a mesa, uma banheira, ou uma cama, ou um sofá onde possam descarregar o cansaço do sucesso. E que tenham, em vós, a amabilidade de tratar do espaço com carinho, continuadamente, para garantirem a paz que desejam. E que, tendo comida sobre a mesa, uma banheira, ou uma cama, ou um sofá, se lembrem também daqueles que a não têm. E saibam dedicar-lhes, se não mais, ao menos um pensamento diário, onde agradeçam pelo privilégio. O caminho da paz faz-se com luta. Nem toda a luta é guerra. Esta é uma luta que se faz de cada vez que, em lugar de olhar para o lado, se encara o mundo de frente, com todas as debilidades, assumindo que a mudança começa dentro de nós.
Desejo que, por entre as constantes debilidades humanas de um corpo frágil, tenham a força de cuidar de vocês. Que saibam quão importante é o cuidado do físico e da alma. Que não tenham medo de correr passadeiras nem de aceitar aventuras. Que aceitem o desafio das cores nos vossos pratos. Que tenham sempre pastilhas para a garganta, analgésicos para as pequenas dores e um serviço de saúde que cuide de tudo o que não se trata com exercício, alimentação e medicamentos de venda livre. E que tenham o discernimento de saberem identificar as sintomáticas. E que tenham a coragem de procurar ajuda quando for necessário.
Desejo que, a par com os medicamentos, a comida sobre a mesa, a banheira, ou a cama, ou o sofá; tenham também dois braços à vossa espera. Mas, acima de tudo, que sejam dois braços à espera de alguém. O amor não é algo que se recebe mas antes algo que se constrói. E nem sempre é fácil. Nem sempre é como os romances. Por isso, desejo que tenham calma, paciência e vinte doses de ternura, de carinho e de entendimento; para regarem o vosso amor e o deixarem crescer, até formar dois braços que se abrem e dois braços que se abram por vocês.
O que vos desejo, para o ano que chega, é que saibam que a mudança de um dia no calendário não pode trazer-vos nada. Mas vocês podem trazer a vocês mesmos o mundo. E hoje é um dia tão bom para começar como outro qualquer.


Sejam felizes (também) em 2018.


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet


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terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Um amor assim


Sempre quis. Todos queremos. Mesmo aqueles, entre nós, que dizem que não. É um desejo comum. Alguém. Que nos ame. Como o amor deve ser. Como ele se apresenta nas páginas dos livros e nas telas de cinema. Mas melhor. Melhor do que o melhor. Melhor ainda. Queremos todos, de alguma forma, não importa a cor com a qual pintamos o desejo. Esse amor.
Eu também quero. Sempre quis. Alguém que decidisse, todas as manhãs, olhar para mim e dizer que, mesmo antes de lavar as remelas e pintar o rosto, eu sou bonita. E que me sorrisse, de olhos ainda ensonados, como se visse, em mim, um milhar de sonhos concretizáveis e de possibilidades em aberto.
Alguém que me amasse assim. A ponto de dizer que ia lutar, dia após dia, a cada segundo. Com um objetivo. Só um. O de me dar o que eu preciso. O que eu quero. Até aquela extravagância meio louca, sem importância alguma, apenas para me fazer um pouquinho mais feliz.
Eu também quero. Sempre quis. Que não houvesse barreiras nem desistências na luta. E que fosse eterno. E que fosse real. E que fosse mais forte do que qualquer vento. Mais resiliente do que qualquer palavra. Mais real do que a morte.
Alguém que me amasse assim. Todos os dias. Sem excepções e sem tirar folgas do amor, só porque ocasionalmente ele pode doer. Sem resvalar nos imbróglios fugazes do tempo e sem questionar, nem por um segundo, a pureza do sentido que se entrega e se demora nas estradinhas da eternidade.
Eu quero. Sempre quis. Esse amor. O de alguém que me conhecesse. Mesmo nos meandros das coisas que não digo. Que soubesse todas as minhas ideias e todos os meus pensamentos, sem os julgar. Que conhecesse todos os meus pecados e, ainda assim, não me condenasse pelos crimes quotidianos. Que ousasse entrar nas cavernas mais escuras do meu peito para descobrir todos os recantos empetrecidos que lhe ornamentam as paredes.
Esse amor. Era esse amor que eu queria. O de alguém que, olhando dentro de mim, desejasse ser a melhor pessoa do mundo. O de alguém que não se importasse de andar pelos caminhos das silvas e dos espinhos para alcançar os meus sonhos. O de alguém que quisesse estar comigo mesmo quando a minha companhia não é prazenteira.
Era esse amor. O de alguém que ficasse sempre. Para sempre. Sem que eu tivesse dúvidas disso. E que me tolerasse o azedume. E que me acautelasse os medos explosivos. E que me acarinhasse as cicatrizes que ficaram pelas feridas. Alguém que me amasse, mais do que as perfeições – se elas existem! – justamente os cortes, cicatrizados ou não, por saber a força que modelou as batalhas que mas infligiram. E que, da minha amargura, fizesse arte. E que do meu riso fizesse alento. E que dos meus passos fizesse caminho.
É esse amor que eu quero. E nunca quis outra coisa. Nunca quis querer outra coisa. Só esse amor pleno, intemporal, incontestável, inabalável e incondicional, até à morte. E sabes? Não importa se não me amares assim. Eu amo-me assim.


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet


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quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Na minha pele


Marcaste-me na tua pele. Da primeira vez que me pegaste ao colo. Marcaste-me. Na tua pele. Como um corte sem dor, que deixaria uma cicatriz impressa na alma, ditando-nos, nos gestos, mais palavras do que as que se armazenam em dicionários e enciclopédias.
Em mil (pre)dispostos de carinho, foste acomodando pedaços meus em ti, aceitando uns com a simplicidade da vida. Discutindo outros, para que eu acautelasse os traços de tudo o que tu vias que poderia ver a ser impeditivo de um amanhã. E, entre aceitação e dúvida, caminhaste comigo. E fizeste-me. Todos os dias. Parte. De ti. Marcaste-me. Na tua pele.
Chovesse ou fizesse sol. Nas tempestades da vida. E nas vagas de indiscutível quentura. Concordasses ou não com os meus passos. Seguisses já, ou não, pelas minhas pedras. Vieste. E, vindo, trazias a muralha nos teus braços, que envolvias em meu redor. Protegias-me de tudo o que viesse. De tudo o que pudesse eventualmente vir. E eram palavras. E eram gestos. E eras toda carinho. Enquanto o fazias. Enquanto me marcavas. Na tua pele.
Houve sempre ternura nos teus gestos, quaisquer que eles fossem. E sabedoria nas tuas palavras. E carinho nas tuas mãos. E aconchego no teu olhar que se lançava, meio aguado, meio choroso, sobre vitórias e despedidas breves. Caía-te do olhar, pura como a tua alma, uma gota de esperança que me fazia também escrava da saudade precoce, estando ainda junto a ti. A olhar para ti. Vendo-me menina. Vendo-me mulher. Vendo-me como ninguém me vê. Marcando-me. Na tua pele.
E nas estruturas. Edificadas beijo a beijo. Sonhadas dia após dia. Lá fomos. Sendo. Tu e eu. Mais do que tu. Mais do que eu. Um nós perpétuo, que se vinca na pele e se vincula na terra até ser raiz. E eu? Indo. E tu? Caminhando ao meu lado, real ou ideologicamente. Mas sem nunca resistires ao ímpeto de me acompanhares na jornada. Porque também sabias. Que o tinhas feito. Que me tinhas marcado. Na tua pele.
E, à medida que me marcavas. Na tua pele. Na pele da tua alma. Na pele do teu coração e nas células que o constituem. À medida que me tornavas eternamente parte do que ninguém rouba. Eternamente tua. Eternamente criança. Também eu o fiz. Marcava-te. Na minha alma. No meu coração. Na minha pele.
Um dia, olhando ao espelho. Incomodou-me ter-te tão profundamente em mim. Escondida. Como se fosses segredo. Nos meandros do que não se vê. Incomodou-me ter-te marcada em mim sem que ninguém o soubesse. Sem que ninguém o visse. Quis que o mundo pudesse ver-te em mim. Roubei-te a caligrafia e a palavra que me disseste mil vezes. Marquei-te na minha pele. E agora o mundo vai poder ver-te em mim. Enquanto eu caminhar sobre o mundo. Nesse tempo de eternidade humana que é breve, tão breve, tão mais breve do que o meu amor por ti…



Marina Ferraz


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terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Olhares comprometidos



Olhares comprometidos. Tantos. Olhando em redor. Sem ver mais do que embaraço. Vivendo o vexame de tudo o que não regressa. Comprometidos. Mas sem compromisso. Porque olhos que não vêem não podem dar-se nas ruas, sem que haja desconforto. E o desconforto é abismo. Quedam-se. Olhares. No chão. Neles permanecem, vivos mas a fingir que estão mortos. Porque sabem. Sabem que estão comprometidos.
Os pés são companheiros eternos desses olhos. E, não podendo simplesmente ir, vão indo. Com a atenção desconfortável de dois olhos que já não encontram outro horizonte que não o dos sapatos, à medida que estes vão pisando pedras e ervas e resíduos orgânicos nos passeios sujos da cidade.
Tão intrincados estão, os olhos e os pés, neste jogo de amor desalentado e fuga coerciva, que há quem julgue que se namoram. Não é que o façam. Nunca a sua relação passou disso mesmo, do encontro desamparado entre os dois, com metro e meio de distância, como mandam os bons costumes. Mas permanecem na luta inglória pelo desapego e são ambos conhecedores dos saberes da ignorância. Os olhos ignoram a vida. Os pés ignoram o chão. Comprometidos. Mas não uns com os outros. Ignoram. Porque saber dói.
E os olhos dizem que dói. Principalmente os que, comprometidos, se quedam nos pés. Sabendo, de uma forma algo implícita, que abarcar o mundo traz um sabor acre para o centro da doçura da insipiência. São olhos desalentados, também. Mas, principalmente, são olhos comprometidos e iletrados. Olhos que, podendo escolher qualquer coisa, escolhem ainda não ver.
Nessa cegueira consciente que acaba em metamorfose, os olhos deixam de ser olhos e passam a ser ecrã. Passando, de forma repetitiva e acrítica, as mesmas passagens ilusórias do que a vida deveria ser. Porque, se o fosse, o sossego permitira olhar em frente e ir, com desapego e indiferença, por entre ruas de tijolo dourado, onde tudo luz e resplandece.
Os olhares comprometidos sonham. Com uma bolha de utopia. Sabem que é utopia. Fingem que não sabem nada. E vão, de pedra da calçada em pedra da calçada, atrás de si mesmos, para se obrigarem a cegar. E cegam. Criam barreiras e muralhas. Lentes opacas. Feitas de chão. Feita de pés.
Não há compromisso no olhar comprometido desses olhos. São só cegueira. Voluntária. E têm, por isso mesmo, o único intuito de não ter sonhos acima do chão onde pousam, para ver os pés que caminham,  metodicamente e só porque sim.
Olhares comprometidos. Tantos. Se olham os meus, de relance, logo sentem que queimam. Porque os meus, ainda que não possam sarar o mundo, sabem olhar para ele. E têm lágrimas. Lágrimas que são vidro onde se reflete uma imagem mais ampla sobre o que se transfigura nas raízes podres do tempo.
Passam. Pés no chão e olhos nos pés. Olhares comprometidos. Feitos do mesmo resíduo orgânico que se pisa nas ruas sujas da cidade.


Marina Ferraz


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terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Sala de espera



Nos pulsos trazemos pulseiras verdes. O que significa que estamos razoavelmente saudáveis e que, provavelmente, será ainda cedo para que sobre nós escrevam elogios fúnebres.

Há personagens tipo nas cadeiras da sala de espera.

Começa n’“A Acompanhante”, a senhora que vem só prestar apoio e que, para tal, traz na mochila, o conteúdo pleno da sua despensa. Cede, à doente, de ar meio enjoado e com três camadas de impaciência, uma banana e um comprimido. É uma cuidadora nata. Aquela que servirá, provavelmente, de cozinheira e de enfermeira e de ombro amigo. Embora, provavelmente, alguém devesse dizer-lhe que, numa sala de espera de hospital, as pessoas não devem automedicar-se.

A algumas cadeiras de distância, temos “O Anti-social”. Este pode ser reconhecido pela forma como pousa estrategicamente a mala no banco da direita e o casaco no banco da esquerda, mantendo o nariz enfiado no telemóvel e os fones nos ouvidos. Lança, ocasionalmente, um olhar muito breve ao não-andamento dos números, à espera da sua vez. Evita contacto visual e, se acaso ele acontece, desvia o olhar, como se queimasse.

Muito semelhante a este, é "O Geek". Nas cadeiras ao seu lado, não pousa nada mas também ninguém se senta nelas. Tem uma mini-consola na mão, onde joga com a mestria de quem não está doente, e enverga orgulhosamente uma camisola do Star Wars. Usa óculos de massa com lentes grossas e parece a única pessoa que não está no limiar enfadado da impaciência.

Há, também, “O Exagerado”. Este tipo, trazendo uma pulseira verde, como todos nós, insiste numa coreografia que implica andar aleatoriamente para a frente e para trás, sentar, pôr a cabeça entre os joelhos, endireitar-se, esfregar o rosto, levantar e repetir. Tudo acompanhado de “ais” e “uis”, cuidadosamente alinhados com as vozes dos médicos, quando estes chamam pelo nome de um outro paciente.

“O Estratega”pode ser reconhecido pela presença de um ou dois acompanhantes. Como é que ele entra com dois acompanhantes será uma questão para depois. Ausenta-se frequentemente da sala de espera e vai, sabe-se lá onde. Deixa sempre indicações aos enfadados companheiros que prontamente aceitam a tarefa de o avisar se for chamado. Liberta-se, assim, da vigília sobre o ecrã dos números saltitantes, da permanência junto ao cântico d’ “O Exagerado” e do enfado das cadeiras cinzentas.

Chega, entretanto, “O Profissional”, no seu fato de calças engomadas e casaco. Quando chega, já vem a falar ao telemóvel. Mas, provavelmente, esta é a chamada número 101 das 10 mil que atende durante a sua permanência. Todas as suas conversas começam por “Já te disse” e acabam com “vê lá se fazes tu isso, que eu digo quando sair”. Está mais preocupado com o escritório do que com o mal que o trouxe e reclama da demora com os outros pacientes, os médicos que passam e a senhora da limpeza, por vezes ao mesmo tempo que fala com o colega de trabalho ao telemóvel.

“O Exaltado” é outro tipo frequente. Este exalta-se quando o número 097 é seguido pelo número 052, sem perceber que há pessoas chamadas mais do que uma vez. “Mas já não ia no 097? Assim nunca mais!”. O desabafo é rugido em tom mais ou menos alto. Para que entendam as suas palavras no interior dos consultórios e saibam que ele estudou matemática e, como tal, sabe que 052 é um número menor do que 097.

Voltamos, então, a atenção para “O Enjoado”. Este tipo vem com a mãe e senta-se estrategicamente ao lado da casa de banho. Reclama do cheiro do chocolate que a pessoa do lado come e corre para os lavabos para firmar a sua descontente posição sobre o facto de as outras pessoas comerem quando, tão obviamente, ele não consegue. Volta com um tom amarelado e os olhos esbugalhados, fitando a senhora do chocolate como se fosse uma assassina em série.

Não fica só na indignação, posto que logo se lhe junta a figura que apelidaremos de “O Coagido”. Olhar igualmente matador envia ao seu acompanhante e ao relógio, intercalando-os e polvilhando-os com o brilho de frases como: “Eu bem te disse que não era preciso vir!” ou “Eu estou bem, vamos é embora!”.

E, porque ouvir estes queixumes deixa qualquer um com desejos alimentares, surge outra personagem. “O Dos Trocos” é um tipo inegavelmente comum. Há sempre dois ou três numa sala de espera, em simultâneo. E, como parecem sempre escolher lados opostos da sala, estabelecem uma comunicação algo caricata, ao identificarem-se. Levantam-se, vasculham bolsos e carteiras, lançando olhares furtivos à máquina do café e das comidas. Desesperados, lá acabam por perder a vergonha e perguntar: “Alguém tem trocos para 5 euros?”. Inicia-se uma troca mais ou menos desinteressante, de um canto da sala para o outro. “A Acompanhante” não tem mas oferece uma banana. “O Exaltado” aproveita a deixa para reclamar da espera e da fome que o obrigam a sentir. “O Anti-social” afunda-se na cadeira. E só cessa quando alguém o interpela e oferece os 0,50 cêntimos necessários para calar aquelas pessoas, substituindo-se, então, o som das vozes pelo das máquinas. Fica um aroma a café na sala e “O Enjoado” corre de novo para a casa de banho.

No centro desta confusão, notamos “O Idoso”, aquela pessoa que espera, silenciosa, no seu canto, habituada à invisibilidade e que, claramente, já devia ter sido atendido. Vê mal o ecrã e pede que lhe digam qual foi o número chamado. Alguém o ignora. Alguém responde. Ele não faz ondas.

No centro disto, sobro eu. Suponho que o meu tipo seja “A Gaja Estranha Que Está A Escrever Num Caderno”… mas sei lá! Também atendi uma chamada. Também tenho malas na cadeira ao meu lado. Também gosto de Star Wars. Também procurei trocos para a máquina do café.

No fundo, o que somos todos, nesta sala de espera, é pessoas. Mais ou menos impacientes. A querer ir para casa. Ainda hoje. Se for possível.


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet


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