quarta-feira, 24 de abril de 2019

Tu e eu




Eu não sei se tu e eu vamos dar certo. Ainda que gostemos de olhar o mesmo céu e encontremos sempre a mesma estrela, por entre a imensidão. Ainda que fechemos os olhos para um desejo mudo e o desejo ressoe igual no nosso silêncio. Eu não sei se tu e eu vamos dar certo. Não posso oferecer-te certezas. Não quero criar-te ilusões.

Posso dizer-te que, mulher de paixões ardentes e intemporais, levei sempre um segundo a apaixonar-me para a vida. Foi assim com todos os outros. Contigo não. Demorei a amar-te, talvez porque conheça bem demais os teus defeitos. Ou talvez porque, no fundo, me irrite um pouco a arrogância cultivada no que sei que são as tuas qualidades. Ou até porque sei que nunca sabes o que queres. E sempre tive medo que, quando te quisesse, não me quisesses de volta. Nem que fosse só para destoar. Ou para me contrariares.

Demorei a amar-te. Quebrada e desperta dos sonhos que em tempos me tinham movido, eu tinha medo de te amar e de descobrir que não havia nada para amar em ti. E de ficar mais só. Eternamente só. Porque a solidão já era um nome amigo de outros tempos. Que deixei. E, de alguma forma, era melhor ter-te numa dimensão menor do que não te ter de todo.

Tu tens tanto para amar! Tanto! O tempo que me demorou o amor é justamente o que passo agora, diariamente, a questionar como não o vi. Amo-te. Quero-te. Custa-me a imaginar o tempo em que vivi tão perto de ti e tão longe deste sentimento. Mas, ainda assim, não leves a mal. Não posso. Não posso dizer que vai ser sempre assim. Eu não sei se tu e eu vamos dar certo.

Claro, eu sei que gostamos de dormir debaixo das mesmas camadas de roupa. E sei que gostamos de o fazer despidas de pudor e de tabus. Sei que gostamos de falar sobre sexualidade e género. Que gostamos de gritar sobre as nossas opiniões, como se marchássemos pelos direitos da equidade dentro das paredes do quarto. Sei que gostamos de cozinhar. E que somos um bocado irrequietas e desintegradas. Amamos odiar o mundo juntas. E defender o mundo juntas. Mas a dois. Porque nos assusta, em medida quase igual, a ideia do pódio enunciativo das nossas ideias.

Eu gosto de escrever e tu gostas de ler. Também escreves e também te leio. Achamos, tu e eu, que literatura e arte são conceitos irmãos como literatura e vendas nunca poderão ser. E, por isso mesmo, talvez estejamos condenadas ao anonimato. Agradar aos outros não faz muito parte de nós. Tão parecidas e tão diferentes de tudo o resto.

Percebo bem que queres que dê certo. Agora que finalmente encontrámos um espaço para nós, sem outras vozes nem outros entraves. Eu também quero. Quero estender este amor como tapete até ao fim da vida e fazer sobre ele o desfile da eternidade. Mas, meu amor, eu não sei se tu e eu vamos dar certo.

Fiquemos assim. Presas na ideia do eterno agora do reflexo. Amo-te. Amas-me. Não sei se para sempre. Mas agora. E o que é o agora, senão uma eternidade presente? O que é o agora senão o lugar onde tu e eu podemos dar certo?

Eu sei. Sei que tu e eu somos um nós feito de carne e reflexo. Tão unidas num só espaço que, quem olha, me vê só. Dizem-me para seguir porque não vêem. Mas estás aqui. E demorei a amar-te. Amar fora de mim impediu-me sempre de te amar. Agora não. Quero amar-te a ti. Que tens o meu nome. O meu corpo. A minha aparência.

Como nunca te tinha amado, não posso dizer que tu e eu vamos dar certo. Mas, se nos destina o mundo que sejamos unas até ao fim da vida... o melhor é tentar.

Sigam também o meu instagram, aqui

terça-feira, 16 de abril de 2019

Palavras que ofendem

Street Artist: FRAc // Fotografia de: Ricardo Barriga


Não é necessariamente verdade que eu não tenha medo das palavras ou que elas não me ofendam.

Simplesmente, palavras como merda, foda-se e caralho não me ofendem. Já palavras como violência, dor, fome, sede, pobreza… essas ofendem-me. Porquê? Porque eu entendo a necessidade de um foda-se quando se bate com o mindinho na esquina de um móvel. E entendo a necessidade do caralho quando alguém está a ser chato. E entendo a necessidade da merda que, além de necessidade fisiológica, é ainda um forte argumento social de uso bambamente colocado no aceitável.

O que eu não entendo é como é que ainda morrem mulheres às mãos dos maridos. O que não entendo é como é que existem pessoas a morrer de sede, quando eu tomo banho com água potável. O que eu não entendo é como nos banqueteamos sem pensamento pesado na fome alheia. O que eu não entendo é como alguns dormem à noite, depois de roubarem até as estrelas a quem já não tem teto.

Eu ofendo-me com palavras, como toda a gente! Mas não com as asneiras mais ou menos fortes. Essas são as palavras com as quais convivo pacatamente. Sem medo delas nem do seu uso. Nem dos preconceitos e normas sociais que as exilam. Mas ofende-me. Ofende-me a palavra purismo disfarçada de pudor. Ofende-me a palavra ignorância disfarçada de educação. Ofende-me globalmente a falsidade. E ofendem-me pessoas de palavras caras e sem impropérios a gritar a plenos pulmões ideologias vagas e vazias que deixam milhares de milhão na merda com os seus palavrões na ponta da língua. Não têm dicionários melhores nem vida que lhes permita expressões mais suaves. O mundo roubou-lhes até as palavras.

Não me ofendem as asneiras. Ofende-me o universo rico - literalmente rico - de palavras como corrupção, ganância, ostentação e crueldade. Ofende-me porque cria fissuras em peito de gente que, como eu, dentro de si, tem mais do que carne e osso. E por isso sofre e padece e morre.

Também não tenho medo da morte. Desculpem. Eu sei que devia ser feita da mesma matéria que edifica exércitos consonantes de pessoas programadas para anuir como os cachorrinhos de brincar das bagageiras dos automóveis. Mas eu não sou os outros. Já dizia a minha mãe. Tu não és os outros. E não.

Talvez por isso, tal como não me ofendem os impropérios, também não tenho medo da morte. Depois de tudo o que a sociedade edificou, na sua visão puritana, proibindo sexo e asneiras e outra centena de coisas inofensivas; depois de tanta violência fortuita e de tantas histórias mal contadas onde são sempre os mesmos que perdem os direitos; depois de tudo, parece-me que a morte é só uma espécie de poema romântico, cantado na voz de um Deus que a sociedade não honra porque não conhece. E não tenho medo dela, nem sinto que me ofenda. Pelo contrário, sinto que me entende.

As pessoas lutam contra as palavras porque é fácil. As palavras não ripostam. Pô-las de lado, condená-las à difamação, proibi-las, censurá-las, pisá-las e mal tratá-las não fará com que elas se revoltem e nos ataquem também. As pessoas lutam contra as palavras porque é fácil. Mas contra as palavras erradas. Porque, se fosse contra as certas, havia de se pisar calos de gente, de se derrubar pedestais, de se realinhar as lógicas do mundo. E as pessoas, que já têm tanto medo das palavras, têm ainda mais medo dessas pessoas que sobem aos pedestais e pregam sabedorias de cloaca.

Não é necessariamente verdade que eu não tenha medo das palavras ou que elas não me ofendam. Mas não me ofendem os impropérios. Ofendem-me palavras que ferem na carne. E palavras que moem a alma.

Sofro mais às mãos de quem sorri e fala caro em época de campanha eleitoral do com a gente que me manda para o outro lado com recurso às “palavras proibidas”. Então, não é porque eu não tenha medo das palavras ou porque elas não me ofendam; é porque compreendo mais e melhor que as palavras são o fruto e o problema reside na raiz. Há palavras caras que nos destroem. E só se dizem porque o fertilizante que se usa é justamente a merda que a sociedade faz e continua a fazer, calando o que deve ser dito e dizendo só o que é politicamente correto.




Sigam também o meu instagram, aqui



terça-feira, 9 de abril de 2019

E o amor que se...



Há neve nos recantos das praias dos meus pensamentos. Às vezes, imagino que é areia. Enregelam-me os pés nus, mas não faz mal. O frio é uma espécie de Inferno, tolhido na pele. Lembra que, algures, ainda existe uma capacidade moribunda de sentir. E talvez seja o melhor tipo de dor, porque chega aos ossos mas não à alma.

Vi muitos pores-do-sol contigo nesta praia. A do meu pensamento. Até teres metido o sol na mala e ido embora. Deixando-me as noites e a mágoa. A neve e a névoa. Voltaste para buscar a névoa, depois. Fica bem nas fotografias. Eu entendo.

Às vezes, quando caminho pelos destroços do que foi a minha cidade interna. Essa que culmina na praia do meu pensamento. E descubro que as ruínas foram violadas por bandidos selvagens. Há, pintadas nas paredes, pinturas rupestres que contam a história animalesca de um amor que morreu.

Como o amor não morre, alguém diz: e o amor que se foda. E eu espero bem que tenha razão. Que o amor se foda. E que, com ele, se fodam todos os sentimentos que ficaram por ele se ter, entretanto, provado unilateral e inútil. Que ele encontre o caminho certo para fazer isso mesmo: para se foder. Enterrado debaixo de toda essa neve que foi areia. Macerado debaixo de toda essa noite que foi pôr-do-sol.

Estou farta do amor. Cansada do amor. Tenho vontade de começar a despir camadas até o conseguir tirar de mim. Faço-o. Dispo camadas de derme e epiderme e músculo e osso. Dispo os ossos do tutano e o tutano de todas as suas estruturas adiposas. Dispo veias e artérias. E órgãos vitais. E o amor lá continua, sem  que possa despi-lo. Sem eu saber bem onde se aloja ou como consegue sobreviver com tão pouco.

Merda. Sou toda feita de amor. Queria ser mais carne e razão. Mas não. Sou toda amor. Sou toda feita de amor a dizer “e o amor que se foda”. E talvez seja por isso que quem se fode sempre sou eu.

Mas dói. O caminho de pés enregelados pela praia do meu pensamento, onde estruturas rochosas de memória relembram dias que não regressam. O caminho de pele seca pelas ruínas do que um dia foi um lar e agora é uma casa sem portas nem janelas, construída com silvas e correntes de ar.

O tempo passa. Os ponteiros da memória andam para trás. Os ponteiros da vida demoram duas horas a passar um décimo de segundo. Eu sufoco. Lá, dentro dessa cidade em ruínas e dessa praia de neve. Sufoco.

Cá fora, a moldura. Um sorriso. Está tudo bem. E contigo? Vazio, vazio, vazio. Espaços vazios numa manifestação eterna de felicidade. Está tudo bem. Mais um sorriso. Só quero desligar. Quero parar. Quero ir. E o amor que se…







Sigam também o meu instagram, aqui



terça-feira, 2 de abril de 2019

Dia das mentiras


Foto de Marina Ferraz | Modelo: Vanessa Oliveira


1 de Abril de 2019


Hoje parece-me um bom dia para dizer que não te amo. Não te amo. Podes dormir em paz esta noite. Não te amo. Podes abraçar outro corpo sem medo de teres cultivado um jardim que já não regas. Não te amo. Hoje parece-me um bom dia para dizer que não te amo.

O pássaro de asas cortadas que é o amor já não me mora no peito. Voou. Mesmo sem asas. Voou usando pós de dedaleira. Preparados com afinco num almofariz qualquer. Voou. E, assim de repente, sem esse pássaro moribundo e fétido na minha alma, eu descobri. Hoje. Não te amo. E é um dia excelente para to dizer. Que não te amo. Já não.

Hoje parece-me um bom dia para dizer que sou feliz. Sou feliz. Podes avançar pelas horas ciente do meu contentamento. Sou feliz. Podes sussurrar, em ouvidos alheios, palavras de amor, sem julgares que há lágrimas no lugar dos poemas dos meus olhos. Sou feliz. Hoje parece-me um bom dia para dizer que sou feliz.

O pássaro de asas abertas que é a felicidade pousou no meu ombro. Pousou na minha mão. Deu pequenas bicadas de entendimento na minha pele quente. E fez a noite mais brilhante. O meu sorriso mais puro. Pousando, disse-me que era livre e queria ficar. E eu disse-lhe. Fica, se quiseres. E ele quis. E foi assim, de repente, com esse pássaro livre na minha mão, que eu descobri. Hoje. Sou feliz. E é um dia excelente para to dizer. Que sou feliz. Agora sou.

Hoje, parece-me um bom dia para dizer que não quero desaparecer. Não quero desaparecer. Podes ir, descansado, sabendo que não passo o tempo da minha vida a desejar que ela acabe. Não quero desaparecer. Podes rir, de olhos semicerrados fixos num semblante que não seja meu, esquecendo-me até no permeio do riso. Não quero desaparecer. Hoje parece-me um bom dia para dizer que não quero desaparecer.

O pássaro de olhos vermelhos que é a esperança veio sentar-se aos meus pés, na calçada. Dei-lhe pequenos sóis cadentes em grãos de milho. E ele congratulou-se com a chuva de ouro alado que me fugia das mãos. Disse-me que ia ser um bom dia e que ia ficar tudo bem. Que também do meu céu cairiam sóis, um dia. E eu acreditei. Foi assim, de repente, com esse pássaro inebriado na luz do milho, que eu descobri. Hoje. Não quero desaparecer. E é um excelente dia para to dizer. Que não quero desaparecer. Agora não.

Hoje tenho muitas coisas para te dizer que sei que tu queres ouvir. Porque hoje é um dia em que a patranha cai bem e não causa alarde.

Mas tu sabes. Talvez ninguém o saiba como tu. Para ti, durante anos, este dia repetiu-se. Ciclo redundante, circular, que terminava e recomeçava nos teus lábios, cada vez que dizias que me amavas.

Por isso, deixa-me aproveitá-lo. O dia. Para te dizer que não te amo. Que sou feliz. Que não quero desaparecer.

Não te amo.

Sou feliz.

Não quero desaparecer.

Deixa-me dizer-te hoje.

Amanhã não posso.









Sigam também o meu instagram, aqui


terça-feira, 26 de março de 2019

Despi-me




Despi-me de merdas e odeio-te. Há traços em ti que me lembram o futuro. E estar viva come-me as entranhas, aos bocadinhos. Porque me obriga a olhar para ti, sem saber muito bem se quero de volta o tempo perdido ou acelerar o que falta, para fechar os olhos de vez.

Pelo caminho nu, fiz as curvas a velocidades inapropriadas, procurando uma justificação. Concluindo que a maldição é minha e o dom é teu. Mas que a minha maldição vale muito mais do que os mitos conturbados do teu dom.

Sim. Tens. Esse dom. O de fazeres alguém acreditar. Plenamente. Com todos os pedaços da alma. O de fazeres alguém sentir que vale. O chão que pisa. O mundo. O universo. O de fazeres alguém achar que é centro do universo e até o sol gira em seu torno.

Eu? Eu tenho a maldição. De me despir. Tiro as roupas. Com elas, as muralhas. Com elas, as dúvidas. Até sobrares só tu. Mas, hoje, despi-me mais. Despi-me de merdas. E, com elas, acabaste por sair também, deixando-me só os ossos.

Descubro que tenho só ossos, onde tive amor. E apetece-me gritar, mas também despi a voz. Despiste-me a voz. Com os mesmos dedos que me despiram as primeiras roupas. E as primeiras muralhas. E as primeiras dúvidas.

Despi-me de merdas e odeio-te. Um ódio que é mais ópio do que ódio em si. Porque me inebria os sentidos e me sabe sempre a paixão. Um travo muito doce a veneno. Baunilhado e jogado para o canto dos meus lábios, com promessas de um passado. Devia ser de futuro, eu sei. Mas tu tens o dom. E eu a maldição. O futuro, para mim, é só a soma dos passados. E nunca acaba. O passado. Vem sempre atrás do dia que amanhece.

Eu sei que devia ter cuidado nas curvas apertadas do caminho, principalmente em estradas de serra, sinuosas e cheias de falésias. Acelero. Estou com pressa de chegar ao entendimento do que falhou nas tuas promessas. Essas onde eu era alguém. Que merecia algo. Além de silêncio.

As juras de amor, escritas em poemas. As juras de amor, cantadas em voz de mel. Tantas ideias toscas para me vestir a alma que hoje dispo. De juras. De poemas. De canções. De merdas. De ti.

Os ossos que me sobram são feitos de argamassa e cimento. Tão feios que não há artista que neles pinte cores desajustadas, em arte de rua. E também não sobra muito onde se pinte, já que, por entre os ossos, há apenas ar e passado. Nenhum dos quais tela, seja para que tipo de arte for.

Despi-me de merdas e odeio não te odiar. É… despi-me. Despi-me de merdas e sinto que me reduzi ao mínimo essencial. Sou a coisa mais pequena depois do nada. Sempre disseste que gostavas mais das pequenas coisas. Das mais ínfimas. Das mais miúdas... eu realmente devo ser o amor da tua vida.








Sigam também o meu instagram, aqui

terça-feira, 19 de março de 2019

Racional




O ser humano. Racional. Porque só racionalidade se vê entre os humanos. Não há espaço para outra coisa. É o que nos separa dos bichos. O que nos torna superiores. O que leva o livro do génesis a mandar-nos reinar sobre tudo o que é natural. Temos isso. A racionalidade. Seja isso o que for.

Vivemos entre alertas e avisos. Não fumar. Não acender fogueiras. Não pisar a relva. Somos racionais. Inteligentes. Criamos as normas. Afixamos placas. Lemos os avisos. A nossa racionalidade é tanta que até conseguimos interpretar o que está por detrás das normas, placas e avisos. E tão inteligentes que fazemos a escolha de cumprir ou não, consoante a nossa vontade e prazer.

Em redor da nossa racionalidade há florestas queimadas, mares de plástico e glaciares líquidos. Em redor da nossa racionalidade, há espécies extintas e sangue jorrado a desporto. Em redor da nossa racionalidade, edifica-se sombra de sonho similar, fazendo de nós argamassa e lodo, aplaudindo a destruição que causamos.

Os Deuses taparam os olhos com as mãos. Eu faria o mesmo. Faltou a luz de Prometeu. E somos nós o fígado carcomido. Somos nós a pedra que amarra a esperança da sabedoria. Racionais. Que seres racionais são esses que precisam que lhes expliquem o óbvio e nem assim o entendem?

Há um toque racional na voz que grita em nome da Natureza. E irracionalidade no extremismo que logo se segue. Não conseguimos manter-nos estáveis sem um pé no caos. Como se nascêssemos para reinar, não sobre tudo o que é natural, mas justamente sobre a desordem das coisas. E não respeitamos o mundo porque não lhe entendemos a simplicidade clara da leveza. Essa coisa irracional de simplesmente estar e dar ao outro. De respirar e sentir que basta.

O ser humano. Racional. É o que nos separa dos bichos. Dos monstros. O que nos faz gente. Somar um mais um e não deixar ficar nada. Porque a inteligência é egoísta. E o raciocínio diz que o prazer imediato conta mais.

Um dia, a humanidade vai morrer. Teremos um espaço concreto e cheio de música, vazio de homens e mulheres e crianças. Um espaço irracional. E é com medo dessa irracionalidade que se fala do fim do mundo. Mas não. Não é o fim do mundo! É o fim da racionalidade tosca de um ser pensante. E um começo mais puro. Sem a destruição racional de quem continua a não entender a simplicidade da vida.

Os Deuses hão-de tirar as mãos da frente dos olhos e sorrir ao verde. Morreu o caos, dirão. Racionalmente. Como mandou o livro do Deus cego.








Sigam também o meu instagram, aqui

quarta-feira, 13 de março de 2019

A galope




Montas o teu próprio cavalo e salvas-te a ti mesma. Vês o pôr-do-sol com as mãos dadas às rédeas do destino que te cabe escrever. Tens medo de muitas coisas. Mas não deixas que nenhuma te trave. Essa é a coragem que te leva. A galope. Pelas areias do mundo. Lado a lado com as ondas.

Chamam-te princesa. Chamavam-te princesa. Mas as vozes emudeceram. E o sol poente pintou-te o traço guerreiro do caos. A tua feminilidade ecoa na lâmina. Porque recusas ser homem e abominas a humanidade. Na chama intemporal das velas ou na folha de papel continuas a plantar ciclos de lua e sangue. Vertes circularmente o ano na pele. E, por veres tanto, entendes até a simplicidade.

À medida que os teus cabelos longos se começaram a confundir com as lápides do teu passado, as pessoas aprenderam a palavra “desapego”. Disseram – ou pensaram alto – que não sabias amar. E sobre as areias do mundo. Lado a lado com as ondas. Amaste. As areias e as ondas. O cavalo e o sol poente. A essência que te fez salvares-te a ti mesma e dares as mãos às rédeas de um destino com a tua caligrafia.

A galope. Eternidades escritas a granel. Pesos e medidas que se costuraram nas selas onde te sentas, feito trono. O preciosismo das linhas no couro amarelecido pelo tempo. Ergues o rosto. E o mundo toma por impertinência o teu rosto erguido. Que só a mulher impura ergue o rosto de uma forma tão certa. Ergues o rosto e estás nua. Mas sentes o vento e ele veste-te com o ouro acetinado da memória da alma. Deve ser hora de partir.

Salvas-te a ti mesma. Das marés vazias. Que precedem enchentes. Que precedem a preia-mar. As ondas têm espuma e tu tens mãos. Que segurem as rédeas do destino impaciente. Só um pouco. Pedes. Mandas. És senhora até dos elementos da Terra. Ligada a ela por raízes e asas.

O teu para sempre constrói-se nos espaços entre os dedos. Membranas interdigitais de sonho. Sem espaço para anilhas. Mas com vidas novas e eternidades além de si. Fundes-te contigo mesma e és toda feita de paixão. Sentes prazer nas impressões digitais. És o fruto e a seiva da paixão mais intemporal.

Montas o teu próprio cavalo e salvas-te a ti mesma. Vês o pôr-do-sol com as mãos dadas às rédeas do destino que te cabe escrever. Assustas os outros porque a espera não te convém e o cavaleiro alado não te interessa.

Acreditas no amor. E ele assusta-te. Como te assusta a manhã, em cada acordar. E a noite que vem depois do sol posto. E as marés vazias que sugam para o horizonte as ferraduras e as possibilidades. Sim. Tens medo de muitas coisas. Mas não deixas que nenhuma te trave. Essa é a coragem que te leva. A galope. Por aí.

As areias do mundo são estrada. As ondas, banda sonora. És una com a unicidade de ti. E os teus medos são nada. Vais. A galope. O sonho é rutura e recomeço. Todas as noites tens medo de fechar os olhos. Todas as madrugas tens medo de os abrir. É uma coragem inusitada para cada segundo do dia.

Curas a alma com o sal do ar padecente em bruma. És contraluz. Pintam-te de negro as formas sadias de mulher. Assusta que vás. A galope. Cheia de medos. Mas sem ceder. Essa é uma coragem que os heróis dos contos ainda não conhecem.

A galope. Salvas-te a ti mesma. Todos os dias. Tens pressa de chegar a ti. Para te amares. Para sempre. Outra vez.





Sigam também o meu instagram, aqui


terça-feira, 5 de março de 2019

O último pôr-do-sol



Ontem vi o pôr-do-sol e, depois, caiu a noite. Ontem foi há mil anos atrás.

Foi o último pôr-do-sol sem mágoa. A última vez em que acreditei que, no dia a seguir, haveria luz. Vimo-lo antes de anoitecermos também, de mãos dadas em frente à televisão, onde se atravessavam pedras para lugares distantes no tempo.

Das inveteradas lutas, algures na Escócia, sacámos risos latentes, que plantados debaixo dos olhos taciturnos, de pouco valiam. Deixámo-nos inebriar pelo romantismo verde, de capas vermelhas que se digladiavam e amores eternos que se deixavam prometer, em campo de batalha.

Talvez tenhamos identificado, ali, o nosso amor, depois do sol posto. Esse campo de batalha, tão deserto de oportunidades, onde ainda se acreditava no amor. E talvez por isso, esquecemos que a televisão estava ligada. Libertámos os corpos de roupa tão depressa que não houve tempo para que nos apercebêssemos da nudez.

Pensámos em ir para o quarto. Mas nunca chegaríamos ao quarto, porque o desejo queimava. As tuas mãos na minha pele e o sabor dos teus beijos nos meus lábios. O sol tinha voltado a nascer, depois de adormecido no mar. E, de resto, ali, éramos nós o sol. Um calor estridente de afagos que se comprometiam, aos poucos, com carícias mais e menos bruscas.

Olhava para nós o futuro, com um riso na voz carente. E os Deuses tinham tapado os olhos para não ver. À medida que fazíamos amor no sofá, ignorando todos os princípios toscos que nos tinham ensinado em casa e no colégio católico, deixámo-nos estar tão perto um do outro como um ser humano pode estar.

Depois do pôr-do-sol, esse foi o nosso pôr-de-lua. Suor e saliva trocados, juntamente com palavras de amor e de prazer. Sem pudores toscos. Sem medo de nada. Com os Deuses a olharem para nós, desaprovando a ideia. Hoje, é quase como se conseguisse recordar-lhes o sussurro aos meus ouvidos. Pobre coitada, que mal sabe o que a espera. Mas, naquele dia, não ouvi. Os Deuses não! Ouvi-te a ti a dizeres que me amavas. Loucamente encantado pelo meu jeito de mulher. Sem pena de nada e com fome de tudo. Porque a vida tinha tanto para dar.

A luminescência intermitente da televisão nos teus olhos dava-lhes uma tonalidade de mar. Lembrando as horas antes, quando o sol nele se punha. E quase vislumbrei o fantasma da felicidade ali, saltando, de esperança, querendo devolver o fogo que nós tínhamos perdido.

Sim… perdido. Mas naquela noite não. Houve algo no pôr-do-sol e na luta antiga entre povos que me fez acreditar. Pela última vez. Sem eu saber que era a última vez que acreditava.

É verdade. Foi o último pôr-do-sol sem mágoa. A última vez em que acreditei que, no dia a seguir, haveria luz. E, embora me sobrassem dias para te sentir o calor, eu sabia: Todos os dias seriam sol posto, na contagem decrescente para um adeus sem retorno. O sol pusera-se para dar sombra à minha sepultura, talhada de dor sob as pedras da solidão.

Acordei para a desolação e o desalento. Disse que sabia que ias, olhando para os olhos onde já não havia sombra nem fantasma de felicidade. Aceitei, porque só isso pode fazer-se, a decisão da partida. E, mesmo depois, com prazo de validade estipulado, deixei que o meu corpo fosse teu outra vez, muitas vezes… e não as suficientes.

Morri.

Foste e eu morri. Respiro e ainda estou morta. Vou estar sempre morta. E tenho saudades tuas. Mas muito mais saudades desse último pôr-do-sol. Porque foi última vez em que acreditei que, no dia a seguir, haveria luz.






Sigam também o meu instagram, aqui

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

A história do degrau



O movimento é ascendente mas o chão escorrega. E aqui estamos, os dois, felizes. Como se a história tivesse terminado. Como se os teus dedos palmilhando linhas inócuas sobre a minha pele despida fossem fiéis. E queremos envelhecer juntos. Uma imbecilidade que dizemos em voz alta, como se alguém quisesse realmente ser velho. Falhou-me, aqui, perceber. Que eu queria. Ser velha.

Talvez fosse sobejamente óbvio. Mas falhou-me a perceção. Ser velha significava morrer em breve. E essa era a única maneira de ficarmos juntos para sempre. Se o sempre fosse um espaço curto e algo ambíguo, feito das nossas juventudes. O mundo está todo ao contrário.

Subimos um degrau. O degrau era de mármore. Antigo. Suportando a cruz de um olhar sobre a imensidão. E, subindo o degrau, subíamos também o sonho incauto. Fomos demasiado imprudentes. Mas tentei dar-te a mão para que não caísses. Ou para que caíssemos juntos. Mas o mundo está todo ao contrário.

Era uma diferença incontornável entre nós. Tu querias estar vivo. A mim, sempre me importou pouco se estava viva ou morta… só não queria estar triste outra vez. E achei que, subindo o degrau, ainda que caíssemos e nos finássemos ali, haveria felicidade nas horas poentes da vida.

Então, segurei-te. Era a história do degrau que me dava inspiração e esperança. Porque o via, apoio e amparo, de pés que queriam ir lá: ao lugar onde o tudo é o todo que se faz inteiro. À torre mágica dos castelos encantados de contos de fadas que começam com “era uma vez”. Mas o mundo está todo ao contrário.

Subo sozinha o degrau. Porque não quiseste ser velho, como eu queria ser velha. Juntos. E o degrau ficou vazio dos teus pés, à medida que largando a minha mão te apoiavas noutra e continuavas a escalar, rumo ao céu.

A minha torre é o mundo. E talvez a história do degrau seja também a minha. Pisada e repisada. Suporte e sustento. Servindo apenas para levar ao topo quem só lá se dispõe a parar. O mundo está todo ao contrário.

Ainda quero ser velha contigo e já estou velha sozinha. As rugas inusitadas da minha alma põem o sol da vida três vezes num dia. Na hora do silêncio, na hora da memória e na hora do cansaço. A velhice sabe a água com gelo. É fria e insípida… e cerca de 70% do meu corpo. Dizem-me que tenho a vida toda e apetece-me gritar. Teria. Mas o mundo está todo ao contrário.

Vou condescendentemente atrás de explicações que não existem. No degrau de mármore. Na vida e no desespero. Em ti. Descubro que sou ou fui vida. Descubro que a história do degrau é também a minha. Respiro no vidro que embacia e escrevo nele mais um poema que se apaga da história do mundo.

E talvez nem seja o mundo… Talvez, na vida real, seja simplesmente tudo ao contrário. Talvez seja por isso que, aqui, os contos de fadas começam com “viveram felizes para sempre”. E, quando dás conta, já “era uma vez”.

A história do degrau é também a minha. Sento-me nele, para virar costas à subida. Estou cansada. Olho a escadaria marmórea que inunda com o sangue e o suor que dediquei ao sonho para o qual, afinal, ia sozinha. Lanço o olhar sobre esse passado e sei que valeu a pena. Tenho este texto e todos os seus irmãos. Sou mãe de poemas. Estou morta e ainda fértil. Agarro-me à ideia de que, a mim, sempre me importou pouco se estava viva ou morta… mas sei que não queria estar triste outra vez. Enfim… a história do degrau é também a minha. E o mundo está todo ao contrário.

A história do degrau é também a minha. Somos só o meio para outro fim. Está na hora do cansaço. Sinto-me triste e sei que sou velha. Sento-me no degrau. Tudo o que não dói adormece. O resto de mim sofre de insónias. E aproveita para entrar na hora do silêncio, colhendo memórias como flores sem história. Fazendo um bouquet de solidão. Sentindo que o mundo está todo ao contrário.





Sigam também o meu instagram, aqui

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Luz




Nem a luz direta entra nos olhos vazios, conquistados pelas sombras e os abismos do mundo. Ser poeta não é ser luz. É justamente ser sombra e abismo. Morar nos olhos que vertem. Para que outros olhos se iluminem.

Pedaços fragmentados de gente. Que passam pelas ruas, como gente. Mas sem que ninguém veja. Que são gente. Fragmentos inusitados e gestos que são sombra. Encontrando nos murais da rua mensagens. Também elas fragmentos com vida própria. Trazendo negrume à luz das avenidas.

Colocamos sal nas feridas. E pedras sobre os olhos cansados da insónia. A culpa é da tinta – pensamos. Do caixão. Da ideia que permanece rota e sentada sobre o sono. Acutilante. Constantemente chamando. Constantemente querendo saber se falta muito para chegar lá. À luz. A essa que não temos.

Recordo a água nos teus olhos. Um mergulho veraneante, numa espécie de sol que tu tens e eu nunca tive. Pergunto se fui o espaço onde a tua luz se acendeu ou o local onde ela se foi. Terei sido o abismo e a sombra de ti? Preocupa-me que eu seja escuridão. Mas preocupa-me mais que queiras que eu seja apenas a luz lisa do sol alto do meio-dia. E se eu estiver condenada a ser sombra e abismo? E se for isso – já pensaste?! – a fazer brilhar o sol que julgas ser teu, enquanto me julgas por roubá-lo ao céu, todos os dias, para que possas tê-lo?

Não! Tens razão. Eu não sou luz. E não brilho sob o toque luminoso do sol que trazes contigo. Não gero alegrias no meu ventre podre e infértil. Em vez disso, arranco do peito o fino fio de cristal que me fazia gente no olhar alheio. Afio-o noite dentro. Faço um punhal que me rasgue a pele. Faço do sangue, tinta. Anoiteço. Escrevo-te uma constelação de alegrias para que possas, no dia seguinte, ser novamente um espetro dissidente da minha dor e viver a tua vida em paz.

Drena-me a tua presença porque te dediquei a minha. Sobra pouco do sal nas minhas entranhas quando tudo o que quero proteger em mim és tu. E dói. E, porque dói, escrevo. E, porque escrevo, sinto a luz esmorecer, como um dia que anoitece. Nem a luz direta entra nos olhos vazios, conquistados pelas sombras e os abismos do mundo.

Não, meu amor, eu não sou como toda a gente. Eu nem sei se sou gente. E, por certeza, trago a noção de que só amo os verões porque sou gelo à espera de derreter novamente no sol dos teus olhos.

Mas ser poeta não é ser gente. Ser poeta não é ser luz. É justamente ser sombra e abismo. Morar nos olhos que vertem. Para que outros olhos se iluminem. Para que os teus se iluminem.

Não há luz direta que me entre nos olhos. E talvez seja melhor assim. Para que não vejas que eles choram. E nunca saibas que o fazem para que os teus possam sorrir.






Sigam também o meu instagram, aqui